Autor: Jota Borgonhoni

About Jota Borgonhoni

João Paulo Borgonhoni, mais conhecido por Jota, sempre se interessou por pessoas e relacionamentos. Quase se afogou algumas vezes na vida mas sobreviveu. Hoje é professor e psicólogo (crp 08/17582).

Se você não parar, a vida não para sozinha

Estamos soterrados de coisas. Boleto pra pagar, trabalho pra fazer, horário pra cumprir, coisas pra consertar. Quando você percebe, já acabou a semana, o mês, o ano.

Pior que isso também acontece com nossa vida pessoal. Tudo fica automático: conversar com a namorada, jantar com o marido, brincar com as crianças. Vemos tudo como mais uma tarefa a cumprir. E o mais triste, tudo cansa.

Mas te digo, tem solução e o começo é bem simples. 

A primeira coisa a fazer quando estiver nesse furacão cotidiano é prestar atenção no que você está sentindo. Isso mesmo, olhar para dentro. E principalmente, buscar definir as coisas.

Porque no meio desse turbilhão a gente sente tudo meio vago. Ficamos tristes, irritados e até choramos sem saber o porquê. A alegria também pode passar em branco porque a gente não estava lá de verdade. Enquanto as pessoas ao nosso redor se divertem, nossa cabeça espera apenas tudo acabar para seguir para o próximo compromisso. 

Portanto, pare, respire, e refaça o caminho interno dos seus sentimentos. O que você está sentindo, onde começou e como chegou até aqui? 

Muita gente acaba caindo no meu consultório e mal sabe dizer o que está acontecendo. Quando pergunto, o que te trouxe aqui?, tenho como resposta: nem sei bem, mas acho que preciso de alguma ajuda… 

Dar nome às coisas foi umas das primeiras tarefas que Deus pediu para Adão. Não foi por puro acaso, tenho certeza. 

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Fidelidade e Dieta Afetiva

Deborah Secco traiu um, dois, três, todos os namorados que já teve. Mas todos mesmo? Sim, é verdade. Fui ver a lista dos ex da celebridade, encontrei vários famosos. Todos homens bem afeiçoados que devem ser o sonho de consumo de muita moça por aí. Tem dos mais variados gostos, mas com uma coisa em comum: todos cornos.

Porém, diz ela, que a única exceção é seu atual marido. Aposto que, assim como eu, todos que leram esse trecho sorriram. Tenho certeza que você pensou: ela traiu todos mas diz que agora não trai mais, coitado do rapaz… Por que pensamos assim? Não pode ser verdade que a atriz tomou jeito? Poder, pode – mas não parece provável.

Temos essa sensação de que o atual marido está prestes a ganhar um par de chifres se baseia em um conceito:

Fidelidade é honrar uma promessa. É se manter digno da confiança que o outro depositou e continua depositando em você.

Você emprestaria dinheiro para um sujeito que tem fama de mal pagador? Então, quando lemos a matéria, temos essa impressão: Deborah é uma pessoa sem palavra.

Talvez o que ela não saiba é que fidelidade é uma atitude que deve ser tomada de forma consciente. Vivemos em tempos que todos pregam a naturalidade: nada pode ser forçado, tudo tem de fluir naturalmente. Entretanto, basta alguns meses em um relacionamento, para você entender que ninguém fica naturalmente por toda a vida ao lado do ser amado. Relacionamentos são feitos de esforço e dedicação. 

Ser fiel, então, é uma escolha que você faz. Se você busca essa virtude, sabe que deve evitar certos locais, cortar algumas conversas, contornar situações, não retribuir aquele olhar.

Sem erro podemos dizer: fidelidade é um exercício. E assim como todos exercícios, você deve se dedicar e ter disciplina.

Certa vez conversei com um rapaz que tinha uma dificuldade imensa de ser fiel. Superando a atriz renomada, confessou que traiu todas namoradas e inclusive a atual. “Quando eu vejo, comecei a puxar papo, menti que sou solteiro e tudo que quero é ficar com aquela moça. É quase involuntário, eu não consigo me controlar”.

Disse que ele tinha de fazer uma Dieta Afetiva.

Propus que parasse de se portar como um macho alfa e que buscasse honrar o que havia prometido. Diante do olhar dele de cachorro sem rumo, tive de ser mais claro: já ouviu a expressão pensar gordo? Então, você precisa parar de pensar como um solteiro. Comece a praticar a fidelidade. Corte as possibilidades de trair pela raiz. Você sabe muito bem quando há segundas intenções, basta apenas não promovê-las.

Final da história: ele sempre ria ao lembrar da minha dieta mas não conseguiu controlar sua fome por novidades.

Assim como a Deborah Secco, ele tinha um ego obeso.

6 dicas para começar um relacionamento

O ser humano é um ser relacional. Dependemos do outro para sermos nós mesmos: é primeiramente nossa família, e depois a sociedade, que nos forma e nos ajuda a ser quem somos. Porém, não raro arranjamos encrenca com diversas pessoas e acabamos pensando “o que eu tenho de errado?”. Na nossa realidade amorosa então, nem se fala! Parece que cada vez mais o sonho de um relacionamento saudável fica mais distante: podemos passar a vida numa sequência de relacionamentos parciais e insatisfatórios, ou então mantermos um relacionamento duradouro que perdeu o sentido há tempos.

Uma parte dos problemas pode estar no início.

Quando estamos envolvidos no começo de uma nova relação normalmente não temos clareza necessária para avaliar o que está acontecendo. A experiência de se apaixonar parece nos arrastar. Mexe com a nossa cabeça e nos deixa assim, e faz eu entender que a vida é nada sem você. Ficamos meio perdidos. E o pior, tudo que mais queremos é permanecer assim: perdidos de amor.

Porém, relacionamentos não se sustentam apenas de paixão e desejo.

Com o passar do tempo a intimidade aumenta e o convívio traz à tona diversos defeitos ou incompatibilidades que parecem terem sido propositadamente escondidas. É natural esse processo também, não há relacionamento que siga sem esse “choque de realidade”. É o momento em que você olha para quem está contigo e pensa: cara, como é que eu não vi isso antes? Grande parte dos casais seguem firmes nessa nova fase. É uma fase bem mais real, em que o objetivo deixa de ser aproveitar-se mutuamente mas compartilhar e viver as batalhas da vida juntos. Infelizmente, muitos não chegam a tanto: passada a fase do encantamento, o relacionamento acaba em ruínas. Para quem volta para a vida de solteiro é comum repensar tudo que passou. Frequentemente chega a hora de olhar no espelho e dizer: na próxima vez eu vou escolher melhor!

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Em minha vida tentei sempre prestar atenção nisso – nem sempre fui bem sucedido, confesso. Primeiramente para não me dar mal em minhas relações e depois por trabalhar atendendo pessoas que queriam resolver suas dificuldades. Repensando em tudo isso, listei alguns pontos essenciais para qualquer início de relacionamento amoroso. A idéia é fazer um contraponto a essa paixão que te pegou e você tentou escapar e não conseguiu. Talvez encontrando esse meio termo entre a consciência e o sentimento, é possível encontrar seu Final Feliz:

 

1. O que você quer?

 

O primeiro passo é saber o que você quer. Parece meio besta dizer isso mas a maioria esmagadora dos erros tem sua origem nessa questão. Como já disse, no começo somos enfeitiçados pelo sentimento, nesse momento costumamos esquecer dos nossos objetivos ou deixamos eles de lado. Não raro a gente fala “vamos ver no que vai dar”, esse é um erro clássico. Deixe-me ser claro: você está conhecendo alguém que pode vir a sua companhia pelo resto dos seus dias, você acha mesmo que o melhor a fazer é ver no que vai dar?

Portanto, antes de qualquer coisa, pense bem que tipo de pessoa você quer, quais afinidades são essenciais, quais características são insuportáveis, trace imaginativamente na sua cabeça essa pessoa. Volto a dizer, parece besta, mas te dará ao menos um rumo. Até porque, caso você deixe a vida te levar, há estudos (principalmente do psiquiatra Szondi) que comprovam que se você não prestar atenção, acaba sempre escolhendo o mesmo perfil trágico pra te fazer companhia.

Sabe “dedo podre”? Então, sinto te dizer, é má escolha.

 

2. Avalie a outra pessoa

Se o primeiro passo é saber o que você quer, o segundo é avaliar a outra pessoa. Esquece esse mantra moderno de “respeitar as diferença”, você não está aqui querendo entender o mundo ou resolver um problema social. Você está procurando alguém para dividir a vida. Lembro de um amigo que a única exigência que não abria mão era a menina ser fã do Senhor dos Anéis. Quando perguntaram o que aconteceria se ele encontrasse alguém que não curtisse tanto a obra de Tolkein, ele respondeu: “eu não quero que todas as mulheres sejam fãs, apenas quero que a minha seja. É pedir demais?”.

Bingo! Ele traçou um perfil e estava procurando na outra pessoa o que achava necessário, para tanto, avaliava todas as pretendentes que apareciam na frente. Eu sei que esse negócio de julgar os outros pode te deixar um pouco desconfortável, afinal de contas estamos na era da tolerância. Mas, sinceramente, todos nós julgamos o tempo todo. Parece mentira mas é verdade. Até mesmo para você aprender a tolerar os diferentes você antes teve de julgar os outros e então perceber que eram diferentes. Na vida afetiva esse mecanismo é automático, um exemplo moderno é o Facebook: antes de adicionar alguém ou continuar uma conversa todos nós vasculhamos o perfil e damos aquela olhadinha. Essa dinâmica também é a base principal para o Tinder.

Mas se eu já faço isso sempre, alguém pode perguntar, por que ainda erro na hora da decisão? O problema aqui é fazer um trabalho mal feito. É comum avaliarmos algum pretendente muito superficialmente, apenas pensando nas categorias básicas e visíveis: beleza, educação mínima, conversa, bom humor. Posso dizer que nos satisfazemos com o que o o facebook mostra. E uma vez que esses pontos foram minimamente satisfeitos a gente passa para fase “vamos ver no que vai dar”. Percebe o erro? É preciso realmente prestar atenção na outra pessoa, lembrar o que você quer e comparar esses dois perfis.

Um exemplo que sempre dou é em relação à Filosofia de Vida: todos temos algum repertório de crenças nas quais pautamos a nossa vida. Alguns são bem claros, principalmente aqueles baseados em uma religião específica, outros são mais nebulosos. Normalmente esse repertório pode passar desapercebido ou ser até mesmo camuflado no início de uma relação. É possível você ser ateu e nunca tocar nesse assunto ao sair com uma moça evangélica. Também é possível você não desejar ser pai e só contar isso depois de vários meses de relação. Porém, se você inicia um relacionamento sem se atinar a essas questões, pode acabar dormindo com o inimigo. Como vários casos que já vi: sou católica e meu marido é ateu, sou petista e minha esposa é coxinha, sou contra o aborto e minha namorada é a favor, queria educar meus filhos mais soltos mas minhas esposa é tradicional.

Avaliar a outra pessoa não é apenas sair julgando tudo o que ela faz, mas parar um pouco e olhar com atenção.

Leva tempo e dá trabalho. Mas quem disse que encontrar alguém para resto da vida seria fácil?

 

3. Converse tudo o que pode

Uma forma de facilitar essa avaliação do outro é a conversa. Parece clichê, eu sei, mas quando digo conversar é conversar de verdade sobre assuntos realmente relevantes.

Em todo começo de relação não queremos causar nenhum constrangimento. Usamos a nossa melhor roupa, passamos o melhor perfume, somos o mais educado possível, contamos as nossas melhores histórias, ou seja, vendemos o nosso peixe. Nesse início é muito difícil falarmos de assunto um pouco mais “pesados”. Nunca vi num primeiro encontro alguém sentar e dizer: antes de mais nada, você é a favor da pena de morte? Porém, se não conversamos sobre questões mais sérias no começo, corremos o risco de não fazer isso nunca. “A relação aumentou em intimidade, se eu não queria causar nenhuma estranheza nos primeiros encontros, agora que estamos há um mês juntos é que não vou causar” – e esse processo segue ad infinitum.

Conversar é a melhor forma de tirar dúvidas.

Crie situações para falar sobre assuntos que você acha importante. Pergunte sobre aspectos da vida que você acredita serem necessários ter clareza. Não tenha medo de magoar o outro: perguntar não ofende. Converse sobre política, educação de filhos, planejamento financeiro, perspectiva de vida, religião, crise na Europa, sexo, Dilmãe x Fora Temer. Obviamente há modos de conversar sobre essas coisas mas não deixe assuntos de lado.

Você precisa saber com quem está se relacionando.

Aqui vale lembrar de um mito muito prejudicial em relacionamentos: a ideia de naturalidade. Deixa acontecer naturalmente não existe. Quando você se interessa por uma pessoa, automaticamente começa a moldar seu comportamento. Sabe aquele encontro casual no parque, pode ter certeza, foi muito bem planejado. Porém, esse mito também cria a ilusão de que se as coisas estão dando certo agora, tudo vai seguir naturalmente nessa ordem. “Se esse mês foi bom, não tem porque os outros não serem. Por que então eu vou conversar sobre algum assunto mais sério se eu sei que vai dar tudo certo no final?” E é aqui que começa a Highway to Hell.

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4. Conviva tempo suficiente

Outro componente necessário é o convívio. Passar o máximo de tempo junto é sempre uma ótima forma de conhecer a outra pessoa e também descobrir certas características ainda não reveladas. Sempre costumo dizer que existem dois tipos de discursos: das palavras e dos atos. O item anterior era sobre as palavras, este sobre os atos.

Conviver com alguém é poder escutar esse discurso dos atos. É entender como funciona a rotina e as dificuldades de alguém. Perceber que talvez aquele sujeito sempre bem humorado no sábado seja bastante tenso durante a semana. Descobrir que a moça que parecia tímida se transforma quando precisa resolver problemas. Se surpreender com a sensibilidade daquele cara que parecia ser bastante ogro.

Convivência também serve para tirar a atenção constante que temos no outro.

Nos focamos muito na outra pessoa quando estamos nessa fase de conhecimento. Quando saímos costumamos fazer programas de casais, eventos que não nos dispersem. Por outro lado, a convivência pode trazer situações em que vocês fiquem apenas calados um do lado do outro, interagindo com terceiros, assistindo algo juntos, conhecendo algo que era novo para os dois. Esse convívio muitas vezes é o que desencadeia conversas que poderiam ser difíceis de começar.

Tem certas questões que só aprendemos acompanhando alguém. Eu costumo dizer que cada pessoa tem um “clima próprio”: é a união da personalidade, educação, gosto musical, presença corporal, interesses, expectativas, frustrações, cheiro, história, sonhos. Só pela convivência é que captamos esse clima, facilitando a nossa decisão a respeito de um possível relacionamento.

 

5. Brigue

Esse ponto parece polêmico mas não é. Todos tentamos evitar brigas e discussões com quem vivemos, mas muitas vezes não dá. O pau tora! Nessas horas costumamos pensar apenas em nós e na treta do momento, e acabamos perdendo uma oportunidade de ouro: é preciso saber como a pessoa reage diante de uma dificuldade ou diante de uma tensão. Não estou aqui falando para você provocar alguma situação – afinal de contas, elas aparecem sozinhas -, antes, preste muita atenção como funciona a dinâmica afetiva de quem você se interessou nesses momentos de tensão.

Na teoria todos somos tolerantes, respeitamos as pessoas, sabemos escutar, somos humildes e temos muita #gratidão. Mas às vezes basta um congestionamento, uma discussão, um olhar torto para irmos desse paraíso perfeito de nossas crenças para o desejo assassino de destruir tudo e todos. Exageros à parte, todos sabemos que um bom jogador é aquele que aguenta o tranco da pressão na final, o bom profissional é aquele que suporta as adversidades no fim do projeto, o bom músico é aquele que dá conta de tocar e cantar sem gaguejar. Nos relacionamentos não pode ser diferente. Na trincheira da guerra cotidiana você quer alguém que pode até brigar contigo mas vai te dar suporte quando precisar ou aquele que senta em posição fetal e, enquanto chora, diz “eu não queria estar aqui, eu não queria estar aqui”? Então brigue, discuta, discorde, fique de mal, vire a cara mas busque entender como funciona com o outro.

Enfim, se você é daquelas que explode mas tudo passa em cinco minutos, procure alguém parecido.

Se você precisa de um tempo para pensar e depois conversar direitinho, procure alguém parecido. Agora uma pequena dica: se você é daqueles que fica magoado por uma semana por conta de algo mínimo, na boa, pare de ser infantil e mude. Se você encontrar alguém parecido, vocês vão se matar.

 

6. Tenha Disposição

Para finalizar, a última dica é ter disposição. Vivemos numa época que prega pelos quatro cantos que você deve fazer aquilo que deseja e correr atrás dos seus sonhos. Dificilmente alguém te aconselha a aguentar o tranco e seguir firme mesmo na adversidade. Essa cultura acabou criando uma busca imediata pela satisfação pois ao mesmo tempo que você consegue criar relações rápidas e superficiais, as opções aumentaram de forma inimaginável. Você pode ficar brincando de se saciar até o dia que morrer.

O problema é que, faça chuva ou faça sol, relacionamentos serão sempre inseparáveis do esforço.

Você nunca vai ter um amor maior, amor maior que eu evitando as dificuldades e querendo ficar só com a parte boa. Relacionamentos exigem disposição. Isso mesmo, se relacionar dá trabalho pra cacete. Sei que você já sabe disso, mas não custava dizer de novo, não é mesmo?

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Porém, quando pensamos em esforço sempre nos vem a mente o conceito da troca ou da parceria. Hoje também ouvimos muito sobre dividir tarefas, compreender o outro e ajudar-nos. Aquele clássico “se cada um fizer a sua parte todos saímos ganhando”. Acontece que aqui temos outro problema. Essa filosofia da partilha é perigosa pois podemos em certos momentos começarmos a fazer o que chamo de Economia Afetiva: calculamos cada ato realizado e tentamos ver se os benefícios equivalem aos investimentos. “Eu paguei hoje a janta, levei o cachorro para passear e amanhã vou com ela no shopping, acho que isso equivale a um cinema seguido de motel”. Não é difícil perceber que esse cálculo pode soterrar o amor.

Na verdade, quando falo em disposição, falo sobre a disposição para o sacrifício.

Amar alguém é estar preparado para se sacrificar. Por isso fica muito estranho quando eu digo que quero a felicidade do outro mas fico fazendo conta pra ver se está valendo a pena. Você quer fazer quem ama feliz ou quer apenas não sair perdendo num negócio? Disse aqui que você deve pensar no que deseja e depois avaliar a outra pessoa de acordo com esse critérios. Porém, essa avaliação não pode tirar do seu horizonte a capacidade de se sacrificar. Estar disposto no começo do namoro é parar de pensar só em você e tentar se doar em busca da melhor felicidade existente: a felicidade de fazer o outro feliz.

Portanto, se depois desses seis ponto anteriores você percebeu que vale a pena ficar com a pessoa, esteja disposto a matar e morrer por ela. Disposto desde o primeiro dia. Se ela também assim o desejar, temos uma grande possibilidade de nunca mais nenhum dos dois precisar pensar em como começar um relacionamento.

Poderia escrever muito mais sobre esses e outros tantos pontos, porém, creio que o essencial está aqui: saiba o que quer; avalie e conheça a outra pessoa; converse, conviva e até brigue com ela; mas se perceber que encontrou o que queria, não perca de vista a capacidade de se sacrificar. Toda essa realidade é difícil. Tanto que dou até um curso sobre o tema. Mas se não valesse a pena não teríamos esse desejo tão profundo de ter outra pessoa para dividir a vida. Viveríamos cada um na sua: poderia ser até mais fácil mas com certeza teria bem menos graça.

Eu não te amo mais: como terminar um relacionamento

O amor pode acabar. Aquele sentimento bom de estar com a pessoa, a vontade de dividir a vida, aquele conforto de saber que você “tem alguém a seu lado”, aquele desejo de se declarar de tempos em tempos, tudo isso pode chegar ao fim. Dos que acreditam que o amor verdadeiro nunca morre aos céticos que defendem que amor é apenas um contrato em busca de benefício mútuo, normalmente quando chegamos neste momento crucial, da certeza de que não amamos mais, há um longo caminho até o término concreto da relação.

Primeiro, temos de deixar claro, ninguém quer passar por isso.

Todo nós – quero crer – começamos um relacionamento para construir durante muitos anos. Até os que acreditam que nossa missão é ajudar o outro por um tempo para depois seguir adiante; mesmo esses ficam tristes quando o amor acaba. Por essa razão, a dificuldade sempre começa com uma batalha interior: algo te diz que as coisas mudaram mas você insiste em tentar não acreditar.

Essa sensação é muito parecida com uma crise – e talvez por isso muitos se separam quando surge qualquer pequena dúvida – mas ela é um pouco mais profunda. É uma certeza que parece que apenas espera a aceitação, e nós lutamos durante um bom tempos tentando não aceitar. Sempre quando me falam sobre términos, me lembro das cinco fases psicológicas de um doente terminal: negação, revolta, barganha, depressão e aceitação. Me parece que na morte de um amor a dinâmica é a mesma, nos debatemos muito antes de chegarmos à última fase.

Por essa razão podemos gerar muita confusão e até mesmo criar um caos em nossa relação. Definitivamente, uma das maiores dificuldades nesse momento é saber por onde começar. Qual o primeiro passo? Para facilitar a nossa vida, nada melhor que um passo a passo:

1. Tenha certeza.

Todo seu tormento interior termina quando você acorda um dia e diz pra si mesmo: acabou! Muitos já passaram por isso, é libertador e ao mesmo tempo triste, mas acima de tudo é necessário. A base de toda sua atitude a seguir é decorrente dessa certeza, ela é o ponto de partida. Não tem como terminar ainda com dúvidas, caso contrário, o tiro pode sair pela culatra. Claro, essa clareza de decisão não é constante – há dias em que ela é mais forte, em outros mais fraca -, mas ela precisa existir. Você precisa se olhar no espelho e dizer “eu não quero mais” e ver que isso é sincero. (Se ainda não tem certeza, procure conversar com sua namorada ou amigos. Pode ser simplesmente uma confusão pessoal ou uma tempestade em copo d’água).

2. Seja Claro.

Depois de ter certeza, seja claro com quem divide a vida contigo. Na cultura das indiretas, ser claro é algo que exige mais esforço do que você imagina. Ser claro não é apenas chegar e dizer “acabou”. É conseguir concluir uma relação sem deixar assuntos mal resolvidos ou questões a serem debatidas. É por um ponto final com decisão. Sabe quando você assiste um filme que não tem um fim claro, não te dá um sensação de ter sido enrolado ou de estar faltando alguma coisa? Então, agora pense num final de relacionamento e evite essa mesma sensação.

3. Seja Sincero.

Essa clareza também advém da sinceridade. Para termos clareza conosco precisamos ser sinceros, o mesmo acontece em relação a outra pessoa: ser sincero é a melhor forma de terminar e evitar complicação futuras. Obviamente, ser sincero não significa ser estúpido. Costumamos achar que a sinceridade é o ato de falar tudo – tudo mesmo – na cara da outra pessoa. Não é disso que estou falando aqui. Ser sincero é conseguir falar a verdade sobre o que houve no relacionamento e qual o motivo do término de forma madura. Se você se apaixonou por outra pessoa, se você não o vê mais como um parceiro, se o desejo de dividir a vida acabou, se os interesses mudaram; ser sincero é ser capaz de dizer isso da melhor maneira possível quando for necessário.

Sinceridade também é ter coragem para aguentar as consequências da sua decisão.

Não minta por medo de magoar a outra pessoa ou por medo de te acharem um idiota. Erga a cabeça, diga a verdade e aguente o tranco. Você estará apenas sendo um adulto e se comportando como tal.    

4. Local e Momento.

Para terminar de forma clara é preciso também pensar onde e quando tudo acontecerá. Por conta da nossa covardia ou insegurança, às vezes escolhemos o pior momento possível para isso. Aquela discussão besta na festa, aquele desentendimento na hora do almoço, aquela queixa de algo cotidiano, tudo vira gota d’água e catalisador para a separação. Esse é um dos maiores erros: algo pequeno parece ser o motivo para o fim. A outra parte então é pega de surpresa, e já alterada pela notícia, complica a derradeira conversa.

Portanto, primeiramente, escolha um local seguro.

Algum lugar onde ninguém irá atrapalhar e vocês terão liberdade para conversar – e quem sabe até chorar ou gritar. Talvez conversar na casa dos pais dela onde vocês podem ser interrompidos ou discutir no fumódromo de uma festa não seja uma boa idéia.

Depois, pense no momento. Vocês têm uma hora de almoço durante a semana ou se encontram rapidinho depois do expediente antes de irem para a faculdade? Talvez é melhor conversar outra hora. Quem sabe no final de semana ou no final do dia não seja melhor. A ansiedade a respeito dessa resolução pode te atrapalhar e antecipar as coisas, mas tenha paciência e escolha bem esse local e momento. Mas falando em paciência… 

5. Tenha Paciência.

As reações diante de um término tendem a ser bastante diferentes. Quem termina, costuma não perceber, mas tem uma imensa vantagem: já vem pensando e maturando a idéia há tempos. Enquanto de um lado temos alguém que está vivendo um relacionamento, fazendo planos e pensando no futuro; do outro lado temos aquele que só observa os erros, pensa no momento e no que vai dizer e já não vê mais futuro algum senão sozinho. Portanto, se você irá terminar, saiba que deve ter muita paciência.

Quando passamos por alguma situação difícil, precisamos repassar algumas vezes em nossa mente o fato ocorrido, para enfim absorvermos toda a realidade: com términos é a mesma coisa. Quem é deixado costuma voltar para rediscutir o término. Muitas vezes até mesmo utilizando-se dos mesmo argumentos. Parece que a pessoa não se lembra do que já foi discutido ou se faz de louca, mas na verdade é apenas um processo de absorção da informação. É como reler a mesma página várias vezes para tentar entender o que o autor está dizendo. 

Também as reações podem ser bastante intensas: gritos, choros, atos desesperados, ofensas pessoais, barracos.

Num momento de fraqueza, a pessoa deixada pode cometer esses desvios de conduta. Claro que nenhuma dessas situações são agradáveis ou justificáveis, mas aqui também cabe ser paciente. Busque não expor ou humilhar a pessoa – mais do que ela pode já estar fazendo consigo mesmo.

6. Corta e Separa.

Último passo para um término é algo que minha mãe sempre diz: corta e separa. Hoje tendemos a manter os antigos relacionamentos de forma residual, não é mais uma relação afetiva mas também não é uma amizade. O que é então? É apenas uma falsa sensação de relação distante que nos faz crer que somos muito adultos e bem resolvidos. O problema é que essas relações podem se tornar bastante confusas.

A possível amizade entre ex namorados ou maridos não é uma continuidade da relação afetiva anterior. Ela deve ser uma nova relação. Portanto, o melhor a se fazer é cortar e separar. Encerre essa relação e depois veja se é possível construir outra. Terminou? Então bloqueia a outra pessoa e se recomponha! Fique um tempo sem ter notícias e se contenha: nada de stalkear ou sair perguntando para todo mundo que destino a pessoa levou.

Entrar em contato, ficar de conversinha, visitar a casa do outro, tomar um café, rever a família dela, reencontrar os amigos dele, relembrar os bons tempos. Tudo isso é muito perigoso nesse período pós término. Querem ser amigos? Fiquem ao menos três meses sem se ver. Se depois disso vocês conseguirem se olhar e nenhum dos dois ficar balançado, talvez – eu disse talvez – exista uma pequena chance de criar uma amizade.    

7. Não Seja Covarde!

Por fim, aqui vai uma dica do que não fazer: não seja covarde. Se quer terminar, termine de forma digna! Tem muita gente que se utiliza de modos bastante infantis – para não dizer cruéis – de término: termina por whatszapp, bloqueia a pessoa, tira o status de relacionamento do facebook, avisa todo mundo menos o interessado, trai e espera o assunto chegar, vai ficando indiferente até criar o clima, provoca a pessoa até ela querer terminar, pede para os amigos contarem a verdade, finge de louco, se faz de maluca. Não preciso dar mais exemplos, já que eles são tantos. Acho que você me entendeu, né?

Bem, aqui estão sete passos bastante objetivos, creio que são suficientes. Se ainda resta alguma dúvida, eu posso te ajudar mais. Porém, lembre-se, terminar é difícil mas não é impossível. É o fim mas também pode ser o começo. Saiba que vezes, graças a essa relação que se encerrou, você pode enfim ser feliz como sempre sonhou.    

O que é o sentido da vida?

Desde o momento em que tomamos consciência de nossa necessidade por sentido, buscamos sempre algo mais significativo para gastarmos o tempo da nossa vida. Esse desejo começa muitas vezes quando a criança brinca de ser super-herói, ali está a semente desse Sentido da Vida ainda sem forma. Na adolescência essa busca está mais voltada para si, e é interessante de ser notada. Quando o jovem começa a se distanciar da família – evita os pais, não quer nenhum sinal de carinho público, diz que eles não o entendem – podemos dizer que ele está em busca de desenvolver sua personalidade independente de um grupo que o absorva.

Ele quer ser ele mesmo, não o “filho de fulano”.

Converse com um adolescente e verá que normalmente a questão de “quem sou eu” é bastante urgente. Porém, passados alguns anos, essa questão parece perder o importância ou já foi superada, o problema agora é outro: o que fazer e como se posicionar na sociedade.

Essas questões acabam sempre desembocando nesse tal Sentido da Vida. Confesse, seu sonho é encontrar algo que te complete, te faça feliz, te deixe motivado e te ajude a construir uma imagem ou legado para as próximas gerações. Porém, infelizmente tenho más notícias: esse sonho é falso. Com a modernidade criamos toda uma cultura de inflação de ilusões: todos nós podemos mudar o mundo, atingir pessoas ao redor do globo, ser lembrado pela posteridade, transformar a humanidade. Essa idéia megalomaníaca acaba afastando cada vez mais as pessoas do que é realmente encontrar um Sentido da Vida. Pois não é difícil imaginar que se todos temos de mudar o mundo, de duas, uma: ou a maioria da população vai se frustrar, ou o mundo será mudado tantas vezes que não fará mais nenhuma diferença qualquer nova mudança.

Tirando essa fantasia do horizonte, o que sobra então? Para responder essa questão precisamos colocar os pés na realidade.

Quando falamos em Sentido da Vida precisamos pensar em atividades que podem ser realizadas ordinariamente, atividade comuns – deixemos os atos extraordinários para depois. Devemos pensar em um certo tipo de papel que eu, você, minha avó, seu colega, minha professora, sua madrinha podem realizar. Esse Sentido da Vida não pode ser inalcançável, caso contrário teríamos desde o início dos tempos uma epidemia depressiva que há tempos já teria engolido a humanidade. Para deixar tudo mais claro, há três conceitos chaves que podem facilitar nosso entendimento: Sentido da Vida é uma Missão Pessoal Intransferível.

Missão:

Quando falamos em missão normalmente pensamos em algum tipo de herói ou religioso. O herói costuma ter a missão de combater o crime, lutar contra as forças do mal. A missão do religioso é associada à evangelização, talvez ir até um terra distante e pregar o evangelho. O que temos em comum é a idéia de uma atividade que não tem fim. Tanto o herói quanto o religioso têm diante de si algo que pode ocupar suas vidas até o fim dos dias.

Além desse aspecto, quando falamos em missão também falamos de uma função que precisa ser feita. Toda missão tem em si essa idéia de urgência e necessidade: alguém precisa fazer isso pra ontem, pois é de suma importância para todos. Além dessas duas características, podemos dizer também que missão é algo que uma vez assumida não pode ser deixada de lado. Melhor dizendo, se você vai realizar essa atividade é pra fazer de verdade. Missão dada é missão cumprida. (Perceba que só de eu falar sobre missão você já deve ter desejado ter uma para chamar de sua. Essa é – como chamava o psiquiatra e filósofo Viktor Frankl – a Sede de Sentido).

Todos nós temos uma vontade íntima de ter sentido, por isso histórias de homens comuns ou extraordinários que superaram suas dificuldades nos atraem.

Se o Sentido da Vida possui esse aspecto missionário significa que o homem tem em si essa disposição. Porém, pensemos mais um pouco no conceito de missão para que nada nos escape. Se não pararmos um pouco para prestarmos atenção, algo bastante evidente costuma passam em branco: missões não tem nenhuma relação com dinheiro, trabalho ou necessidade de reconhecimento.

Aqui a casa cai!

Missões, como dito antes, são atividades que devem ser realizadas em prol de algum bem, mas de forma alguma precisam te conferir algum benefício. Um exemplo, que tanto eu quanto o Francisco utilizamos, é o da maternidade. Não vou me delongar aqui mas mães ao redor do mundo tem na criação de seus filho o Sentido da Vida e não é por isso que são super reconhecidas, ganham dinheiro ou possuem algum cargo.

Elas são simplesmente mães.

Vivemos nossa vida inteira atrás de um significado maior em nossas vidas e podemos nem reparar que milhares de mulheres ao nosso redor são exemplo de pessoas que encontraram seu sentido. Mães são tudo e mais um pouco – enfermeiras, psicólogas, professoras -, perdem muito dinheiro, pensam pouco em si mesmas e se preocupam muito com seus filhos. É desse tipo de missão que eu estou falando.

Pessoal:

Sentido da Vida é um missão mas deve ser também pessoal. Falei anteriormente da maternidade, mas vou me utilizar de outro exemplo aqui: vamos pensar em um professor. Digamos que ele é um homem que vê na educação uma atividade que enche seus dias de significado, logo, ele tem uma missão educadora em sua vida. Quando pensamos dessa forma, podemos chegar a conclusão de que essa missão não é exclusiva desse professor. Várias pessoas ocupam sua vida com atividades educacionais. Sim, este pensamento está correto.

Para entendermos melhor, deixe-me ser mais claro: esse professor encarna em sua vida pessoal essa missão ampla da educação.

O professor não educa a humanidade, ele educa os alunos que estão diante dele na sala de aula. Portanto, o Sentido da Vida dele não é a educação mas a educação específica daqueles que lhe são confiados por meio do seu trabalho. Entende que essa missão perde esse aspecto genérico e ganha em concretude e objetividade pessoais? Podemos pensar também em um cozinheiro: o seu sentido será realizado todo dia quanto estiver fazendo um prato para um cliente em seu restaurante. Com um músico é a mesma coisa: seu sentido será tocar aquela música específica naquele local específico para aquele público específico. Acho que me fiz entender, né? Portanto: todo Sentido da Vida deve ser realizado em sua vida concreta sob sua responsabilidade.

Intransferível:

Esse aspecto é uma dedução lógica dos dois anteriores: se Sentido da Vida é uma missão e deve ser pessoal, logo, eu não posso transferi-lá para ninguém. Exatamente. Mas cabe aqui mais algumas palavras. Uma idéia que sempre gira em torno desse tema é a questão da realização de sua personalidade. O Sentido da Vida não é apenas um missão pessoal que você escolhe ao léu dentre as milhares de missões possíveis no mundo. Caso fosse, qualquer atividade com significado acalmaria essa angústia que você carrega no peito.

Sabemos por intuição, e nem precisamos de explicações de especialistas, que de certa forma “cada um tem uma missão”.

Essa idéia já foi muito trabalhada por religiões ou correntes filosóficas, mas apesar disso, a gente sente que cada um tem um papel. E digo mais, também sabemos que cada um tem uma personalidade ou uma aptidão para certas coisas. Dessa idéia é derivado este terceiro aspecto: o Sentido da Vida é intransferível pois é uma atividade que você deve realizar pois ela foi feita para você.

O Sentido da Vida é intransferível pois mesmo se outra pessoa fizesse aquela atividade no seu lugar, você teria a sensação de estar deixando de lado uma parte de você.

Você estaria negando algo que lhe foi confiado desde que o mundo é mundo. Palavras bonitas, eu sei, mas que carregam uma verdade imensa: o Sentido da Vida é algo próximo a você pois é a atualização do seu ser de forma plena na realidade. Quem diz isso é o filósofo francês Loius Lavelle. Para ele o Sentido da Vida é a realização de quem você é. Por essa razão, ao realizá-lo, terá enfim a serenidade interior pois está fazendo algo que de certa forma é natural para você.

Procure exemplos de pessoas que encontraram seu Sentido da Vida, você invariavelmente encontrará algumas histórias que parecem mentira: cada episódio da vida daquele sujeito parece um degrau para ele chegar onde está, tudo o direcionou para chegar naquele papel – o famoso “nasceu para isso”. Além desses, você também encontrará alguns casos em que uma história de vida muito confusa ou sofrida acaba sendo redimida por uma atividade que dá sentido, não só para os dias atuais, mas resolve todas as questões anteriores. (Um exemplo que gosto muito é a série Chef’s Table no Netflix, são histórias variadas que foram resolvidas por meio de um mesmo sentido).

Bem, basicamente tudo isso é o Sentido da Vida. Talvez essa procura e realização de um sentido seja a maior conquista para um ser humano.

O assunto não se esgota aqui, eu sei que muitos devem estar se perguntando qual a via mais fácil para encontrar o seu sentido ou o que fazer enquanto não encontra esse papel no mundo, eu mesmo dou curso a esse respeito. Mas acima de tudo, o importante é saber que, sim, a vida pode ter sentido – e não é por não ter encontrado ainda que ele não existe. Enfim, ao menos agora você sabe o que ele é.

Somos todos Frodo

Escrever sobre O Senhor do Anéis é um pouco ingrato. Esta obra já foi tão analisada e discutida que todas as vezes que penso em algo novo tenho a sensação que alguém já o fez. Mesmo assim, é também inevitável tirar novas conclusões, afinal de contas, toda vez que lemos ou assistimos a obra de Tolkien somos novamente despertados.

Esses dias, pela milionésima vez, eu assisti a trilogia inteira. Estou numa fase meio órfão de séries e todos os filmes que selecionei anteriormente me pareceram pouco atrativos. Então, o negócio é partir pro Vale a Pena Ver de Novo.

Revendo toda a obra, lembrei de uma idéia que sempre tive a respeito dos inimigos daqueles que desejam a destruir o o anel. Quando ainda lecionava, costumava perguntar aos alunos: Qual é o maior inimigo do Frodo? Alguns diziam Sauron, outros Gollum – teve até um aluno que disse ser o Sam (?). Por minha vez, sempre acreditei que o maior inimigo de Frodo é ele mesmo.

Revendo a obra, tive mais algumas confirmações da minha teoria:

O pequeno hobbit, desde o momento em que assume a missão de levar o anel, é tentado a ceder, a se deixar levar. Algumas vezes até mesmo tem de ser impedido por outros, pois perde por um momento a consciência de sua missão. Além de ter de suportar a luta interna, Frodo também é tentado por todos a sua volta.

Fico sempre imaginando como deveria ser o peso dessa missão. Fica bem claro, em certa altura da trama, que o destino de todos está nas mão do hobbit. Como seria carregar o destino da humanidade em suas mãos mesmo tendo consciência que a missão é praticamente impossível? Quase no final do terceiro filme, uma cena que nunca me chamou muita atenção, dessa vez, me fez refletir um pouco mais sobre essa questão.

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Antes de entrarem na Montanha da Perdição, Frodo cai (vai ter spoiler sim, porque se você não viu os filmes já deveria ter visto). A única forma que Sam encontra pra reanimá-lo é relembrar o Condado. O fiel escudeiro relembra as comidas, cheiros e festas; ao perguntar para o portador do anel se ele também se recorda, este diz que não. A única coisa que Frodo vê é a escuridão que o cerca e ele se sente nu diante de toda maldade. Nesse momento fica claro o desespero de ter de cumprir uma missão necessária mas quase suicida. Em outro momento anterior alguém diz que a solidão é a marca daquele que possui o Um Anel. Portanto, assumir essa missão é comprometer-se a andar sozinho diante do Mal.

Pensando em tudo isso, pensei em minha vida também.

Afinal de contas, O Senhor dos Anéis não é apenas uma obra de ficção bem feita, mas é daquelas obras que te transforma. Como disse, Frodo carrega o destino dos todos nas mãos. O Mal vencerá caso derrote o hobbit e seu maior inimigo é ele mesmo.

Portanto, o Mal prevalecerá sobre a terra se o homem permitir. Sendo assim, Frodo é cada um de nós. Se o homem ceder aos seus instintos, medos ou ganância, o Mal fatalmente reinará. Tolkien, com maestria, nos mostra essa realidade: devemos permanecer firmes em nossos propósitos, devemos cumprir a nossa tarefa. Terá momentos em que não lembraremos mais o gosto da felicidade, do descanso, da tranquilidade. Em outros, nos sentiremos sozinho e nus diante do que há de pior no mundo. Nossa luta diária parecerá em vão. Mesmo assim, é preciso manter nosso compromisso e arcar com as consequências.

Quando Frodo sai da montanha, recém destruído o anel, ele se deita e diz lembrar de tudo de novo. Enfim, respira aliviado. “Ele se foi”, diz também.

É a sensação do dever cumprindo, quando nos deitamos na nossa cama e temos o sono dos justos.

Mas Jota, o Frodo não faz tudo isso sozinho!?, você pode indagar. Não, obviamente que não. Mas sobre amizade, Sociedade do Anel e principalmente o Sam, eu falo mais outro dia.

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O primeiro passo para a vida adulta

Conversei no começo do ano passado com uma moça bastante jovem. Do alto dos seus dezesseis anos, ela estudava já pensando no vestibular e me falava sobre sua rotina no colégio. Mas, como era de se esperar, esse não era o real motivo pelo qual me procurou: na verdade, ela sofria de amor.

Seu namoro já não ia bem das pernas e ela, entre muitas crises e poucas certezas, estava muito confusa com tudo o que vinha acontecendo. Nossa conversa foi rápida, mas o suficiente para perceber que ela só quer, só pensa em namorar.

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Recentemente reencontrei por acaso a namoradeira. Começou a conversa já me atualizando: estava trabalhando. Antes de eu dizer qualquer coisa, soltou “tá bem complicado, meu chefe não é fácil, tenho que procurar um novo emprego!”. Algo tinha mudado. Foi a vida adulta que tinha chegado. Ou melhor, ela chegou na vida adulta.

Quando vivemos longe de certas responsabilidades não conseguimos entender o sofrimento ou a importância da luta diária no mundo adulto.

Eu mesmo só fui entender quando me vi morando com dois amigos, tendo de limpar o banheiro uma vez por semana e contar os trocados no final do mês. Essa realidade não chega até nós naturalmente, ela exige um esforço pessoal. E quando digo esforço, eu quero dizer muito esforço. Vivemos na época da Ideologia da Naturalidade. Tudo tem de ser natural, nada pode ser ordenado; tudo deve ser fluído, nada pode ser planejado. Nessa dinâmica esquecemos que a vida adulta só acontece quando caminhamos em direção a ela.

De arrasto também perdemos de vista uma das maiores vantagens da vida adulta: os problemas mudam de tamanho.

As grandes preocupações e medos do jovem se tornam algo bem diminuto diante da realidade do adulto. É como sair de casa pela primeira vez, olhar para trás e perceber que nosso universo doméstico é apenas uma parte bem pequena de um todo. Aquele que não assume a vida adulta permanece dentro de uma bolha infantil – com figurinhas na janela, ursinhos de pelúcia sobre a cama e toddynho de manhã. Se o jardim é o limite, tudo tem muita importância. Meus dramas são um fardo. Ninguém sofre como eu.

A moça que antes vivia em crises afetivas agora já adotou um mote clássico dos adultos: reclamar do chefe, querer mudar de emprego. Não é a melhor filosofia que alguém pode ter na vida, mas significa que o primeiro passo para a vida adulta foi dado. Ao perguntar sobre o namorado, confirmei o que suspeitava: “Ah, acabamos… Tô meio sem tempo agora e ele não entende muito bem isso”.


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Professor de academia

Relacionamentos são sempre complexos. Simples é conversar de passagem com o porteiro, dar bom dia pro caixa da padaria, cumprimentar a vizinha. Isso não é novidade.

Por isso mesmo, terminar qualquer relação é sempre difícil. Não fomos criados para os términos. Aprendemos desde cedo a conquistar nossos objetivos. Histórias de grandes homens povoam nossa mente e sempre nos servem de motivação para seguir conquistando. Em filmes e livros, sempre esperamos pelo Happy End ao final – e se não fosse por Game of Thrones, ficaríamos ainda muito surpresos quando algum personagem morre.

Normalmente, quando chegamos no limiar do “não dá mais pra mim”, passa-se um bom tempo até concluirmos a questão. Sempre dentro de nós há aquela parcela de esperança – que é dura de matar – e que ainda quer manter a relação. Quem já terminou um namoro ou casamento sabe que sempre sustentamos um diálogo infindável dentro de nós com prós versus contras. Sabe também que essa parte esperançosa, mesmo quando derrotada, ainda levanta uma pergunta que mais parece uma cilada:

Por que não manter o vínculo?

Essa dúvida – com suas variações – é unânime em todos os finais. Parece que mesmo depois de termos sofrido e encerrado um relacionamento ainda é preciso manter a porta aberta, deixar as migalhas de pão traçando o caminho de volta pra casa. Temos a sensação de que todo aquele esforço não pode ter sido em vão. Então, imbuídos de um espírito acolhedor, seguimos em contato com aqueles que deixamos pra trás.

Uma imagem recentemente me ajudou a entender um pouco essa dinâmica: Aqui em frente de casa passa uma ciclovia, nela vejo todos os dias – nos que não chovem ou fazem frio, coisa rara nessa cidade – um grupo de pessoas correndo. Frequentemente elas estão identificadas com camisetas bregas de cores vibrantes ostentando alguma logo de academia. Acompanhando-as, sempre temos o professor: homem em forma, sempre bem disposto, um misto de líder e amigo. Este homem é o único que tem aval para reunir todos em roda na pracinha para novos exercícios, alongamentos e ao final puxar palmas como recompansa pelo esforço de seus alunos. Mas o que mais me chama atenção é a corrida. Ele é capaz de conduzir os que estão a frente, incentivar os que estão no meio do pelotão e ainda dar conselhos bem humorados para os retardatários. O papel dele é não deixar ninguém se sentir desacompanhado, desmotivado.

De tanto vê-lo da janela da minha casa, esse perfil acabou se tornando um arquétipo pessoal. Mas se o trabalho dele é esse, o meu é escutar pessoas. Volte e meia me chegam certas frases: terminei com ela mas ainda estamos nos falando, não quero deixá-la sozinha nesse momento. Nos separamos mas vamos manter o contato, acho maduro da nossa parte. Não estamos mais juntos mas acho que não preciso cortar todo o vínculo, a gente se conhece tão bem que não vejo porque não ficarmos próximos. Todas às vezes que ouço algo parecido, lembro daquele homem correndo em torno da quadra, não deixando ninguém desanimar, não querendo ninguém triste. Logo penso comigo, aqui temos mais um professor de academia.