300 milhões de razões para falar sobre depressão

Mais de 300 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde. É possível você seja uma delas, ainda que não saiba ou se recuse a admitir. Já é considerada a maior causa de problemas de saúde e de incapacidade, aliás.

Quem manja dos paranauês psicológicos aqui é o Jota, mas lá se vão uns 8 anos dando aulas particulares e tive de aprender a lidar um pouco com a depressão também, não me faltaram alunos padecendo dela. E aprendi muito com eles. Por exemplo, só fui entender mesmo o que era a depressão quando um deles me disse:

“Sabe aquele ditado do otimista e do pessimista diante de um copo com água pela metade? O otimista fica feliz por estar meio cheio, o pessimista fica triste por estar meio vazio, mas sabe o que um depressivo acha? Que a vida é uma merda.”

O que entendi? Que não adianta tentar animar um depressivo, muito menos convencê-lo que ele precisaria fazer isso ou aquilo. Se quiser realmente ajudá-lo, vai demorar a obter algum “sucesso”. Por isso, nem comece se não for para se comprometer de verdade com ele. Se for para abandonar no meio do caminho, melhor deixá-lo como está. Perseverança é tudo, por isso, haja paciência, muita paciência, mais um pouco de paciência e, por fim, ainda mais paciência.

Para ajudar um depressivo você precisa começar pelo óbvio: escutando o que ele tem a dizer. Esqueça soluções possíveis, ainda que funcionem e sejam o que ele realmente precisaria. Apenas escute, tente conversar, sem querer “curá-lo” nem nada. Todo depressivo tem uma rica vida interior, acredite, e defende essa interioridade com unhas e dentes. Ele não se abrirá facilmente, só fará isso com quem se sinta seguro. Por isso demora. É preciso passar por inúmeros testes de confiança para que se convença que você tem interesse real por ele, não porque sua depressão está atrapalhando você ou outros.

Em outras palavras, você precisa se tornar um amigo. Daqueles que não importa o que o outro faça, estará ali por ele.

A primeira causa da depressão, a mais importante de todas, é a solidão.

Mas, prestenção!, a solidão de que falo não é qualquer uma, é aquela que você sente por mais que tenha namorado(a)(x), amigos, familiares, colegas. Aquela que se impõe como uma prisão quando você percebe que todos à sua volta só estão ali por hábito, por estar, não tem real interesse por você, não lhe prestam atenção de verdade, não se importam de verdade com o que se passa com você.

A depressão, em verdade, começa por ser uma derrota para essa solidão, uma aceitação que faz com que doa menos não desejar mais nada. Mas aos poucos a depressão se torna a própria fortaleza da solidão, não deixando mais ninguém “entrar” porque a mera possibilidade de sofrer de novo parece pior do que ficar como está. É o famoso “tá ruim, mas tá bom”.

É por isso que depressivos costumam criar um mundo à parte (“a vida é uma merda” é isso, no fim das contas), adoram ficar no seu quarto, na sua cama, costumam ter uma relação quase religiosa com certas músicas tristes, filmes, seriados, livros, personagens que lhes são significativos demais, os verdadeiros amigos, a única coisa que lhes impede de ficar pior. Mas também as distrações e anestesias da solidão tem vida útil e quando acaba o efeito, que fazer?

É aí que está o segredo do sucesso de um seriado como “13 Reasons Why” num mundo com 300 milhões de depressivos e sabe-se lá quantos mais que convivem com um. O que esse seriado mostra, no fim das contas, é justamente esse mundo interior de uma menina depressiva que se sente profundamente só e chegou no seu limite (prestenção!, no limite dela, não no que você acha deveria ser o limite dela), aquele em que a fortaleza se transforma em pena de morte inescapável: o suicídio. 

Por que o seriado incomoda tanta gente, considerando uma “defesa” ou incentivo ao suicídio? Porque a perspectiva da narrativa é quase toda da menina, das suas razões para tanto, sem julgá-la. Seria isso incentivar ou justificar? Surgiu um pesquisa recente dizendo que sim. É provável mesmo, assim como também é perfeitamente possível tenha ocorrido o oposto, ou seja, quem tenha desistido disso por ver o seriado.

Como lidar com esse seriado, então? 

Ver ou não ver? Deixar ver ou proibir? Ora, da mesma forma que se deve lidar com todo e qualquer depressivo: dando-lhe ouvidos. Por isso, para mim, a pior reação possível é dizer que o seriado “não deveria existir”, “a netflix deveria tirar do ar”, “proíbam seus filhos adolescentes de ver” e por aí vai. Quem diz isso não percebe que ao agir assim está dando mais uma razão para o suicídio da menina, porque isso daí não revela nenhuma preocupação por depressivos e suicidas potenciais, apenas medo deles, do que eles podem fazer. (Sem contar que é uma estratégia estúpida, afinal, o proibido é sempre “mais gostoso”)

Aposto que aqueles que se identificaram com a menina verão nessa atitude de censura ou boicote justamente a confirmação das razões apontadas pela personagem: no fundo, ninguém quer “ver” a realidade, “saber como é”.

Nessas horas me lembro de Chesterton quando disse que as crianças têm de saber sobre dragões não para saber que existem, mas para saber que podem ser derrotados.

Por isso prefiro atitude diversa. Se dermos ouvidos à menina, o que ela está dizendo? Que estava só, profundamente só. Que ninguém lhe prestava atenção. Se alguém tivesse sido seu amigo de verdade, será que ela teria chegado a tanto?

Creio que não. Isso não significa concordar com suas razões, ou o julgamento que ela fez de quem não foi seu amigo ou até inimigo. Não se trata aqui de encontrar culpados, mas de reconhecer uma realidade humana, escutando quem a está vivendo, compreendendo, no fim das contas: ela não teve amigos, estava profundamente só, a depressão foi se instalando, consolidando, tornou-se uma fortaleza até se estreitar ao tamanho de uma banheira.

Tive uma aluna que sofre de depressão que me pediu para assistir esse seriado. O psicólogo dela a proibiu de ver, logo, ela viu e queria saber minha opinião. Ela esperava um debate intenso comigo sobre culpa, justiça, vingança, a maldade alheia, buscava uma justificativa para sua depressão, para o que ela desejava fazer e não ousava dizer em voz alta.

Mas só fiz essa mesma pergunta acima: e se alguém tivesse sido amigo dela? Só então ela se deu conta que não tinha amigos de verdade, só conversava de verdade com o psicólogo (não mais depois dessa, claro) e comigo.

Perguntou-me, então: como se faz amigos?

Se tivesse receita não haveria depressão no mundo, mas dei uma sugestão: interesse-se você pela vida de quem você já conhece e veja o que acontece. Mas se interessar de verdade. Ou seja, tentasse ela ser um remédio para a solidão alheia, quem sabe assim não encontraria algum para a dela?

O fim dessa história? Quem disse que solidão tem fim? Ela mudou de psicólogo, aproximou-se mais de uma prima com quem tem boas chances de criar uma amizade real, tem saído mais de casa, mas continua com depressão. Como disse, é preciso paciência, muita paciência e depois, mais paciência.

Mas o melhor sinal que ela está melhorando é que ela preferiu rever “Anne With an E” a “13 Reasons Why”. Por quê? Segundo ela, porque enjoou de ser Hannah Baker (a suicida de 13…) e Anne lhe dá razões para querer viver, não apenas se lamentar.

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  • Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

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