Categoria: Solidão

Levando o vampiro pra passear

Uma segunda-feira sem amanhecer em Curitiba, semana passada. Névoa insistente, viscosa, sombria, não cedia. Foi-se a manhã, hora do almoço, tarde passou e ela não, escurecendo a noite também. Típica Curitiba, dirão. Dias assim, chumbados, quase brancos, sem céu, só chuvisco, chuva, tempestade, frio, enfim, ainda acontecem, eu sei, mas não tanto como antigamente, nem tão intensos como segunda passada. Mas aquela nuvem opressora – perdoem o linguajar militante, mas a imagem é boa, a bruma tinha a aparência e consistência disso tudo aí que ofende tanta gente – não era apenas mais um clichê curitibano, era a forma de todos eles. Continue lendo

Melhor assim (conto)

Ricardo namorava há dois anos mas não estava feliz. Há poucos meses se deu conta de que não nutria mais o mesmo sentimento por sua namorada. Seu modo de falar e sua forma de lidar com os conflitos do casal aumentaram a certeza do rapaz, que agora só pensava no que poderia fazer quando estivesse solteiro. Pensando nisso, ou melhor, remoendo, chegou a conclusão de que iria conversar com a moça o mais breve possível. Lá se foram mais três meses. Mas um dia bebeu demais e num rompante disse tudo. Não poupou palavras. Em meia hora tinha sido expulso da casa de Suzana apenas com a roupa do corpo. Respirou fundo, equilibrou-se segurando na grade do portão, olhou para a janela dela no terceiro andar e gritou: Continue lendo

A chama e a correnteza

Todas as vezes que acendo um cigarro, refaço o mesmo ritual: coloco-o na boca, seguro-o apenas com os lábios, acendo o isqueiro com a mão direita e protejo a chama com a esquerda. Esteja onde estiver, sempre faço essa sequência de atos e, sempre, a mão esquerda chega dois segundos depois da chama ter sido acesa. Continue lendo

Você está puto com a vida?

Georges Simenon, o famoso escritor criador do inspetor Maigret, escreveu vários livros auto-biográficos, dentre eles um chamado Pedigree, em que tinha um objetivo: “Com Pedigree eu quis drenar todo o pus. E fui fundo nisso”. Ele estava cansado de escrever “bufando e espumando pela boca”. Queria curar as feridas em sua existência. Mas, segundo o autor de sua biografia: “por sorte, ele não conseguiu”. Sim, foi sorte. Continue lendo

O sofredor light

Não é de hoje que o homem é incoerente. Basta meia hora ao lado de alguém para encontrar ao menos uns dois indícios de alguma contradição. Principalmente no relaxamento. Do outro lado, a dor faz o inverso. Concentra-nos em um ponto e intensifica-o. Ela nos faz segurar o sofrimento pelas mãos e com determinação buscar qualquer coisa que possa acalmá-lo. Continue lendo

Assombrações de um zumbi

Todo mundo já levou um pé na bunda. Temos até uma vasta variedade de modelos: aquele na infância, quando o menino escreve num papel “quer namorar comigo?” e a menina dá risada com as amigas; também temos aquele da adolescência em que você olha ao longe a mocinha e, depois de gaguejar um pouco, consegue chegar perto e dizer “oi, tudo bem?”, tendo como resposta uma expressão facial de medo. Há quem foi dispensado antes de declarar seu amor: no dia em que foi dizer “eu te amo”, ela se antecipou e confessou que gostava de outro. Não podemos esquecer do clássico pé na bunda, já na vida adulta, que começa com uma negação e depois vem seguida da fuga bem na hora do pedido de casamento. E já que estamos falando de maturidade, porque não citar o tão bem difundido modelo “precisamos conversar, já tô com outra, acho melhor nos separarmos, passar bem”. Continue lendo