Categoria: Família

Qual o remédio para a solidão?

Desde que iniciamos esse projeto para náufragos fiquei com a tarefa de escrever algo sobre solidão. A idéia era fazer algo no estilo “10 coisas que você precisa…” etc. Sinto muito, não consegui.

Por mais que sejamos bem sucedidos em evitar a solidão, nos distrair dela, no fim das contas ela sempre vence. Refiro-me à solidão inescapável, aquela que a morte de um ente querido nos deixa por herança. Continue lendo

O que é o sentido da vida?

Desde o momento em que tomamos consciência de nossa necessidade por sentido, buscamos sempre algo mais significativo para gastarmos o tempo da nossa vida. Esse desejo começa muitas vezes quando a criança brinca de ser super-herói, ali está a semente desse Sentido da Vida ainda sem forma. Na adolescência essa busca está mais voltada para si, e é interessante de ser notada. Quando o jovem começa a se distanciar da família – evita os pais, não quer nenhum sinal de carinho público, diz que eles não o entendem – podemos dizer que ele está em busca de desenvolver sua personalidade independente de um grupo que o absorva. Continue lendo

Dia dos pais 2015

Meu pai está mais vivo morto. Digo isso e sinto o interlocutor me dando adeus mentalmente, pensando aham, enquanto se esforça por parecer convincente no seu “Que coisa linda, cara!”. Prefiro amigo vivo, indo direto ao ponto: “Isso é coisa da sua imaginação”. E é mesmo, claro que é, exatamente isso. Mas o que para muitos é mentira, ficção, viagem na maionese, ou loucura mesmo, para mim é mais real e concreto e significativo do que QUALQUER presença corporal.

Antes do meu pai morrer, já tinha altos papos com Marlow (o narrador preferido de Joseph Conrad), consultava-me frequentemente com Maigret (Simenon me permite acompanhá-los em seus passeios depois do trabalho) e trocava olhares com José Geraldo Vieira sempre que era incompreendido pelos mais próximos (não é, Zé?). Mas nada se compara à presença do meu pai, tão imaginária quanto. Continue lendo

Professor de academia

Relacionamentos são sempre complexos. Simples é conversar de passagem com o porteiro, dar bom dia pro caixa da padaria, cumprimentar a vizinha. Isso não é novidade.

Por isso mesmo, terminar qualquer relação é sempre difícil. Não fomos criados para os términos. Aprendemos desde cedo a conquistar nossos objetivos. Histórias de grandes homens povoam nossa mente e sempre nos servem de motivação para seguir conquistando. Em filmes e livros, sempre esperamos pelo Happy End ao final – e se não fosse por Game of Thrones, ficaríamos ainda muito surpresos quando algum personagem morre. Continue lendo

Alexandre

Vivemos em dois tempos. Um, o do relógio, passa enquanto passamos, é o tempo do esquecimento. O outro nunca passa, é o do para sempre, deixando tudo como que suspenso no ar, o tempo do significado.

De vez em quando eles coincidem, como na morte de alguém próximo, aí o segundo tempo congela o primeiro, impedindo se possa seguir adiante sem um sentido maior, um significado suficiente. Foi o caso de Jó, que perdeu tudo e ainda padecia ferido de chagas malignas das plantas dos pés ao cume da cabeça, ficando parado no tempo, sentado em meio às cinzas, coçando-se com um caco de cerâmica, aceitando o destino, mas querendo saber por quê. Continue lendo

Mais barbeiros, menos barbearias

Das coisas que mais me faziam falta, cortar cabelo em barbeiro das antigas. Nos últimos meses até encontrei um ali no Mercado Municipal aqui de Curitiba, mas o ambiente muito família, filha e irmã do tiozinho atendendo junto, aí… Entende? Nada daquele ambiente seguro para demonstrações de macheza inexistentes fora dali – salvo nos puteiros, tão teatrais quanto.

Quando era menino meu pai levava os filhos em barbeiro digno do nome e deixava solto, com a natureza seguindo seu curso entre as páginas 18 e 42. Continue lendo

Quando o pai é pai, o filho é filho

I.

Depois da separação o pai passou a usar camisetas e jeans com o corte da moda, também tênis, tênis cinza e vermelho, daqueles sem cadarço. Começou uma dieta, voltou à academia, correndo no parque nos fins de semana. Fez bronzeamento artificial, comprou um carro esportivo, pintou os cabelos. Saía quase toda noite. Disfarçava não ouvir os comentários maldosos da molecada. Ficou com uma ou duas meninas muito mais jovens, precisou tomar remédios para dar conta. O filho descobriu porque uma delas era amiga da sua namorada. Continue lendo

Você está puto com a vida?

Georges Simenon, o famoso escritor criador do inspetor Maigret, escreveu vários livros auto-biográficos, dentre eles um chamado Pedigree, em que tinha um objetivo: “Com Pedigree eu quis drenar todo o pus. E fui fundo nisso”. Ele estava cansado de escrever “bufando e espumando pela boca”. Queria curar as feridas em sua existência. Mas, segundo o autor de sua biografia: “por sorte, ele não conseguiu”. Sim, foi sorte. Continue lendo

Sinceridade conveniente

Quero curar meu coração partido sendo biscate e contigo já não dá mais”. Foi isso que ele ouviu quando perguntou o que estava acontecendo e pediu sinceridade. A sinceridade veio, mas, o que fazer com ela?

Ele  não soube o que fazer.

Levantou, andou  pela casa, com a mão suando, fumou dois cigarros em sequência e começou a eterna luta moderna no Whatsapp:

Online. Digitando… Online. Digitando… Online.

Para sua sorte – e da moça – parou na fase online e conseguiu segurar, por um fiapo de consciência, o trem prestes a descarrilhar. Afinal, ela foi sincera, como nunca tinha visto ser. Qual o mal nisso? Continue lendo

Sexo é tudo isso mesmo?

Sexo é bom. Não tem como negar. Poderia aqui divagar muito mais, mas você sabe do que estou falando. Lembro quando era piá, amigos diziam que o mundo se movia por isso: o ser humano era motivado pelo desejo de transar. Criavam teorias, prédios, guerras, estradas. Tudo por causa do sexo. Há quem ainda pense assim.

Agora, sejamos sinceros: é bom; mas será que é tudo isso?

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