Dois remédios para dar sentido à vida

Li uma reportagem bem interessante de Emma Young, da revista Mosaic Science e publicada em português pelo El Pais, sobre o uso de drogas por adolescentes. Harvey Milkman, professor de psicologia da Universidade de Reykjavik, na Islândia, fazia residência num hospital de Nova Iorque na década de 70 quando começou a se interessar pela razão que leva as pessoas a consumirem drogas. Acredita ter encontrado a resposta.

Em sua tese de doutorado defendeu que a causa para isso seria o estresse da vida e que as drogas seriam uma maneira de suportar os problemas. Seu foco foi na química cerebral e por isso apostou na busca por substitutos saudáveis que dessem o mesmo “barato” das drogas. Ou seja, em vez de brigar contra a embriaguez proporcionada por todo tipo de droga ele optou por aceitar essa embriaguez e tentar causá-la de maneira diferente.

Percebeu em pouco tempo que educação para conscientizar sobre os perigos das drogas não resolveria nada. 

 

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A partir da década de 90 ele foi trabalhar na Islândia, primeiro em um centro de tratamento de jovens drogados. Seu objetivo era um só: “A ideia [do centro] era oferecer aos meninos coisas melhores para fazer”. Esportes, música, artes, o que fosse. Foi dando certo. 

Entre 92 e 97 ele foi um dos responsáveis por uma imensa pesquisa com adolescentes islandeses que deu um retrato do tédio vital dos jovens. Investigando mais a fundo aqueles que não tinham vícios nem maiores problemas descobriu uma situação comum: esses jovens participavam de três a quarto vezes por semana de atividades organizadas – sobretudo esportivas; passavam bastante tempo com os pais durante a semana; tinham a sensação de que os professores do colégio se preocupavam com eles; e não saiam de noite.

Um plano nacional de ação foi criado com base nessa pesquisa, chamado de “Juventude na Islândia” e dentre várias medidas, duas tiveram papel central: aproximaram os pais da escola, fazendo-os assumir mais responsabilidade, e foi aumentado o financiamento estatal para clubes esportivos, musicais, artísticos, de dança e outras atividades para oferecer aos jovens maneiras alternativas de se sentirem bem fazendo parte de um grupo.

Em outras palavras: deram algo para os adolescentes fazerem e  aproximaram os pais das vidas dos filhos.

Em todas as escolas os pais foram convidados a assinarem compromissos e assistirem palestras sobre a importância de passar muito tempo com os filhos, em vez de lhes dedicar apenas “tempo de qualidade”, assim como do quanto deveriam falar mais com eles sobre suas próprias vidas, conhecer suas amizades e por aí vai. A participação foi grande. Resultado? Cito a reportagem:

“Entre 1997 e 2012, duplicou a proporção de adolescentes de 15 e 16 anos que declararam que “com frequência ou quase sempre” passavam tempo com os pais no fim de semana – a cifra passou de 23% para 46%. Já a dos que participavam de atividades esportivas organizadas pelo menos quatro vezes por semana subiu de 24% para 42%. Ao mesmo tempo, o consumo de cigarros, álcool e maconha nessa mesma faixa etária caiu drasticamente.”

Quer ter uma noção melhor desse “drasticamente”? A taxa de meninos de 15 e 16 anos que bebiam quantidade grande de álcool no último mês anterior à pesquisa caiu de 42% em 1998 para 5% em 2016. Já o índice de maconheiros passou de 17% para 7%, e o de fumantes de cigarros comuns despencou de 23% para apenas 3%. Significativo, não?

Referida pesquisa foi feita em outros lugares e mostraram o mesmo cenário. Ou seja, quanto mais os pais ficam próximos e os jovens têm o que fazer na vida, menos se tornam viciados em alguma droga. E nos locais em que se aplicaram as soluções islandesas, resultados semelhantes foram conseguidos, como em Kaunas, na Lituânia, que entre 2006 e 2014 viu o número de seus jovens de 15 e 16 anos que declararam ter se embriagado nos 30 dias anteriores da pesquisa cair cerca de 25%, e os dos que fumavam ser reduzido em mais de 30%.

Há vários problemas no plano de ação islandês e a reportagem traz alguns deles, mas aqui me interessa apenas esta constatação de que o combo “família presente + fazer algo que se gosta” parece ser eficaz e suficiente a não apenas afastar os adolescentes das drogas, mas também lhes dar um sentido de vida num momento em que eles mais precisam de orientação. 

Isso não serve apenas para adolescentes, é óbvio. Se você se sente perdido na vida, entediado, sem vontade para nada, o remédio inicial pode ser precisamente essa combinação de procurar algo que se gosta para fazer e se aproximar da família e amigos, ao menos daqueles que você ama ou tem consideração.

Por que não aprender a tocar algum instrumento musical? Ou começar a treinar algum esporte qualquer? Que tal um curso de fotografia? Quem sabe começar a cozinhar? Coisas simples, hobbies mesmo, que jamais darão sentido integral à vida, mas são um bom começo a pelo menos lhe tirar desse estado de passividade, de letargia, de embrigado de preguiça, de drogado de tédio.

Se a isso você acrescentar o propósito de se relacionar de maneira mais próxima, constante e verdadeira com pais, familiares e amigos, não demora muito e você se pegará se sentindo muito mais forte para enfrentar a vida e seus problemas inevitáveis. E aí perceberá que a vida tem sentido quando você decide lhe dar um.

“Ah, mas não sei me aproximar das pessoas, da minha família”. Ora, você está nos Náufragos. É claro que podemos ajudar nisso também. Comece por estes 7 passos que o Jota dá para você entender seus pais. E qualquer coisa, já sabe, é só chamar no chat que tentamos ajudar no que estiver a nosso alcance. 😉

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