Dia dos pais 2015

Meu pai está mais vivo morto. Digo isso e sinto o interlocutor me dando adeus mentalmente, pensando aham, enquanto se esforça por parecer convincente no seu “Que coisa linda, cara!”. Prefiro amigo vivo, indo direto ao ponto: “Isso é coisa da sua imaginação”. E é mesmo, claro que é, exatamente isso. Mas o que para muitos é mentira, ficção, viagem na maionese, ou loucura mesmo, para mim é mais real e concreto e significativo do que QUALQUER presença corporal.

Antes do meu pai morrer, já tinha altos papos com Marlow (o narrador preferido de Joseph Conrad), consultava-me frequentemente com Maigret (Simenon me permite acompanhá-los em seus passeios depois do trabalho) e trocava olhares com José Geraldo Vieira sempre que era incompreendido pelos mais próximos (não é, Zé?). Mas nada se compara à presença do meu pai, tão imaginária quanto.

Desde sua morte não preciso pensar, muito menos dizer; ele está aqui.

Ele nunca fala, porém. Nem dá conselhos ou orienta. Só me olha, com um sorriso terno, profundamente compreensivo, compreensivo como nunca, como ninguém. Não há uma merda que eu faça que lhe ofenda, irrite, agrida. Nada. Ele só me olha, e perdoa. Tudo. Nunca me senti tão conhecido, nem tão amado.

Sempre que vou à missa ele está lá, como hoje, na frente, junto do altar, mas como criança. Brinca bastante com outras que estão por ali, correndo por todo lado. Não sei quem são. Só sei que perto de mim está Nossa Senhora, ela me abraça e consola. Queria brincar também, ao menos ficar mais perto, mas não posso, nessa morada não posso entrar. Meu pai me olha de vez em quando, suado e alegre, e em segundos volta a correr e brincar. Deixo-me ficar no colo de Nossa Senhora, pergunto se ele está bem, peço cuide bem dele. Ela nada responde, não precisa.

Se meu pai está no Paraíso? Não sei, não sou Deus para saber. Rezo para que sim. Só o que sei é que Deus é tão bom, mas tão bom comigo que seja lá onde meu pai esteja, ao meu lado ficará também, e para sempre, disso tenho certeza, daquelas absolutas. Nunca antes me senti tão grato.

Aí percebo que Jesus, que estava no meio das crianças e não parecia notar minha presença distante, está me olhando. Ele me olha com um sorriso terno, profundamente compreensivo, compreensivo como nunca, como ninguém. Não há uma merda que eu faça que lhe ofenda, irrite, agrida. Nada. Ele só me olha, e perdoa. Tudo. Nunca me senti tão conhecido, nem tão amado.

Feliz dia dos pais, pai. E obrigado.

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  • Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

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