Autor: Francisco Escorsim

About Francisco Escorsim

Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

Quem não é Narciso nas Redes Sociais?

Acho que todos conhecem a história de Narciso, não? Apaixonado por suas selfies, nada mais fez de sua vida senão contemplar-se no instagram, até nele mergulhar e morrer.

Dizem que isso é mito, e muito antigo, coisa de grego. Só se for a parte do mergulhar e morrer porque, no mais, Narciso segue vivo, firme e forte, com o perfil ativo no facebook e em todo canto da internet. Narciso, hoje, é legião.

Uma de suas características principais, segundo o filósofo Louis Lavelle, que escreveu um livro a respeito, do qual tomei de empréstimo o título acima, é procurar mais aquilo que o agrada do que aquilo que ele é.

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Cientistas sociais, psicólogos, especialistas de toda ordem, estudam, pesquisam, analisam, teorizam, discutem, há tempos, o narcisismo e as redes sociais, terreno fértil para sua propagação, e seus estudos costumam demonstrar que muitos tendem a se sentir mal, tristes, sozinhos, depressivos, invejosos, quando vêem os amigos nas redes sociais publicando fotos de festas, viagens, férias, e por aí vai.

Claro, naquele momento, é mais agradável ser eles do que eu.

Parece coisa de adolescente, e é – Narciso, aliás, tinha dezesseis anos. Mas hoje em dia a adolescência esticada é um fato, e os dezesseis de Narciso devem equivaler aos quarenta e dois anos na atualidade, por aí. É uma epidemia, portanto.

Seria o caso de perguntar em que ponto o amor-próprio se torna doença, volta-se contra si mesmo. Mas acredito que quando se tornou mania publicar selfies logo que consumado o ato sexual (#AfterSex), ou sua variante a mostrar como ficou seu cabelo depois (#AfterSexHair), ou para mostrar sua roupa e expressão facial quando se está num funeral (#funeral), enfim, quando chegamos a tanto algo me diz que aquele ponto já foi ultrapassado faz tempo e falar de limites seria até interessante, mas tão produtivo quanto analisar o pênalti perdido por Zico na Copa de 1986.

Na verdade, embora quando se fale de narcisismo logo venha à mente vaidade, seu significado tem mais a ver com entorpecimento, que vem da origem grega do seu nome, narkhé. E é essa, parece-me, a marca registrada do narcisismo do nosso tempo, que já se fez antigo e pelo visto perdurará bastante. Estamos entorpecidos, narcotizados moral e espiritualmente, tanto que dá sono só de ler essas palavrinhas, como se a mera menção despertasse um fiscal chato com a única finalidade de estragar prazeres.

É proibido proibir, e beijinho no ombro a quem discorda.

No fim, o destino de todo Narciso é não ser amado, nem por si mesmo, e é essa dor que entorpecemos com nossa fabricada espontaneidade e rígido controle de qualidade da imagem que passamos aos outros nas redes sociais.

Como somos parecidos por lá, já reparou? Além de Narcisos, também somos Eco, a ninfa condenada pela deusa Hera a somente repetir o que os outros diziam, por ser muito tagarela. Ela se apaixonou por Narciso, mas não podendo expressar seu amor, terminou sendo rejeitada, isolando-se do mundo nas montanhas, onde se transformou em rochedo, mas continuando até hoje a ecoar, a repetir palavras que parecem, mas não são suas.

Por que mesmo você entrou na onda das selfies?  

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Perdi a vida que eu tinha, e agora?

Tragédias acontecem, é da vida. Uma doença incurável que você descobre sem querer. A morte repentina de quem te sustenta. Um acidente que te deixa inválido.

Mas nem precisa ser tão grave assim para parecer que arrancaram a vida que estava aqui. Por exemplo, uma demissão quando você tinha um plano bem estruturado de futuro condicionado ao emprego. O fim de um relacionamento que era “para sempre”. A traição de um amigo que torna impossível continuar amigo.

Ainda que você não tenha passado por nada disso – ainda bem! – e nem conheça alguém que tenha sofrido uma tragédia na vida, certamente sente medo de passar por uma situação dessas, ainda que você seja daqueles que acha que nunca aconteceria com você.

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Como lidar com uma tragédia?

Bem, comecemos pelo medo dela acontecer. Melhor remédio não há para isso do que se alimentar de arte. Por que será que em filmes, seriados, novelas, os dramas e tragédias costumam nos atrair tanto?

Mesmo nas comédias, repare, elas só têm “final feliz” porque houve superação de algum drama ou tragédia que aconteceu antes. Se não tem uma dificuldade a ser enfrentada não tem a mesma graça.

Uma das razões da nossa atração é que assistir uma tragédia tem potencial catártico para nossos medos inconfessáveis. Ou seja, materializa-se em imagens o que não conseguimos sequer pensar de tanto medo daquilo. Com isso pode vir a tal da catarse, que nada mais é do que “expulsar” esse medo pela vivência imaginativa da tragédia.

E isso também é educativo, claro, afinal, caso aconteça na vida algo que já vimos num filme, é como se já soubéssemos como é, temos uma noção do que irá acontecer dali por diante, às vezes até sabemos o que fazer.

Como tememos o desconhecido, quando ele passa a ser conhecido naturalmente o medo se torna menor. Faz sentido, não?

Então, quanto mais você se entupir de boa arte narrativa, ou seja, cinema, seriados, literatura, mais preparado estará para as adversidades da vida, para as tragédias que podem acontecer ou, no mínimo, para enfrentar o medo que elas aconteçam.

Mas é claro que “preparado” não significa garantido, seguro. Quando a tragédia acontece o sofrimento é tão avassalador que por mais “preparado” que se esteja sempre será algo novo, e único. O sentimento é de que a vida foi arrancada mesmo e tudo que se tinha antes, toda essa preparação, pouco parecerá adiantar num primeiro momento. É só depois, às vezes muito depois, que o sujeito consegue enxergar que ajudou, sim, mas não como ele esperava ou gostaria.

Eu falei em boa arte narrativa, mas até as ruins também podem ajudar. Darei um exemplo. No primeiro episódio da fraca série Os Defensores, da Netflix, tem uma cena que parece que quem escreveu foi um de nossos salva-vidas mais queridos aqui nos Náufragos: Viktor Frankl, o criador da logoterapia.

Acontece logo depois do Matthew Murdock – o Demolidor, mas aqui como advogado – vencer uma ação judicial que deu 11 milhões para seu cliente, um jovem que se tornou paralítico. Todos saem felizes do tribunal, mas Matthew percebe que o rapaz não está comemorando, pelo contrário, e pede para falar com ele: 

– Posso te dizer uma coisa? Aquele dinheiro vai realmente ajudar seus pais. Mas para você, daqui pra frente, só ficará mais difícil, Aaron. Você sabe que está no começo de uma maratona, certo? Todos vão lhe dizer como se sentir, pra ficar positivo, para não sentir pena de si mesmo, para não ficar com raiva…

– Já estou com raiva.

– De quem?

– De todo mundo. Só quero minha vida de volta

– Eles não têm como te dar isso. Talvez você volte a andar. Espero que sim. Mas talvez não ande. Mas a sua capacidade de superar isso enquanto fica cada vez mais difícil é 100x mais poderosa do que sorrir e fingir que está tudo bem. Entendeu? Ei, escute, ninguém pode devolver tua vida, Aaron, você tem de tomá-la de volta.

Ninguém pode devolver sua vida, você tem de tomá-la de volta.

É ou não é inspirador? Então, tenha você medo de perder a vida que leva, tenha você perdido a vida que levava, pare para pensar nisso que o personagem disse.

Além disso, quantos de nós não estamos paralisados na vida por medo de sermos derrotados por ela? Pois é. Mas aí já é assunto para outro texto… 😉

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Porque desistir não dá sentido à vida

A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio no mundo. A cada 3 segundos alguém atenta contra a própria vida. No Brasil, em números de 2012, segundo o Conselho Federal de Medicina, acontecem no mínimo 30 suicídios por dia.

A imprensa não costuma noticiar suicídios por supostamente isso acabar incentivando outros. Essa não é a opinião da classe médica, que considera isso não apenas um mito como crê o contrário: falar sobre suicídio ajudaria.

Nesta semana foi inevitável não falar sobre um suicídio. Patrícia Santiago, jovem, casada há pouco tempo, publicou no seu perfil no facebook um texto explicando por que iria se matar e se despedindo do marido e familiares. E cumpriu o prometido.

Quem lê o texto se espanta com a aparente banalidade do motivo: sua loja que iria abrir não estava ficando como ela desejava por culpa, segundo ela, da arquiteta e do responsável pela feitura e instalação dos móveis. O texto e suicídio são, em primeiro lugar, uma vingança de Patrícia contra ambos. 

Mas é claro que isso foi apenas a “gota d’água”. Patrícia sofria de depressão, fazia terapia, mas não suportava mais o sofrimento, estava desesperada e por causa desse desespero não viu alternativa de vida.

 

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O que leva alguém ao desespero?

Viktor Frankl, o criador da logoterapia, tinha uma fórmula matemática para expressar o desespero. Desespero é sofrimento sem um sentido (D=S-S). Ou seja, se você não encontra ou não coloca algum sentido no sofrimento que padece, o desespero será inevitável e o suicídio será questão de tempo.

Veja esse trecho dessa entrevista do grande Frankl, já retorno:

 

Voltemos à pergunta excelente da entrevistadora: se a pessoa já está em desespero, como essa moça estava, como ela conseguiria encontrar ou dar um sentido ao seu sofrimento? Frankl fala que a forma de se dar sentido ao sofrimento é transformando sua superação num triunfo pessoal. Isso implica aceitar o sofrimento, sua condição, sua imposição, as limitações impostas e ver no próprio ato de suportar a sua superação. O exemplo citado é inspirador. Aliás, em seus livros há centenas de casos parecidos e conhecê-los é consolador.

Se você está sofrendo agora, corra ler os livros dele!

Mas a teoria pode ser certa, verdadeira, linda, inspiradora, mas colocá-la em prática é outra coisa. Na realidade da vida, a pergunta é outra: como suportar o sofrimento?

Graças a Deus Frankl não era como Sartre, como disse na resposta. Não vinha com a conversa fiada da autoajuda de que “você precisa ter coragem”, “é questão de força de vontade”, ou algo assim. Afinal, como alguém extremamente fragilizado conseguiria ser heróico nessa horas? Impossível.

Para mim, é aí que Frankl se apresenta como um gigante. Assista mais um trecho dessa entrevista, volto depois:

 

A resposta do “como suportar o sofrimento” está dada aí de maneira singela e começa pelo passo mais óbvio:

Comece procurando ajuda.

Se é uma doença, consulte um médico. Se é uma depressão, psiquiatra e/ou psicólogo. É só depois do primeiro passo que o segundo se revelará. 

Agora, se a situação está como a da Patrícia estava, dando sinais de que poderia se suicidar, falando nisso para os outros, demonstrando desespero insuportável, apesar da terapia e com claros episódios de “surto” (como ao escrever este texto), então o passo mais óbvio depende de quem convive com a pessoa, de quem a ama ou tem por ela responsabilidade. 

É claro que quem sofre ao lado de alguém assim nem sempre consegue enxergar a situação com clareza ou, mesmo enxergando, não sabe o que fazer. É por isso mesmo que para esses cabe o mesmo primeiro passo óbvio citado acima: comece procurando quem possa ajudar. 

Nesses casos como o da Patrícia provavelmente a única alternativa fosse internamento, por conta da necessidade cuidado constante, muitas vezes por 24 horas, algo que só em hospitais seria possível.

Mas por que o suicídio pareceria uma solução melhor do que o sofrimento? Porque traz ao sofredor justamente aquilo que o desespero lhe tirou: a esperança.

O suicida espera que a morte seja o fim desse sofrimento, desse desespero. Por isso é bem comum acreditarem que ficarão melhor depois de mortos, como Patrícia que tinha fé de que se matando iria viver com Deus. Ela não tinha garantia nenhuma disso, tinha apenas esperança. Patrícia não via sentido mais no sofrer em vida, mas viu sentido em morrer na esperança de continuar vivendo sem dor depois. 

É na esperança, no fim das contas, que o sentido de tudo se fundamenta, tanto da vida como da morte.

Se o suicídio não fosse uma esperança ninguém o enxergaria como solução possível. Por isso, todo suicida é um doente da falta de sentido, não de esperança. E é apostando nessa esperança, não na morte, que podemos ajudar quem apresente ímpetos suicidas ou diga que quer se matar.

É por isso que suicidas precisam ser lembrados de que apesar de seu sofrimento sua esperança ainda existe e tem força suficiente para fazê-lo aceitar a dor e transformar o sofrer no próprio sentido do seu viver. Porque quando o sentido da vida nos falta, é na esperança de que o encontraremos que somos capazes de suportar a dor de não tê-lo ainda. 

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De quando Paulo Coelho salvou minha vida

Se o mercado de auto-ajuda fosse um reino, Paulo Coelho seria rei. Li os primeiros livros dele lá nos anos 90. E curti, confesso. Não entendia nada de nada de literatura, mas precisava de ajuda para muita coisa. 

Aí você me pergunta: e ajudou em alguma coisa?

Deixa eu te contar uma história recente que aconteceu comigo que acho você terá a resposta.

Dia desses voltei ao pesadelo que há mais de década não era forçado a viver: visitar repartições públicas. Apenas protocolizar uma petição, mais nada. Uma chancela mecânica, um carimbo, feito. Mas, eu disse repartição pública

Entrei, ninguém na fila e pensei: “Paulo Coelho tem razão, o universo conspira a favor”. Dirigi-me à periguete do guichê e ela:

-A moça do protocolo não está, hora de almoço, só volta às 14h.

Olhei o relógio, 13h15. Respirei fundo, pensando: “É uma repartição pública, não tente entender. Maktub”. Na margem do guichê eu sentei e chorei no whatsapp para minha esposa. E ali fiquei a observar, meditar, divagar.

Ninguém mais na sala. A periguete no seu celular, eu no meu. De vez em quando entrava uma libélula. Sim, uma libélula. Claro, eu era seu alvo preferido, exigindo toda minha ninjidez inexistente. Nunca ia pra cima dela, logo, só podia ser uma louca, uma deusa, uma feiticeira. Em outras palavras, uma valkíria.

Algumas pessoas apareceram, dirigiram-se ao guichê para fazer o mesmo que eu, só que como não trouxeram por escrito ela tinha de colocar a termo, ou seja, digitar o que falavam e protocolizado estava. E os vencedores iam embora, sem dar por mim, sem compaixão, sem um olhar de adeus.

13h34. Verônika decidiu morrer, mas eu, alquimista velho, aguardei alguns minutos e me dirigi à fulana do guichê:

Ela já chegou?

-Você viu alguém passar por aqui e entrar?

Respirei, agradeci, sentei. A libélula. Caí da cadeira. A puta riu. “Apenas protocolizar uma petição, mais nada”, sorri pensando, tentei fazer piada, ignorou-me. Desisti. Celular, timeline.

13h46. Sou brasileiro, tentei de novo: “Gostaria de fazer um protocolo.” Ela me olhou como a libélula:

-Ela ainda não chegou.

-Mas quero fazer como os outros, oralmente.

-É a mesma coisa que está escrita aí no papel?

-Nãããão, lembrei de outra agora.

Ela não chegou, pensa que sou trouxa?

Penso, pensei. 14h08. Uma senhora entrou, passou por mim, adentrou uma porta encantada e desapareceu. Não ousei.

14h15:

-Me dá aqui que ela chegou.

A petição retornou, só com um carimbo, nenhuma assinatura, mais nada, feito. “Quem deseja ver o arco-íris, precisa aprender a gostar da chuva.”, pensei saindo, com a luz do sol quase me cegando.

Lá fora, a libélula me esperava. Então me recordei do manual do guerreiro da luz. Dei com o livrinho na cara do bicho que caiu estatelado na hora, sendo atropelado por um ônibus. 

MORAL DA HISTÓRIA segundo Paulo Coelho: “Um guerreiro não tenta parecer; ele é.”

 

Carta Aos Meus Filhos

Curitiba, 13 de agosto de 2017.

Piás,

Não faço idéia de quando e se lerão esta carta aberta. Seja como for, sempre serão meus piás, ainda que fiquem mais velhos do que eu.

Hoje é o dia dos pais de 2017. Talvez eu não demonstre, mas é um dia complicado para mim desde que o vô Bortolo se foi. Uma das coisas que me doem é que sei que o passar dos anos vai apagando a infância da memória e seu avô será lembrado pelas fotos, não por ele. A vida é assim, infelizmente.

 

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Um dos meus arrependimentos é ter conhecido muito pouco de meus avôs, também de meus pais.

Acho que será diferente para vocês, afinal, nesse mundo digital eu nunca irei embora. Nem eu sei mais quantos textos e vídeos e áudios tenho espalhado por aí. E mal comecei…

Não é o ideal, eu sei, mas é mais do que tive com meus avôs e meu pai. Até hoje, piás, fico sabendo mais de seu bisavô Chico por pessoas que vêm me perguntar se sou parente dele.  Costuma ser gente simples, ascensoristas, porteiros, barbeiros, e por aí vai. Semanas atrás aconteceu de novo, agora pelo filho de um político da época. E de novo o mesmo depoimento: ele nunca foi político, mas um pai. É o que mais sei dele. Deus seja louvado.

Ainda hei de escrever um romance, aliás, em que o Manguinha Rosa será personagem. Ele era um anãozinho que vendia cocada e estava onde o vô Chico estivesse. E falava como se a garganta dele tivesse sido cortada. Era uma voz rasgada e esganiçada. No meu olhar de criança ele era o Tatu da Ilha da Fantasia do meu avô, seu Gimli, seu Tyrion Lannister. Enfim, seu braço-direito.

Do biso Zair sei um pouco mais da história, ele chegou a escrever um pouco dela, imprimiu, apostilou e distribuiu pela família. Tenho guardado, jamais me desfarei, estará no meu espólio para vocês, meus netos e quem mais vier depois.

O que gosto de me lembrar dele é mais pro fim da sua vida, quando ficou mais doce e criança. Tinha um livrinho de piadas, todas inocentes, contava direto, rindo antes de terminar. Ele gostava de ir tomar um trago num boteco perto da casa dele, quase todo dia, antes do almoço. Uma vez passei pela rua de carro só para vê-lo lá. Estava rindo, feliz. É a imagem que escolhi guardar na minha memória.

Não é meu avô, nenhum dos dois, mas poderia ser.

Não falarei de minhas avós e da de vocês hoje, por conta do dia, mas prometo escreverei também. Queria mais era falar do meu pai.

Não sei quem disse, mas acertou em cheio, ao afirmar que aprendemos a ser filhos quando nos tornamos pais e aprendemos a ser pais quando nos tornamos avôs.

O vô Bortolo de vocês era bem filho do meu vô Chico. Também não falta quem o considere como um pai. O que teve de clientes pro-bono como advogado não está escrito. Se continuei advogando, saibam, foi somente por esses clientes. Só por eles, nada mais. Porque sou filho do meu pai e neto do meu avô. E meu nome é um destino.

Uma das histórias que mais gosto do vô Bortolo é do que ele fazia quando chegava numa cidade nova para trabalhar como promotor de justiça. Ele jamais se recusava a atender o povo, fosse quem fosse. O que mais vinha era problema de família, especialmente pensão atrasada, violência doméstica.

Sabe o que ele fazia? O primeiro caso desses que aparecia ele chamava o policial militar que trabalhava no fórum e mandava buscar o devedor ou agressor. Sem ordem do juiz, sem pedido de por favor, era para trazer. Os policiais ficavam ressabiados, mas cumpriam a ordem. Nunca houve violência. Quando a porta do gabinete dele fechava só se ouvia a voz de trovão dando uma esculachada homérica no sujeito, que saía pisando macio e falando manso, com a dívida paga e a certeza que se batesse na mulher de novo haveria quem tomasse as dores.

Resultado? Na primeira semana de trabalho fazia fila no fórum de gente querendo ser atendida por ele. E outra de gente acertando suas contas. Em pouco tempo diminuía os processos e muita coisa se resolvia numa conversa no gabinete dele. Os juízes adoravam. A cidade mais ainda.

Uma vez, muito anos depois, com ele já advogado, estávamos indo trabalhar numa cidade próxima daqui e falávamos não sei bem do quê, provavelmente de algum caso de corrupção do Judiciário, quando ele me disse o clichê mais verdadeiro: “um homem de valor não tem preço”.

O carro passava pelo museu do mate, lembro bem. Era começo da tarde, aquele calor entediante, de preguiça contagiante. Ele falou sem querer me dar lição de moral, ensinar, nada disso. Apenas disse o que realmente acreditava, quem ele realmente tentava ser e era. Aquela frase saiu menos da voz dele do que de toda sua personalidade.

E é isso que tento ser para vocês, piás: alguém de verdade, por isso imperfeito. Não quero ser seu super-homem, o modelo de homem ideal, este é Nosso Senhor Jesus Cristo, nenhum outro.

Sou aquele que vocês escutam dizer “obrigado” e “de nada”, “por favor” e “com licença”, mas que xinga pateticamente no trânsito; que deixa o escritório essa zona que vocês vêem e enlouquece sua mãe de vez em sempre; que parece largar vocês para trabalhar o tempo todo, ainda que seja para vocês que eu trabalhe; que promete mil e umas coisas e parece que não cumpro nunca, mas, saibam!, jamais me esqueci das promessas e quando vocês menos esperam, eis-me aqui.

 

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Se vocês precisarem de ajuda comigo, aviso que essas dicas do tio Jota funcionam. No mais, dêem graças a Deus por vocês terem a mãe que tem, ela dá conta de nós três e só posso tentar ser quem sou porque ela está sendo quem ela é para vocês.

Enfim, o dia é dos pais e vocês já me deram presentes, cartões e sinalizadores atirados na noite do videogame como se fossem fogos de artifício a comemorar esse dia. Agora vocês estão aí a brincar com carrinhos enquanto eu escuto Thin Lizzy escrevendo esta carta. Ainda bem isso consegui deixar de legado desde já, aliás: it’s only rock’n roll, but we like it.

É até engraçado quando penso no quanto escutarmos músicas assim nos tornam próximos. Não sei se vocês sabem, mas o vô Zair arranhava um violão. Sempre sorrio lembrando do esforço dele para tocar uma moda qualquer, mordendo os lábios e concentrado como um xadrezista. E o vô Chico, então, que curtia aquelas músicas breguíssimas que vocês descobriram nos vinis guardados na casa da vó? Aliás, até pouco tempo atrás eu achava que um dos vinis, um dos compactos com “Coração de Melão, de melão, melão, melão; coração”, era ele quem tinha gravado, meu pai quem disse quando eu tinha uns 10 anos. Fui trollado pelo vô Bortolo na infância, vejam vocês.

O vô Bortolo que nos últimos anos adorava comprar umas coleções de CD’s e DVD’s de música. Tenho um de Blues aqui que é sensacional. Peguem quando quiserem. E é igualmente engraçado imaginar meu pai escutando essas músicas e tentando manter o ritmo batendo palmas. Ele era péssimo em bater palmas durante músicas e danças. Rio só de lembrar. Talvez vocês consigam lembrar também, era comum.

E cá estamos a criar nossa própria tradição musical familiar. É só rock’n roll, mas só menospreza quem é ruim da cabeça e saudável no pé. Espero vocês nunca percam o cd do AC/DC que ganharam de Natal e que o Henrique escuta tão alto que os vizinhos devem achar que somos malucos. Se vierem reclamar, responderei: you’ve been THUNDERSTRUCK!

Estou alegre, filhos, inclusive quando lembro do vô Bortolo, he is never out of town. Aliás, esse vídeo abaixo é do show em tributo ao Phil Lynott, vocalista, baixista e compositor da banda. Gary Moore, grande parça do Thin Lizzy, comandou as coisas. Mas Gary também morreu já e o que era tributo para um fica sendo também para outro agora.

 

E só agora percebo que essa carta é isso também, um tributo aos pais que tivemos, piás. Só estou no comando das coisas por enquanto, mas logo será a vez de vocês com os seus filhos e eu espero deixe para vocês histórias assim para contar para eles, como a do dia do meu casamento, quando na hora de dizer “Eu, Francisco”, troquei meu nome pelo da mãe de vocês.

Melhor terminar essa carta antes que escreva mais besteira. Vocês já me zoam demais sem precisar de minha ajuda. Amo vocês, piazada, não importa o que façam com suas vidas. Só nunca esqueçam: um homem de valor não tem preço. Foi meu pai quem me ensinou.

Sabe aqueles momentos em que você se pergunta: “era isso que eu deveria fazer da minha vida?”

Então deixa eu te contar a história de Albert Hammond.

Talvez você não o reconheça pelo nome, mas certamente já deve ter ouvido alguma de suas músicas, como a sua mais famosa:

Poucos sabem, mas nesta música ele conta a história de sua vida até aquele momento, em 1972.

Albert nasceu em 1944, em Londres, mas ainda recém-nascido foi para Gibraltar com seus pais, onde desde pequeno já sabia que tudo o que queria na vida era ser músico.

Foi por volta dos 18 anos – época em que a crise dos 20 começa a dar sinais de dor – que tomou uma decisão difícil em qualquer circunstância: abandonar a escola e arriscar realizar seu sonho de ser músico.

Mas viver de qualquer arte, ao menos no início, costuma ter um preço inevitável: a pobreza.

Não foi diferente com ele.

Tentou a sorte na Espanha, mas praticamente se tornou um mendigo por lá, obrigando-se a esmolar nas estações de metrô para ter o que comer, pois não queria pedir ajuda a seus pais, temeroso fossem buscá-lo e impedi-lo de continuar tentando.

Um belo dia, porém, seu primo que estava em lua de mel o reconheceu, ameaçando contar tudo aos pais. A angústia consequente foi registrada por Albert nestes versos da música:

Você dirá ao pessoal lá de casa que eu realmente consegui?

Tenho ofertas, mas não sei qual delas aceitar?

Por favor, não conte como me encontrou

Não conte como me encontrou! Dá um tempo!

Mama, dá um tempo!

Mas o primo contou. E seu pai, bem, seu pai não só lhe deu esse tempo, como todo o apoio necessário para perseverar, tornando-se o maior fã do filho, segundo palavras do próprio Albert.

E assim, com banho tomado, roupas novas, algum dinheiro no bolso e a segurança de quem se sabe amado, Albert seguiu em frente e, aos poucos, foi conseguindo realizar seu sonho.

Integrou os Diamond Boys, lançando um single pela Parlophone e um EP pela RCA. Logo depois, a banda se desfez e Albert foi para a Inglaterra, onde conheceu Mike Hazelwood, com quem iria compor e gravar vários hits futuros. Mas, até ali, tiveram apenas relativo sucesso local.

Surgiu, então, a grande oportunidade: um musical em Hollywood.

Na noite anterior à partida para os EUA, num quarto de hotel em Londres, Albert contou a Mike sua história de vida, levando ao início da composição de It Never Rains In Southern California, só terminada em Los Angeles, onde nada do que esperavam aconteceu.

O musical não saiu do papel e foram sendo rejeitados por todas as companhias musicais a que recorriam. As estrofes restantes da música falam exatamente disso:

Embarquei num avião 747

Não pensei antes de decidir o que fazer.

Toda aquela conversa de oportunidades, aparições na TV e filmes,

Soaram verdadeiras, claro que soaram.

Sem trabalho, não tenho cabeça pra nada.

Sem autoestima, fico sem pão.

Sou mal amado, mal alimentado.

Quero ir para casa.

E assim, ao chegar ao famoso refrão, com a sempre ensolarada Califórnia coberta por uma tempestade incessante, não parece haver outro significado ao símbolo escolhido senão o da rejeição inesperada, mas reiterada e aparentemente definitiva:

Parece que nunca chove no sul da California

Parece que sempre ouvi dizerem isso

Nunca chove na California, mas, garota, nunca te alertaram?

Chove demais, cara, chove demais.

Mas quem quer que tenha escutado a música sabe perfeitamente bem que não é esse sentimento de frustração que a música transmite, muito pelo contrário.

Não há tensão, tristeza, angústia ou temor do futuro, apesar da letra. Ao contrário, estamos diante de uma celebração da esperança atendida, da satisfação serena e tranquilizante de quem já venceu.

Ou seja, é o significado inverso. A Califórnia encontrada não era a terra afortunada que haviam lhe contado, sempre acolhida pelo sol, mas um deserto árido e esterilizado que a chuva torrencial vinha, seguramente, restaurar.

E, de fato, foi o que aconteceu.

A CBS Epic deu-lhe uma chance, através de uma sua divisão recém-criada, a Mums, e a primeira música de trabalho, claro, não poderia ser outra, com sucesso imediato, não apenas nos EUA, mas no mundo inteiro.

A partir dali o resto de sua história seria mais do mesmo nesse mundo do pop-rock, não decidisse Albert, anos depois, desistir de gravar discos e fazer shows, mantendo-se apenas como compositor.

Ué, para quem parecia não querer nada mais desta vida senão exatamente o que havia conquistado, eis algo surpreendente, não? E intrigante.

Mas fácil de entender aos simples de coração.

É que depois de passar a década de 1970 trabalhando o tempo todo em duas carreiras, compondo e cantando tanto em inglês como em espanhol, Albert se deu conta de que suas duas filhas estavam crescendo sem a sua presença, coisa que ele não queria também acontecesse com Albert Hammond Jr., recém-nascido em 1980.

Adivinha quem são?

Foi quando se perguntou: “era isso que eu deveria fazer da minha vida?”

Decidiu, então, ser antes um pai melhor, depois o compositor generoso que viria a contribuir para o sucesso de inúmeros artistas como Julio Iglesias, Rod Stewart, Barry Manilow, Dolly Parton, Celine Dion, Dionne Warwick, Air Supply, Bonnie Tyler, Hank Williams Jr., Agnetha Faltskog (do ABBA), Phil Everly, Bill Medley, K.D. Lang, e a lista é interminável.

Só para citar com links algumas de suas composições mais famosas na voz desses e outros, e que certamente você já deve ter escutado, escute essas:

The Air That I Breathe (The Hollies, Simply Red), I Need To Be In Love (Carpenters), Nothing’s Gonna Stop Us Now (Starship), I Don’t Wanna Live Without Your Love (Chicago), Through The Storm (Aretha Franklin & Elton John), Don’t Turn Around (Aswad, Neil Diamond, e Ace of Base), Give A Little Love (Ziggy Marley & The Melodymakers), It Isn’t, It Wasn’t, It Ain’t Ever Gonna Be (Whitney Houston & Aretha Franklin), Don’t You Love Me Anymore (Joe Cocker), One Moment In Time (Whitney Houston), I Don’t Wanna Lose You e The Way of the World (Tina Turner), When You Tell Me That You Love Me (Diana Ross), Careless Heart (Roy Orbison) e Smokey Factory Blues (Johnny Cash)

Não é pouca coisa, né?

Enfim, Albert só voltaria a lançar um disco seu e a fazer shows em 2005, mais de vinte anos depois do último. E veja você, fez justamente a pedido do filho que reclamava nunca ter visto o pai no palco!

Durante todos esses anos a família viveu uma vida mais comum do que se imagina, com Jr. mal percebendo o que o pai fazia. 

Tanto que lá pelos 10 anos saiu encantado de um musical em Londres sobre Buddy Holly, Jr. dizendo: “Uau, Buddy Holly escreveu músicas e as cantou e eu quero fazer isso!”

Mas veja você como é a vida: quarenta anos depois de Albert ter desistido da escola foi a vez do filho passar pela mesma crise dos 20 anos.

Junior cursava faculdade há mais de ano quando decidiu abandoná-la para, adivinha? Claro, apostar na carreira musical! Ele integra até hoje a banda The Strokes, famosa no mundo do indie rock.

Mas, tal como o pai no passado, temeu pela reação paterna, só tendo coragem de contar sua decisão umas três semanas depois de tomada. Ouviu, então, como resposta:

“É claro que você tem de seguir com a banda! A faculdade pode ser feita depois.”

Albert não só apoiou como ajudou financeiramente no lançamento do primeiro, e espetacular, disco da banda.

Eu sorri, e você?

O filho, em entrevista conjunta com o pai ao Guardian, anos depois, revelou brincando que a “culpa”, no fim das contas, era do pai: “Ele ficava me contando todas aquelas histórias”.

E Albert concordou e rindo contou uma delas:

“Uma de minhas primeiras apresentações foi num clube de strip-tease, no Marrocos: 22 belas mulheres tirando a roupa em volta de mim enquanto eu cantava músicas de Johnny Cash. Eu tinha 16 anos. Contava histórias assim para ele. Acho que quando ele me contou que queria ser guitarrista não fiquei muito surpreso.”

Não só histórias assim. Em outra entrevista, agora ao The Independent, Albert revelou mais de como era como pai, como homem:

“Quando meu filho era pequeno eu costumava colocá-lo no colo e cantar para ele. Eu sempre tive esperança de que ele se lembraria desses momentos, então eu aproveitava para dar pequenos conselhos entre as canções. Eu costumava dizer-lhe para sempre ser um bom menino, porque quando você é bom para as pessoas, outras serão boas para você. O mundo é geralmente um bom lugar, mas seria ainda melhor se nós fossemos um pouco mais bondosos uns com os outros.”

Singelo, não?

Como é It Never Rains In Southern California, como só pode ser o próprio Albert Hammond, o que me parece tornar todo seu sucesso, nunca perdido, mais os prêmios e mais prêmios ganhos, até a Ordem do Império Britânico (como Officer) e o ingresso no Hall da Fama dos compositores em 2008, algo menor.

Fico mais, bem mais, com sua alegria de pai de família, de homem simples, humilde, bom, que realizou sua vocação de pai e músico. Uma alegria que se vê estampada em seu rosto com facilidade, como se vê nesta gravação ainda recente, de junho ou julho de 2014:

Então, toda vez que você parar e se perguntar “era isso que deveria fazer com minha vida?”, sentindo que realizou pouco ou que falta algo mais, lembre-se de Albert Hammond.

Às vezes o que falta é o que já se tem.  

 

 

300 milhões de razões para falar sobre depressão

Mais de 300 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde. É possível você seja uma delas, ainda que não saiba ou se recuse a admitir. Já é considerada a maior causa de problemas de saúde e de incapacidade, aliás.

Quem manja dos paranauês psicológicos aqui é o Jota, mas lá se vão uns 8 anos dando aulas particulares e tive de aprender a lidar um pouco com a depressão também, não me faltaram alunos padecendo dela. E aprendi muito com eles. Por exemplo, só fui entender mesmo o que era a depressão quando um deles me disse:

“Sabe aquele ditado do otimista e do pessimista diante de um copo com água pela metade? O otimista fica feliz por estar meio cheio, o pessimista fica triste por estar meio vazio, mas sabe o que um depressivo acha? Que a vida é uma merda.”

O que entendi? Que não adianta tentar animar um depressivo, muito menos convencê-lo que ele precisaria fazer isso ou aquilo. Se quiser realmente ajudá-lo, vai demorar a obter algum “sucesso”. Por isso, nem comece se não for para se comprometer de verdade com ele. Se for para abandonar no meio do caminho, melhor deixá-lo como está. Perseverança é tudo, por isso, haja paciência, muita paciência, mais um pouco de paciência e, por fim, ainda mais paciência.

Para ajudar um depressivo você precisa começar pelo óbvio: escutando o que ele tem a dizer. Esqueça soluções possíveis, ainda que funcionem e sejam o que ele realmente precisaria. Apenas escute, tente conversar, sem querer “curá-lo” nem nada. Todo depressivo tem uma rica vida interior, acredite, e defende essa interioridade com unhas e dentes. Ele não se abrirá facilmente, só fará isso com quem se sinta seguro. Por isso demora. É preciso passar por inúmeros testes de confiança para que se convença que você tem interesse real por ele, não porque sua depressão está atrapalhando você ou outros.

Em outras palavras, você precisa se tornar um amigo. Daqueles que não importa o que o outro faça, estará ali por ele.

A primeira causa da depressão, a mais importante de todas, é a solidão.

Mas, prestenção!, a solidão de que falo não é qualquer uma, é aquela que você sente por mais que tenha namorado(a)(x), amigos, familiares, colegas. Aquela que se impõe como uma prisão quando você percebe que todos à sua volta só estão ali por hábito, por estar, não tem real interesse por você, não lhe prestam atenção de verdade, não se importam de verdade com o que se passa com você.

A depressão, em verdade, começa por ser uma derrota para essa solidão, uma aceitação que faz com que doa menos não desejar mais nada. Mas aos poucos a depressão se torna a própria fortaleza da solidão, não deixando mais ninguém “entrar” porque a mera possibilidade de sofrer de novo parece pior do que ficar como está. É o famoso “tá ruim, mas tá bom”.

É por isso que depressivos costumam criar um mundo à parte (“a vida é uma merda” é isso, no fim das contas), adoram ficar no seu quarto, na sua cama, costumam ter uma relação quase religiosa com certas músicas tristes, filmes, seriados, livros, personagens que lhes são significativos demais, os verdadeiros amigos, a única coisa que lhes impede de ficar pior. Mas também as distrações e anestesias da solidão tem vida útil e quando acaba o efeito, que fazer?

É aí que está o segredo do sucesso de um seriado como “13 Reasons Why” num mundo com 300 milhões de depressivos e sabe-se lá quantos mais que convivem com um. O que esse seriado mostra, no fim das contas, é justamente esse mundo interior de uma menina depressiva que se sente profundamente só e chegou no seu limite (prestenção!, no limite dela, não no que você acha deveria ser o limite dela), aquele em que a fortaleza se transforma em pena de morte inescapável: o suicídio. 

Por que o seriado incomoda tanta gente, considerando uma “defesa” ou incentivo ao suicídio? Porque a perspectiva da narrativa é quase toda da menina, das suas razões para tanto, sem julgá-la. Seria isso incentivar ou justificar? Surgiu um pesquisa recente dizendo que sim. É provável mesmo, assim como também é perfeitamente possível tenha ocorrido o oposto, ou seja, quem tenha desistido disso por ver o seriado.

Como lidar com esse seriado, então? 

Ver ou não ver? Deixar ver ou proibir? Ora, da mesma forma que se deve lidar com todo e qualquer depressivo: dando-lhe ouvidos. Por isso, para mim, a pior reação possível é dizer que o seriado “não deveria existir”, “a netflix deveria tirar do ar”, “proíbam seus filhos adolescentes de ver” e por aí vai. Quem diz isso não percebe que ao agir assim está dando mais uma razão para o suicídio da menina, porque isso daí não revela nenhuma preocupação por depressivos e suicidas potenciais, apenas medo deles, do que eles podem fazer. (Sem contar que é uma estratégia estúpida, afinal, o proibido é sempre “mais gostoso”)

Aposto que aqueles que se identificaram com a menina verão nessa atitude de censura ou boicote justamente a confirmação das razões apontadas pela personagem: no fundo, ninguém quer “ver” a realidade, “saber como é”.

Nessas horas me lembro de Chesterton quando disse que as crianças têm de saber sobre dragões não para saber que existem, mas para saber que podem ser derrotados.

Por isso prefiro atitude diversa. Se dermos ouvidos à menina, o que ela está dizendo? Que estava só, profundamente só. Que ninguém lhe prestava atenção. Se alguém tivesse sido seu amigo de verdade, será que ela teria chegado a tanto?

Creio que não. Isso não significa concordar com suas razões, ou o julgamento que ela fez de quem não foi seu amigo ou até inimigo. Não se trata aqui de encontrar culpados, mas de reconhecer uma realidade humana, escutando quem a está vivendo, compreendendo, no fim das contas: ela não teve amigos, estava profundamente só, a depressão foi se instalando, consolidando, tornou-se uma fortaleza até se estreitar ao tamanho de uma banheira.

Tive uma aluna que sofre de depressão que me pediu para assistir esse seriado. O psicólogo dela a proibiu de ver, logo, ela viu e queria saber minha opinião. Ela esperava um debate intenso comigo sobre culpa, justiça, vingança, a maldade alheia, buscava uma justificativa para sua depressão, para o que ela desejava fazer e não ousava dizer em voz alta.

Mas só fiz essa mesma pergunta acima: e se alguém tivesse sido amigo dela? Só então ela se deu conta que não tinha amigos de verdade, só conversava de verdade com o psicólogo (não mais depois dessa, claro) e comigo.

Perguntou-me, então: como se faz amigos?

Se tivesse receita não haveria depressão no mundo, mas dei uma sugestão: interesse-se você pela vida de quem você já conhece e veja o que acontece. Mas se interessar de verdade. Ou seja, tentasse ela ser um remédio para a solidão alheia, quem sabe assim não encontraria algum para a dela?

O fim dessa história? Quem disse que solidão tem fim? Ela mudou de psicólogo, aproximou-se mais de uma prima com quem tem boas chances de criar uma amizade real, tem saído mais de casa, mas continua com depressão. Como disse, é preciso paciência, muita paciência e depois, mais paciência.

Mas o melhor sinal que ela está melhorando é que ela preferiu rever “Anne With an E” a “13 Reasons Why”. Por quê? Segundo ela, porque enjoou de ser Hannah Baker (a suicida de 13…) e Anne lhe dá razões para querer viver, não apenas se lamentar.

Qual o remédio para a solidão?

Desde que iniciamos esse projeto para náufragos fiquei com a tarefa de escrever algo sobre solidão. A idéia era fazer algo no estilo “10 coisas que você precisa…” etc. Sinto muito, não consegui.

Por mais que sejamos bem sucedidos em evitar a solidão, nos distrair dela, no fim das contas ela sempre vence. Refiro-me à solidão inescapável, aquela que a morte de um ente querido nos deixa por herança.

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Outra coisa que era para eu fazer nesse projeto: deixar para falar da morte mais à frente. Sinto muito, não consigo. Porque se é para falar de solidão, não dá para deixar a morte para depois.

Ainda mais quando é justamente a memória da morte o remédio da solidão. Quer ver?

Peço um favor, contudo. Este post exige trilha sonora. Então, clica aí no play e segue lendo. Depois explico por que esta música.

Eu tinha 15 anos, era madrugada de verão, em janeiro. Ainda dormindo escutava as batidas em janelas, paredes e portas da casa de madeira da praia. Era uma de minhas tias anunciando. Lembro bem, muito mesmo, de despertar sem despertar.

Eu a escutava, mas me sentia paralisado, como se algo impedisse de ser eu a receber a notícia. Não sei quem levantou, quem abriu a porta, quem escutou primeiro, provavelmente meu pai. Para descobrir que o pai dele tinha falecido havia pouco, em Curitiba.

Lembro da estrada, eu sentado atrás dele, dirigindo, cabeça colada à janela, mirando as estrelas e o silêncio, calado por dentro. Lembro do caixão, das mãos cruzadas do meu avô. Lembro do beijo do meu pai no pai dele, inédito para mim.

Lembro de voltar à vida, sem saber como lidar com a morte. Eu tinha 16 anos.

No ano seguinte um colega de classe escalava uma montanha. Um menino que estava junto se desequilibrou e cairia, não fosse o Fabio. No repuxo, foi ele a morrer. Lembro da segunda-feira no colégio. Lembro do psicólogo da escola dando a notícia, a professora de inglês chorando, nós todos estupefatos. Lembro do ônibus, na ida e na volta do cemitério. Lembro de voltar à vida, tentando e conseguindo não pensar sobre a morte.

Um ano depois foi a vez da minha avó materna. Eu já estava na faculdade. Chegando em casa meu pai me contou. Fui com ele buscar meus irmãos na escola e dali para a casa dela. Tias e minha mãe rezavam dentro do quarto. Ela na cama, amparada no colo de meu avô, que só fazia chorar e lhe dar carinho no rosto e cabelos. Lembro do rumor das rezas, do desespero de meu avô, da cena tão bela quanto meu pai beijando seu pai. Lembro da poltrona vazia na sala de ver TV, lembro do meu avô seguindo em frente, menos coronel, mais avô. Lembro de voltar à vida de novo.

Outras tantas mortes se seguiram, avós e tia de minha esposa, primos queridos, pais de amigos, conhecidos etc., nem sei em que ordem, data, essas coisas, mas lembro. Chegou a vez do meu avô materno. Lembro da comoção de minha mãe, lembro do cemitério cheio, lembro de já não achar nada demais na morte, tinha meu filho.

Minha avó paterna resistiu bastante tempo, sofreu com o câncer. Lembro de fazer questão que meu filho visse o caixão. Lembro de passear com ele pelo cemitério, tentando explicar, inútil. Lembro dele comendo pipoca doce, aquela do pacote rosa, dele colocando sorrisos em rostos nublados. Lembro do fim, da hora de ir embora, lembro de não querer pensar na hipótese de meu filho morrer antes de mim. Lembro de ter certeza de que não suportaria.

Poucos anos depois a morte mais próxima. Entre adoecer e morrer, uma quaresma. A morte vem inteira, depois aos poucos. Lembro de termos conseguido levantá-lo da cama, ao menos para ver os netos. Lembro do meu caçula ser o primeiro a dar um abraço, sem estranhar o cheiro da morte, tão assustador para as crianças. Lembro de ouvir o sussurro do meu pai: “obrigado”.

Lembro dos médicos alertando, diversas vezes, “difícil passar dessa noite”, lembro de ter me despedido algumas vezes, lembro dele seguidamente passar daquelas noites. Lembro do absurdo da negativa do plano de saúde, dos trezentos e sei lá quantos mais mil reais, impagáveis, juntados em poucas horas para garantir internamento no Sírio Libanês. Conseguimos, e ele, que a tudo assistia, impotente, conseguiu dizer: “obrigado”.

Lembro de trabalhar no chão da UTI, lembro da picanha em plena UTI no dia do aniversário. Lembro que nunca vi minha mãe tão frágil e tão forte, tão mãe, e ela nem desconfiava. Lembro de Santa Luzia, da novena que tantos fizeram e que se não trouxe a cura o deixou forte suficiente para voltar a Curitiba, onde teve forças para, em meio ao calor insuportável, pedir cerveja, do que rimos, apenas rimos.

Lembro que só o vi chorar uma vez, quando na primeira UTI, mãos dadas comigo e minha mãe, ela lhe perguntou: “você tem medo por que não sabe como ficarão seus filhos, não é?”.

Ele ajudava demais, porque ele era assim, porque nós precisávamos demais. Lembro do telefonema, da mãe acordando assustada às 3h, lembro de não precisar dizer nada, lembro de só abraçá-la. Lembro de beijá-lo, como um dia ele fizera com seu pai. Lembro de enterrá-lo, como se isso fosse possível.

Lembro que quando sepultamos o pai do meu pai a árvore próxima ao túmulo me chamou a atenção, bem frondosa. Sim, essa que aparece desfolhada atrás do meu caçula na foto em destaque. Lembro que escrevi a maior parte deste texto num dia de finados, dia de lembrar e deixar doer a solidão da perda. Lembro do céu tão ou mais cinza que no dia daquela foto. Lembro que não fui ao cemitério no dia dos mortos, antecipando-me, como a morte fez com meu pai.

Lembro de ter ido com meus meninos, minha esposa, minha mãe. Lembro que chovia, lembro que faltavam as flores encomendadas, lembro da minha mãe preocupada se seriam colocadas para o dia “certo”. Lembro que, na saída, minha esposa me disse: “quando você se for trarei chocolates”. Lembro que rimos, o combinado é eu ir antes. Pelo histórico familiar, é provável.

Lembro que semanas depois da morte do meu pai soube da história de Warren Zevon, o cara da música que estamos escutando. Quando descobriu que tinha um câncer incurável decidiu gravar um último disco, The Wind. Ele morreu duas semanas depois de lançá-lo, em 2003. Descobri a história por conta da última música do disco, cujo clipe – esse mesmo – assisti sem querer.

Nela ele pede para que os seus se lembrem dele um pouco mais depois que ele se fosse.

Não sei por que associei essa música a meu pai, mas sempre que vou ao cemitério a escuto de novo. Gosto de imaginá-lo pedindo algo assim, acho que pede.

Lembro que dias depois daquela ida minha mãe foi ao cemitério sozinha. Acertou as contas com quem cuidava da lápide, floristas etc. Na saída, o rapaz que sempre cuidou de tudo, mesmo não recebendo, veio correndo lhe dar um vaso com duas orquídeas lindas. De presente. É claro que foi meu pai.

Eis o remédio para a solidão.

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Como descobrir a sua vocação?

A vocação costuma se tornar um drama quando chega a época de definição da vida profissional. Aquela época em que precisamos escolher se fazemos vestibular ou optamos por um curso técnico; se já começamos a trabalhar de uma vez ou, então, desejamos sair viajando pelo mundo para ganhar experiência de vida; será que é hora de casar ou comprar uma bicicleta? Dependendo da escolha do filho, como, por exemplo, querer ser músico, muitos pais dirão: “Filho, primeiro garanta seu sustento, depois você faz as coisas que você gosta”. E nessa frase está condensada todos os equívocos vocacionais que padecemos: olhamos para a vocação como se fosse uma escolha de rumo profissional ou descoberta de algo que gostamos de fazer.

Nem uma coisa, nem outra.

E não há melhor exemplo para provar isso do que a vocação de pai e de mãe. Creio ninguém contesta que paternidade e maternidade são vocações, certo? Afinal, não costumamos dizer, quando vemos uma mulher que recém se tornou mãe dando conta do recado, que ela “nasceu para ser mãe”? Ou quando vemos uma jovem cuidando de crianças não dizemos: “você tem vocação para ser mãe”? Pois, então, se ser mãe é uma vocação, isso basta para corrigir o equívoco de considerar a vocação como uma profissão, muito embora várias profissões caibam nessa vocação como, por exemplo, babá, cozinheira, motorista, doméstica, enfermeira e por aí vai.

É óbvio que não é possível reduzir uma mãe ao conjunto dessas profissões, ela sempre será mais do que isso.

Isso serve para mostrar que a relação entre vocação e profissão é próxima, sim – o que explica muitas vezes confundirmos uma com a outra -, mas não se confundem uma na outra. O mesmo exemplo da vocação de mãe também serve para corrigirmos o equívoco de achar que vocação é fazer algo por prazer.

É muito mais do que isso…

Quem quer que tenha visitado um casal nos primeiros meses de vida do seu filho já passou por essa experiência, saindo dizendo para si: “se é pra viver assim, nunca vou querer ter filho!”. De fato, pode assustar. A casa virada do avesso, pais mulambentos, com poucas horas de sono, desgastados, sem vida própria, fazendo tudo em função do filho. Como achar que isso é prazeroso? Imagine acordar toda madrugada para trocar fralda cocozada, roupa de cama molhada, dar de mamar etc; isso é gostoso? Não, não é. Quem vê de fora apenas isso jamais irá querer algo assim. Entretanto, pergunte aos pais se estão arrependidos e terá como resposta que nunca foram tão felizes na vida e jamais trocariam o que estão a viver por outra coisa. Pior, depois que os filhos crescem, chegam a sentir falta desse tempo em que não tinham tempo para nada, nem assistir um filme no Netflix, salvo em prestações suaves de 12x, que quando chegam ao fim você já nem se lembra mais do começo. Seriados, então, esqueça!

Outro bom exemplo é o desejo de ser artista, seja músico ou ator ou escritor, qualquer um.

Nos tempos que vivemos é claro que é um caminho difícil, de pobreza no início, senão por toda vida profissional, também de muitos sacrifícios e riscos. É uma vida muitas vezes incompatível com casamento e família, de proximidade com uma série de vícios de difícil recuperação. Basta conhecer a biografia de alguns para se saber que tentar ser um artista a sério não é nada agradável, especialmente no início. Enfim, espero os exemplos sejam suficientes para afastar essa noção falsa de que vocação tem a ver com fazer algo que se gosta. Não tem.

Mas tem a ver com fazer por amor, algo muito diferente. Tem a ver com propósito de vida, com uma necessidade de cumprir um dever, uma missão pessoal, algo que dê sentido à vida. Isso pode se dar em qualquer circunstância. As profissões mais menosprezadas podem ser meios para realização de uma vocação. Um lixeiro, um servente, um pedreiro, uma faxineira, todas as profissões podem servir à vocação. Ou atrapalhá-la. Também é perfeitamente possível realizar uma vocação em constante sofrimento, próprio ou alheio. Trabalhar com lixo não é agradável, mas pode ser instrumento de vocação, como disse.

E o que dizer das vocações voltadas à minorar ou curar o sofrimento, como a médico e enfermeiro? A profissão de médico quase se confunde com a vocação de médico, mas pense num médico que saiu de férias do seu ofício e, no avião em que se encontra, uma pessoa passa mal. Ele tem o “direito” de não atender porque estaria de férias? É evidente que não, nessa hora é dever da sua vocação, não da profissão.

Mas você pode estar pensando: “como assim? Vocação para ser lixeiro?”.

Se está, então já sei qual a razão para você não ter descoberto sua vocação ainda: falta de imaginação. Sérião, falta de imaginação é teu problema. Uma vez tiradas do caminho as noções de profissão e fazer algo de que se gosta, seu imaginário se demonstra pobre, de horizonte limitado, sem alternativas para dar realidade ao que é a vocação. Você até pode ter uma noção vaga de “amor”, “dever”, “sentido da vida”, mas é distante, coisa mais de filme e televisão do que próximo do seu cotidiano. Ou então é sua imaginação que está atrofiada, não conseguindo funcionar cognitivamente.

O que teria a ver imaginação com vocação? Ora, o primeiro contato de todos nós com a vocação é pela imaginação, quando alguém te perguntou lá na infância: “o que você quer ser quando crescer?”. Tudo o que você tinha para pensar e responder essa pergunta era sua imaginação e você começou a respondê-la em imaginação, pelas brincadeiras que brincava: bombeiro, policial, jogador de futebol etc. Ou seja, a vocação depende muito mais da imaginação do que de qualquer outra coisa.

Mas, claro, se você está em busca de sua vocação e chegou até aqui, deve estar se perguntando: é possível consertar a imaginação, desenvolvê-la? É possível enriquecer o imaginário? Claro que sim, mas saiba que é algo que não se resolve de uma vez por todas. A imaginação é como um músculo, ou seja, se você não exercita com constância, enfraquece. Já o imaginário é como uma despensa pouco usada ou muito mal organizada. Abastecê-la com novos alimentos e manter sua organização exige trabalho constante, trabalho para a vida toda.

Portanto, não se iluda: não existe receita de “sucesso” para descobrir sua vocação e realizá-la.

É um esforço muito pessoal que começa pelo desenvolvimento da sua imaginação e alargamento do horizonte do seu imaginário.

 

Da glória de ser pó.

Não, “A Poeira da Glória”, de Martim Vasques da Cunha, não é uma história da literatura brasileira, embora seja uma história e abarque o essencial da nossa literatura. Também não é uma crítica cultural, embora também isso contenha, mas servindo aqui a outro propósito, sendo um dos instrumentos principais do autor na sua interpretação da alma brasileira.

E é disso que se trata aqui, em um primeiro momento: um esforço admirável de interpretação da nossa alma.

I – Uma História Moral

Mas, não prossiga na leitura como se “alma” tivesse sentido e significado óbvio e unívoco. Tem? Pois é, mas costumamos fazer isso, não? Fingir que não só sabemos do que se trata quando lemos ou escutamos algo assim, como fingimos compreender o sentido e significado usado por aquele que o escreveu ou disse. Não que façamos isso por mal, na verdade já nem percebemos mais que fazemos isso, é um hábito. E não parece ser preciso mais do que esse exemplo singelo para nos depararmos, dentro de cada um, com esse traço não apenas característico, mas central, da alma brasileira: a dissimulação, tema da primeira parte do livro.

A consequência mais grave do hábito de dissimular é a deformação da própria alma, pois até com as coisas mais banais acabamos agindo assim, aos poucos obrigando à construção de uma imagem falsa de nós mesmos, que a todo custo tentamos fazer passar por nosso verdadeiro “eu”. Não à toa uma de nossas obsessões, como nação, é a procura de uma “identidade nacional”. Por que não a encontramos? Porque não a temos de verdade. Tudo que somos são aparências de ser, no fim das contas. É o hábito da dissimulação que nos faz fugir de todo olhar interior, evitando sermos sinceros conosco, logo, nunca nos conhecendo de verdade.

Eis uma boa razão para que nosso modelo literário, nosso “herói”, seja alguém que parece ter sido muito bem sucedido nisso, ou seja, construindo um personagem no lugar de uma personalidade real: Machado de Assis. Não há, realmente, como se provar isso, daí porque as tentativas de decifrar o “enigma” Machado de Assis serão todas falhadas, e intermináveis. Mas não é isso que importa aqui, interessa mais o alto valor que damos a quem foi tão bem sucedido assim em se mascarar:

“Por não perceber que a única comunicação verdadeira que existe é com ‘o fundo insubornável do ser’ (expressão fantástica do filósofo espanhol Ortega y Gasset), fazemos justamente o contrário daquele conselho que Teofrasto dava aos contemporâneos de todos os tempos: preferimos acolher um homem desprovido de qualquer vida real, elogiando a máscara que se esconde na ironia dos abandonados, quando este ‘deveria ser mais evitado que uma víbora’” – Página 38.

A história que Martim nos conta em seu livro, portanto, e por um lado, só pode ser a história de uma alma em fuga de si, recusando essa comunicação verdadeira com o fundo insubornável do seu próprio ser, dissimulando até não mais poder, obrigando-se, em consequência, a também fabricar a realidade exterior em que vive, vivendo em função de um esteticismo desvinculado de tudo o mais – outra das constantes da nossa alma e tema da parte dois do livro.

O niilismo ressentido, a inveja do prestígio, o desejo de poder, o fetichismo do conceito que nos aprisionou numa cordialidade sem bondade – temas da parte três do livro – são alguns dos frutos dessa dissimulação habitual e do esteticismo sem fronteiras que, sufocando a alma impotente e com olhos de ressaca, só poderia resultar numa revolta surda e destruidora – tema da parte quatro. O ódio envelopado em ideologia foi o passo primeiro rumo a um abismo, tema da parte cinco do livro:

“A base para uma boa revolução, segundo seu sacerdote máximo, Karl Marx, é justamente a traição a todo e qualquer passado, a todo e qualquer aliado. Não existem amigos para os revolucionários, exceto aqueles que trabalham a favor da sua causa.”– Página 389.

Com a revolução modernista a “vontade coletiva” começa a imperar em nossa alma, criando-se as bases políticas e sociais para uma verdadeira tirania da maioria que resultaria no abismo sem fundo do totalitarismo cultural em que nos trancafiamos.

Assim chegamos aos dias atuais, mergulhados em uma “noite escura da alma”, da qual não temos previsão de sair, restando a opção do pacto fáustico – a entrega da nossa alma ao grupo a que pertencemos, aos companheiros de ideologia, seja ela qual for, muito mais por medo do que convicção – ou optar pelo exílio interior – tema da parte seis do livro -, donde o autor nos fala, com a certeza de que, por ter feito isso:

“(…) seres humanos extremamente cultos, lidos e esclarecidos tentarão me matar.
Ou talvez não. Talvez não aconteça absolutamente nada: apenas um silêncio soprado por um vento negro que percorre os prédios, as ruas, as cidades, as casas; que entra nos vãos das portas e nos becos vazios; paralisa cada um de nós, sem reconhecermos as causas, sem sabermos se tamanha quietude terá um fim.

Entre essas duas atitudes aparentemente opostas, o que as une é a completa incapacidade de termos um debate intelectual, um debate daquilo que antes chamávamos de elite, ou, para empregar outra expressão temida pelos nossos iluminados, de alta cultura. Sim, sem dúvida há um espectro que paira sobre todos nós: o espectro da apatia” – Página 475.

Martim não poderia ter acertado mais. Pouquíssimas análises – mas análise de verdade – saíram do livro até agora. Dado que ele faz parte de uma leva de novos autores catalogados no nosso cardápio de ódio ideológico como sendo “de direita”, não espanta que os que se consideram “de esquerda” pouco se interessem por lê-lo ou sejam capazes de compreendê-lo, muito menos estejam dispostos a tanto, apesar de terem aberto um espaço inesperado para escutá-lo, com reportagem de destaque em O Globo e entrevista para o programa Dossiê Globonews, para ficar em dois exemplos significativos.

Já a “direita”, que se não tem espaço considerável na chamada “grande mídia”, tem força consistente em redes sociais, sites e blogs, cadê? Tirando alguns elogios e recomendações decorrentes mais do suposto espectro ideológico a que o autor pertenceria do que por méritos da obra, com um ou outro hangout a respeito, onde encontramos análise, crítica, debate? E teria tanto a se discutir sobre esse livro, mas tanto… Só o enigma Machado de Assis já levaria a alguns debates, por exemplo. Que dizer, então, do valor que o autor concede a “Grande Sertão Veredas”, de Guimãres Rosa?

Discutível, é claro. De minha parte, ainda espero voltar a escrever em outro texto sobre o problema conceitual da chamada “imaginação moral” – o próprio Russel Kirk a definiu de duas formas, pelo menos -, algo central no argumento do autor.

Mas algo mais grave se esconde nessa incapacidade de debate, algo que dentro das facções ideológicas corresponde a uma “falência da comunicação entre as pessoas”, como diz o autor no livro, com o espectro da apatia rondando para evitar não revelar sua natureza real: a velha e resistente inveja, fruto do ressentimento que nos envenena a alma desde sempre, manifestando-se como “desprezo por qualquer aparição de inteligência somada a alguma espécie de caráter.” – Página 513.

É exilado desde dentro deste “Carandiru intelectual” – tratado na sétima e última parte do livro – que Martim nos escreveu. Por isso, o livro não se esgota nesse esforço de interpretação da nossa alma — que nesse sentido deveria ser catalogado não como história da literatura, nem crítica cultural, mas verdadeira história moral -, mas vai além, tendo outros objetivos concomitantes.

II – O Drama Moral do Leitor

Moral é outra dessas palavras que, como alma, costumamos fingir saber do que se trata. Quando muito, sabemos que moral tem algo a ver com escolher entre “Bem x Mal” ou “Certo x Errado”. E tem mesmo. Não à toa o livro é estruturado com pares de opostos, com cada seção de cada parte ilustrando um desses pólos com análises de autores e obras. Mas não se trata de mera exposição, descrição, como se o autor fosse um cientista em laboratório a analisar seu objeto, ou professor em sala de aula discorrendo sobre um tema.

Não, Martim se coloca no centro, entre esses pólos, ou seja, tentando falar desde o fundo insubornável do seu ser, evitando toda fuga de si, toda dissimulação. E é muitíssimo bem sucedido. Por isso, o que acompanhamos com a leitura é mais do que análise, do que interpretação, mas a narrativa de um drama moral real que, não sendo exclusivo do autor, mas de todo brasileiro, exige que o leitor também se coloque no centro, como protagonista desse drama, padecendo-o enquanto lê.

Se assim o leitor não fizer, ficará sempre na defensiva, o que o levará a desistir da leitura em algum momento – afinal, o livro é extenso – ou, se a terminou, menosprezará o mais importante, possivelmente o tratando como algo supérfluo, desnecessário, logo, “indigno” de ser analisado, o que obrigará a picotar o livro em infinitos pedaços, criticando uns, elogiando outros, possivelmente substituindo o todo real por algum outro que lhe seja mais palatável. É a dissimulação congênita a nos fazer comer pelas beiradas, comendo um prato feito frio e não a iguaria que ele de fato é. Por isso o autor implora, em seu prefácio, para o que livro seja lido como um todo antes de tudo.

É evidente que, se isso for feito, se o leitor ler o livro como um todo, ou seja, como uma narrativa com começo, meio e fim, será levado a um exame de consciência nada agradável, nem fácil, de se fazer. Aí, de duas, uma. Ou você se dará conta ser também um exilado interior, como o autor, ou se dará conta que é um dos prisioneiros-carcereiros do Carandirú intelectual.

Aos exilados – e sou um deles também -, Martim mostra que não estamos sós e que é preciso, em algum momento, arriscar morrer para si, ousando ser ex-covarde também, não para vir a público “xingar muito no twitter”, mas para dialogar, restabelecer a comunicação interpessoal que não seja apenas pragmática, nem intoxicante, mas substancial, o que é condição existencial, social e cultural indispensável para a formação de personalidades verdadeiras, não apenas de novos personagens intercambiantes. Ou seja, um dos objetivos do autor é tentar estabelecer uma comunicação real e sincera com outros “fundos insubornáveis do ser”, não com “partidários” dessa ou daquela ideologia.

Aos demais, o livro pode servir justamente para tomar consciência dessa condição de prisioneiro-carcereiro, ou seja, descobrindo ter identidade pessoal muito mais pelos “ismos” que defende – sejam os ditos “de esquerda”, como petismo, comunismo, socialismo, progressismo, feminismo, correto-politiquismo etc., sejam os ditos “de direita”, como liberalismo, libertarianismo, conservadorismo, olavismo, anti-olavismo, alto-culturismo etc. – do que por ser alguém de verdade.

(Para saber se você é um carcereiro, bom teste é avaliar seu comportamento quando um “amigo” muda de lado. A desconfiança nas relações pessoais entre os carcereiros é a tônica, com seus grupos internos impermeáveis a quem não comungue de seus “ideais”. Basta um “dos seus” aparentar ambiguidade para ser visto com desconfiança; basta mudar de lado para ser ex-amigo. Em ambos os casos, a maledicência é a melhor defesa do grupo, saboreada com gosto e muitos memes, é claro).

A narrativa, enfim, é construída para que isso ocorra, esse despertar, essa tomada de consciência, aconteça realmente, com a contradição entre os opostos aumentando a cada seção que se lê, a cada parte que se deixa para trás, sucedendo-se sem solução aparente, intensificando a tensão a ponto de não se conseguir mais desgrudar do livro, querendo-se chegar ao fim – é preciso chegar ao fim – para saber como “tudo termina”, como podemos nos libertar dessa prisão.

Seja lá quando o despertar se dê, se logo no início da leitura, se somente depois dela, fato é que, se isso realmente acontecer, a releitura é mais do que recomendável – eu diria obrigatório -, porque nela se descobrirá que o livro tem mais a oferecer – e é sua melhor parte, também a mais ousada. Porque se a esse despertar não se seguir uma verdadeira conversão à realidade, o sujeito não suportará a miséria de sua condição, recuando à segurança de sua prisão anterior. É preciso que ocorra, então, algo análogo, senão idêntico, ao descrito pelo autor em relação ao mergulho que Euclides da Cunha, o autor de “Os Sertões”, precisaria fazer em si mesmo:

“Neste jogo de conflitos que parece não ter mais solução, pelo menos no plano da lógica, a conversão à realidade só pode ser articulada por meio de antinomias que se acumulam numa sucessão de tensões, um mergulho na verdadeira natureza das coisas que, sob o aspecto do meramente humano, dá a impressão duradoura de que a própria condição humana como um todo só será compreendida como fantasmagoria, o pesadelo do paradoxo, em que seu mero despertar se dará no meio de um deserto particular onde nem mesmo o vislumbre das estrelas no céu límpido dos sertões permitirá algum alívio” – Página 125.

Boa parte da narrativa nos mostra quão poucos foram e são os que, chegando a esse despertar, não recuaram horrorizados diante dessa miséria, dessa solidão total em meio a um deserto implacável e sem perspectiva de vida, acabando, então, por procurar alívio em outras fontes que não nessa “verdadeira natureza das coisas”, fugindo, enfim, de si mesmos.

A intenção de Martim é levar o leitor a esse deserto, sim, a despertá-lo para o horror do Carandirú intelectual no qual ele já se encontra, mas não para largá-lo ali, pelo contrário. É nesse ponto que seu livro nos entrega o seu melhor: primeiro, como bálsamo, simplesmente por existir, por ter sido escrito e publicado; depois, como um amigo a nos apresentar a outros exilados locais, como Cecília Meireles, Nelson Rodrigues, Otto Lara Rezende, dentre outros que passamos a querer conhecer mais e melhor; por fim, também como uma bússola, ajudando-nos a mergulhar ainda mais no nosso fundo insubornável do ser para lá descobrir:

“(…) uma presença de algo que está além do seu horizonte terrestre – e é ao colocar essa mesma presença como o princípio de partida da sua vivência na Terra que se tem o significado do seu passado, do seu presente e do que será o seu futuro. Domar o presente é ter uma virtude, compreender que há um valor que coloca o presente do tempo em que você vive sob o julgamento moral desta presença que lhe é compreendida como além dos seus olhos” – Página 509/510.

É assim que o sertão pode virar mar, com a prisão revelando o reino verdadeiro da liberdade interior, “algo a ser conquistado a custo de uma disciplina interior”, tornando o homem um realista espiritual, como Martim denomina aquele que:

“conhece a profundidade da sua alma e a dos seus semelhantes porque desceu ao ‘fundo insubornável do ser’ e de lá voltou. Neste sentido, (…) [é] alguém que representa os anseios mais íntimos dos homens de carne e osso que vivem na sociedade e que não conseguem dominar as nuances da língua e da linguagem; não é um chefe político ou institucional, mas um líder autêntico, com liderança existencial, pois chega a ser o reflexo da sociedade que governa – o ‘ex-covarde’ de Nelson Rodrigues, ciente da sua canalhice para redescobrir a mais surpreendente das coragens” – Página 527.

Não, o autor não se apresenta aqui como um desses líderes autênticos, ele sabe perfeitamente bem que quem assim o faz é porque não o é de fato. Martim escreveu como um ex-covarde, ciente da sua canalhice, da sua estupidez, com a mais surpreendente das coragens, que é a humildade – que certamente será vista como soberba pelos carcereiros -, legando-nos este imenso “A Poeira da Glória”, obra muito mais de caridade do que outra coisa.

Em seu prefácio pessoal, Martim aplica a si a afirmação de Giuseppe Ungaretti nas notas finais de seu livro “A Alegria”, desejando que sua obra revele que “se algum progresso alcançou como artista, gostaria que ela indicasse, também, que alguma perfeição o acompanhou enquanto homem.”

Para mim, o mais importante a se destacar não é a grandeza da obra, a erudição do autor, seu conhecimento e capacidade de análise e crítica, mas justamente o homem que se revela por inteiro neste livro. Não conheço Martim pessoalmente, mal conversei com ele sobre o que quer que seja, apenas acompanhando à distância boa parte da sua produção escrita, mas, depois de ler este livro, é como se o conhecesse de longa data. Conseguir fazer algo assim, mostrar-se inteiro por escrito, no reino da dissimulação em que vivemos, é prova de integridade. Eis aí alguma perfeição.