A crise dos 30 anos e a receita de Keith Richards: Amor, Família e Rock’n Roll

“A vida é engraçada, sabe? Sempre achei fosse viver até os 30 anos. Mais do que isso seria horrível viver. Até que fiz 31 e pensei: até que não é tão ruim.” 

Quem disse isso foi Keith Richards, do alto dos seus mais de 70 anos. Seria a cura para a crise dos 30 anos simplesmente deixar passar, fazer 31 e pronto? Bastaria suportar a sensação de que tudo parece meio que definido e o futuro será mais do mesmo que daí essa sensação passaria como veio e a vida voltaria a se abrir em possibilidades?

Talvez, se você estiver como o Keith aos 30 anos. Claro que não precisa fazer parte de um Rolling Stones, que já eram conhecidos pelo mundo todo quando ele tinha 30 anos, mas ao menos sabendo o que quer fazer da vida, mesmo que não tenha conquistado nada ainda. 

Mas se você, como eu, sentia o peso da incerteza de não saber direito o que quer ou o que fazer, então essa espera se tornará combustível da crise, não sua solução. 

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Lembro bem da minha crise dos 30, do quanto me sentia afogado na vida. Qual era minha vocação? Com que eu deveria trabalhar? Quem eu deveria ser? Pior, quem eu já era? Resultado: angústia de doer o peito somatizada numa esofagite grau sei lá qual, que me obrigou a fazer uma cirurgia e mesmo assim, um mês depois dela, voltei a sentir todos os sintomas, sem que nada aparecesse em exames. Sim, era da minha cabeça. Ali fiquei com medo de ficar louco (alguns dirão que eu fiquei). Foi quando decidi mudar de vida e para encurtar a história: eis-me aqui.

É difícil convencer alguém sofrendo nessa crise que boa parte do seu problema é de falta de imaginação.

É como dizer a um doente padecendo de fortes dores que ele precisa tomar vitaminas. Ele só quer que a dor acabe, mais nada. É compreensível. Mas é isso, é falta de imaginação sim. 

Conhecer biografias de quem deu certo na vida é uma boa maneira de começar a se dar conta dessa falta e ao mesmo tempo começar a resolvê-la. Primeiro, porque em toda biografia de alguém que deu certo na vida essa sofrência existencial é parte inevitável e essencial de quem se tornaram. Segundo, porque enfrentaram essa sofrência e mais mil e um obstáculos e adversidades e superaram a tudo. Ou seja, saber que essa crise é inevitável e conhecer exemplos de quem a sofreu e superou é começar a deixar de apanhar da vida para aprender a encará-la e vencer. 

Além disso, conhecer quem deu certo na vida é também inspirador a quem se sente tão derrotado. Sim, não se iluda, a crise dos 30 anos é uma crise de derrotados, de frustrados. Às vezes é só com a parte profissional ou amorosa, às vezes é com a vida inteira, mas é sempre um sentimento de que deu errado, “deu ruim”, de frustração vital profunda.

Aliás, a biografia do Keith Richards é uma das que indico com veemência, é muito inspiradora. Tem uma autobiografia e um documentário lançado em 2015, “Keith Richards: Under Influence”, contando sua vida à luz das suas influências musicais e de vida. Está disponível na Netflix.

Um aperitivo: Keith saiu de casa bastante jovem, aos 19 anos, para tentar viver de música. Não foi fácil. Logo depois seus pais se separaram e ele perdeu contato com o pai por 20 anos. Nunca o procurou porque acreditava que o pai tinha se decepcionado com ele: “Talvez porque eu me preocupava com o que ele pensava de mim. Era um sujeito certinho que trabalhava duro. A idéia de ter um filho preso por uso de drogas, eu podia ouvi-lo dizer: ‘ele nunca vai prestar pra nada‘.”

Depois desses 20 anos decidiu entrar em contato e marcou um encontro em sua casa. Chamou Ronnie Wood para estar junto, por proteção: “para você ver como eu estava com medo”. Mas quando o pai entrou, um velhinho de pernas curvadas, Keith enxergou apenas uma coisa: “mas era o papai, sabe? E foi tão fácil. Resolvemos tudo em minutos. Pelos próximos 20 anos ele se tornou meu melhor amigo. Foi em toda viagem, todo show, rodou o mundo comigo.”

Estranho imaginar um ícone da tríade “sexo, drogas e rock’n roll” como Keith Richards assim, saindo em turnê com o pai a tira-colo.

Mas é como ele mesmo disse: “99% das pessoas ainda acham que o Keith Richards está fumando um baseado, copo de Jack Daniel’s na mão, andando pela rua e xingando a loja de bebidas por estar fechada. É uma imagem a que estou preso como se fosse a um grilhão. Não é uma sombra, pois existe 24h por dia.”

Mas ele não é assim. Ou não só assim: “Minha família é tremendamente importante. Quando você vê o filho do filho a ficha cai. Ter filho é uma coisa, mas quando nascem os netos e netas, isso é… é um sentimento incrível. Não sei do quê. Realização? Sei lá. Continuidade?… Basicamente, de amor.”

E é lindo vê-lo rodeado pela mulher, filhos, netos e amigos. E Keith fuma e ri o tempo todo no documentário, é contagiante. Está ali um cara realizado e que sabe que é realizado, mas não envaidecido por essas conquistas. Certa altura o entrevistador lhe diz que ele se tornou como aquelas lendas do Blues que ele tanto admirava. É o único momento em que Keith fica tenso, pensativo, e responde: “Sim, eu sei. Eu sei.” 

Disse que continuará tocando até não conseguir mais. Não sabe fazer outra coisa e se sente abençoado por isso. Quando termina o documentário você sente vontade de ler a autobiografia, fazer maratona com os discos dos Stones e os da carreira-solo dele.

Porque é assim que acontece quando conhecemos vidas que deram certo: queremos mais delas, cada vez mais.

Alimente-se de vidas assim que quando essa crise dos 30 anos tiver ficado no retrovisor você reconhecerá que se não fosse por exemplos assim você jamais teria saído dela. Aguarde e confie. 😉

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  • Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

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