Autor: Francisco Escorsim

About Francisco Escorsim

Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

Qual a música ideal para o Dia dos Namorados?

Já reparou que na maioria das canções românticas que têm letras falando de amor “para sempre” a parte musical é de uma tristeza como se tudo já tivesse acabado?
 
Por exemplo, a música romântica nº 1 nas paradas de todos os tempos, segundo a Billboards. É Endless Love, dueto de Lionel Richie com Diana Ross. Se o nome não foi suficiente para sua memória musical recordá-la, aposto que basta escutar 3 segundos para você lembrar que não só conhece como a escutou mais do que gostaria:
 

 
A maravilha de amar está aí na letra: amor infinito, para sempre, dois corações batendo como um só etc. Mas se você escutar a música sem prestar atenção à letra parece que alguém morreu e quem ficou está na sofrência. Não é?
 
Por isso acho que músicas assim não servem de maneira alguma para um dia como o dos namorados. Porque namoro é a fase paradisíaca de todo relacionamento amoroso. É quando o sentimento impera mais do que qualquer outra coisa. Tudo é lindo, pleno, alegre, parece endless. Para quem está nessa fase o dia dos namorados é todo dia. Daí muitos acharem que no dia “oficial” precisam inventar moda, comemorar mais e melhor etc.
 
Ok, é do jogo, mas CUIDADO!
 
Sei que a imagem comum de dia dos namorados é jantar à luz de velas, casal bem arrumado, taças de vinho e músicas como Endless Love para embalar. Mas, vamos falar a verdade? De duas, uma. Num aprumo desses ou você vai pedir em casamento ou esse teatro todo só serve à uma finalidade: Sexual Healing. 
 
Então, se é para comemorar apenas por esporte, sem assumir compromisso maior, sirva Marvin Gaye como acompanhamento, vai. Fica menos brega e mais coerente, pelo menos:
 

 
Mas músicas para transar não são músicas de dia dos namorados.
 
Música para esse dia tem de ser como o próprio namoro: leve, alegre, que te deixa sorrindo sozinho, com cara de bobo. Como Hooked On A Feeling, que hoje em dia todo mundo conhece por causa do filme Guardiões da Galáxia, que a tem na sua famosa trilha sonora, mas na versão da banda Blue Swede, que é mais animada, mas tem um canto tribal (Ooga Chaka) enfiado no início e fim que não tem nada a ver com nada ali. Sou mais a original, gravada por B. J. Thomas:
 

 
A letra não poderia casar mais com o sentimento da música, fazendo uma metáfora do sentimento da paixão com estar embriagado ou drogado, no bom sentido, que é precisamente o que significa estar apaixonado no início de um namoro. 
 
Aproveitando a trilha de Guardiões da Galáxia, que é boa justamente por estar recheada de músicas assim, feitas para apaixonados e, por isso mesmo, apaixonantes, ela tem outra perfeita para o dia dos namorados, também casando letra e música com perfeição. É Come and Get Your Love, da banda Redbone:
 

Fala a verdade: está aí com um sorriso no rosto, não está? 
Então, fica a dica para este dia dos namorados: mais Hooked On A Feeling e menos Endless Love. Garanto que tornará este dia mais memorável e menos cliché.
 
Ah, mas você está sem namorado(a) e aí só teria motivos para endless pain. Compreendo, mas me responda uma coisa? Que tipo de pessoa te atrai: uma que venha com Endless Love ou uma cantando Come And Get Your Love? 
 
Se você respondeu a primeira, já tem uma boa pista para saber por que está sozinho(a). Já se você preferiu a segunda, bem, então seja essa pessoa!
 
Quer aprender como? Confira essas 6 dicas que o Jota deu para você começar um relacionamento e se quiser mais temos até curso sobre isso aqui n’Os Náufragos!
 
 
 

O vazio existencial e as canções para náufragos

Que a música tem uma importância tremenda na vida não é novidade para ninguém, mas quando somos náufragos existenciais, aí a música é ainda mais importante: é vital. A ponto de sermos obrigados a concordar com esse aviso iluminado na parede da imagem em destaque aí em cima. 

Sim, você é o que você escuta.

Mas por que a música tem tamanho valor para nós, náufragos?

1) A música preenche o vazio

Em um dos grupos de leitura que faço mediação aqui em Curitiba estamos lendo um livro do jornalista Ari Shavit, chamado Minha Terra Prometida – O Triunfo e a Tragédia de Israel. Logo no começo, quando ele conta sobre os primeiros judeus a migrarem para lá no início do século XX, há uma passagem sobre a importância da música para aqueles pioneiros que é exatamente a mesma para os náufragos.

Para compreendê-la, porém, é preciso saber que aqueles judeus pioneiros eram seculares, ou seja, não acreditavam em Deus, o que para um judeu significa deixar para trás praticamente tudo e começar a vida do zero. É aí que a música ganha um significado muito maior. Preste bem a atenção no que disse um deles:

A hora da música é o único momento em que o nosso refeitório se parece com um lugar de culto. Há uma razão para isso. Deixar deus para trás causou um terrível abalo em todos nós. Destruiu a base da nossa vida como judeus. Isso se tornou a contradição trágica de nossa nova vida. Tínhamos de partir do zero e construir uma civilização desde os alicerces. Porém não tínhamos nenhum alicerce sobre o qual construir. Não tínhamos nenhum fundamento. Acima de nós havia céus azuis e um sol radiante, mas nenhum deus. Essa é a verdade que não podíamos e não podemos ignorar nem por um momento. Isto é o vazio. E música para nós é uma tentativa de preencher o vazio. Quando os sons dos violinos preenchem nosso refeitório, familiarizamo-nos de novo com outra dimensão da vida. Despertam os mais profundos e esquecidos sentimentos enterrados em todos nós. Nossos olhos se fecham, voltam-se para o íntimo e uma aura quase de santidade envolve todos nós.”

É difícil expressar o que é estar náufrago na existência, mas ouso dizer que é exatamente como esses judeus se sentiam. Ainda que acreditemos em Deus, que tenhamos os alicerces da família, da civilização em que vivemos, o sentimento de naufrágio é mais forte do que tudo isso. É a sensação de que não se tem nada de verdade e não se sabe nem por onde começar a ter. Isto é o vazio.

Daí porque a música ganha uma dimensão muito, mas muito maior na vida de um náufrago. Porque, arrisco dizer, só ela é capaz de preencher esse vazio por alguns momentos. É nossa bóia. E, nessas horas, você é o que você escuta mesmo.

2) Preenchendo o vazio.

Por isso não poderíamos deixar de dar destaque para a música por aqui. Em nosso podcast fizemos questão de criar um “espaço” especial que chamamos de Canções Para Náufragos. A idéia é não apenas trazer músicas que possam servir de bóias, mas também tomar consciência… Ah, quer saber, é bem melhor escutar nossos podcasts para entender! Deixo uma lista com os que já fizemos sobre música, com um breve comentário para contextualizar.

I. Manual de Instruções usando como exemplos músicas muito conhecidas de Pearl Jam, The Cardigans, Roberto Carlos e Metallica, falamos um pouco sobre o casamento entre letra e música e a forma final que isso cria.

II. Aprendendo a amar – analisamos dois “clássicos” do pop rock nacional que falam sobre isso, sobre o que é amar.

III. O Naufrágio na Passarela – comentando músicas de carnaval e um samba antológico de Cartola falamos sobre o êxtase da alegria que a música proporciona, assim como também nos canta a ressaca do dia seguinte:

IV. Sendo looser por toda a vida – o mais polêmico dos podcasts sobre música. Falamos de duas bandas muito queridas por nós, porém…:

V. As provas da maturidade – selecionamos músicas “clássicas” de Chico Buarque, Frank Sinatra e Bob Dylan para falarmos sobre os testes pelos quais passamos quando estamos amadurecendo na vida:

E nesta semana sairá mais um volume das nossas Canções Para Náufragos,a sexta, dia 18\05\2018. Passearemos pela música sertaneja para falarmos um pouco sobre esse vazio aí e sua relação com a paixão, que é outra coisa que parece preenchê-lo. Mas, será que preenche mesmo?

3. Bônus Track

Além desses podcasts, temos também uma playlist no nosso canal no spotify feita especialmente  sobre maturidade. É uma playlist que “conta” a história do processo pelo qual passamos para nos tornamos maduros de verdade. Muitas dessas músicas serão trabalhadas nos podcasts futuros, mas já podem lhe servir de mais bóias durante esse naufrágio!

Depois de escutar tudo isso não esquece de nos dizer o que achou, ok? Quanto mais tivermos retorno, melhor Os Náufragos se tornarão. Agradecemos desde já. <3 🙂

 

Você precisa de férias na volta das férias?

Cristiano cresceu escutando os pais falarem, na volta das férias, que agora sim é que precisavam de descanso. Sempre aproveitavam as férias para viajar, fazer programas de todo tipo, não paravam nunca, mesmo quando passavam um mês inteiro na praia, indo da casa para a areia e desta para casa. Adoravam o tempo de férias, parecia que a vida só valia a pena nesse tempo, quando estavam em férias, eram sempre mais felizes.

Mas o retorno era sempre difícil, ele via a tristeza na expressão dos pais, a vida murchando.

Ele pensava nos pais ali sozinho de pé diante do mar infinito. Eram as primeiras férias dele por conta. Durante a faculdade já tinha viajado com amigos, só com a namorada, mas nunca bancara com sua grana. Como de estagiário virou empregado, o salário mais que dobrou e pela primeira vez pagou a viagem, fez questão. Dois amigos foram juntos, ambos bancados pelos pais. Era o último dia das férias e ele se sentia estranho.

Tinham de sair antes das 12h do hotel, vagar pelo aeroporto até a hora do vôo. Quis acordar antes do sol nascer, quis vê-lo nascer da praia, de preferência dentro da água, como fizera no primeiro dia. Assim fez. Estava parado na beira da água, de pé, braços cruzados, pensando na vida, nos pais. De repente se viu saindo da água, de volta àquele primeiro dia. Trazia no rosto um sorriso de quem tinha esquecido do tempo, de tudo. Agora não conseguia sorrir. Estaria triste?

Na volta para o quarto o celular pipocava de notificações. Uma era da mãe: “Estamos em casa, mortos de cansaço. Precisamos de férias, Cris!”. Não conseguiu rir. Ele precisaria de férias também? Por quê? Para quê? Não foi suficiente? Não se sentia descansado? Por que esse gosto estranho na boca, como se tivesse sido pouco, como se não bastasse?

Parecia tudo uma grande farsa.

Sabia que estava feliz, que as férias foram na medida, que estava até ansioso pela volta ao trabalho, terminar aquele projeto que faltou tão pouco para fechar no ano passado. De onde vinha, então, esse outro de cara amarrada, braços cruzados na beira da praia, querendo estragar tudo, tornar a vida improdutiva?

Quando chegou em casa, a alegria do reencontro não durou até o jantar. Pediram uma pizza, estavam cansados demais para pensar em outra coisa. Contaram das férias e quando as novidades terminaram e como se precisassem sempre, sempre, sempre repetir o mesmo script, veio a reclamação: “Ai, amanhã não será fácil, até pegar o ritmo…”. Mas ele não se sentia assim, na verdade nem via a hora de voltar. Mas achou melhor não falar nada, apenas consentia, sem muito comentar. Mas sabia que não dava mais, ou se tornaria assim também.

Naquele ano alugou um apê, passou a morar sozinho. A mãe não gostou, mas não atrapalhou. O pai admirou, parecia criança, dizendo “imagina quanta festa você não fará, hein, Cris? Quem dera na minha época eu tivesse condição para morar sozinho!”. A mãe não gostou, já namoravam na idade em que Cris estava, mas achou melhor não pensar muito nisso e se concentrou em assegurar que Cris tivesse comida na geladeira, toalha, pasta de dente, essas coisas. Tinha, ela não precisou comprar nada. Nunca mais.

Depois de 15 anos ele voltou à mesma praia, ficou no mesmo hotel. Era o último dia e ele se lembrou no meio da madrugada. Deixou um bilhete para a esposa e saiu sem fazer barulho. Viu o sol nascer de dentro da água e ficou ali boiando, pensando na vida, nos pais, agora aposentados e nem viajavam mais, pareciam desistentes. Ele jamais se queixou do fim das férias, do retorno para casa, de voltar ao trabalho. Durante um tempo achou que era para se auto-afirmar, mas esse tempo também passou e nunca sentiu que precisava de férias depois das férias, nunca.

Quando voltou a esposa já tinha arrumado tudo, as crianças estavam prontas. O mais velho perguntou onde ele tinha ido. Respondeu que fora dar um último mergulho, aproveitar até o último instante as férias. “Pena que acaba, né, pai?” Então algo brilhou dentro dele, e ele enfim entendeu: “Já pensou se não acabasse, filho? Que chatice seria não ter para o que voltar?” O menino olhou estranho, incerto se entendeu. Cristiano percebeu e sorriu, dizendo: “Não se preocupe, filho, quando crescer você entenderá.” 

– E se eu não crescer, pai?

– Não se preocupe, eu farei você crescer. Desse trabalho não tiro férias. Já amarrou o tênis?

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Como sustentar um casamento: seja uma âncora

Deixa eu contar um pouco da história do meu casamento. 

Quando conheci minha futura esposa eu já tinha naufragado na vida. Tinha entrado na faculdade de Direito em 1994, aos 17 anos (faria 18 naquele ano), e estava ali levado pela maré sócio-cultural que faz os jovens dessa idade prestarem vestibular etc.

Escolhi pragmaticamente: se faculdade é para depois exercer uma profissão, que por sua vez é para ganharmos dinheiro exercendo e daí sim viver a vida, era melhor escolher o curso que mais abria possibilidades profissionais e de grana. Como meu pai era advogado, meu cálculo foi simples e fácil: fazer Direito matava todos os coelhos de uma vez só. Com uma única decisão meu futuro estaria resolvido.

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Nada mais estúpido, eu sei. Mas enfim. Mas se a vida estava assegurada, que mais um jovem de 17 anos poderia fazer? Ora, curtir a vida adoidado. Entrei na faculdade querendo a farra que diziam  existir por lá. E existia, era o que mais tinha. O clube social e de campo a que me associei, a PUC/PR, tinha um rol de botecos em frente. O escolhido da turma era o Kowalski. Cansei de beber Kaiser Bock às 7h da matina, jogando truco entre bocejos, só para matar aula e ter “uma história pra contar depois”, tipo agora. Saía toda noite também, mal parava em casa.

Foi divertido? Foi. Mas enjoou muito mais rápido do que eu suporia se pensasse um mínimo que fosse num plano de vida.

Em meio semestre já me sentia vazio, frustrado e perdido. “Serão 4 anos e meio assim?”, pensei. Por mais que eu quisesse ser Ferris Bueller, não levava jeito para isso. Temia fosse o Cameron, na verdade. E quem não assistiu Curtindo a Vida Adoidado não vai entender nenhuma dessas referências, então, resolva isso daí logo, vai. Hoje é feriado, aliás, pede um filme assim.

Voltando. Eu integrava uma banda nessa época. Um de meus melhores amigos estava nela e participava de um grupo de jovens cristãos que volta e meia fazia retiros dito espirituais, com acampamentos etc. Convidou-me. Já estava naquela de procurar algo sem saber direito o quê, então confiei e fui conferir. Aconteceu em abril de 1995, durante o tríduo pascal. Esse retiro determinou muita coisa da minha vida dali por diante.

Mas antes dele e com muito mais significado aconteceu de eu ficar com minha futura esposa. Já nos conhecíamos. Estávamos num mesmo grupo de amigos no saudoso Aeroanta, casa noturna icônica de Curitiba, rolou um clima e ficamos. Começamos a nos falar mais, claramente interessados um no outro. Nesse ínterim tivemos aquela Páscoa. Eu, no retiro; ela, viajou com as amigas. Dias depois começamos a namorar e estamos juntos desde então, 22 anos e contando.

Vocês não fazem idéia de como bati cabeça para me encontrar comigo mesmo desde então. Dramas vocacionais, profissionais, financeiros, tentativas de fazer isso e aquilo, enfim, uma lista enorme de tentativas de ser feliz que naufragaram. Só uma coisa se manteve, como um chão firme que sempre esteve me sustentando ainda que eu não me desse conta, nem valorizasse como deveria: meu namoro, depois noivado e enfim casamento. 

Repare na foto em destaque. Não é minha, não somos nós, eu e ela. Mas aquelas âncoras ali creio que são, simbolizam demais o que é o casamento, especialmente nos momentos mais difíceis da vida. No caso do meu, estou longe de ser uma âncora, já que fui eu quem mais tornou nossa vida difícil.

Graças a Deus minha esposa é uma âncora por ambos.

Tudo passava, tudo passa, menos ela, segurando as pontas, a família, minha vida. Falando em Deus, tem aquela passagem famosa de São Paulo sobre o amor: “Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” Impossível não lembrar da minha esposa lendo isso. Por isso sei que jamais serei amado como sou amado por ela. Espero apenas ser digno desse amor e que um dia ela possa dizer o mesmo de mim, se Deus quiser.

Todo mundo tem seus dias mais felizes da vida. Eu tenho um em especial que me marcou por ser das raras vezes em que você tem confirmação de ter tomado a decisão mais acertada de todas. Eu estava no altar, um tanto ansioso. Quando a vi entrando pela nave da igreja, linda demais, abri um sorrisão e tive essa certeza. Uma paz e serenidade me invadiu como poucas vezes senti. Foi como ensina o provérbio bíblico: “Quem encontra uma esposa encontra algo excelente; recebeu uma bênção do Senhor.”

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A música que marcou nosso dia foi a arqui-conhecida “Can’t Take my Eyes Off You”, originalmente gravada pelo Frankie Valli. Existem centenas de covers, essa que vai abaixo ela gosta particularmente e eu também. Mas tanto faz a versão, é sempre um refrigério para minha alma escutá-la, creio que para a dela também. Aquela paz e serenidade retornam, de repente tudo volta a ficar leve, com sentido, ancorado.  

Durante a cerimônia eu cometi uma gafe daquelas. Na hora de dizer “Eu, Francisco, aceito…”, troquei meu nome pelo dela. Virei piada da família e amigos até hoje, e com razão. Mas me dei conta muito tempo depois de que, na verdade, não foi gafe, não; foi confissão. Eu, sem a Lorena, não sou o Francisco.

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A crise dos 30 anos e a receita de Keith Richards: Amor, Família e Rock’n Roll

“A vida é engraçada, sabe? Sempre achei fosse viver até os 30 anos. Mais do que isso seria horrível viver. Até que fiz 31 e pensei: até que não é tão ruim.” 

Quem disse isso foi Keith Richards, do alto dos seus mais de 70 anos. Seria a cura para a crise dos 30 anos simplesmente deixar passar, fazer 31 e pronto? Bastaria suportar a sensação de que tudo parece meio que definido e o futuro será mais do mesmo que daí essa sensação passaria como veio e a vida voltaria a se abrir em possibilidades?

Talvez, se você estiver como o Keith aos 30 anos. Claro que não precisa fazer parte de um Rolling Stones, que já eram conhecidos pelo mundo todo quando ele tinha 30 anos, mas ao menos sabendo o que quer fazer da vida, mesmo que não tenha conquistado nada ainda. 

Mas se você, como eu, sentia o peso da incerteza de não saber direito o que quer ou o que fazer, então essa espera se tornará combustível da crise, não sua solução. 

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Lembro bem da minha crise dos 30, do quanto me sentia afogado na vida. Qual era minha vocação? Com que eu deveria trabalhar? Quem eu deveria ser? Pior, quem eu já era? Resultado: angústia de doer o peito somatizada numa esofagite grau sei lá qual, que me obrigou a fazer uma cirurgia e mesmo assim, um mês depois dela, voltei a sentir todos os sintomas, sem que nada aparecesse em exames. Sim, era da minha cabeça. Ali fiquei com medo de ficar louco (alguns dirão que eu fiquei). Foi quando decidi mudar de vida e para encurtar a história: eis-me aqui.

É difícil convencer alguém sofrendo nessa crise que boa parte do seu problema é de falta de imaginação.

É como dizer a um doente padecendo de fortes dores que ele precisa tomar vitaminas. Ele só quer que a dor acabe, mais nada. É compreensível. Mas é isso, é falta de imaginação sim. 

Conhecer biografias de quem deu certo na vida é uma boa maneira de começar a se dar conta dessa falta e ao mesmo tempo começar a resolvê-la. Primeiro, porque em toda biografia de alguém que deu certo na vida essa sofrência existencial é parte inevitável e essencial de quem se tornaram. Segundo, porque enfrentaram essa sofrência e mais mil e um obstáculos e adversidades e superaram a tudo. Ou seja, saber que essa crise é inevitável e conhecer exemplos de quem a sofreu e superou é começar a deixar de apanhar da vida para aprender a encará-la e vencer. 

Além disso, conhecer quem deu certo na vida é também inspirador a quem se sente tão derrotado. Sim, não se iluda, a crise dos 30 anos é uma crise de derrotados, de frustrados. Às vezes é só com a parte profissional ou amorosa, às vezes é com a vida inteira, mas é sempre um sentimento de que deu errado, “deu ruim”, de frustração vital profunda.

Aliás, a biografia do Keith Richards é uma das que indico com veemência, é muito inspiradora. Tem uma autobiografia e um documentário lançado em 2015, “Keith Richards: Under Influence”, contando sua vida à luz das suas influências musicais e de vida. Está disponível na Netflix.

Um aperitivo: Keith saiu de casa bastante jovem, aos 19 anos, para tentar viver de música. Não foi fácil. Logo depois seus pais se separaram e ele perdeu contato com o pai por 20 anos. Nunca o procurou porque acreditava que o pai tinha se decepcionado com ele: “Talvez porque eu me preocupava com o que ele pensava de mim. Era um sujeito certinho que trabalhava duro. A idéia de ter um filho preso por uso de drogas, eu podia ouvi-lo dizer: ‘ele nunca vai prestar pra nada‘.”

Depois desses 20 anos decidiu entrar em contato e marcou um encontro em sua casa. Chamou Ronnie Wood para estar junto, por proteção: “para você ver como eu estava com medo”. Mas quando o pai entrou, um velhinho de pernas curvadas, Keith enxergou apenas uma coisa: “mas era o papai, sabe? E foi tão fácil. Resolvemos tudo em minutos. Pelos próximos 20 anos ele se tornou meu melhor amigo. Foi em toda viagem, todo show, rodou o mundo comigo.”

Estranho imaginar um ícone da tríade “sexo, drogas e rock’n roll” como Keith Richards assim, saindo em turnê com o pai a tira-colo.

Mas é como ele mesmo disse: “99% das pessoas ainda acham que o Keith Richards está fumando um baseado, copo de Jack Daniel’s na mão, andando pela rua e xingando a loja de bebidas por estar fechada. É uma imagem a que estou preso como se fosse a um grilhão. Não é uma sombra, pois existe 24h por dia.”

Mas ele não é assim. Ou não só assim: “Minha família é tremendamente importante. Quando você vê o filho do filho a ficha cai. Ter filho é uma coisa, mas quando nascem os netos e netas, isso é… é um sentimento incrível. Não sei do quê. Realização? Sei lá. Continuidade?… Basicamente, de amor.”

E é lindo vê-lo rodeado pela mulher, filhos, netos e amigos. E Keith fuma e ri o tempo todo no documentário, é contagiante. Está ali um cara realizado e que sabe que é realizado, mas não envaidecido por essas conquistas. Certa altura o entrevistador lhe diz que ele se tornou como aquelas lendas do Blues que ele tanto admirava. É o único momento em que Keith fica tenso, pensativo, e responde: “Sim, eu sei. Eu sei.” 

Disse que continuará tocando até não conseguir mais. Não sabe fazer outra coisa e se sente abençoado por isso. Quando termina o documentário você sente vontade de ler a autobiografia, fazer maratona com os discos dos Stones e os da carreira-solo dele.

Porque é assim que acontece quando conhecemos vidas que deram certo: queremos mais delas, cada vez mais.

Alimente-se de vidas assim que quando essa crise dos 30 anos tiver ficado no retrovisor você reconhecerá que se não fosse por exemplos assim você jamais teria saído dela. Aguarde e confie. 😉

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Um disco para náufragos

Se tem uma coisa que a imensa maioria de nós, náufragos existenciais, temos em comum é o apego à música como uma tabuinha de consolação – quando não de salvação mesmo.

Quando vejo a quase devoção com que alguém fala ou aprecia alguma música ou banda ou artista, já reconheço um “irmão de braçadas”, mantendo-se à tona com a ajuda da música, muita música.

E não falo aqui de histeria adolescente com bandinhas. Falo de algo bem mais sério e profundo, da música sendo capaz de expressar a tristeza ou o desespero do “estar náufrago”, ao mesmo tempo conseguindo alimentar a fé e a esperança de que há uma razão, um sentido maior para esse sofrimento.

Quando a música é experimentada assim ela é uma vivência religiosa. Ou seja, religa você a algo que faz e dá sentido à vida.

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Uma banda cujas algumas músicas me permitiram – e ainda permitem – viver momentos assim é o U2, que está no Brasil com sua atual turnê celebrando os 30 anos de lançamento do seu melhor disco (na minha opinião), The Joshua Tree, que é uma obra que trata justamente disso: procurar sentido e manter a esperança de encontrá-lo suportando o deserto desesperador que parece ter se tornado a existência.

Não por outra razão a capa do disco tem uma foto tirada no deserto do Mojave, nos EUA:

capa do disco

E na contra-capa encontramos a razão do título do disco:

atente à arvore

Essa árvore é chamada de “Árvore de Josué” e cresce quase somente nesse deserto americano. A origem do nome devemos aos mórmons que imigravam atravessando o deserto quando a viram pela primeira vez, em meados do século XIX, associando seu formato peculiar à oração do profeta Josué erguendo as mãos para o céu implorando a ajuda de Deus. Assim, viram na árvore um sinal de Deus os guiando para o Oeste.

Ao emprestarem esse nome ao disco o U2 tornou impossível descontextualizá-lo desse significado espiritual. Ou seja, é isso que dá a forma do disco, sua unidade, seu todo cujas partes são as músicas que o compõem e revelam faixa a faixa seu significado, que tentarei expor neste texto.  

  1.  Where The Streets Have No Name

Música de abertura do disco e indispensável em qualquer dos shows da banda – e é das melhores mesmo.

Começa num crescendo que não pára, com as partes vocais estacionando a música quando entram, como se estivéssemos fazendo uma pausa em uma escalada para respirar e seguir adiante. Tudo é “para cima”, arrebatando, inspirando, alimentando a esperança. É como se tivéssemos chegado na Terra Prometida, cujas ruas não têm nome.  

Mas não chegamos lá, apenas desejamos intensamente. Quando encaixamos letra e música vemos que embora exista a certeza da existência desse lugar nós ainda estamos presos “aqui”, onde construímos e em seguida demolimos o amor, que se torna enferrujado e nos deixa esmagados em poeira.

Ou seja, é uma música que convoca o ouvinte a ir com ela para esse lugar onde a esperança é desnecessária porque tudo que há para esperar, lá é uma realidade presente; que é para lá que temos de ir na vida; que “é só isso que dá pra fazer”. 

2. I Still Haven’t Found What I’m Looking For

Em seguida vem o hino religioso mais famoso da banda, continuando do ponto onde a música de abertura nos deixou: sabemos que existe o lugar para onde devemos ir, mas ainda não chegamos lá porque ainda não o encontramos, não encontramos o que procuramos.

Mas o que se revela aqui é que esse lugar, na verdade, é uma pessoa. E a letra não deixa dúvida que essa pessoa é Jesus Cristo:

Você quebrou as cadeias, soltou as correntes
Você carregou a cruz
E toda a minha vergonha
Toda a minha vergonha
Você sabe que eu acredito nisso

Mas onde Ele está? 

Essa música foi claramente inspirada nos salmos de Davi e é como se fosse um deles.

3. With or Without You

O maior sucesso do disco e comumente tratada apenas como uma baladinha romântica. Mas ela tem outro significado nesse contexto do disco.

Ela nos aquieta da intensidade que as anteriores criaram; é lenta, introspectiva e a parte instrumental constrói um chão para a letra se destacar. E é uma letra bela. Repare que quando o cantor fala sobre “ela”, não a trata como sendo o “você” do título: 

Numa cama de pregos, ela me faz esperar
E eu espero sem você

Há duas esperas aí, portanto. Aquela por “ela” e aquela por “você”, que tampouco está lá. Esse “você” faz muito mais sentido, no contexto que estamos escutando, sendo Jesus Cristo, que estamos procurando mas ainda não encontramos.

É a Ele que a música fala como uma súplica na escuridão da noite.

Quanto àquela “ela”, esta aparece com eles se tornando um “nós”: “Através da tempestade, nós alcançamos a costa“. Mas continua distinta do “você”, por isso ele canta: “mas eu quero mais / E eu estou esperando por você”.

Mas essa espera já não é tão esperançosa assim, pois num dos últimos versos vemos que ele permanece naquela “cama de pregos” e pouco tem a oferecer para “ela” se Ele não aparecer: 

Minhas mãos estão amarradas, meu corpo ferido
Ela me tem com
Nada a ganhar e
Nada mais a perder

4.  Bullet The Blue Sky

Vem a música mais politizada do disco e da carreira da banda como um todo. Mas, de novo, interessa-nos aqui o contexto. Nesse sentido, a política ganha outro significado.

Quanto tempo você suporta esperar pelo que demora a aparecer?

A América cantada na música, para cujos braços as crianças e mulheres correm em busca de proteção e salvação, representa a esperança da Terra Prometida ao mesmo tempo que se revela não sê-la. É aqui que a imagem do deserto começa a ganhar forma musical de aridez, ausência de perspectiva.

O tom dessa música é diverso do que veio antes, fazendo uma inversão da esperança e introspecção anteriores para algo raivoso, frustrado, cansado. Nossa atenção é voltada não mais para onde as ruas não têm nome, para Ele; mas para o “aqui” que não é a Terra Prometida, para o “aqui” sem Ele.

Se antes a esperança era maior e nos conduzia, agora ela se torna menor e mais fraca. É aqui que a árvore de Josué também começa a ganhar sua forma musical simbolizando essa esperança transformada em resiliência. Não é um sinal divino a certificar Sua presença, mas um símbolo do homem que sofre nesse deserto e começa a fraquejar daquela certeza inicial, embora ainda não tenha desistido dela. A árvore de Josué, assim toda torta, torna-se símbolo da dor:   

Vejo que chove pregos nas almas
Sobre a árvore da dor

5. Running To Stand Still

Mas a raiva, como todo sentimento, passa. E quando passa costuma deixar a tristeza em seu lugar. Só o deserto permanece o mesmo. Vem então a música mais “desértica” do disco, com seu início remetendo imediatamente à amplitude e ao silêncio de um deserto.  

Aqui voltamos a ter um casal. Desta vez, é ela quem se angustia por saber que é preciso fazer alguma coisa sobre aquele “para onde” estavam indo e que parecia ser impossível chegar, se é que existia mesmo: 

E então ela acordou
Ela acordou de onde estava deitada.
Disse que eu tinha de fazer algo
A respeito de para onde estamos indo.

O sentido original da palavra pecado tem a ver com “errar o alvo”. Ou seja, é pecado tudo que nos desvia da busca da Terra Prometida, tudo que colocamos no lugar Dele ou nos faz desistir de “atingir o alvo”. O pecado mais comum é a fuga da dor que estamos a escutar agora. Nesta música essa fuga se dá pelo uso de heroína, buscando um prazer efêmero anestésico que, depois, cobra o seu preço com dor ainda maior: 

Doce é o pecado, amargo é o sabor em minha boca.

Uma vida errando o alvo só pode se tornar muito mais torturante do que quando se suportava a dor de não saber onde estava o alvo nem como atingi-lo.

Aqui é interessante citar uma referência que a letra faz à Dublin da época dos músicos e que tinha um conjunto de sete prédios que se tornaram um mocó de drogados. Nesse local se tinha a taxa de suicídios mais alta de toda Irlanda. O suicídio que seria a única saída dita na letra da música:

Eu vejo sete torres, mas vejo apenas uma saída.

É por isso que essa fuga não é uma solução, como a música deixa claro. Ela se entrega à heroína, mas é como sair correndo ficando parada no lugar: 

Ela está em transe
E a tempestade explode nos olhos dela.
Ela sofrerá o barato da agulha
Ela está correndo para ficar parada.

6. Red Hill Mining

Uma vida sem Ele, sem busca pela Terra Prometida, rebaixa-se à luta pela sobrevivência. 

 

Esta música trata do mundo do trabalho, da rotina infernal que só deixa a esperança de algo melhor para depois do expediente, retratando essa espera angustiada e, no fundo, descrente por ser pouco, muito pouco:

Nós queimamos a terra
Colocamos fogo no céu
E nos inclinamos tão baixo
para alcançar tão alto

Se também o trabalho não parece dar sentido à vida, resta o amor por “ela” como sendo a Árvore de Josué da esperança por esse sentido maior:

Estou suportando
Você é tudo que restou para eu me segurar

Seria suficiente? Ou até mesmo a solução?  

7. In God’s Country

Não. A reposta é não, como ele canta ao fim desta música:

Uma chama nua, ela possui uma chama nua
Eu estou com os filhos de Caim
Queimado pelo fogo do amor

O amor humano jamais será suficiente, nem substituto do primeiro mandamento divino: há um amor maior que não pode ser substituído nem rebaixado de posto. Tudo que se coloca no lugar Dele é falso.

Daí a ironia dessa música ao tratar os EUA como sendo o país de Deus, ou seja, a Terra Prometida. Mas que país é esse em que o sono é como uma droga e os olhos são tristes e as cruzes tortas? Ou seja, o deus aqui é outro, simbolizado na estátua da Liberdade:

Ela é a Liberdade, e ela vem me salvar
Esperança, fé, sua vaidade
O maior presente é o ouro

A parte instrumental constrói uma música típica para “road trips”, para quando se viaja tentando se esquecer de onde se partiu e para onde se está indo, tentando apenas aproveitar a viagem em si. O que não deixa de ser também uma fuga.

8. Trip Through Your Wires

Continuamos na mesma atmosfera de viagem da música anterior, com a guitarra estridente acompanhando um ritmo com algo de cansado, começando a se questionar sobre o falso deus do amor humano:

Anjo ou demônio?
Eu estava sedento
E você molhou meus lábios.
Você, estou esperando por você
Você faz o meu desejo
Eu tropeço por seus arames.

Note como o “você” de With or Without You retorna aqui, mas confundido com “ela” e a pergunta se seria anjo ou demônio indica menos uma dúvida do que a confissão de quem se entregou seja lá para quem for.

9. One Tree Hill

Vai se aproximando o fim do disco, da jornada, da busca, da própria vida. É uma música sobre a morte e o que ela nos diz sobre a vida: “Nós corremos como um rio corre para o mar“. 

Ao mesmo tempo em que há uma desolação, uma amargura com a vida (Eu não acredito em rosas pintadas ou pessoas de bom coração / Enquanto as balas estupram a noite do misericordioso), ainda permanece viva a esperança de que a morte seja restauradora, que o mar, símbolo típico de morte e renascimento, possa ser mais e melhor do que o rio que nos levou até lá. 

A parte instrumental tem algo de etéreo e convida à introspecção, terminando como se fosse uma oração diante da morte, do oceano para onde estamos sendo levados queiramos ou não.

Uma oração que nos devolve, tal como o título da música, ao símbolo da solitária Árvore de Josué, cuja imagem agora se mostra muito mais significativa, não acha? Se não, confira por outra foto mais próxima:

É a “Joshua Tree” original fotografada para o disco.

Repare como sua beleza não é estética, não é uma árvore bonita. Sua beleza está no seu significado. Ela parece mais do que uma sobrevivente no deserto. Embora pequena, se agiganta em meio ao nada em que se encontra. Seus “braços” parecem cansados, mas permanece firmemente de pé, ainda que nada em torno justifique perseverar.

Que baita símbolo de fé e esperança. 

10. Exit

Hora da definição. Esta música retoma a idéia rítmica de Where The Streets Have No Name. Ou seja, vem num crescendo. A diferença é que se lá há luz, leveza, esperança, aqui estamos nas trevas daquele que se perdeu. Se naquela o crescendo se estabilizava e permanecia, aqui a música explode num fim ambíguo e angustiado: 

Ele sentiu a cura, cura, cura
As mãos do amor que curam
Como as estrelas brilhantes, brilhantes lá de cima

Entretanto, num sussurro vem os versos finais:

Mãos que constroem
Também podem destruir
Mesmo as mãos do amor

A partir daí a voz cessa e a música prossegue por alguns minutos como num transe, deixando a sensação de que tudo acabou mal, sem Terra Prometida, sem Ele, sem ela, sem saída nenhuma. 

 

Esta música serve perfeitamente para o fim de histórias trágicas que nos deixam estupefatos. Mas ela não encerra o disco.

11. Mothers Of The Disappeared

A última música repete o efeito hipnótico de Exit, mas sem a angústia terrificante, mais como um lamento em sussurros.

A letra trata de mães cujos filhos desapareceram, mas cujos sorrisos o vento ainda faz escutar e a chuva permite ver suas lágrimas.

Por conta disso, a forma final do disco é exatamente a de um deserto quase completo, não fosse por uma única árvore solitária teimando em resistir, ainda que não tenha nada a justificar sua permanência e esperança. Teimosa como uma mãe que perdeu seu filho mas ainda o vê e escuta na chuva e no vento. 

Quantas vezes durante a vida não vivemos situação parecida à de quem está largado num deserto sem saber qual rumo tomar, em que a própria esperança se torna desesperadora?

Uma situação quase insuportável, mas que nem por isso nos permitimos desistir, ainda que assim desejemos muitas vezes. Porque por mais sofrida que esteja a vida, algo ainda mais forte do que a dor nos sustenta e nos faz levantar toda manhã para encarar o que há para ser encarado, ainda que seja o nada.

12. Bonus Track que só tem neste texto 😉

Não sei se você sabia, mas a árvore da capa do disco morreu, tombando no solo no ano 2000. No lugar onde ela resistiu ao deserto até seu fim, fãs da banda e do disco montaram um santuário informal. Nele há esta placa:

“Você encontrou o que está procurando?”

Não importa se você encontrou o que está procurando. Não importa nem se você sabe o que está procurando. O que importa é não desistir dessa busca. É isso que faz toda diferença.

Quando a vida não tem sentido, faça da busca teimosa por ele o próprio sentido da vida.

Quando você está vivendo assim é aí que a música pode se tornar uma experiência religiosa, capaz de o conectar a esse sentido maior ao menos enquanto ela durar. Talvez seja a única companheira da nossa solidão nessa busca, capaz de nos entender melhor do que nós mesmos, expressar o que não conseguimos dizer, extravasar nossos temores e raivas, confortar nossa tristeza e desilusão, aconselhar e animar quando mais precisamos.

A vida pode não ter sentido ainda, mas ganha um quando experimentamos músicas que vão além do mero entretenimento.

Foi assim comigo e continua sendo. As músicas de The Joshua Tree me acompanham desde os meus 11, 12 anos de idade. Em cada época da minha vida serviram para algo. Infelizmente, não tive condição de ir ao show que celebra esse disco, seria minha oportunidade de dizer “obrigado”. 

Então, que este texto sirva de agradecimento à banda por este disco e outros. É claro que ele não me deu o que eu tanto procurava sem nem saber que procurava, mas eu jamais teria encontrado se não fosse por discos assim. 

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Dois remédios para dar sentido à vida

Li uma reportagem bem interessante de Emma Young, da revista Mosaic Science e publicada em português pelo El Pais, sobre o uso de drogas por adolescentes. Harvey Milkman, professor de psicologia da Universidade de Reykjavik, na Islândia, fazia residência num hospital de Nova Iorque na década de 70 quando começou a se interessar pela razão que leva as pessoas a consumirem drogas. Acredita ter encontrado a resposta.

Em sua tese de doutorado defendeu que a causa para isso seria o estresse da vida e que as drogas seriam uma maneira de suportar os problemas. Seu foco foi na química cerebral e por isso apostou na busca por substitutos saudáveis que dessem o mesmo “barato” das drogas. Ou seja, em vez de brigar contra a embriaguez proporcionada por todo tipo de droga ele optou por aceitar essa embriaguez e tentar causá-la de maneira diferente.

Percebeu em pouco tempo que educação para conscientizar sobre os perigos das drogas não resolveria nada. 

 

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A partir da década de 90 ele foi trabalhar na Islândia, primeiro em um centro de tratamento de jovens drogados. Seu objetivo era um só: “A ideia [do centro] era oferecer aos meninos coisas melhores para fazer”. Esportes, música, artes, o que fosse. Foi dando certo. 

Entre 92 e 97 ele foi um dos responsáveis por uma imensa pesquisa com adolescentes islandeses que deu um retrato do tédio vital dos jovens. Investigando mais a fundo aqueles que não tinham vícios nem maiores problemas descobriu uma situação comum: esses jovens participavam de três a quarto vezes por semana de atividades organizadas – sobretudo esportivas; passavam bastante tempo com os pais durante a semana; tinham a sensação de que os professores do colégio se preocupavam com eles; e não saiam de noite.

Um plano nacional de ação foi criado com base nessa pesquisa, chamado de “Juventude na Islândia” e dentre várias medidas, duas tiveram papel central: aproximaram os pais da escola, fazendo-os assumir mais responsabilidade, e foi aumentado o financiamento estatal para clubes esportivos, musicais, artísticos, de dança e outras atividades para oferecer aos jovens maneiras alternativas de se sentirem bem fazendo parte de um grupo.

Em outras palavras: deram algo para os adolescentes fazerem e  aproximaram os pais das vidas dos filhos.

Em todas as escolas os pais foram convidados a assinarem compromissos e assistirem palestras sobre a importância de passar muito tempo com os filhos, em vez de lhes dedicar apenas “tempo de qualidade”, assim como do quanto deveriam falar mais com eles sobre suas próprias vidas, conhecer suas amizades e por aí vai. A participação foi grande. Resultado? Cito a reportagem:

“Entre 1997 e 2012, duplicou a proporção de adolescentes de 15 e 16 anos que declararam que “com frequência ou quase sempre” passavam tempo com os pais no fim de semana – a cifra passou de 23% para 46%. Já a dos que participavam de atividades esportivas organizadas pelo menos quatro vezes por semana subiu de 24% para 42%. Ao mesmo tempo, o consumo de cigarros, álcool e maconha nessa mesma faixa etária caiu drasticamente.”

Quer ter uma noção melhor desse “drasticamente”? A taxa de meninos de 15 e 16 anos que bebiam quantidade grande de álcool no último mês anterior à pesquisa caiu de 42% em 1998 para 5% em 2016. Já o índice de maconheiros passou de 17% para 7%, e o de fumantes de cigarros comuns despencou de 23% para apenas 3%. Significativo, não?

Referida pesquisa foi feita em outros lugares e mostraram o mesmo cenário. Ou seja, quanto mais os pais ficam próximos e os jovens têm o que fazer na vida, menos se tornam viciados em alguma droga. E nos locais em que se aplicaram as soluções islandesas, resultados semelhantes foram conseguidos, como em Kaunas, na Lituânia, que entre 2006 e 2014 viu o número de seus jovens de 15 e 16 anos que declararam ter se embriagado nos 30 dias anteriores da pesquisa cair cerca de 25%, e os dos que fumavam ser reduzido em mais de 30%.

Há vários problemas no plano de ação islandês e a reportagem traz alguns deles, mas aqui me interessa apenas esta constatação de que o combo “família presente + fazer algo que se gosta” parece ser eficaz e suficiente a não apenas afastar os adolescentes das drogas, mas também lhes dar um sentido de vida num momento em que eles mais precisam de orientação. 

Isso não serve apenas para adolescentes, é óbvio. Se você se sente perdido na vida, entediado, sem vontade para nada, o remédio inicial pode ser precisamente essa combinação de procurar algo que se gosta para fazer e se aproximar da família e amigos, ao menos daqueles que você ama ou tem consideração.

Por que não aprender a tocar algum instrumento musical? Ou começar a treinar algum esporte qualquer? Que tal um curso de fotografia? Quem sabe começar a cozinhar? Coisas simples, hobbies mesmo, que jamais darão sentido integral à vida, mas são um bom começo a pelo menos lhe tirar desse estado de passividade, de letargia, de embrigado de preguiça, de drogado de tédio.

Se a isso você acrescentar o propósito de se relacionar de maneira mais próxima, constante e verdadeira com pais, familiares e amigos, não demora muito e você se pegará se sentindo muito mais forte para enfrentar a vida e seus problemas inevitáveis. E aí perceberá que a vida tem sentido quando você decide lhe dar um.

“Ah, mas não sei me aproximar das pessoas, da minha família”. Ora, você está nos Náufragos. É claro que podemos ajudar nisso também. Comece por estes 7 passos que o Jota dá para você entender seus pais. E qualquer coisa, já sabe, é só chamar no chat que tentamos ajudar no que estiver a nosso alcance. 😉

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Você não tem tempo para nada?

Você não tem tempo para nada, eu sei. O que você gostaria de fazer não cabe no seu dia. É o emprego que consome as energias ou os estudos que te impedem de fazer mais ou a família que toma seu tempo livre. Afazeres demais, compromissos diários, hábitos difíceis de mudar, cansaço, irritação, stress. E a vida parece que passa como um trem que nunca pára para você entrar.

Enfim, desculpas e justificativas não faltam para a aparente falta de tempo. E assim seus projetos e sonhos vão ficando para depois. Quem sabe quando você se aposentar? Haverá tempo daí? 

 

Mas não é preciso esperar ter tempo para ter tempo. Sempre há tempo quando queremos. Provavelmente você já deve ter lido e escutado isso zilhões de vezes de algum guru de auto-ajuda. Eles têm razão, ainda que apenas digam o óbvio embalado em discurso motivacional ou pseudo-filosófico.

Bons exemplos disso encontramos nas vidas de artistas. O sujeito que quer ser ator, pintor, escritor, músico, quase sempre sofre para conseguir se realizar trabalhando concomitantemente em outras coisas, muitas vezes vive de bico durante anos, só conseguindo se dedicar à sua arte nos intervalos, que ele tenta otimizar como pode. Vou dar alguns exemplos de escritores.

Ray Bradubry, conhecido autor de ficção científica, como o famoso Farenheit 451, trabalhava onde desse e quando desse. Em suas palavras: “Eu consigo trabalhar em qualquer lugar. Escrevia em quartos e salas-de-estar quando vivia com meus pais e irmãos em uma pequena casa em Los Angeles. Trabalhei na minha máquina de escrever na sala, com o rádio ligado e meus pais e irmãos falando ao mesmo tempo. Mais tarde, quando quis escrever Fahrenheit 451, ia à UCLA (Universidade da California) e encontrei um sótão que era um sala de máquinas-de-escrever em que se você inserisse 10 centavos na máquina você comprava 30 minutos do seu uso.” 

Anthony Trollope, autor inglês de inúmeros romances, trabalhava nos correios. Como ele arranjava tempo para escrever? Acordava às 05h30 da manhã e escrevia até às 08h30, com o relógio na sua frente. Ele exigia de si 250 palavras a cada 15 minutos. Se ele terminasse uma novela antes das 08h30, pegava uma folha em branco e começava outra. Depois das 08h30 passava o dia trabalhando nos correios. Além disso, ele caçava duas vezes por semana. Sob esse regime ele produziu 49 novelas em 35 anos.

Mas você pode estar pensando que nenhum deles teve mulher e filhos para cuidar. Então conheça como era a rotina de Alice Munro, vencedora do Prêmio Nobel de 2013: “Eu tinha filhos pequenos, não tive nenhuma ajuda. Foi na época em que não havia máquinas de lavar-louça, se você consegue acreditar nisso. Não havia como eu conseguir tempo. Não podia olhar adiante e dizer ‘isso vai me levar um ano’, porque pensava que a cada momento algo aconteceria e tomaria todo meu tempo. Então eu escrevia aos pedacinhos com uma expetativa de tempo limitado.” 

E ela ganhou o Prêmio Nobel assim. 

“Ah, mas são artistas, gente diferente, criativa”, sei que você está respondendo algo assim em pensamento. Mas não é isso que os fez realizar algo na vida. Substitua todos e qualquer um por algum vestibulando, concurseiro, estudante que precisa trabalhar para pagar estudos, e veja se não fazem sacrifícios semelhantes ou até maiores para conseguirem o que querem. Ou aqueles que acordam bem cedo ou vão bem tarde para fazerem academia, nadarem, correrem, tudo porque querem estar bem de saúde ou serem “fitness”.

O que explica todos conseguirem tempo para fazer o que querem é justamente possuírem um objetivo claro que realmente desejam alcançar, realizar. É isso que faz com que arranjem tempo quando parece não haver nenhum.

Ou seja, se você é deses que acha que não tem tempo para nada, é hora de parar para pensar na sua vida. Reserve meia-hora, pelo menos – pode ser durante o almoço. E se questione sobre seus objetivos. Será que você tem algum? Se tem, será que você realmente o quer? Dificilmente alguém que responde “sim” a ambas as perguntas tem problemas de inação e nunca culpa a falta de tempo, mas faz o possível para aproveitar o tempo que tem.

Agora, se você respondeu “não” a alguma delas, então, saiba, você poderia ter todo o tempo do mundo que ainda assim não arranjaria tempo para nada. Seu problema não é a falta de tempo, é a falta de objetivos.

E como fazer para ter objetivos? Aí é outro problema que falaremos em outros textos. O que dá para adiantar é o seguinte: se você não tem objetivos ainda, tome como objetivo fazer da melhor maneira possível o que tem para fazer hoje, tenha você escolhido isso ou não. Fazer as coisas bem-feitas já é ser e viver melhor do que reclamar da vida e da falta de tempo.

 

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Receita para encontrar trabalho

No caminho para o estúdio onde gravamos alguns vídeos aqui para o site, lá em São Paulo, chamou minha atenção uma mulher que montou uma padaria na calçada. Parecia jovem, estava sentada e à sua frente uma mesa montada com toalha simples, tendo vários tipos de pães e outras comidas que não consegui identificar, mais três garrafas térmicas (provavelmente café, leite e água quente).

Naquele momento não havia consumidores, ela estava compenetrada com seu celular. Na hora lembrei de uma reportagem recente do UOL sobre desemprego, contando a história de vários desempregados lidando com a situação de forma muito parecida. Dois deles me chamaram mais a atenção.

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A primeira tinha 47 anos e fazia três não conseguia emprego. Sem instrução e com experiência apenas em empregos de faxineira, babá, auxiliar, chorava ao responder as perguntas, por precisar depender dos outros até para comer. Uma fala sua me intrigou: 

“Fico pensando: por que é que eu estou no mundo, então, se eu não posso trabalhar? Não consigo um serviço, tenho que depender dos outros. Você se sente incapaz, esta é a palavra.”

O segundo tinha 24 anos, com mais recursos pessoais do que a primeira, mas com a mesma dificuldade de encontrar emprego e discurso semelhante a respeito disso: “Não era para estar assim. Um país tão rico como o nosso, a gente não vê expectativa de nada para ninguém, para quem é jovem, para quem é idoso. Estão tirando tudo, principalmente do trabalhador. Estão tirando todos os direitos da gente.”

Os demais, acredito, concordariam com ambos. Fiquei imaginando se aquela moça vendendo pão e café na rua pensaria assim também. E cheguei à conclusão que seria impossível. Sim, impossível. Se pensasse, jamais estaria fazendo o que estava fazendo. 

Para aquela moça, não faz o menor sentido se perguntar se ela pode ou não trabalhar, ela simplesmente decidiu trabalhar e pronto. Talvez tenha contado com ajuda, talvez estivesse ajudando alguém naquele momento, mas seja lá quem for que teve a iniciativa de montar aquela padaria na rua, correndo todo tipo de risco, especialmente da prefeitura proibir, decidiu não depender de ninguém e tentar ganhar seu sustento trabalhando como desse e pudesse.

Tampouco creio essa pessoa não veja expectativa. Se não visse, jamais teria se dado o trabalho de montar o que montou. E ainda que estejam tirando todos os “direitos da gente”, ninguém pode tirar sua iniciativa de tentar trabalhar por conta se não há quem lhe dê emprego no momento.

Por que não tentar? Por que não arriscar? E o exemplo da moça serve aqui: nem que seja vendendo cafezinho na rua. Não é preciso talento, estudo, experiência para começar.

E isso não serve apenas para desempregados ou quem não tenha maior qualificação, mas também para todos que se sentem encalhados na vida, sem perspectiva, perdidos por não saber o que fazer ou querer fazer na vida. Para todos que fazem uma faculdade sem qualquer ânimo. Para quem tem um emprego que não lhe dá realização. 

Não importa o muito ou pouco tempo que você tenha para começar algo. Ainda que não tenha tempo algum, aposto algum tempo dentro dessa falta de tempo você tem para imaginar algum negócio, desenhá-lo na sua cabeça, pesquisar meios de colocá-lo em prática. Para tudo isso, basta uma coisa só: iniciativa. A mesma iniciativa daquele moça na calçada vendendo pão e café.

O contrário da iniciativa é o que se vê em todo discurso de fracasso: transferência de responsabilidade, baixa auto-estima, vergonha, revolta e algum anestésico (bebida, novela, videogame etc) para suportar a vida.

Está difícil encontrar um emprego? Por que não se dar um trabalho, então? Qualquer um. Ao menos para começar.

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Por que me sinto paralisado na vida?

Todo mundo que dirige carro sabe como é quando se está aprendendo. Lembro que meu pai se irritava comigo porque para cada coisa que ele dizia para fazer eu precisava pensar enquanto fazia. Ele ficava puto porque para ele aquilo era intuitivo fazia uns 20 anos, não era preciso pensar, nem sabia mais pensar nisso, não saberia explicar por que seria assim ou assado. Como não pensamos nas pernas quando caminhamos.

Mas quando estamos aprendendo, ainda não é assim, e temos de fazer devagar, pensando, avaliando, tentando conter o temor e a insegurança.

Uma das coisas que meu pai ensinou sobre dirigir carros tem a ver com isso. Ele disse mais ou menos assim: “Se o sinal ficar amarelo e você está quase nele, não dá tempo de pensar: ou acelera e passa antes de vermelhar ou freia já e espera abrir de novo. Nunca avance desacelerando porque é aí que você nem vai nem fica e acaba atravessando no vermelho e a merda está feita”.

Aí fiquei pensando se isso não vale para a vida. O que fazer quando o sinal amarelo “acende”? Avançar com decisão, frear para avançar depois ou deixar como está para ver como é que fica?

Acho que o primeiro sinal amarelo que recebi da vida foi aos 17 anos, quando terminava o terceirão. Um dia chamaram na escola para ir falar com o psicólogo e fazer um teste vocacional para ajudar na escolha do curso universitário. Ali paralisei diante da cobrança de uma decisão de vida que eu não estava preparado nem queria fazer.

Ou seja, não sabia para onde ir.

Mas não freei para avançar depois de descobrir isso, nem avancei de fato, apenas deixei a vida seguir enquanto me ocupava de outras coisas. Resultado? Fui adiante por uns 15 anos nessa toada. Até não conseguir mais me enganar que eu sabia o que estava fazendo e tive de assumir que, desde aquele dia aos 17 anos, eu vinha vivendo sem rumo, sem sentido.

Era como se eu nunca tivesse saído do lugar, daquele ponto, daquela idade, daquele dia. Precisava frear, retornar por onde vim, reconhecer o itinerário da minha vida até ali para descobrir para onde ela estava me levando e, enfim, decidir se é para lá que queria ir mesmo ou se escolhia outro destino.

É com base nessa experiência, aliás, que digo que existe uma crise dos 20 anos, que pode começar ali por volta dos 17 ou até um pouco mais tarde, uns 23, depende de cada um, mas que certamente existe e é bem comum o jovem empurrar com a barriga porque nem parece que incomoda tanto assim. Foi assim comigo. 

Até que incomodou. E muito. Já não era mais como um novo sinal amarelo me alertando, era perceber que ele já estava aceso fazia tempo e ia mudar para o vermelho muito em breve. Foi a crise dos 30 anos se instalando.

Não raro quando não conseguimos mais nos distrair do tédio, do desconforto, do desgosto com a vida, da sensação de que o que se faz perdeu a cor, o sabor, é que a crise dos 30 anos aparece.

Em essência, é a mesma crise existencial dos 20, mas com características próprias que exige um cuidado diferente. Como depois virão outras se o sujeito não resolver encará-la de vez, como a chamada crise da meia idade”, que sempre digo que nada mais é do que a crise dos 20 anos retardada.

É por isso que quem não resolve essa crise dos 20, ou as que se lhe seguem, acaba se sentindo paralisado na vida. É uma sensação de estar com o carro encalhado, as rodas girando em falso e quanto mais você acelera, mais afundado o carro fica. E se isso dura muito tempo a sensação piora, porque aí parece que o carro encalhou numa areia movediça que o está engolindo aos pouquinhos, mas ESTÁ ENGOLINDO. A angústia só aumenta com o tempo.

Que fazer nessa horas? Acho que já respondi.

É preciso frear, fazer uma revisão geral, especialmente do itinerário da jornada feita até aqui para descobrir para onde você está se deixando levar e, enfim, decidir se é para lá que quer ir mesmo ou se escolhe outro destino.

Se fizer isso você voltará ao tempo em que começava a aprender a viver, que costuma ser concomitante à época em que aprendemos a dirigir. Aí lembre-se de ter paciência e perseverança, porque você não irá conseguir mudar do dia para noite. Muita coisa você faz por hábito, quase por instinto, e nem sabe mais por que faz assim e não assado. Será preciso experimentar não apenas o temor e a insegurança de quem precisa reaprender a viver, mas também a impotência, o ressentimento, o rancor e a culpa inevitáveis por estar vivendo errado.

Mas, saiba, vale a pena passar por isso. No fim, vale muito a pena!

Para lhe inspirar a tanto, deixo duas sugestões. Assista o filme “Mais Estranho que a Ficção” e leia a novela de Tolstói, “A Morte de Ivan Ilitch”. E já sabe, né? Isso, precisando de ajuda, é só chamar no chat. Se não estivermos online, recebemos a mensagem por email e respondemos assim que lermos. É para isso que Os Náufragos existe. 🙂

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