Como descobrir a sua vocação?

A vocação costuma se tornar um drama quando chega a época de definição da vida profissional. Aquela época em que precisamos escolher se fazemos vestibular ou optamos por um curso técnico; se já começamos a trabalhar de uma vez ou, então, desejamos sair viajando pelo mundo para ganhar experiência de vida; será que é hora de casar ou comprar uma bicicleta? Dependendo da escolha do filho, como, por exemplo, querer ser músico, muitos pais dirão: “Filho, primeiro garanta seu sustento, depois você faz as coisas que você gosta”. E nessa frase está condensada todos os equívocos vocacionais que padecemos: olhamos para a vocação como se fosse uma escolha de rumo profissional ou descoberta de algo que gostamos de fazer.

Nem uma coisa, nem outra.

E não há melhor exemplo para provar isso do que a vocação de pai e de mãe. Creio ninguém contesta que paternidade e maternidade são vocações, certo? Afinal, não costumamos dizer, quando vemos uma mulher que recém se tornou mãe dando conta do recado, que ela “nasceu para ser mãe”? Ou quando vemos uma jovem cuidando de crianças não dizemos: “você tem vocação para ser mãe”? Pois, então, se ser mãe é uma vocação, isso basta para corrigir o equívoco de considerar a vocação como uma profissão, muito embora várias profissões caibam nessa vocação como, por exemplo, babá, cozinheira, motorista, doméstica, enfermeira e por aí vai.

É óbvio que não é possível reduzir uma mãe ao conjunto dessas profissões, ela sempre será mais do que isso.

Isso serve para mostrar que a relação entre vocação e profissão é próxima, sim – o que explica muitas vezes confundirmos uma com a outra -, mas não se confundem uma na outra. O mesmo exemplo da vocação de mãe também serve para corrigirmos o equívoco de achar que vocação é fazer algo por prazer.

É muito mais do que isso…

Quem quer que tenha visitado um casal nos primeiros meses de vida do seu filho já passou por essa experiência, saindo dizendo para si: “se é pra viver assim, nunca vou querer ter filho!”. De fato, pode assustar. A casa virada do avesso, pais mulambentos, com poucas horas de sono, desgastados, sem vida própria, fazendo tudo em função do filho. Como achar que isso é prazeroso? Imagine acordar toda madrugada para trocar fralda cocozada, roupa de cama molhada, dar de mamar etc; isso é gostoso? Não, não é. Quem vê de fora apenas isso jamais irá querer algo assim. Entretanto, pergunte aos pais se estão arrependidos e terá como resposta que nunca foram tão felizes na vida e jamais trocariam o que estão a viver por outra coisa. Pior, depois que os filhos crescem, chegam a sentir falta desse tempo em que não tinham tempo para nada, nem assistir um filme no Netflix, salvo em prestações suaves de 12x, que quando chegam ao fim você já nem se lembra mais do começo. Seriados, então, esqueça!

Outro bom exemplo é o desejo de ser artista, seja músico ou ator ou escritor, qualquer um.

Nos tempos que vivemos é claro que é um caminho difícil, de pobreza no início, senão por toda vida profissional, também de muitos sacrifícios e riscos. É uma vida muitas vezes incompatível com casamento e família, de proximidade com uma série de vícios de difícil recuperação. Basta conhecer a biografia de alguns para se saber que tentar ser um artista a sério não é nada agradável, especialmente no início. Enfim, espero os exemplos sejam suficientes para afastar essa noção falsa de que vocação tem a ver com fazer algo que se gosta. Não tem.

Mas tem a ver com fazer por amor, algo muito diferente. Tem a ver com propósito de vida, com uma necessidade de cumprir um dever, uma missão pessoal, algo que dê sentido à vida. Isso pode se dar em qualquer circunstância. As profissões mais menosprezadas podem ser meios para realização de uma vocação. Um lixeiro, um servente, um pedreiro, uma faxineira, todas as profissões podem servir à vocação. Ou atrapalhá-la. Também é perfeitamente possível realizar uma vocação em constante sofrimento, próprio ou alheio. Trabalhar com lixo não é agradável, mas pode ser instrumento de vocação, como disse.

E o que dizer das vocações voltadas à minorar ou curar o sofrimento, como a médico e enfermeiro? A profissão de médico quase se confunde com a vocação de médico, mas pense num médico que saiu de férias do seu ofício e, no avião em que se encontra, uma pessoa passa mal. Ele tem o “direito” de não atender porque estaria de férias? É evidente que não, nessa hora é dever da sua vocação, não da profissão.

Mas você pode estar pensando: “como assim? Vocação para ser lixeiro?”.

Se está, então já sei qual a razão para você não ter descoberto sua vocação ainda: falta de imaginação. Sérião, falta de imaginação é teu problema. Uma vez tiradas do caminho as noções de profissão e fazer algo de que se gosta, seu imaginário se demonstra pobre, de horizonte limitado, sem alternativas para dar realidade ao que é a vocação. Você até pode ter uma noção vaga de “amor”, “dever”, “sentido da vida”, mas é distante, coisa mais de filme e televisão do que próximo do seu cotidiano. Ou então é sua imaginação que está atrofiada, não conseguindo funcionar cognitivamente.

O que teria a ver imaginação com vocação? Ora, o primeiro contato de todos nós com a vocação é pela imaginação, quando alguém te perguntou lá na infância: “o que você quer ser quando crescer?”. Tudo o que você tinha para pensar e responder essa pergunta era sua imaginação e você começou a respondê-la em imaginação, pelas brincadeiras que brincava: bombeiro, policial, jogador de futebol etc. Ou seja, a vocação depende muito mais da imaginação do que de qualquer outra coisa.

Mas, claro, se você está em busca de sua vocação e chegou até aqui, deve estar se perguntando: é possível consertar a imaginação, desenvolvê-la? É possível enriquecer o imaginário? Claro que sim, mas saiba que é algo que não se resolve de uma vez por todas. A imaginação é como um músculo, ou seja, se você não exercita com constância, enfraquece. Já o imaginário é como uma despensa pouco usada ou muito mal organizada. Abastecê-la com novos alimentos e manter sua organização exige trabalho constante, trabalho para a vida toda.

Portanto, não se iluda: não existe receita de “sucesso” para descobrir sua vocação e realizá-la.

É um esforço muito pessoal que começa pelo desenvolvimento da sua imaginação e alargamento do horizonte do seu imaginário.

 

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  • Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

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    • Ana Flávia Torquetti

      Excelentes pontuações. Descobrir aquilo que gosto de chamar de “missão de alma” é trabalhoso, exige muita auto-observação e aceitação: aceitação do que é e também do que não é. Grata por compartilhar!
      A energia do seu trabalho tem muita conexão com a do meu projeto, o Autoamadoria.
      Abraço,
      Ana Flávia

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