Carta Aos Meus Filhos

Curitiba, 13 de agosto de 2017.

Piás,

Não faço idéia de quando e se lerão esta carta aberta. Seja como for, sempre serão meus piás, ainda que fiquem mais velhos do que eu.

Hoje é o dia dos pais de 2017. Talvez eu não demonstre, mas é um dia complicado para mim desde que o vô Bortolo se foi. Uma das coisas que me doem é que sei que o passar dos anos vai apagando a infância da memória e seu avô será lembrado pelas fotos, não por ele. A vida é assim, infelizmente.

 

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Um dos meus arrependimentos é ter conhecido muito pouco de meus avôs, também de meus pais.

Acho que será diferente para vocês, afinal, nesse mundo digital eu nunca irei embora. Nem eu sei mais quantos textos e vídeos e áudios tenho espalhado por aí. E mal comecei…

Não é o ideal, eu sei, mas é mais do que tive com meus avôs e meu pai. Até hoje, piás, fico sabendo mais de seu bisavô Chico por pessoas que vêm me perguntar se sou parente dele.  Costuma ser gente simples, ascensoristas, porteiros, barbeiros, e por aí vai. Semanas atrás aconteceu de novo, agora pelo filho de um político da época. E de novo o mesmo depoimento: ele nunca foi político, mas um pai. É o que mais sei dele. Deus seja louvado.

Ainda hei de escrever um romance, aliás, em que o Manguinha Rosa será personagem. Ele era um anãozinho que vendia cocada e estava onde o vô Chico estivesse. E falava como se a garganta dele tivesse sido cortada. Era uma voz rasgada e esganiçada. No meu olhar de criança ele era o Tatu da Ilha da Fantasia do meu avô, seu Gimli, seu Tyrion Lannister. Enfim, seu braço-direito.

Do biso Zair sei um pouco mais da história, ele chegou a escrever um pouco dela, imprimiu, apostilou e distribuiu pela família. Tenho guardado, jamais me desfarei, estará no meu espólio para vocês, meus netos e quem mais vier depois.

O que gosto de me lembrar dele é mais pro fim da sua vida, quando ficou mais doce e criança. Tinha um livrinho de piadas, todas inocentes, contava direto, rindo antes de terminar. Ele gostava de ir tomar um trago num boteco perto da casa dele, quase todo dia, antes do almoço. Uma vez passei pela rua de carro só para vê-lo lá. Estava rindo, feliz. É a imagem que escolhi guardar na minha memória.

Não é meu avô, nenhum dos dois, mas poderia ser.

Não falarei de minhas avós e da de vocês hoje, por conta do dia, mas prometo escreverei também. Queria mais era falar do meu pai.

Não sei quem disse, mas acertou em cheio, ao afirmar que aprendemos a ser filhos quando nos tornamos pais e aprendemos a ser pais quando nos tornamos avôs.

O vô Bortolo de vocês era bem filho do meu vô Chico. Também não falta quem o considere como um pai. O que teve de clientes pro-bono como advogado não está escrito. Se continuei advogando, saibam, foi somente por esses clientes. Só por eles, nada mais. Porque sou filho do meu pai e neto do meu avô. E meu nome é um destino.

Uma das histórias que mais gosto do vô Bortolo é do que ele fazia quando chegava numa cidade nova para trabalhar como promotor de justiça. Ele jamais se recusava a atender o povo, fosse quem fosse. O que mais vinha era problema de família, especialmente pensão atrasada, violência doméstica.

Sabe o que ele fazia? O primeiro caso desses que aparecia ele chamava o policial militar que trabalhava no fórum e mandava buscar o devedor ou agressor. Sem ordem do juiz, sem pedido de por favor, era para trazer. Os policiais ficavam ressabiados, mas cumpriam a ordem. Nunca houve violência. Quando a porta do gabinete dele fechava só se ouvia a voz de trovão dando uma esculachada homérica no sujeito, que saía pisando macio e falando manso, com a dívida paga e a certeza que se batesse na mulher de novo haveria quem tomasse as dores.

Resultado? Na primeira semana de trabalho fazia fila no fórum de gente querendo ser atendida por ele. E outra de gente acertando suas contas. Em pouco tempo diminuía os processos e muita coisa se resolvia numa conversa no gabinete dele. Os juízes adoravam. A cidade mais ainda.

Uma vez, muito anos depois, com ele já advogado, estávamos indo trabalhar numa cidade próxima daqui e falávamos não sei bem do quê, provavelmente de algum caso de corrupção do Judiciário, quando ele me disse o clichê mais verdadeiro: “um homem de valor não tem preço”.

O carro passava pelo museu do mate, lembro bem. Era começo da tarde, aquele calor entediante, de preguiça contagiante. Ele falou sem querer me dar lição de moral, ensinar, nada disso. Apenas disse o que realmente acreditava, quem ele realmente tentava ser e era. Aquela frase saiu menos da voz dele do que de toda sua personalidade.

E é isso que tento ser para vocês, piás: alguém de verdade, por isso imperfeito. Não quero ser seu super-homem, o modelo de homem ideal, este é Nosso Senhor Jesus Cristo, nenhum outro.

Sou aquele que vocês escutam dizer “obrigado” e “de nada”, “por favor” e “com licença”, mas que xinga pateticamente no trânsito; que deixa o escritório essa zona que vocês vêem e enlouquece sua mãe de vez em sempre; que parece largar vocês para trabalhar o tempo todo, ainda que seja para vocês que eu trabalhe; que promete mil e umas coisas e parece que não cumpro nunca, mas, saibam!, jamais me esqueci das promessas e quando vocês menos esperam, eis-me aqui.

 

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Se vocês precisarem de ajuda comigo, aviso que essas dicas do tio Jota funcionam. No mais, dêem graças a Deus por vocês terem a mãe que tem, ela dá conta de nós três e só posso tentar ser quem sou porque ela está sendo quem ela é para vocês.

Enfim, o dia é dos pais e vocês já me deram presentes, cartões e sinalizadores atirados na noite do videogame como se fossem fogos de artifício a comemorar esse dia. Agora vocês estão aí a brincar com carrinhos enquanto eu escuto Thin Lizzy escrevendo esta carta. Ainda bem isso consegui deixar de legado desde já, aliás: it’s only rock’n roll, but we like it.

É até engraçado quando penso no quanto escutarmos músicas assim nos tornam próximos. Não sei se vocês sabem, mas o vô Zair arranhava um violão. Sempre sorrio lembrando do esforço dele para tocar uma moda qualquer, mordendo os lábios e concentrado como um xadrezista. E o vô Chico, então, que curtia aquelas músicas breguíssimas que vocês descobriram nos vinis guardados na casa da vó? Aliás, até pouco tempo atrás eu achava que um dos vinis, um dos compactos com “Coração de Melão, de melão, melão, melão; coração”, era ele quem tinha gravado, meu pai quem disse quando eu tinha uns 10 anos. Fui trollado pelo vô Bortolo na infância, vejam vocês.

O vô Bortolo que nos últimos anos adorava comprar umas coleções de CD’s e DVD’s de música. Tenho um de Blues aqui que é sensacional. Peguem quando quiserem. E é igualmente engraçado imaginar meu pai escutando essas músicas e tentando manter o ritmo batendo palmas. Ele era péssimo em bater palmas durante músicas e danças. Rio só de lembrar. Talvez vocês consigam lembrar também, era comum.

E cá estamos a criar nossa própria tradição musical familiar. É só rock’n roll, mas só menospreza quem é ruim da cabeça e saudável no pé. Espero vocês nunca percam o cd do AC/DC que ganharam de Natal e que o Henrique escuta tão alto que os vizinhos devem achar que somos malucos. Se vierem reclamar, responderei: you’ve been THUNDERSTRUCK!

Estou alegre, filhos, inclusive quando lembro do vô Bortolo, he is never out of town. Aliás, esse vídeo abaixo é do show em tributo ao Phil Lynott, vocalista, baixista e compositor da banda. Gary Moore, grande parça do Thin Lizzy, comandou as coisas. Mas Gary também morreu já e o que era tributo para um fica sendo também para outro agora.

 

E só agora percebo que essa carta é isso também, um tributo aos pais que tivemos, piás. Só estou no comando das coisas por enquanto, mas logo será a vez de vocês com os seus filhos e eu espero deixe para vocês histórias assim para contar para eles, como a do dia do meu casamento, quando na hora de dizer “Eu, Francisco”, troquei meu nome pelo da mãe de vocês.

Melhor terminar essa carta antes que escreva mais besteira. Vocês já me zoam demais sem precisar de minha ajuda. Amo vocês, piazada, não importa o que façam com suas vidas. Só nunca esqueçam: um homem de valor não tem preço. Foi meu pai quem me ensinou.

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  • Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

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