Há dois anos, morria o meu pai

Há dois anos meu pai morria. Durante esses dois anos foi assim:

“E quem diria o amanhã seria tão estranho? 
Minha perda, e lá vamos nós de novo.”

Reza a lenda esta “carta” teria sido escrita por Michael Stipe, compositor e vocalista, a River Phoenix, o ator irmão do Joaquim, que havia morrido pouco antes. Eram amigos. Nunca pensei em escrever uma carta a meu pai, mas nem preciso, converso muito com ele. Mais agora do que antes de morrer. Sei lá, é como se sua morte tivesse me “levado lá”, onde não há o cheiro do medo. Acho que levou mesmo. Espero ficar.

No sábado, assisti Miss you already, um desses dramas sobre câncer e morte. “E lá fomos nós de novo”. O filme não é ruim, até surpreende em alguns momentos, como ao falar do Espírito. A moribunda não era religiosa nem nada, ninguém era. Quando contou à filha que iria morrer, a menina se revoltou. Então, disse-lhe que “em espírito” estaria sempre presente. A filha respondeu: “Espírito, que droga é isso?”. A certa altura ela disse a sua amiga esperava existisse mesmo um Paraíso, perguntando: “Será que me deixarão entrar?”. Sua amiga respondeu: “Só se não forem muito exigentes”, completando dizendo que ela era hipócrita. E era mesmo. Losing my Religion, do R.E.M, faz parte da trilha. Boa sacada. Filme honesto, recomendo.

No fim, a estupidez da morte é integrada no amor, unindo ainda mais os que ficaram.

O Espírito nunca abandona, ainda que nem saibamos o que seja, melhor dizendo, nem quem É. Ah, mas faz uma diferença saber… Uma diferença imensurável conhecê-Lo. É uma pessoa, você pode conhecê-Lo como conhece qualquer outra pessoa: basta prestar atenção nela. Ou esperar a morte para fazer isso. Porque, acredite, a morte lhe fará prestar atenção Nele. Ainda que para rejeitá-Lo, de novo.

O dia hoje amanheceu chuvoso, céu de chumbo. Pela janela o avistei, como no clipe de E-Bow The Letter, estava no clima de E-Bow The Letter, aliás. Até tentei ficar mais triste, não consegui. Há dois anos meu pai não morre mais. Nunca morreu, na verdade, nem morrerá. A morte não existe. “Oh life, it’s bigger.”

Nem ia escrever nada hoje, acho que já escrevi demais sobre. Mas, que importa? (meu dito predileto: que importa?).

Escreverei sempre, ainda mais no Natal, quando Ele faz novas todas as coisas, como agora, com esse filme – ao menos para mim. Ele me apresentou a música abaixo. Apesar dos clichês, um verso me pegou: “Porque quando as despedidas forem fáceis, estaremos todos sozinhos.

E é verdade. Aí tudo o mais só me fez sorrir. Peguei o violão e acompanhei na voz também:

Há um lugar 
Em algum lugar entre o sonho e a vigília
Lá encontraremos um ao outro
E eu sei que isso soa estúpido
Mas dará a ambos algo para encontrar.

Clichês costumam ser estúpidos, não quando estão vivos. Meu pai é um clichezão para mim, vive e mora em meu coração. 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *