Autor: Francisco Escorsim

Sobre Francisco Escorsim

Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

O Trágico Thomas Mann

Thomas Mann nunca foi “apenas” um escritor.

Leitura das mais reveladoras é o livro “Correspondência entre Amigos”, conjunto de cartas trocadas com Herman Hesse. Enquanto Hesse respondia à tragédia de seu tempo como escritor típico, retratando o que vivia e testemunhava, sem maiores ambições, Mann estava cheio delas, assumia-se “porta-voz” da razão, queria esclarecer, orientar, conclamar à ação contra a tirania. Foi dos poucos escritores alemães, por exemplo, a enfrentar publicamente o nazismo e enquanto viveu nos EUA tudo fez para convencer os americanos da necessidade de agirem contra Hitler.

Logo, seus romances, em especial, nunca são “apenas” literatura de ficção, mesclando pensamentos, filosofias, críticas etc., com propósito, digamos, pedagógico. Em “A Montanha Mágica”, possivelmente sua obra mais conhecida, escrita depois do fim da primeira guerra, temos um narrador que não hesita em explicar (quase) tudo o que está narrando, às vezes em detalhes. Quando não, o contexto nunca deixa margem para muita dúvida sobre o significado do uso de determinados símbolos. Continue lendo

Dia dos pais 2015

Meu pai está mais vivo morto. Digo isso e sinto o interlocutor me dando adeus mentalmente, pensando aham, enquanto se esforça por parecer convincente no seu “Que coisa linda, cara!”. Prefiro amigo vivo, indo direto ao ponto: “Isso é coisa da sua imaginação”. E é mesmo, claro que é, exatamente isso. Mas o que para muitos é mentira, ficção, viagem na maionese, ou loucura mesmo, para mim é mais real e concreto e significativo do que QUALQUER presença corporal.

Antes do meu pai morrer, já tinha altos papos com Marlow (o narrador preferido de Joseph Conrad), consultava-me frequentemente com Maigret (Simenon me permite acompanhá-los em seus passeios depois do trabalho) e trocava olhares com José Geraldo Vieira sempre que era incompreendido pelos mais próximos (não é, Zé?). Mas nada se compara à presença do meu pai, tão imaginária quanto. Continue lendo

Aprendendo a morrer com Johnny Cash

Johnny Cash faleceu aos 71 anos, em 2003. Dois anos depois sua história da infância à união com June Carter – a mulher de sua vida – em 1968, foi levada aos cinemas. Walk The Line (no Brasil, Johnny e June) não é ruim, mas como a vida posterior dele, especialmente da década de 1990 até sua morte, foi mais do que relevante, ressignificando tudo que fez e lhe aconteceu antes, o filme é, no fim das contas, um desperdício incrível de boa história, de vida.
 
Mas talvez não tenha sido desperdício. A intenção de Cash quando decidiu filmar sua história, em 1998, não era, segundo o produtor James Keach, a de fazer: “Um filme sobre drogas, sexo e rock’n roll, mas sobre sua jornada como homem, seu amor por June e o fato de que Deus estava no centro dessa história”.

Continue lendo

Alexandre

Vivemos em dois tempos. Um, o do relógio, passa enquanto passamos, é o tempo do esquecimento. O outro nunca passa, é o do para sempre, deixando tudo como que suspenso no ar, o tempo do significado.

De vez em quando eles coincidem, como na morte de alguém próximo, aí o segundo tempo congela o primeiro, impedindo se possa seguir adiante sem um sentido maior, um significado suficiente. Foi o caso de Jó, que perdeu tudo e ainda padecia ferido de chagas malignas das plantas dos pés ao cume da cabeça, ficando parado no tempo, sentado em meio às cinzas, coçando-se com um caco de cerâmica, aceitando o destino, mas querendo saber por quê. Continue lendo

Vamos falar sobre The Walking Dead?

Não, não falarei sobre o segundo turno das eleições, tampouco sobre as escolas ocupadas. É sobre zumbis também, mas os da ficção, bem melhores. O seriado retornou semana passada, com o início da sétima temporada. O quê? Não sabe do que estou falando? Tsc, tsc. Não sabe o que está perdendo. Falo sério. Continue lendo

Mais barbeiros, menos barbearias

Das coisas que mais me faziam falta, cortar cabelo em barbeiro das antigas. Nos últimos meses até encontrei um ali no Mercado Municipal aqui de Curitiba, mas o ambiente muito família, filha e irmã do tiozinho atendendo junto, aí… Entende? Nada daquele ambiente seguro para demonstrações de macheza inexistentes fora dali – salvo nos puteiros, tão teatrais quanto.

Quando era menino meu pai levava os filhos em barbeiro digno do nome e deixava solto, com a natureza seguindo seu curso entre as páginas 18 e 42. Continue lendo

Quando o pai é pai, o filho é filho

I.

Depois da separação o pai passou a usar camisetas e jeans com o corte da moda, também tênis, tênis cinza e vermelho, daqueles sem cadarço. Começou uma dieta, voltou à academia, correndo no parque nos fins de semana. Fez bronzeamento artificial, comprou um carro esportivo, pintou os cabelos. Saía quase toda noite. Disfarçava não ouvir os comentários maldosos da molecada. Ficou com uma ou duas meninas muito mais jovens, precisou tomar remédios para dar conta. O filho descobriu porque uma delas era amiga da sua namorada. Continue lendo

Espírito esportivo

Das memórias mais vivas. Copa de 82, o jogo fatídico contra Paolo Rossi – que era toda a Itália para uma criança de 6 anos. Meus pais receberam amigos em casa, os filhos todos uniformizados com o manto da Seleção – na época, todos nos consideravam assim. Raras vezes assistíamos às partidas inteiras – nós, as crianças – porque não aguentávamos esperar para ser. Saíamos correndo pra fora de casa imitar os jogadores, fazer os gols, sermos campeões. Até Paolo Rossi fazer o que fez. Odiei Waldir Peres por toda minha vida e, até hoje, quando assisto à um frango, não importa de que time seja, é dele que me lembro. Continue lendo

A Luz dos olhos teus (conto)

O quarto banhado de sol, a persiana ficara aberta. O celular zuniu, despertando Aline. “Deve estar chovendo”, pensava sem pensar, procurando as pantufas de girafa.

Em dois passos estava à janela, o cheiro da manhã evaporando das roseiras do quintal. “Eclipse? Tanto assim?”. Na parede, o interruptor de luz: nada. Correu ao banheiro, tropeçando em tudo, quantas coisas fora do lugar. Continue lendo