Categoria: Cotidiano

O vazio existencial e as canções para náufragos

Que a música tem uma importância tremenda na vida não é novidade para ninguém, mas quando somos náufragos existenciais, aí a música é ainda mais importante: é vital. A ponto de sermos obrigados a concordar com esse aviso iluminado na parede da imagem em destaque aí em cima. 

Sim, você é o que você escuta.

Mas por que a música tem tamanho valor para nós, náufragos?

1) A música preenche o vazio

Em um dos grupos de leitura que faço mediação aqui em Curitiba estamos lendo um livro do jornalista Ari Shavit, chamado Minha Terra Prometida – O Triunfo e a Tragédia de Israel. Logo no começo, quando ele conta sobre os primeiros judeus a migrarem para lá no início do século XX, há uma passagem sobre a importância da música para aqueles pioneiros que é exatamente a mesma para os náufragos.

Para compreendê-la, porém, é preciso saber que aqueles judeus pioneiros eram seculares, ou seja, não acreditavam em Deus, o que para um judeu significa deixar para trás praticamente tudo e começar a vida do zero. É aí que a música ganha um significado muito maior. Preste bem a atenção no que disse um deles:

A hora da música é o único momento em que o nosso refeitório se parece com um lugar de culto. Há uma razão para isso. Deixar deus para trás causou um terrível abalo em todos nós. Destruiu a base da nossa vida como judeus. Isso se tornou a contradição trágica de nossa nova vida. Tínhamos de partir do zero e construir uma civilização desde os alicerces. Porém não tínhamos nenhum alicerce sobre o qual construir. Não tínhamos nenhum fundamento. Acima de nós havia céus azuis e um sol radiante, mas nenhum deus. Essa é a verdade que não podíamos e não podemos ignorar nem por um momento. Isto é o vazio. E música para nós é uma tentativa de preencher o vazio. Quando os sons dos violinos preenchem nosso refeitório, familiarizamo-nos de novo com outra dimensão da vida. Despertam os mais profundos e esquecidos sentimentos enterrados em todos nós. Nossos olhos se fecham, voltam-se para o íntimo e uma aura quase de santidade envolve todos nós.”

É difícil expressar o que é estar náufrago na existência, mas ouso dizer que é exatamente como esses judeus se sentiam. Ainda que acreditemos em Deus, que tenhamos os alicerces da família, da civilização em que vivemos, o sentimento de naufrágio é mais forte do que tudo isso. É a sensação de que não se tem nada de verdade e não se sabe nem por onde começar a ter. Isto é o vazio.

Daí porque a música ganha uma dimensão muito, mas muito maior na vida de um náufrago. Porque, arrisco dizer, só ela é capaz de preencher esse vazio por alguns momentos. É nossa bóia. E, nessas horas, você é o que você escuta mesmo.

2) Preenchendo o vazio.

Por isso não poderíamos deixar de dar destaque para a música por aqui. Em nosso podcast fizemos questão de criar um “espaço” especial que chamamos de Canções Para Náufragos. A idéia é não apenas trazer músicas que possam servir de bóias, mas também tomar consciência… Ah, quer saber, é bem melhor escutar nossos podcasts para entender! Deixo uma lista com os que já fizemos sobre música, com um breve comentário para contextualizar.

I. Manual de Instruções usando como exemplos músicas muito conhecidas de Pearl Jam, The Cardigans, Roberto Carlos e Metallica, falamos um pouco sobre o casamento entre letra e música e a forma final que isso cria.

II. Aprendendo a amar – analisamos dois “clássicos” do pop rock nacional que falam sobre isso, sobre o que é amar.

III. O Naufrágio na Passarela – comentando músicas de carnaval e um samba antológico de Cartola falamos sobre o êxtase da alegria que a música proporciona, assim como também nos canta a ressaca do dia seguinte:

IV. Sendo looser por toda a vida – o mais polêmico dos podcasts sobre música. Falamos de duas bandas muito queridas por nós, porém…:

V. As provas da maturidade – selecionamos músicas “clássicas” de Chico Buarque, Frank Sinatra e Bob Dylan para falarmos sobre os testes pelos quais passamos quando estamos amadurecendo na vida:

E nesta semana sairá mais um volume das nossas Canções Para Náufragos,a sexta, dia 18\05\2018. Passearemos pela música sertaneja para falarmos um pouco sobre esse vazio aí e sua relação com a paixão, que é outra coisa que parece preenchê-lo. Mas, será que preenche mesmo?

3. Bônus Track

Além desses podcasts, temos também uma playlist no nosso canal no spotify feita especialmente  sobre maturidade. É uma playlist que “conta” a história do processo pelo qual passamos para nos tornamos maduros de verdade. Muitas dessas músicas serão trabalhadas nos podcasts futuros, mas já podem lhe servir de mais bóias durante esse naufrágio!

Depois de escutar tudo isso não esquece de nos dizer o que achou, ok? Quanto mais tivermos retorno, melhor Os Náufragos se tornarão. Agradecemos desde já. <3 🙂

 

3 motivos para você começar a estudar a imaginação hoje mesmo

Aqui nos Náufragos nós falamos bastante de imaginação.

O tema já foi explorado até em um podcast sobre o novo filme dos Vingadores!

Muita gente torce o nariz quando tocamos no assunto. Por que diabos eu preciso me preocupar com a minha imaginação? Do que esses caras estão falando?

Se esse é o seu caso, este artigo é para você.

Você pode não perceber na maior parte do tempo, mas é só prestar atenção na sua imaginação para constatar quão importante ela é na sua vida e como é fundamental aprender a desenvolvê-la. Eis 3 motivos para tanto:

 

1) A imaginação é essencial para o planejamento do seu futuro

Você faz planos pro seu fim-de-semana ou é do tipo que espera os outros programarem ou convidarem para algo?

Seja como for, perceba como é pela imaginação que você pode e deveria começar a planejar seu futuro, desde o mais próximo fim-de-semana até muito depois da aposentadoria.

 

2) Com a imaginação você define seus sonhos e vence seus medos

O que você mais deseja na vida? Quais são seus sonhos? E o que você mais teme? Quais são seus medos?

Seja qual for a resposta a essas perguntas, saiba que é só a imaginação que pode transformar desejos em sonhos e mover sua vontade para ir atrás de realizá-los.

Quando isso não acontece, a imaginação joga contra, transformando seus medos em algo intransponível, fazendo com que você só viva buscando segurança e mais nada.

 

3) A imaginação te ajuda a encontrar sentido na vida

Você não faz a menor ideia do que quer para sua vida?

Sente-se meio perdido, sem rumo, deixando a vida te levar? Mas gostaria de achar um caminho, dar um sentido maior à sua vida?

Pois, então, sabe por onde você tem de começar?

Sim, também pela imaginação.

É como voltar à infância e se fazer a pergunta que alguém deve ter feito para você quando criança: “o que você quer ser quando crescer?”

Pode não dar mais para querer ser jogador de futebol ou atriz de TV, mas dá para imaginar ser alguém melhor do que você está sendo agora.

 

E como eu posso começar a melhorar a minha imaginação?

O tema é tão importante que o nosso professor Francisco Escorsim criou um curso só para tratar do desenvolvimento da imaginação. Ainda não conhece? Clique aqui e dê uma olhada no nosso vídeo de apresentação!

CONHECER O CURSO

Maturidade #3 – fazer o que deve ser feito

Amigos de longa data, eles se encontravam quase toda semana para aquela cervejinha na sexta pós expediente. A amizade começou no colégio. Ricardo conheceu Pedro, o Pedreira como era chamado, lá na primeira série. Na segunda foi o João que começou a andar com eles e na oitava já eram em seis. O último a entrar no grupo foi o Bolacha, ele fazia faculdade com o Mateus e virou melhor amigo de todo mundo depois de uma noite em que o Vidal chegou até a ser preso.

Como vocês sabem, amizade de homem é tudo igual. Um chega xingando, outro fala da mãe, um terceiro ri e o quarto muda de assunto. Recentemente eles acabavam sempre falando de filhos, esposas e empregos: os primeiros davam trabalho mas valia a pena, as segundas davam trabalho e às vezes valia a pena, os terceiros davam trabalho e nunca valia a pena. O interessante, nesses momentos, é que eles assumiam quase um postura de clube ou grupo organizado. Tanto que há muitos anos o Oriental mudou o nome do grupo do whatsapp pra “Máfia” com uma foto do Poderoso Chefão e nunca mais tiraram.

Era uma máfia e cada um tinha o seu papel. Ricardo e Pedro eram os conselheiros, enchiam o povo de pitaco mas sempre concluíam com frases tipo “mas veja lá você, não quero me intrometer…” ou “não precisa seguir o que eu digo, é só uma sugestão…”. João e Oriental sempre promovendo alguma coisa, chamando pra um churrasco, lembrando dos aniversários – e obviamente contando as melhores histórias – eram “a cola” do grupo. Vidal era o sujeito misterioso e mais ferrado de todos: ninguém sabia bem o que ele fazia, já estava na segunda separação e sempre passava do ponto nas festas. Bolacha, por ser mais novo e o último a entrar no grupo, era o calouro, o estagiário, o zoado sem nunca zoar, o aprendiz e qualquer outro apelido que deixasse claro que ele nunca seria respeitado. A piada preferida era responder à qualquer comentário seu com “alguém viu o prazo de validade dessa Bolacha? Parece que tá vencendo…”.

De todos, nos restou o Mateus – até porque ele merece um comentário à parte. Se todos tinham o perfil clássico do filho da classe média alta, Mateus era um homem que se criou sozinho: pais sempre se separando, filho mais velho de três, acabou aproveitando a revolta adolescente e o trabalho no mercado para sair de casa e morar num pensionato. Depois conseguiu se tornar caixa e gerente, sempre ajudando os dois irmãos com um pouco de dinheiro e alguns conselhos. Com 22 anos já morava sozinho há tempos e dava conta do emprego e faculdade. Fez Administração por três anos mas mudou para Marketing pois recebeu uma proposta de emprego que exigia dessa graduação. Hoje com 37, casado e com quatro filhos – a última gravidez da esposa foi de gêmeos – dá conta de sua empresa com a maior naturalidade e por tudo isso, e mais um pouco, é chamado de Patrão pelos amigos.

Mas o apelido veio mesmo após o acontecimento mais grave que o grupo passou.

Era meados de 2005, todos estavam regulando a idade de 20 à 25 anos. Um dia foram no churrasco de fim de ano da faculdade do Oriental, ele estava se formado em Direito, e fora o João que sempre namorou, o resto estava meio solteiro e bastava dizer três palavras mágicas “cerveja, churrasco, mulher” que eles apareciam feito Mestre dos Magos. A festa começou cedo e lá pelas 2h todo mundo já não sabia mais o rumo de casa.

Foi quando ouviram um grito e começou o corre corre. Não demorou muito para encontrarem o Felipe desmaiado no banheiro, meio sem pulso e com o nariz sangrando.

Em horas como essas dividimos os homens dos meninos.

Bolacha juntou o Pedreira e o Ricardo, se enfiaram num táxi e voltaram pra casa assustados. Nem viram o ocorrido, mas como tinham fumado maconha e dividido uma bala, ficaram com medo de serem presos pois ainda estavam bem altos. Vidal viu tudo de longe, mas como estava bêbado demais dando uns pegas numa caloura num sofá velho no canto – depois que ela saiu correndo – ficou por lá e resolveu não se meter no assunto. João despachou a namorada mas ficou feito barata tonta e, sem saber o que fazer, não saiu da cola do Oriental. Os dois ficaram meio de platéia ou ajudando em pequenas coisas e no final estavam meio em choque.

Foi Mateus, que como um chefe, deu conta do recado:

chamou um sujeito grande e ajudou a tirou Felipe do banheiro, colocou ele numa mesa, deu bronca nuns bêbados, pediu para umas meninas trazerem água e o kit de primeiros socorros, mandou desligar a música, ligou para ambulância e ainda encontrou uma estudante de Medicina meio sóbria para tentar reanimar o rapaz. Em meia hora ele estava coordenando todo mundo e botou todos na linha. Quando já era dia, foi o último a ir embora. Esperou a família de Felipe chegar no hospital para poder acalmar Dona Regina e Seu Aloísio – ainda deixou o número de telefone para qualquer eventualidade. 

Tudo isso causou um impacto imenso no grupo.

Após aquele dia, quase ninguém disse nada pois ainda estavam absorvendo tudo. Porém, lá no fundo, todos entenderam que Mateus tinha algo que eles não tinham. Foi só depois de dois meses, num dia que o Patrão não pode ir beber com os amigos, que voltaram para o assunto. Foi Vidal – que apesar de ser um doido sempre tinha seus momentos de sabedoria – que acabou dizendo o que ninguém até hoje havia dito.

– Piazada, sou só eu ou vocês ainda pensam naquele churrasco? Eu tava caindo de bêbado mas parece que foi como ver um filme, eu ainda lembro de tudo…

Todos riram. Certeza que pra lembrar disso você teve de esquecer o nome da sua mãe!, disse Pedro.

– Sério, cacete! Ouvi aquele caos e no meio de tudo lembro que o Mateus apareceu e me perguntou de você, Ricardo, e de você, Pedro. “Cadê os piás, Vidal? Puta merda, eles sempre somem nessas horas!”. Eu tentei levantar mas ele me empurrou pro sofá dizendo que mais um locão não ia ajudar em nada. Eu fiquei lá, né? Não vamos contrariar o chefe de plantão. Mas foi impressionate, cara. Até hoje penso nisso: como é que um piá de merda conseguiu mobilizar todo mundo como se fizesse aquilo desde que nasceu? Sério, vocês não estavam lá, seus zé droguinha!, mas em dois toques todo mundo obedecia ele, todo mundo confiava nele.

Acho que a gente é um bando de frango…

– Já parou para pensar, interrompeu João, que ele sempre faz isso? Porra, tamo com uns vinte anos e o cara sempre foi tipo nosso padrinho. Sei lá. Lembra aquela vez que teu pai queria se separar, Oriental? O Patrão te ligou, conversou contigo, deu um monte de dica, explicou pra gente o que fazer e ainda conversou com teu pai. Cara, com teu pai! Quem faz isso com 16 anos, porra!? E aquele dia que eu tava mal pra caraio por conta da desgraça da Sofia? Ele me escutou e deus uns puta de uns conselhos massa, até hoje eu lembro dele me dizer “você ainda é muito novo pra sofrer tanto”. Meu, olha essa frase!, da onde ele tirou isso? E na boa, nesse churras aí, ele salvou a vida do Felipe! 

Naquela noite eles seguiram conversando sobre o Mateus. Pela primeira vez tiveram consciência que ele tinha algo de diferente de todos eles.

Ainda conversaram bastante, mas foi o Bolacha que melhor traçou o cenário.

– Sem zoeira, pessoal! Mas a gente é um bando de piá de prédio que o primeiro emprego só foi depois da faculdade. Antes era só estágiozinho de meio período que a gente reclamava mais do que podia. Enquanto a gente achava que tava morrendo pra entregar uns relatórios toscos e tomar café enquanto dava em cima da secretária do chefe, o Mateus tava ralando desde manhã e ainda fazia faculdade. E eu era calouro dele. Eu me ferrando, enquanto o cara passava sempre sem DP! E o mais foda, eu soube que ele chegava em casa e fazia a marmita do dia seguinte! O Ricardo, essa montanha de gordura que é, nem sabe fazer um ovo!

Sei lá, mas acho que ele sempre deu conta da vida dele, e a gente não sabe o que é isso…

Depois disso a conversa dispersou. Mas no dia seguinte quando o Oriental mudou o nome do grupo, todo mundo entendeu a referência da foto: eles eram a Máfia porque Mateus era o Poderoso Chefão. E tudo foi confirmado quando receberam a mensagem dele perguntando: Piazada, como foi ontem? Eu tava atolado de trabalho. Você não fizeram merda, né? 

 

 

Assim como eles, todos nós temos algumas referências de maturidade em nossas vidas mas que normalmente passam em branco até algum evento evidenciar aquilo que é óbvio.

Aquele que busca todo dia “dar conta do recado” – como diria minha mãe – está sempre mais propenso a amadurecer. E todo dia nós encontramos situações que nos oferecem a possibilidade de melhorar e se postar de forma mais madura. Pois, no final das contas:

Maturidade é conseguir fazer o que deve ser feito.

Caso você siga essa lógica, perceberá que tudo ao nosso redor pede resolução. Muitas vezes são questões bastante práticas – como uma louça esquecida na pia – mas talvez, na grande maioria das vezes, o que está em aberto são questões pessoais.

Dar conta do que deve ser feito é primeiro dar conta de você mesmo: seus medos, receios, sonhos e deveres.

Mateus só deu conta do desmaio de Felipe pois há tempos dava conta de si mesmo. Ele já era um homem que conseguia organizar e resolver problemas antes daquele churrasco. Quando encontrou mais uma questão em aberto para ser resolvida, ele simplesmente fez o que tinha de ser feito, pois é isso que ele vinha fazendo desde sempre.

A pessoa madura sabe que a vida é uma sequência de problemas esperando soluções – e não há nada de errado com isso.

O interessante nesse ponto é escutar o discursos dos imaturos, pois normalmente, tudo é dividido entre os Vencedores versus Fracassados. Veja os adolescentes, normalmente eles têm algum grande feito que desejam realizar, e caso consigam essa conquista, a vida está dada por satisfeita.

Sendo assim, enquanto essa questão ainda não é resolvida, eles se vêem como fracassados ou culpam alguém (normalmente a família ou a sociedade). Realmente acreditam que a vida é realizar alguns feitos e ponto final. É como ainda sonhar com o clássico “e foram felizes para sempre”. Ironia do destino: caso seja realizado o que queriam, também se decepcionam, pois o mundo não era tão cor-de-rosa quanto sempre sonharam.

Amadurecer é perceber que os problemas nunca irão acabar e, portanto, mais importante que esperar o dia em que não terá mais dificuldades, é preparar-se para resolvê-las o melhor e mais rápido possível.

Seguimos com esse tema em breve, ainda há muito o que dizer! 

 

 

Maturidade #2 – postura diante da vida

Segunda Guerra Mundial, trincheira do exército inglês.

A chuva já assolava a região há tempos, poças e alagamentos são um cenário comuns por aqui. Mesmo assim, hoje, o inimigo resolveu acordar cedo: desde o raiar do dia até agora, meio da tarde, os tiros e explosões podem ser escutadas há quilômetros de distância. Se olharmos bem para o buraco do lado inglês, veremos dois capacetes verdes: um é Joseph, o outro é Henry.

No meio da confusão, estilhaços e tempestade, esses dois soldados – de tempos em tempos – se viram para o outro lado e descarregam parte do seu arsenal.

Ao se esconder com as costas no barranco, Joseph grita e gesticula. Henry, por sua vez, após atirar, costuma voltar-se,  abaixar a cabeça e fechar os olhos. Segurando seu rifle com toda a força, parece estar concentrando suas energias para a próxima investida.

Para o olhar desatento os dois parecem fazer o seu dever, cada um à sua maneira. Porém, o que ninguém percebe é o grande abismo que os separa. Joseph, desde o recrutamento, é o arquétipo do soldado: sempre treinou com intensidade, tem interesse pelo equipamento, se aprimorou nos finais de semana em um curso sobre tática de guerra e além disso, nunca reclamou de gastar seus dias no exército. É o nosso dever defender o país, sempre disse ele. Já Henry…

Rapaz tímido e fechado, foi convocado e aos prantos, quase e arrastado, foi para o exército. Impressionável desde criança, a primeira vez que ouviu um grito de seu superior deu um pulo tanto grande que até hoje é chamar de “Jumper”. De noite, quando os soldados se reúnem, é comum escutar ele se lamentar sobre a Guerra, dizer que tudo isso é em vão, e que todos deveriam pensar mais no amor do que na guerra. Os companheiros nem dão mais bola: todo pelotão tem algum pacifista arrependido que sempre acaba sendo afastado por um colapso nervoso.

Pior, esse é exatamente o caso aqui.

Hoje, um pouco antes de raiar o dia, Joseph e Henry foram dois dos escalados para cuidarem da primeira trincheira. Como é de se esperar, o segundo quase entrou em desespero, enquanto o primeiro foi estudar mapas do local e fumar tranquilamente seu Lucky Strike sem filtro. Enquanto se dirigiam para seu posto, Henry estava tão nervoso que ensopou a camisa antes mesmo de chega na chuva.

Foi só depois da terceira tentativa de abater um nazista que Joseph se deu conta do que acontecia ao seu lado.

– Que que tá acontecendo? Ei, você tá bem? Que porra é essa?

– Tô sim.. Tá tudo bem…

Joseph se vira novamente, acerta a perna de um inimigo, se protege, dá ordens para o outro soldado e então de novo volta-se para o companheiro. 

– Você tá branco e tremendo, cacete! Isso não é normal! 

– Vai passar, vai passar, vai passar… – disse Henry fechando os olhos

O que ele ouviu na sequência foi apenas a voz de Joseph ao longe gritando por um enfermeiro. O corpo amoleceu, tudo ficou preto e ele sentiu ser carregado. O jovem só se deu por si quando estava na enfermaria e escutou a enfermeira chefe dizer: acordou, bela adormecida?

Para continuar falando sobre o tema da semana passada, preciso antes fazer uma simples pergunta:

Se estivesse naquela trincheira, qual soldado você escolheria para estar ao seu lado?

A maturidade, além de ser um caminho sem volta, não funciona como a maioria das nossas conquistas modernas: você se esforça, passa por algumas provas e então ganha um atestado ou diploma que comprova a sua vitória.

A maturidade é uma postura diante da vida.

Quando falamos em amadurecer, você já deve saber, não existe uma grade curricular básica para cumprir. Amadurecer é assumir uma postura responsável diante da vida e evitar a todo custo ceder ou desanimar.

Mas como faço isso?, você pode perguntar. Eu e o Chico, quase que diariamente, damos o mesmo conselho nesse quesito. E repito aqui:

Faça tudo bem feito.

Muitos nos escutam e viram a cara, pois parece um comportamento muito básico para resolver um problema tão grande, mas é bem aqui que mora o perigo! Fazer o máximo para que tudo seja bem feito é o primeiro passo para assumir uma postura responsável diante da vida, logo, é o início da maturidade.

Em outras palavras, soldado, missão dada é missão cumprida!

Hoje mesmo falava sobre isso com um paciente e lembrei dos milhares de filmes de luta ou de guerra que já assisti. Em especial me veio à memória o Karatê Kid! Lembram da cena em que o Senhor Miyagi ensina o jovem a lavar o carro? Nós assistimos àquela cena e pensamos: Nossa, que interessante, ele está ensinando técnicas de luta de uma forma diferente! Ele está preparando o menino para a luta e o rapaz nem percebe! Tenho certeza também que ao assistir o filme você queria que Daniel treinasse direitinho para vencer a grande batalha final.

O mesmo ocorre com você!

Quando digo que você deve fazer tudo bem feito é porque a vida também exige preparação, concentração e treino para várias batalhas que ainda virão. E como você vai ser portar diante disso: como uma criança birrenta que chora a cada bronca do treinador ou como um lutador que assume seu papel e treina como se não houvesse amanhã?

Claro, infelizmente nossa vida não é um filme hollywoodiano dos anos 80 em que o roteiro é tão previsível que você já sabe o que vai acontecer no final. Mas independente disso, você precisa assumir o seu lugar no mundo – no aqui e agora – e fazer o que você deve fazer.

E o mais interessante disso tudo é compararmos tudo isso que eu disse com o discurso moderno de felicidade. Você, querendo ou não, já deve ter entrado em contato com qualquer um desses empreendedores de palco que te motivam à conquistar seu milhão ou então certas vertentes religiosas que se dizem cristãs mas acreditam que toda graça divina só vem em forma de cédulas.

Eles sempre colocam como objetivo de seus esforços a conquista financeira, ou seja, você só é um vencedor e ganhou a vida caso tenha ficado rico. Aqui os discursos de chocam:

Maturidade não tem relação nenhuma com sucesso, poder ou dinheiro.

Como reforcei algumas vezes aqui: maturidade é um postura diante da vida. Em nenhum momento eu disse conquista financeira ou felicidade conjugal. Sabe por quê? Porque esses objetivos podem ser conquistados por pessoas maduras ou imaturas. Vai me dizer que nunca conheceu um rico famoso completamente imaturo, né? Ou então uma pessoa extremamente pobre mas com uma sabedoria e maturidade imensa?

A maturidade te ajuda a lidar com as dificuldade e desafios da sua vida mas não garante nada!

Para concluir, voltemos ao exemplo dos nossos dois soldados. Agora acredito que ficou até mais fácil responder àquela primeira pergunta. Afinal de contas, ninguém quer um Henry dividindo o front na batalha da vida, não é mesmo? E mesmo sabendo que as chances de Joseph morrer são bem maiores que as dos colega medroso, ainda assim ficamos com ele. Sabe porquê?

É melhor morrer cumprindo seu dever com coragem que viver acuado como um convarde. Pois o caminho da maturidade é em todas as circunstâncias a melhor opção.

Semana que vem falamos mais sobre esse tema!

Até breve, soldados!

    

    

  

Maturidade #1 – caminho sem volta

Maria tem 27 anos.

Há dez mora na cidade. Começou dividindo o apartamento com duas primas, mas logo a convivência ficou estremecida pois enquanto se dedicava a estudar para passar em Direito na Federal, as primas só queriam saber de maconha, cerveja e festa o dia inteiro. Para sua sorte, não sofreu muito com o vestibular, passou bem na segunda tentativa e logo que conseguiu um estágio foi morar sozinha. 

O apartamento era um “quarto e sala” no centro. Toda vez que um ônibus passava as janelas velhas tremiam. Com o tempo se acostumou com o barulho, afinal de contas, mais barulhenta que a rua eram os vizinhos. Parecia combinado: era ela sentar para estudar e o casal ao lado começava a gritaria. Os argumentos ela sabia de cor. 

Se fossem só eles dois, tudo bem; mas o que cortava o coração dela era o pequeno Anthony – sim, esse era o nome! – que sempre fazia do seu choro a trilha sonora da discussão do dia. Como estudar ouvindo choro, gritos e ainda sentindo aquele aperto no coração pela criança? Maria até tentou conversar com os dois, mas era pior. Um dia havia acabado de falar com a vizinha e ouviu em alto e bom som: “até os vizinhos não te suportam mais, seu escroto!” Então, escutou socos e chutes na parede aos berros “escutem mesmo, seus merdas! Pensam que são quem, seus filhos da puta!?”.

Com o tempo, Maria conseguiu arranjar um novo lugar para morar e também trabalhar. Estudante exemplar, conseguiu uma bolsa de estudo na Espanha por seis meses. Sofreu um pouco por lá, mas conseguiu dar conta e aproveitar a oportunidade. 

Hoje ela está formada há seis meses e trabalha como auxiliar de um advogado trabalhista, um ex-professor que sempre acreditou em sua aluna. 

Mas não só de estudo e trabalho vivia a moça. Certo dia resolveu sair com uma de suas primas. Apesar de escolhas de vida completamente diferentes, Maria gostava de conversar com a Rê às vezes para espairecer e dar risadas. 

Foi numa noite dessas que conheceu Pablo.

Pablo nasceu em berço de ouro. Desde menino era considerado o garoto prodígio da família pois conversava com todos e parecia um adulto em corpo de criança. Por conta disso sempre foi esperto. Na adolescência era para ter repetido de ano várias vezes, mas sempre conseguia passar no conselho de classe. 

Foi nessa época também que aprendeu a tocar violão, pois seu tio Rogério sempre dizia que ele precisava aprender a ouvir a verdadeira música: começou ouvindo Beatles e uma coisa levou à outra. Do violão passou a tocar guitarra e com 18 anos montou sua primeira banda. No começo era meio Reggae, mas depois embarcou na onda do “som de praia”, como ele gostava de definir, e acabou fazendo algum sucesso com a piazada tocando em festas e churrascos.

Como era esperado, com todo esse desenvolvimento artístico, a vida de estudos continuou do mesmo jeito: foi levada nas coxas. Passou em administração, transferiu pra letras, tentou um ano de psicologia e desistiu da vida acadêmica na primeira semana de ciências sociais. “Minha vida é a música, o que importa é expressar tudo que vem do coração”, dizia ele ao ser perguntado sobre sua vida profissional. 

Ele acreditava em sua arte, mas não é difícil imaginar o que sua família pensava disso, né? Pai engenheiro e mãe ex-enfermeira, viam o filho como um rapaz meio perdido. E esse era o grande motivo das brigas diárias que recentemente aconteciam na casa da família – eram diárias pois o rapaz ainda morava no ático no fundo da casa e quase todo dia almoça com eles. 

Ele tinha 22 anos naquela fatídica noite em que conheceu Maria. Talvez por um ser o complemento do outro ou por pura obra do acaso, os dois estão juntos há um ano e meio. 

Mas nem tudo são flores.

Depois da pequena fase do encantamento do início do namoro, não demorou muito para começarem os problemas. 

Maria, como esperado, era o pé no chão do casal: pensava na vida prática, na carreira, gastava muito do seu tempo tentando se atualizar na área e quando acabava a correria do trabalho, gostava de ficar em casa ou no máximo sair com amigos para conversar em algum barzinho. Pablo era o sonhador: na luta por se tornar mais conhecido, passava a maior parte do tempo compondo músicas com os amigos, virava madrugadas e sempre que havia alguma nova banda tocando ou festival acontecendo, estava lá divulgando seu som. 

Certa noite, ele resolveu mostrar uma música nova para a namorada. Ela escutou desinteressada e ele explodiu: por que você não dá a mínima para o que eu faço? Maria, sem conseguir se conter, acabou por despejar tudo que pensava. Ela não entendia porque ele ainda insistia nessa história de música: “você é um cara tão inteligente, mas se perde nessas ilusões! Essa história de música não dá futuro e você ainda nem conseguiu sair da casa dos pais!.

Como vamos fazer com o nosso futuro?” 

Pablo disse que não sabia que estava namorando com uma senhora de 50 anos e que ficava puto quando ela não acreditava nele. Maria respondeu que do que jeito que as coisas andavam, ela nunca iria ter um filho dele. “Afinal de contas”, finalizou ela, “eu teria de cuidar de duas crianças: você e o bebê!”. 

O silêncio enfim se fez. Por um bom tempo os dois ficaram olhando para o nada sem saber o que fazer. Foi Maria então quem, com esforço, se levantou e disse: “eu preciso ir pra casa e teus pais já devem estar dormindo”. Saiu sem falar mais nada. Ao chegar no carro desabou e foi chorando para casa, e chorando chegou, e chorando dormiu sem perceber.

No dia seguinte, almoçando com duas amigas da sua turma da faculdade, ela contou tudo e ao final ainda se perguntava: “como é que ele não entende o que eu quis dizer? Ele parece um adolescente e eu vou ter de cuidar até quando? Será que vai ser assim pra sempre?”  

A pergunta de Maria é a pergunta de muitos e a sua fonte é uma só: maturidade. 

Maturidade é um caminho sem volta. 

Uma vez que você consegue amadurecer um pouco, esse pouco nunca mais te deixa. Um conhecimento adquirido é uma verdade que não pode ser negada, ainda mais quando o conhecimento foi conquistado por meio do sofrimento de sua própria vida. 

Quem morou sozinho e pagou suas próprias contas sabe que sempre irá levar em consideração o preço das coisas. Quem sofreu com perda de um ente querido e teve de trabalhar desde cedo nunca mais vai esquecer essa fase da vida, simplesmente porque tudo isso fez você ser quem você é. 

A maturidade então é o benefício que todos temos ao passar nas provas da vida.

Se no colégio nosso objetivo é passar de ano, na vida é passar de fase. E como eu já disse, é um caminho sem volta. 

Muitos sofrem por essa questão – principalmente em relacionamentos. Um dos dois está um passo à frente do outro, olha a vida de forma diferente pois já viveu situações que o obrigaram a se desenvolver. Já o outro lado ainda está verde, precisa de muito para amadurecer. 

Assim como as frutas, é a maturidade que faz você cair do pé familiar, sair da dependência dos pais para então realizar o seu sentido da vida. 

Saiba, não há sentido da vida ou vocação sem maturidade. E vou repetir quantas vezes for necessário:

Não há sentido da vida ou vocação sem maturidade. 

Sem ela você não tem três bases estruturais para realizar seu ser no mundo:

1. noção adequada da realidade,

2. conhecimento de si e de seus limites e

3. coragem para encarar a vida.

Por isso, todas às vezes que me procuram com algum problema vocacional, a primeira pergunta que faço é: você mora sozinho? Paga suas contas? 

Parece uma questão bem besta para aqueles que acreditam estar em busca de uma atividade espiritual elevada e dispostos a se sacrificar por isso. Vejo em 90% dos casos uma expressão que me diz: “por que diabos você quer saber disso se estamos falando de algo superior? Por que se apegar à trabalhinhos pequenos se eu quero algo maior e elevado?” 

Só essa expressão já bastaria para saber o nível de maturidade do sujeito. Mas quando me confirmam dizendo que ainda moram com os pais e não trabalham, sei que ainda estão verdes para pensar em sentido da vida. 

Pois sempre sigo um princípio bem claro:

Antes de ser uma pessoa que realiza sua vocação, você precisa ser uma pessoa. Esse é o caminho natural das coisas. 

O que escrevo aqui não é nenhuma visão de tiozão chato que deseja que todos se tornem adultos adequados – se bem que não seria uma má idéia, né? A questão é que ninguém deseja não amadurecer (ainda desenvolverei o conceito imadurecer ou inmadurecer). 

A vida é para frente, nunca para trás.     

Por isso mesmo, você, ao ler o meu exemplo acima, sabe que Maria está certa. Se alguém tem de se esforçar é o Pablo e não ela. Sabe por que você acha isso? Porque ela é madura e deseja realizar feitos que só pessoas maduras podem realizar. 

O problema não é a atividade que você – ou o Pablo – escolheu, a questão é a postura diante da vida que você toma. 

Mas esse é o primeiro capítulo sobre esse tema. 

Em breve falo mais sobre aspectos da maturidade, mas não se esqueça: maturidade é um caminho sem volta, e todos devemos nos esforçar para cada dia ser mais maduros. 

 

Poscast #2 – Black Friday e Stranger Things 2

Já está no ar o nosso segundo podcast.

Dessa vez, além de falarmos sobre a nossa Black Friday, também comentamos o seriado Stranger Things – principalmente a segunda temporada. 

Sabe qual a relação desse seriado com o tema da maturidade, sentido da vida e sacrifício?

Clique na imagem abaixo, escute nosso programa e descubra! 

https://soundcloud.com/osnaufragospodcast/podcast-2

Lembrando que toda sexta tem um podcast novo.

E caso queira tirar alguma dúvida, enviar alguma sugestão de tema ou pedir uma ajuda, escreva para: podcast@osnaufragos.com.br

Dê o play e divirta-se! 

Até sexta que vem, abraço. 

BLACK FRIDAY

Jean Paul Sartre costumava dizer que o importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.

Nada poderia ser mais verdadeiro. A vida pune e pune mesmo. A maturidade é o momento em que separamos a ideia de que teremos da vida só coisas boas, por sermos pessoas boas. Esse é o cartão de boas-vindas da vida adulta.

Nós, dos Náufragos, estamos aqui para isso: enfrentar a vida adulta, os seus percalços e, como Herman Melville certa vez disse: “Eu não sei tudo o que está chegando, mas, seja o que for, eu irei enfrentar sorrindo”.

Os nossos cursos não são sobre ganhar dinheiro ou conquistar o sucesso. Estamos mais interessados naquele pequeno bichinho, tão incompreendido e tantas vezes vasculhado; aquele que, arredio, se esconde da gente, a vida.

Falamos sobre lições aos pais, aos noivos, aos jovens casais e aqueles que desejam enfrentar os dilemas e as dificuldades dos tempos modernos. Às vezes, admitimos, achamos que falamos com todos.

Em celebração a mais um mês do nosso projeto, às centenas de clientes e amigos atendidos e à Black Week, nós estamos fazendo uma promoção em toda a nossa loja:

Na compra de um curso você levará outro automaticamente. Dois pelo preço de um.

Duas dores curadas com um único remédio. Não é tentador?

Fala a verdade, você ficou feliz, né?

Para ajudar você a se decidir, nós separamos alguns combos de acreditamos que são complementares uns aos outros. Que, escolhidos nessa ordem, potencializarão a sua experiência e os seus resultados.

São eles:

Combo Conquistando a Maturidade: Desenvolvendo a Imaginação + Como Lidar com os Pais na Vida Adulta

Se a sonhada independência parece cada dia mais longe e você já cansou de pensar alguma solução para entrar na vida adulta, esse combo é perfeito para você.

Combo Formatando o Coração: Como Terminar um Namoro + Como Vencer as Frustrações Amorosas

Seu namoro não anda bem das pernas, não sabe que caminho tomar e sente uma imensa frustração quando pensa em vida afetiva? Esses dois cursos te ajudarão a zerar a vida amorosa e resolver todas as pendências afetivas.

Combo Primeiros Passos: Enfrentando a Crise de 20 + Buscando o Sentido da Vida

Você fez 20 anos, percebeu que muitas decisões sérias precisam ser tomadas e não sabe nem por onde começar. Para evitar um início desastroso esses cursos te ajudarão a dar os primeiros passos da vida adulta.

Combo Recomeçando a Viver: Traição: como Lidar, Perdoar e Recomeçar + Desenvolvendo a Imaginação

A confiança foi quebrada e o recomeço não é fácil. Nessas aulas te ajudaremos a recomeçar a vida amorosa e entender todas as novas possibilidades.

Combo Dando a Volta por Cima: A Como Vencer as Frustrações Amorosas + Como Começar um Relacionamento

vida não foi muito boa contigo, teu coração ainda deseja um novo par mais tudo parece complicado demais? Unimos dois cursos que te ajudarão a sair da solidão: primeiro vamos resolvemos o passado e depois te ajudar com o futuro.

Combo Novos Horizontes: Buscando o Sentido da Vida + Desenvolvendo a Imaginação

Para sair da estagnação e enxergar novos horizontes, nada melhor que juntar nossos dois cursos mais vendidos para dar mais sentido a sua vida e de quebra desenvolver sua imaginação.

Combo Saindo da Inércia: Enfrentando a Crise dos 30 + Buscando o Sentido da Vida

Quando você se deu conta já estava com 30 anos e suas escolhas não foram as melhores. Você olha para trás e percebe podia ter feito diferente e ao olhar para sua vida sente um imenso vazio. Para sair da inércia de uma vez, esses dois cursos irão te ajudar a refazer o caminho.

Combo Independência com Sentido: Como Lidar com os Pais na Vida Adulta + Buscando o Sentido da Vida

Morar com os pais pode gerar muito desgaste. Porém, sair de casa sem rumo nunca é a melhor opção. Aqui temos a solução para esses dois problemas: você resolve o problema familiar e ainda encontra o sentido da vida.

Combo Sem Tempo a Perder: Como Terminar um Namoro + Como Começar um Relacionamento

Teu relacionamento atual está péssimo e você quer se preparar agora mesmo para a próxima tentativa? Nesse combo você não perde tempo: termina o namoro sem traumas e já volta pro mercado sabendo o que fazer.

Combo Adultescência Nunca Mais: Como Lidar com os Pais na Vida Adulta + Enfrentando a Crise dos 30

á entre os 30 anos e as brigas com seus pais são as mesmas desde os 15 anos? Todos seus colegas do colégio já casaram e estão quase no segundo filho e você ainda não mora sozinho? Esses dois cursos serão o primeiro empurrão bem dado para você deixar de ser Adultescente.

Combo Começando com o Pé Direito: Como Lidar com os Pais na Vida Adulta + Enfrentando a Crise dos 20

Com 20 anos estamos iniciando nossa vida adulta. Nessa fase pode surgir os primeiros estranhamentos familiares. Esse combo é uma vacina para evitar problemas com seus pais e com você mesmo.

Combo Vocação Plena: Buscando o Sentido da Vida + Como Começar um Relacionamento

Dizem que as decisões mais importantes da vida são a escolha da profissão e a escolha do cônjuge. Buscando cobrir a maior parte de seus dúvidas, esse combo te ajudará a se direcionar para seu sentido da vida e para seu futuro relacionamento.

Combo Resolvendo o Passado: A Traição: como Lidar, Perdoar e Recomeçar + Como Vencer as Frustrações Amorosas

Após passar por uma traição, nós podemos carregar algumas marcas. Aqui iremos te ajudar com teu passado, tanto em relação à traição quanto às consequências que você carrega.

Para participar, basta comprar um curso no período de 21 à 24 de novembro que enviaremos um e-mail para você escolher o segundo curso. 

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Nossa promoção é por tempo limitado! 

Aproveite! Qualquer dúvida, basta entrar em contato pelo e-mail contato@osnaufragos.com.br ou através do nosso chat no site!

Francisco e Jota, dos Náufragos.

Um disco para náufragos

Se tem uma coisa que a imensa maioria de nós, náufragos existenciais, temos em comum é o apego à música como uma tabuinha de consolação – quando não de salvação mesmo.

Quando vejo a quase devoção com que alguém fala ou aprecia alguma música ou banda ou artista, já reconheço um “irmão de braçadas”, mantendo-se à tona com a ajuda da música, muita música.

E não falo aqui de histeria adolescente com bandinhas. Falo de algo bem mais sério e profundo, da música sendo capaz de expressar a tristeza ou o desespero do “estar náufrago”, ao mesmo tempo conseguindo alimentar a fé e a esperança de que há uma razão, um sentido maior para esse sofrimento.

Quando a música é experimentada assim ela é uma vivência religiosa. Ou seja, religa você a algo que faz e dá sentido à vida.

Curso Buscando o Sentido da Vida
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Uma banda cujas algumas músicas me permitiram – e ainda permitem – viver momentos assim é o U2, que está no Brasil com sua atual turnê celebrando os 30 anos de lançamento do seu melhor disco (na minha opinião), The Joshua Tree, que é uma obra que trata justamente disso: procurar sentido e manter a esperança de encontrá-lo suportando o deserto desesperador que parece ter se tornado a existência.

Não por outra razão a capa do disco tem uma foto tirada no deserto do Mojave, nos EUA:

capa do disco

E na contra-capa encontramos a razão do título do disco:

atente à arvore

Essa árvore é chamada de “Árvore de Josué” e cresce quase somente nesse deserto americano. A origem do nome devemos aos mórmons que imigravam atravessando o deserto quando a viram pela primeira vez, em meados do século XIX, associando seu formato peculiar à oração do profeta Josué erguendo as mãos para o céu implorando a ajuda de Deus. Assim, viram na árvore um sinal de Deus os guiando para o Oeste.

Ao emprestarem esse nome ao disco o U2 tornou impossível descontextualizá-lo desse significado espiritual. Ou seja, é isso que dá a forma do disco, sua unidade, seu todo cujas partes são as músicas que o compõem e revelam faixa a faixa seu significado, que tentarei expor neste texto.  

  1.  Where The Streets Have No Name

Música de abertura do disco e indispensável em qualquer dos shows da banda – e é das melhores mesmo.

Começa num crescendo que não pára, com as partes vocais estacionando a música quando entram, como se estivéssemos fazendo uma pausa em uma escalada para respirar e seguir adiante. Tudo é “para cima”, arrebatando, inspirando, alimentando a esperança. É como se tivéssemos chegado na Terra Prometida, cujas ruas não têm nome.  

Mas não chegamos lá, apenas desejamos intensamente. Quando encaixamos letra e música vemos que embora exista a certeza da existência desse lugar nós ainda estamos presos “aqui”, onde construímos e em seguida demolimos o amor, que se torna enferrujado e nos deixa esmagados em poeira.

Ou seja, é uma música que convoca o ouvinte a ir com ela para esse lugar onde a esperança é desnecessária porque tudo que há para esperar, lá é uma realidade presente; que é para lá que temos de ir na vida; que “é só isso que dá pra fazer”. 

2. I Still Haven’t Found What I’m Looking For

Em seguida vem o hino religioso mais famoso da banda, continuando do ponto onde a música de abertura nos deixou: sabemos que existe o lugar para onde devemos ir, mas ainda não chegamos lá porque ainda não o encontramos, não encontramos o que procuramos.

Mas o que se revela aqui é que esse lugar, na verdade, é uma pessoa. E a letra não deixa dúvida que essa pessoa é Jesus Cristo:

Você quebrou as cadeias, soltou as correntes
Você carregou a cruz
E toda a minha vergonha
Toda a minha vergonha
Você sabe que eu acredito nisso

Mas onde Ele está? 

Essa música foi claramente inspirada nos salmos de Davi e é como se fosse um deles.

3. With or Without You

O maior sucesso do disco e comumente tratada apenas como uma baladinha romântica. Mas ela tem outro significado nesse contexto do disco.

Ela nos aquieta da intensidade que as anteriores criaram; é lenta, introspectiva e a parte instrumental constrói um chão para a letra se destacar. E é uma letra bela. Repare que quando o cantor fala sobre “ela”, não a trata como sendo o “você” do título: 

Numa cama de pregos, ela me faz esperar
E eu espero sem você

Há duas esperas aí, portanto. Aquela por “ela” e aquela por “você”, que tampouco está lá. Esse “você” faz muito mais sentido, no contexto que estamos escutando, sendo Jesus Cristo, que estamos procurando mas ainda não encontramos.

É a Ele que a música fala como uma súplica na escuridão da noite.

Quanto àquela “ela”, esta aparece com eles se tornando um “nós”: “Através da tempestade, nós alcançamos a costa“. Mas continua distinta do “você”, por isso ele canta: “mas eu quero mais / E eu estou esperando por você”.

Mas essa espera já não é tão esperançosa assim, pois num dos últimos versos vemos que ele permanece naquela “cama de pregos” e pouco tem a oferecer para “ela” se Ele não aparecer: 

Minhas mãos estão amarradas, meu corpo ferido
Ela me tem com
Nada a ganhar e
Nada mais a perder

4.  Bullet The Blue Sky

Vem a música mais politizada do disco e da carreira da banda como um todo. Mas, de novo, interessa-nos aqui o contexto. Nesse sentido, a política ganha outro significado.

Quanto tempo você suporta esperar pelo que demora a aparecer?

A América cantada na música, para cujos braços as crianças e mulheres correm em busca de proteção e salvação, representa a esperança da Terra Prometida ao mesmo tempo que se revela não sê-la. É aqui que a imagem do deserto começa a ganhar forma musical de aridez, ausência de perspectiva.

O tom dessa música é diverso do que veio antes, fazendo uma inversão da esperança e introspecção anteriores para algo raivoso, frustrado, cansado. Nossa atenção é voltada não mais para onde as ruas não têm nome, para Ele; mas para o “aqui” que não é a Terra Prometida, para o “aqui” sem Ele.

Se antes a esperança era maior e nos conduzia, agora ela se torna menor e mais fraca. É aqui que a árvore de Josué também começa a ganhar sua forma musical simbolizando essa esperança transformada em resiliência. Não é um sinal divino a certificar Sua presença, mas um símbolo do homem que sofre nesse deserto e começa a fraquejar daquela certeza inicial, embora ainda não tenha desistido dela. A árvore de Josué, assim toda torta, torna-se símbolo da dor:   

Vejo que chove pregos nas almas
Sobre a árvore da dor

5. Running To Stand Still

Mas a raiva, como todo sentimento, passa. E quando passa costuma deixar a tristeza em seu lugar. Só o deserto permanece o mesmo. Vem então a música mais “desértica” do disco, com seu início remetendo imediatamente à amplitude e ao silêncio de um deserto.  

Aqui voltamos a ter um casal. Desta vez, é ela quem se angustia por saber que é preciso fazer alguma coisa sobre aquele “para onde” estavam indo e que parecia ser impossível chegar, se é que existia mesmo: 

E então ela acordou
Ela acordou de onde estava deitada.
Disse que eu tinha de fazer algo
A respeito de para onde estamos indo.

O sentido original da palavra pecado tem a ver com “errar o alvo”. Ou seja, é pecado tudo que nos desvia da busca da Terra Prometida, tudo que colocamos no lugar Dele ou nos faz desistir de “atingir o alvo”. O pecado mais comum é a fuga da dor que estamos a escutar agora. Nesta música essa fuga se dá pelo uso de heroína, buscando um prazer efêmero anestésico que, depois, cobra o seu preço com dor ainda maior: 

Doce é o pecado, amargo é o sabor em minha boca.

Uma vida errando o alvo só pode se tornar muito mais torturante do que quando se suportava a dor de não saber onde estava o alvo nem como atingi-lo.

Aqui é interessante citar uma referência que a letra faz à Dublin da época dos músicos e que tinha um conjunto de sete prédios que se tornaram um mocó de drogados. Nesse local se tinha a taxa de suicídios mais alta de toda Irlanda. O suicídio que seria a única saída dita na letra da música:

Eu vejo sete torres, mas vejo apenas uma saída.

É por isso que essa fuga não é uma solução, como a música deixa claro. Ela se entrega à heroína, mas é como sair correndo ficando parada no lugar: 

Ela está em transe
E a tempestade explode nos olhos dela.
Ela sofrerá o barato da agulha
Ela está correndo para ficar parada.

6. Red Hill Mining

Uma vida sem Ele, sem busca pela Terra Prometida, rebaixa-se à luta pela sobrevivência. 

 

Esta música trata do mundo do trabalho, da rotina infernal que só deixa a esperança de algo melhor para depois do expediente, retratando essa espera angustiada e, no fundo, descrente por ser pouco, muito pouco:

Nós queimamos a terra
Colocamos fogo no céu
E nos inclinamos tão baixo
para alcançar tão alto

Se também o trabalho não parece dar sentido à vida, resta o amor por “ela” como sendo a Árvore de Josué da esperança por esse sentido maior:

Estou suportando
Você é tudo que restou para eu me segurar

Seria suficiente? Ou até mesmo a solução?  

7. In God’s Country

Não. A reposta é não, como ele canta ao fim desta música:

Uma chama nua, ela possui uma chama nua
Eu estou com os filhos de Caim
Queimado pelo fogo do amor

O amor humano jamais será suficiente, nem substituto do primeiro mandamento divino: há um amor maior que não pode ser substituído nem rebaixado de posto. Tudo que se coloca no lugar Dele é falso.

Daí a ironia dessa música ao tratar os EUA como sendo o país de Deus, ou seja, a Terra Prometida. Mas que país é esse em que o sono é como uma droga e os olhos são tristes e as cruzes tortas? Ou seja, o deus aqui é outro, simbolizado na estátua da Liberdade:

Ela é a Liberdade, e ela vem me salvar
Esperança, fé, sua vaidade
O maior presente é o ouro

A parte instrumental constrói uma música típica para “road trips”, para quando se viaja tentando se esquecer de onde se partiu e para onde se está indo, tentando apenas aproveitar a viagem em si. O que não deixa de ser também uma fuga.

8. Trip Through Your Wires

Continuamos na mesma atmosfera de viagem da música anterior, com a guitarra estridente acompanhando um ritmo com algo de cansado, começando a se questionar sobre o falso deus do amor humano:

Anjo ou demônio?
Eu estava sedento
E você molhou meus lábios.
Você, estou esperando por você
Você faz o meu desejo
Eu tropeço por seus arames.

Note como o “você” de With or Without You retorna aqui, mas confundido com “ela” e a pergunta se seria anjo ou demônio indica menos uma dúvida do que a confissão de quem se entregou seja lá para quem for.

9. One Tree Hill

Vai se aproximando o fim do disco, da jornada, da busca, da própria vida. É uma música sobre a morte e o que ela nos diz sobre a vida: “Nós corremos como um rio corre para o mar“. 

Ao mesmo tempo em que há uma desolação, uma amargura com a vida (Eu não acredito em rosas pintadas ou pessoas de bom coração / Enquanto as balas estupram a noite do misericordioso), ainda permanece viva a esperança de que a morte seja restauradora, que o mar, símbolo típico de morte e renascimento, possa ser mais e melhor do que o rio que nos levou até lá. 

A parte instrumental tem algo de etéreo e convida à introspecção, terminando como se fosse uma oração diante da morte, do oceano para onde estamos sendo levados queiramos ou não.

Uma oração que nos devolve, tal como o título da música, ao símbolo da solitária Árvore de Josué, cuja imagem agora se mostra muito mais significativa, não acha? Se não, confira por outra foto mais próxima:

É a “Joshua Tree” original fotografada para o disco.

Repare como sua beleza não é estética, não é uma árvore bonita. Sua beleza está no seu significado. Ela parece mais do que uma sobrevivente no deserto. Embora pequena, se agiganta em meio ao nada em que se encontra. Seus “braços” parecem cansados, mas permanece firmemente de pé, ainda que nada em torno justifique perseverar.

Que baita símbolo de fé e esperança. 

10. Exit

Hora da definição. Esta música retoma a idéia rítmica de Where The Streets Have No Name. Ou seja, vem num crescendo. A diferença é que se lá há luz, leveza, esperança, aqui estamos nas trevas daquele que se perdeu. Se naquela o crescendo se estabilizava e permanecia, aqui a música explode num fim ambíguo e angustiado: 

Ele sentiu a cura, cura, cura
As mãos do amor que curam
Como as estrelas brilhantes, brilhantes lá de cima

Entretanto, num sussurro vem os versos finais:

Mãos que constroem
Também podem destruir
Mesmo as mãos do amor

A partir daí a voz cessa e a música prossegue por alguns minutos como num transe, deixando a sensação de que tudo acabou mal, sem Terra Prometida, sem Ele, sem ela, sem saída nenhuma. 

 

Esta música serve perfeitamente para o fim de histórias trágicas que nos deixam estupefatos. Mas ela não encerra o disco.

11. Mothers Of The Disappeared

A última música repete o efeito hipnótico de Exit, mas sem a angústia terrificante, mais como um lamento em sussurros.

A letra trata de mães cujos filhos desapareceram, mas cujos sorrisos o vento ainda faz escutar e a chuva permite ver suas lágrimas.

Por conta disso, a forma final do disco é exatamente a de um deserto quase completo, não fosse por uma única árvore solitária teimando em resistir, ainda que não tenha nada a justificar sua permanência e esperança. Teimosa como uma mãe que perdeu seu filho mas ainda o vê e escuta na chuva e no vento. 

Quantas vezes durante a vida não vivemos situação parecida à de quem está largado num deserto sem saber qual rumo tomar, em que a própria esperança se torna desesperadora?

Uma situação quase insuportável, mas que nem por isso nos permitimos desistir, ainda que assim desejemos muitas vezes. Porque por mais sofrida que esteja a vida, algo ainda mais forte do que a dor nos sustenta e nos faz levantar toda manhã para encarar o que há para ser encarado, ainda que seja o nada.

12. Bonus Track que só tem neste texto 😉

Não sei se você sabia, mas a árvore da capa do disco morreu, tombando no solo no ano 2000. No lugar onde ela resistiu ao deserto até seu fim, fãs da banda e do disco montaram um santuário informal. Nele há esta placa:

“Você encontrou o que está procurando?”

Não importa se você encontrou o que está procurando. Não importa nem se você sabe o que está procurando. O que importa é não desistir dessa busca. É isso que faz toda diferença.

Quando a vida não tem sentido, faça da busca teimosa por ele o próprio sentido da vida.

Quando você está vivendo assim é aí que a música pode se tornar uma experiência religiosa, capaz de o conectar a esse sentido maior ao menos enquanto ela durar. Talvez seja a única companheira da nossa solidão nessa busca, capaz de nos entender melhor do que nós mesmos, expressar o que não conseguimos dizer, extravasar nossos temores e raivas, confortar nossa tristeza e desilusão, aconselhar e animar quando mais precisamos.

A vida pode não ter sentido ainda, mas ganha um quando experimentamos músicas que vão além do mero entretenimento.

Foi assim comigo e continua sendo. As músicas de The Joshua Tree me acompanham desde os meus 11, 12 anos de idade. Em cada época da minha vida serviram para algo. Infelizmente, não tive condição de ir ao show que celebra esse disco, seria minha oportunidade de dizer “obrigado”. 

Então, que este texto sirva de agradecimento à banda por este disco e outros. É claro que ele não me deu o que eu tanto procurava sem nem saber que procurava, mas eu jamais teria encontrado se não fosse por discos assim. 

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Você não tem tempo para nada?

Você não tem tempo para nada, eu sei. O que você gostaria de fazer não cabe no seu dia. É o emprego que consome as energias ou os estudos que te impedem de fazer mais ou a família que toma seu tempo livre. Afazeres demais, compromissos diários, hábitos difíceis de mudar, cansaço, irritação, stress. E a vida parece que passa como um trem que nunca pára para você entrar.

Enfim, desculpas e justificativas não faltam para a aparente falta de tempo. E assim seus projetos e sonhos vão ficando para depois. Quem sabe quando você se aposentar? Haverá tempo daí? 

 

Mas não é preciso esperar ter tempo para ter tempo. Sempre há tempo quando queremos. Provavelmente você já deve ter lido e escutado isso zilhões de vezes de algum guru de auto-ajuda. Eles têm razão, ainda que apenas digam o óbvio embalado em discurso motivacional ou pseudo-filosófico.

Bons exemplos disso encontramos nas vidas de artistas. O sujeito que quer ser ator, pintor, escritor, músico, quase sempre sofre para conseguir se realizar trabalhando concomitantemente em outras coisas, muitas vezes vive de bico durante anos, só conseguindo se dedicar à sua arte nos intervalos, que ele tenta otimizar como pode. Vou dar alguns exemplos de escritores.

Ray Bradubry, conhecido autor de ficção científica, como o famoso Farenheit 451, trabalhava onde desse e quando desse. Em suas palavras: “Eu consigo trabalhar em qualquer lugar. Escrevia em quartos e salas-de-estar quando vivia com meus pais e irmãos em uma pequena casa em Los Angeles. Trabalhei na minha máquina de escrever na sala, com o rádio ligado e meus pais e irmãos falando ao mesmo tempo. Mais tarde, quando quis escrever Fahrenheit 451, ia à UCLA (Universidade da California) e encontrei um sótão que era um sala de máquinas-de-escrever em que se você inserisse 10 centavos na máquina você comprava 30 minutos do seu uso.” 

Anthony Trollope, autor inglês de inúmeros romances, trabalhava nos correios. Como ele arranjava tempo para escrever? Acordava às 05h30 da manhã e escrevia até às 08h30, com o relógio na sua frente. Ele exigia de si 250 palavras a cada 15 minutos. Se ele terminasse uma novela antes das 08h30, pegava uma folha em branco e começava outra. Depois das 08h30 passava o dia trabalhando nos correios. Além disso, ele caçava duas vezes por semana. Sob esse regime ele produziu 49 novelas em 35 anos.

Mas você pode estar pensando que nenhum deles teve mulher e filhos para cuidar. Então conheça como era a rotina de Alice Munro, vencedora do Prêmio Nobel de 2013: “Eu tinha filhos pequenos, não tive nenhuma ajuda. Foi na época em que não havia máquinas de lavar-louça, se você consegue acreditar nisso. Não havia como eu conseguir tempo. Não podia olhar adiante e dizer ‘isso vai me levar um ano’, porque pensava que a cada momento algo aconteceria e tomaria todo meu tempo. Então eu escrevia aos pedacinhos com uma expetativa de tempo limitado.” 

E ela ganhou o Prêmio Nobel assim. 

“Ah, mas são artistas, gente diferente, criativa”, sei que você está respondendo algo assim em pensamento. Mas não é isso que os fez realizar algo na vida. Substitua todos e qualquer um por algum vestibulando, concurseiro, estudante que precisa trabalhar para pagar estudos, e veja se não fazem sacrifícios semelhantes ou até maiores para conseguirem o que querem. Ou aqueles que acordam bem cedo ou vão bem tarde para fazerem academia, nadarem, correrem, tudo porque querem estar bem de saúde ou serem “fitness”.

O que explica todos conseguirem tempo para fazer o que querem é justamente possuírem um objetivo claro que realmente desejam alcançar, realizar. É isso que faz com que arranjem tempo quando parece não haver nenhum.

Ou seja, se você é deses que acha que não tem tempo para nada, é hora de parar para pensar na sua vida. Reserve meia-hora, pelo menos – pode ser durante o almoço. E se questione sobre seus objetivos. Será que você tem algum? Se tem, será que você realmente o quer? Dificilmente alguém que responde “sim” a ambas as perguntas tem problemas de inação e nunca culpa a falta de tempo, mas faz o possível para aproveitar o tempo que tem.

Agora, se você respondeu “não” a alguma delas, então, saiba, você poderia ter todo o tempo do mundo que ainda assim não arranjaria tempo para nada. Seu problema não é a falta de tempo, é a falta de objetivos.

E como fazer para ter objetivos? Aí é outro problema que falaremos em outros textos. O que dá para adiantar é o seguinte: se você não tem objetivos ainda, tome como objetivo fazer da melhor maneira possível o que tem para fazer hoje, tenha você escolhido isso ou não. Fazer as coisas bem-feitas já é ser e viver melhor do que reclamar da vida e da falta de tempo.

 

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Receita para encontrar trabalho

No caminho para o estúdio onde gravamos alguns vídeos aqui para o site, lá em São Paulo, chamou minha atenção uma mulher que montou uma padaria na calçada. Parecia jovem, estava sentada e à sua frente uma mesa montada com toalha simples, tendo vários tipos de pães e outras comidas que não consegui identificar, mais três garrafas térmicas (provavelmente café, leite e água quente).

Naquele momento não havia consumidores, ela estava compenetrada com seu celular. Na hora lembrei de uma reportagem recente do UOL sobre desemprego, contando a história de vários desempregados lidando com a situação de forma muito parecida. Dois deles me chamaram mais a atenção.

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A primeira tinha 47 anos e fazia três não conseguia emprego. Sem instrução e com experiência apenas em empregos de faxineira, babá, auxiliar, chorava ao responder as perguntas, por precisar depender dos outros até para comer. Uma fala sua me intrigou: 

“Fico pensando: por que é que eu estou no mundo, então, se eu não posso trabalhar? Não consigo um serviço, tenho que depender dos outros. Você se sente incapaz, esta é a palavra.”

O segundo tinha 24 anos, com mais recursos pessoais do que a primeira, mas com a mesma dificuldade de encontrar emprego e discurso semelhante a respeito disso: “Não era para estar assim. Um país tão rico como o nosso, a gente não vê expectativa de nada para ninguém, para quem é jovem, para quem é idoso. Estão tirando tudo, principalmente do trabalhador. Estão tirando todos os direitos da gente.”

Os demais, acredito, concordariam com ambos. Fiquei imaginando se aquela moça vendendo pão e café na rua pensaria assim também. E cheguei à conclusão que seria impossível. Sim, impossível. Se pensasse, jamais estaria fazendo o que estava fazendo. 

Para aquela moça, não faz o menor sentido se perguntar se ela pode ou não trabalhar, ela simplesmente decidiu trabalhar e pronto. Talvez tenha contado com ajuda, talvez estivesse ajudando alguém naquele momento, mas seja lá quem for que teve a iniciativa de montar aquela padaria na rua, correndo todo tipo de risco, especialmente da prefeitura proibir, decidiu não depender de ninguém e tentar ganhar seu sustento trabalhando como desse e pudesse.

Tampouco creio essa pessoa não veja expectativa. Se não visse, jamais teria se dado o trabalho de montar o que montou. E ainda que estejam tirando todos os “direitos da gente”, ninguém pode tirar sua iniciativa de tentar trabalhar por conta se não há quem lhe dê emprego no momento.

Por que não tentar? Por que não arriscar? E o exemplo da moça serve aqui: nem que seja vendendo cafezinho na rua. Não é preciso talento, estudo, experiência para começar.

E isso não serve apenas para desempregados ou quem não tenha maior qualificação, mas também para todos que se sentem encalhados na vida, sem perspectiva, perdidos por não saber o que fazer ou querer fazer na vida. Para todos que fazem uma faculdade sem qualquer ânimo. Para quem tem um emprego que não lhe dá realização. 

Não importa o muito ou pouco tempo que você tenha para começar algo. Ainda que não tenha tempo algum, aposto algum tempo dentro dessa falta de tempo você tem para imaginar algum negócio, desenhá-lo na sua cabeça, pesquisar meios de colocá-lo em prática. Para tudo isso, basta uma coisa só: iniciativa. A mesma iniciativa daquele moça na calçada vendendo pão e café.

O contrário da iniciativa é o que se vê em todo discurso de fracasso: transferência de responsabilidade, baixa auto-estima, vergonha, revolta e algum anestésico (bebida, novela, videogame etc) para suportar a vida.

Está difícil encontrar um emprego? Por que não se dar um trabalho, então? Qualquer um. Ao menos para começar.

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