De quando Paulo Coelho salvou minha vida

Se o mercado de auto-ajuda fosse um reino, Paulo Coelho seria rei. Li os primeiros livros dele lá nos anos 90. E curti, confesso. Não entendia nada de nada de literatura, mas precisava de ajuda para muita coisa. 

Aí você me pergunta: e ajudou em alguma coisa?

Deixa eu te contar uma história recente que aconteceu comigo que acho você terá a resposta.

Dia desses voltei ao pesadelo que há mais de década não era forçado a viver: visitar repartições públicas. Apenas protocolizar uma petição, mais nada. Uma chancela mecânica, um carimbo, feito. Mas, eu disse repartição pública

Entrei, ninguém na fila e pensei: “Paulo Coelho tem razão, o universo conspira a favor”. Dirigi-me à periguete do guichê e ela:

-A moça do protocolo não está, hora de almoço, só volta às 14h.

Olhei o relógio, 13h15. Respirei fundo, pensando: “É uma repartição pública, não tente entender. Maktub”. Na margem do guichê eu sentei e chorei no whatsapp para minha esposa. E ali fiquei a observar, meditar, divagar.

Ninguém mais na sala. A periguete no seu celular, eu no meu. De vez em quando entrava uma libélula. Sim, uma libélula. Claro, eu era seu alvo preferido, exigindo toda minha ninjidez inexistente. Nunca ia pra cima dela, logo, só podia ser uma louca, uma deusa, uma feiticeira. Em outras palavras, uma valkíria.

Algumas pessoas apareceram, dirigiram-se ao guichê para fazer o mesmo que eu, só que como não trouxeram por escrito ela tinha de colocar a termo, ou seja, digitar o que falavam e protocolizado estava. E os vencedores iam embora, sem dar por mim, sem compaixão, sem um olhar de adeus.

13h34. Verônika decidiu morrer, mas eu, alquimista velho, aguardei alguns minutos e me dirigi à fulana do guichê:

Ela já chegou?

-Você viu alguém passar por aqui e entrar?

Respirei, agradeci, sentei. A libélula. Caí da cadeira. A puta riu. “Apenas protocolizar uma petição, mais nada”, sorri pensando, tentei fazer piada, ignorou-me. Desisti. Celular, timeline.

13h46. Sou brasileiro, tentei de novo: “Gostaria de fazer um protocolo.” Ela me olhou como a libélula:

-Ela ainda não chegou.

-Mas quero fazer como os outros, oralmente.

-É a mesma coisa que está escrita aí no papel?

-Nãããão, lembrei de outra agora.

Ela não chegou, pensa que sou trouxa?

Penso, pensei. 14h08. Uma senhora entrou, passou por mim, adentrou uma porta encantada e desapareceu. Não ousei.

14h15:

-Me dá aqui que ela chegou.

A petição retornou, só com um carimbo, nenhuma assinatura, mais nada, feito. “Quem deseja ver o arco-íris, precisa aprender a gostar da chuva.”, pensei saindo, com a luz do sol quase me cegando.

Lá fora, a libélula me esperava. Então me recordei do manual do guerreiro da luz. Dei com o livrinho na cara do bicho que caiu estatelado na hora, sendo atropelado por um ônibus. 

MORAL DA HISTÓRIA segundo Paulo Coelho: “Um guerreiro não tenta parecer; ele é.”