A chama e a correnteza

Todas as vezes que acendo um cigarro, refaço o mesmo ritual: coloco-o na boca, seguro-o apenas com os lábios, acendo o isqueiro com a mão direita e protejo a chama com a esquerda. Esteja onde estiver, sempre faço essa sequência de atos e, sempre, a mão esquerda chega dois segundos depois da chama ter sido acesa.

Só recentemente reparei nesse processo e, agora, rio quando me pego tentando evitar que a chama do isqueiro apague em locais onde ela não corre nenhum risco disso. Não importa, ainda assim, protejo o fogo como meu ancestral protegeria uma fogueira. Às vezes, por desafio, tento defendê-la de formas diferentes, mas aí não me reconheço no ato – não sou do tipo que deixa a chama ao seu próprio destino. Enfim, por pura autoafirmação, continuo a fazer, conscientemente, esse ritual ao acender meu próximo cigarro. “Assim é o certo”, quase digo a mim mesmo.

Atos como esse são mais comuns do que percebemos.

Todos temos pequenos rituais que repetimos sem razão conhecida. Preste atenção em como você se seca ao acabar o banho, por exemplo. Provavelmente, é sempre do mesmo modo. Essas pequenas repetições nos trazem estabilidade e conforto. Porém, hoje em dia, nossos costumes estão sendo atacados. Assim como se declarar politicamente “conservador” passa uma imagem mofada e ranzinza, defender a manutenção de um hábito, mesmo que sem objetivo claro, está fora de moda. Pode passar uma má impressão

Fórmulas para sair da “zona de conforto” – expressão que de tão repetida já me irrita – nos são bombardeadas todos os dias. Parece-me que a modernidade, com sua agitação peculiar, criou um novo tipo de fetiche: tentar transformar tudo a todo momento. Todo dia tentam nos vender a ideia de que a felicidade, a resolução dos problemas, a tranquilidade afetiva e conquista profissional estão do outro lado do rio. Então, como idiotas, pulamos na água e gastamos meses e meses remando; sentimos culpa, dúvidas e remorsos; gastamos nossas forças e dinheiro para, enfim, chegar na margem redentora. Mas, quando chegamos, repetem o que nos disseram do outro lado – e lá vamos nós novamente.

Resultado: a “zona de conforto” moderna é a agitação ininterrupta.

Tudo deve estar em movimento, inclusive seus rituais pessoais. Seu corpo, sua alimentação, suas roupas, seu gosto musical, seus programas de TV, suas amizades, seus locais prediletos, sua visão religiosa, suas sexualidade (esses dias, li uma reportagem que ensinava cem maneiras para obter prazer sexual. As quatro ou cinco que conheço parecem não servir mais). Nessa lógica de mudanças frenéticas, a consequência mais obvia é a ansiedade. “É o mal do mundo”, sempre digo a meus pacientes. Apesar dessa frase não ajudar muito, infelizmente, ela é verdadeira.

Para piorar, vivemos na era do julgamento brutal contra qualquer padrão, ao mesmo tempo que temos que aceitar o padrão de respeitar todas as diferenças e não julgar nada. Somos julgados, mas não podemos julgar. A ansiedade psicológica se torna, então, ansiedade moral. Não temos de mudar apenas porque isso nos faria bem, em nossa vida pessoal, somos obrigados a mudar porque é o certo para todos.

Sendo assim, para os que ainda resistem, resta-nos um rótulo: obsoletos.

Manter as coisas como são, ter hábitos antigos para chamar de seus, gostar de sua rotina, preferir o velho bar já conhecido, usar aquela camiseta velha como pijama, querer ficar em casa no feriado, rir das mesmas piadas, ouvir aquele disco que você sabe de cor, seguir a religião tradicional de sua família, não se inteirar das novas tecnologias… “Pare, por favor!”, nos dirão. “Você está fazendo tudo errado!”.

No fim das contas, esse processo de transformação constante só pode levar à morte, pois se a solução não está nem de um lado, nem do outro, só pode estar no meio do caminho, no meio da correnteza, onde nos afogaremos, mais cedo ou mais tarde. Por isso, enquanto o mundo se afoga em agitação buscando provar que não é obsoleto, eu vou ficar na borda fumando meu cigarro e tentando manter minha chama – e outras tantas – ainda acesa.

– Originalmente publicado no jornal Gazeta do Povo em 06/05/2016

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  • João Paulo Borgonhoni, mais conhecido por Jota, sempre se interessou por pessoas e relacionamentos. Quase se afogou algumas vezes na vida mas sobreviveu. Hoje é professor e psicólogo (crp 08/17582).

    • Mostrar Comentários (1)

    • Paulo Henrique dos Santos

      Estou de pleno acordo com este texto. Não é a toa que me chamam de dinossauro por causa de minhas convicções e mania de conservar tudo comigo. Artigo claro e pedagógico que expressa, mais ou menos, no meu entender, a insatisfação da vida moderna, tão bem explicada por Viktor Frankl, na qual, já não tendo um sentimento claro de sentido da vida, as pessoas buscam mais apegar-se a garantias externas de felicidade, como no rochedo de Sísifo, do que uma busca de fortalecer-se interiormente. O respeito a si mesmas explicado por Roger Scruton, no seu A Alma do Mundo.

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