6 dicas para começar um relacionamento

Passamos nossa vida toda nos relacionando e ainda assim temos enormes dificuldades para começar um relacionamento

O ser humano é um ser relacional. Dependemos do outro para sermos nós mesmos: é primeiramente nossa família, e depois a sociedade, que nos forma e nos ajuda a ser quem somos. Porém, não raro arranjamos encrenca com diversas pessoas e acabamos pensando “o que eu tenho de errado?”. Na nossa realidade amorosa então, nem se fala! Parece que cada vez mais o sonho de um relacionamento saudável fica mais distante: podemos passar a vida numa sequência de relacionamentos parciais e insatisfatórios, ou então mantermos um relacionamento duradouro que perdeu o sentido há tempos.

Uma parte dos problemas pode estar no início.

Quando estamos envolvidos no começo de uma nova relação normalmente não temos clareza necessária para avaliar o que está acontecendo. A experiência de se apaixonar parece nos arrastar. Mexe com a nossa cabeça e nos deixa assim, e faz eu entender que a vida é nada sem você. Ficamos meio perdidos. E o pior, tudo que mais queremos é permanecer assim: perdidos de amor.

Porém, relacionamentos não se sustentam apenas de paixão e desejo.

Com o passar do tempo a intimidade aumenta e o convívio traz à tona diversos defeitos ou incompatibilidades que parecem terem sido propositadamente escondidas. É natural esse processo também, não há relacionamento que siga sem esse “choque de realidade”. É o momento em que você olha para quem está contigo e pensa: cara, como é que eu não vi isso antes? Grande parte dos casais seguem firmes nessa nova fase. É uma fase bem mais real, em que o objetivo deixa de ser aproveitar-se mutuamente mas compartilhar e viver as batalhas da vida juntos. Infelizmente, muitos não chegam a tanto: passada a fase do encantamento, o relacionamento acaba em ruínas. Para quem volta para a vida de solteiro é comum repensar tudo que passou. Frequentemente chega a hora de olhar no espelho e dizer: na próxima vez eu vou escolher melhor!

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Em minha vida tentei sempre prestar atenção nisso – nem sempre fui bem sucedido, confesso. Primeiramente para não me dar mal em minhas relações e depois por trabalhar atendendo pessoas que queriam resolver suas dificuldades. Repensando em tudo isso, listei alguns pontos essenciais para qualquer início de relacionamento amoroso. A idéia é fazer um contraponto a essa paixão que te pegou e você tentou escapar e não conseguiu. Talvez encontrando esse meio termo entre a consciência e o sentimento, é possível encontrar seu Final Feliz:

 

1. O que você quer?

 

O primeiro passo é saber o que você quer. Parece meio besta dizer isso mas a maioria esmagadora dos erros tem sua origem nessa questão. Como já disse, no começo somos enfeitiçados pelo sentimento, nesse momento costumamos esquecer dos nossos objetivos ou deixamos eles de lado. Não raro a gente fala “vamos ver no que vai dar”, esse é um erro clássico. Deixe-me ser claro: você está conhecendo alguém que pode vir a sua companhia pelo resto dos seus dias, você acha mesmo que o melhor a fazer é ver no que vai dar?

Portanto, antes de qualquer coisa, pense bem que tipo de pessoa você quer, quais afinidades são essenciais, quais características são insuportáveis, trace imaginativamente na sua cabeça essa pessoa. Volto a dizer, parece besta, mas te dará ao menos um rumo. Até porque, caso você deixe a vida te levar, há estudos (principalmente do psiquiatra Szondi) que comprovam que se você não prestar atenção, acaba sempre escolhendo o mesmo perfil trágico pra te fazer companhia.

Sabe “dedo podre”? Então, sinto te dizer, é má escolha.

 

2. Avalie a outra pessoa

Se o primeiro passo é saber o que você quer, o segundo é avaliar a outra pessoa. Esquece esse mantra moderno de “respeitar as diferença”, você não está aqui querendo entender o mundo ou resolver um problema social. Você está procurando alguém para dividir a vida. Lembro de um amigo que a única exigência que não abria mão era a menina ser fã do Senhor dos Anéis. Quando perguntaram o que aconteceria se ele encontrasse alguém que não curtisse tanto a obra de Tolkein, ele respondeu: “eu não quero que todas as mulheres sejam fãs, apenas quero que a minha seja. É pedir demais?”.

Bingo! Ele traçou um perfil e estava procurando na outra pessoa o que achava necessário, para tanto, avaliava todas as pretendentes que apareciam na frente. Eu sei que esse negócio de julgar os outros pode te deixar um pouco desconfortável, afinal de contas estamos na era da tolerância. Mas, sinceramente, todos nós julgamos o tempo todo. Parece mentira mas é verdade. Até mesmo para você aprender a tolerar os diferentes você antes teve de julgar os outros e então perceber que eram diferentes. Na vida afetiva esse mecanismo é automático, um exemplo moderno é o Facebook: antes de adicionar alguém ou continuar uma conversa todos nós vasculhamos o perfil e damos aquela olhadinha. Essa dinâmica também é a base principal para o Tinder.

Mas se eu já faço isso sempre, alguém pode perguntar, por que ainda erro na hora da decisão? O problema aqui é fazer um trabalho mal feito. É comum avaliarmos algum pretendente muito superficialmente, apenas pensando nas categorias básicas e visíveis: beleza, educação mínima, conversa, bom humor. Posso dizer que nos satisfazemos com o que o o facebook mostra. E uma vez que esses pontos foram minimamente satisfeitos a gente passa para fase “vamos ver no que vai dar”. Percebe o erro? É preciso realmente prestar atenção na outra pessoa, lembrar o que você quer e comparar esses dois perfis.

Um exemplo que sempre dou é em relação à Filosofia de Vida: todos temos algum repertório de crenças nas quais pautamos a nossa vida. Alguns são bem claros, principalmente aqueles baseados em uma religião específica, outros são mais nebulosos. Normalmente esse repertório pode passar desapercebido ou ser até mesmo camuflado no início de uma relação. É possível você ser ateu e nunca tocar nesse assunto ao sair com uma moça evangélica. Também é possível você não desejar ser pai e só contar isso depois de vários meses de relação. Porém, se você inicia um relacionamento sem se atinar a essas questões, pode acabar dormindo com o inimigo. Como vários casos que já vi: sou católica e meu marido é ateu, sou petista e minha esposa é coxinha, sou contra o aborto e minha namorada é a favor, queria educar meus filhos mais soltos mas minhas esposa é tradicional.

Avaliar a outra pessoa não é apenas sair julgando tudo o que ela faz, mas parar um pouco e olhar com atenção.

Leva tempo e dá trabalho. Mas quem disse que encontrar alguém para resto da vida seria fácil?

 

3. Converse tudo o que pode

Uma forma de facilitar essa avaliação do outro é a conversa. Parece clichê, eu sei, mas quando digo conversar é conversar de verdade sobre assuntos realmente relevantes.

Em todo começo de relação não queremos causar nenhum constrangimento. Usamos a nossa melhor roupa, passamos o melhor perfume, somos o mais educado possível, contamos as nossas melhores histórias, ou seja, vendemos o nosso peixe. Nesse início é muito difícil falarmos de assunto um pouco mais “pesados”. Nunca vi num primeiro encontro alguém sentar e dizer: antes de mais nada, você é a favor da pena de morte? Porém, se não conversamos sobre questões mais sérias no começo, corremos o risco de não fazer isso nunca. “A relação aumentou em intimidade, se eu não queria causar nenhuma estranheza nos primeiros encontros, agora que estamos há um mês juntos é que não vou causar” – e esse processo segue ad infinitum.

Conversar é a melhor forma de tirar dúvidas.

Crie situações para falar sobre assuntos que você acha importante. Pergunte sobre aspectos da vida que você acredita serem necessários ter clareza. Não tenha medo de magoar o outro: perguntar não ofende. Converse sobre política, educação de filhos, planejamento financeiro, perspectiva de vida, religião, crise na Europa, sexo, Dilmãe x Fora Temer. Obviamente há modos de conversar sobre essas coisas mas não deixe assuntos de lado.

Você precisa saber com quem está se relacionando.

Aqui vale lembrar de um mito muito prejudicial em relacionamentos: a ideia de naturalidade. Deixa acontecer naturalmente não existe. Quando você se interessa por uma pessoa, automaticamente começa a moldar seu comportamento. Sabe aquele encontro casual no parque, pode ter certeza, foi muito bem planejado. Porém, esse mito também cria a ilusão de que se as coisas estão dando certo agora, tudo vai seguir naturalmente nessa ordem. “Se esse mês foi bom, não tem porque os outros não serem. Por que então eu vou conversar sobre algum assunto mais sério se eu sei que vai dar tudo certo no final?” E é aqui que começa a Highway to Hell.

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4. Conviva tempo suficiente

Outro componente necessário é o convívio. Passar o máximo de tempo junto é sempre uma ótima forma de conhecer a outra pessoa e também descobrir certas características ainda não reveladas. Sempre costumo dizer que existem dois tipos de discursos: das palavras e dos atos. O item anterior era sobre as palavras, este sobre os atos.

Conviver com alguém é poder escutar esse discurso dos atos. É entender como funciona a rotina e as dificuldades de alguém. Perceber que talvez aquele sujeito sempre bem humorado no sábado seja bastante tenso durante a semana. Descobrir que a moça que parecia tímida se transforma quando precisa resolver problemas. Se surpreender com a sensibilidade daquele cara que parecia ser bastante ogro.

Convivência também serve para tirar a atenção constante que temos no outro.

Nos focamos muito na outra pessoa quando estamos nessa fase de conhecimento. Quando saímos costumamos fazer programas de casais, eventos que não nos dispersem. Por outro lado, a convivência pode trazer situações em que vocês fiquem apenas calados um do lado do outro, interagindo com terceiros, assistindo algo juntos, conhecendo algo que era novo para os dois. Esse convívio muitas vezes é o que desencadeia conversas que poderiam ser difíceis de começar.

Tem certas questões que só aprendemos acompanhando alguém. Eu costumo dizer que cada pessoa tem um “clima próprio”: é a união da personalidade, educação, gosto musical, presença corporal, interesses, expectativas, frustrações, cheiro, história, sonhos. Só pela convivência é que captamos esse clima, facilitando a nossa decisão a respeito de um possível relacionamento.

 

5. Brigue

Esse ponto parece polêmico mas não é. Todos tentamos evitar brigas e discussões com quem vivemos, mas muitas vezes não dá. O pau tora! Nessas horas costumamos pensar apenas em nós e na treta do momento, e acabamos perdendo uma oportunidade de ouro: é preciso saber como a pessoa reage diante de uma dificuldade ou diante de uma tensão. Não estou aqui falando para você provocar alguma situação – afinal de contas, elas aparecem sozinhas -, antes, preste muita atenção como funciona a dinâmica afetiva de quem você se interessou nesses momentos de tensão.

Na teoria todos somos tolerantes, respeitamos as pessoas, sabemos escutar, somos humildes e temos muita #gratidão. Mas às vezes basta um congestionamento, uma discussão, um olhar torto para irmos desse paraíso perfeito de nossas crenças para o desejo assassino de destruir tudo e todos. Exageros à parte, todos sabemos que um bom jogador é aquele que aguenta o tranco da pressão na final, o bom profissional é aquele que suporta as adversidades no fim do projeto, o bom músico é aquele que dá conta de tocar e cantar sem gaguejar. Nos relacionamentos não pode ser diferente. Na trincheira da guerra cotidiana você quer alguém que pode até brigar contigo mas vai te dar suporte quando precisar ou aquele que senta em posição fetal e, enquanto chora, diz “eu não queria estar aqui, eu não queria estar aqui”? Então brigue, discuta, discorde, fique de mal, vire a cara mas busque entender como funciona com o outro.

Enfim, se você é daquelas que explode mas tudo passa em cinco minutos, procure alguém parecido.

Se você precisa de um tempo para pensar e depois conversar direitinho, procure alguém parecido. Agora uma pequena dica: se você é daqueles que fica magoado por uma semana por conta de algo mínimo, na boa, pare de ser infantil e mude. Se você encontrar alguém parecido, vocês vão se matar.

 

6. Tenha Disposição

Para finalizar, a última dica é ter disposição. Vivemos numa época que prega pelos quatro cantos que você deve fazer aquilo que deseja e correr atrás dos seus sonhos. Dificilmente alguém te aconselha a aguentar o tranco e seguir firme mesmo na adversidade. Essa cultura acabou criando uma busca imediata pela satisfação pois ao mesmo tempo que você consegue criar relações rápidas e superficiais, as opções aumentaram de forma inimaginável. Você pode ficar brincando de se saciar até o dia que morrer.

O problema é que, faça chuva ou faça sol, relacionamentos serão sempre inseparáveis do esforço.

Você nunca vai ter um amor maior, amor maior que eu evitando as dificuldades e querendo ficar só com a parte boa. Relacionamentos exigem disposição. Isso mesmo, se relacionar dá trabalho pra cacete. Sei que você já sabe disso, mas não custava dizer de novo, não é mesmo?

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Porém, quando pensamos em esforço sempre nos vem a mente o conceito da troca ou da parceria. Hoje também ouvimos muito sobre dividir tarefas, compreender o outro e ajudar-nos. Aquele clássico “se cada um fizer a sua parte todos saímos ganhando”. Acontece que aqui temos outro problema. Essa filosofia da partilha é perigosa pois podemos em certos momentos começarmos a fazer o que chamo de Economia Afetiva: calculamos cada ato realizado e tentamos ver se os benefícios equivalem aos investimentos. “Eu paguei hoje a janta, levei o cachorro para passear e amanhã vou com ela no shopping, acho que isso equivale a um cinema seguido de motel”. Não é difícil perceber que esse cálculo pode soterrar o amor.

Na verdade, quando falo em disposição, falo sobre a disposição para o sacrifício.

Amar alguém é estar preparado para se sacrificar. Por isso fica muito estranho quando eu digo que quero a felicidade do outro mas fico fazendo conta pra ver se está valendo a pena. Você quer fazer quem ama feliz ou quer apenas não sair perdendo num negócio? Disse aqui que você deve pensar no que deseja e depois avaliar a outra pessoa de acordo com esse critérios. Porém, essa avaliação não pode tirar do seu horizonte a capacidade de se sacrificar. Estar disposto no começo do namoro é parar de pensar só em você e tentar se doar em busca da melhor felicidade existente: a felicidade de fazer o outro feliz.

Portanto, se depois desses seis ponto anteriores você percebeu que vale a pena ficar com a pessoa, esteja disposto a matar e morrer por ela. Disposto desde o primeiro dia. Se ela também assim o desejar, temos uma grande possibilidade de nunca mais nenhum dos dois precisar pensar em como começar um relacionamento.

Poderia escrever muito mais sobre esses e outros tantos pontos, porém, creio que o essencial está aqui: saiba o que quer; avalie e conheça a outra pessoa; converse, conviva e até brigue com ela; mas se perceber que encontrou o que queria, não perca de vista a capacidade de se sacrificar. Toda essa realidade é difícil. Tanto que dou até um curso sobre o tema. Mas se não valesse a pena não teríamos esse desejo tão profundo de ter outra pessoa para dividir a vida. Viveríamos cada um na sua: poderia ser até mais fácil mas com certeza teria bem menos graça.

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  • João Paulo Borgonhoni, mais conhecido por Jota, sempre se interessou por pessoas e relacionamentos. Quase se afogou algumas vezes na vida mas sobreviveu. Hoje é professor e psicólogo (crp 08/17582).

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