A Luz dos olhos teus (conto)

O quarto banhado de sol, a persiana ficara aberta. O celular zuniu, despertando Aline. “Deve estar chovendo”, pensava sem pensar, procurando as pantufas de girafa.

Em dois passos estava à janela, o cheiro da manhã evaporando das roseiras do quintal. “Eclipse? Tanto assim?”. Na parede, o interruptor de luz: nada. Correu ao banheiro, tropeçando em tudo, quantas coisas fora do lugar.
Encontrou a torneira sem dificuldade. Lavou o rosto, diversas vezes, machucando os olhos. No espelho, uma discreta silhueta luminosa se insinuou e evanesceu.

Estremeceu.

Tateando pela memória retornou ao quarto, sentando-se na borda da cama, tentando compreender. Minuciosa, saltava de premissa em premissa, emendando juízo a juízo, com rigor. Logicamente, não poderia estar cega.

Uma moto roncou ao longe, o vira-lata da vizinha respondia.

Por sorte, tantos iguais. As trevas comungadas, logo esquecidas, tornadas tradição. Sem muito esforço aprendeu a se desviar do que ficava pelo caminho, fez-se o hábito. Hoje, Aline faz doutorado em filosofia, não aquela, e se orgulha de ser alguém aos seus próprios olhos.

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