Guerra chinfrim

“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, ensinou o saudoso tio Ben.

Pena já tivesse morrido quando Tony Stark foi buscar o Homem-Aranha para ajudar na “guerra” contra o Capitão América. Tony precisava urgentemente tomar um tapa na cara e escutar isso. Nem tanto por querer colocar os Vingadores sob a tutela da ONU, mas por sua real motivação a tanto. Esqueçam os dilemas políticos, morais etc., o que levou Tony Stark a aceitar ser pau mandado foi o fato dele não aguentar o tranco de ter assumido a responsabilidade de ser o Homem-de-Ferro. Sua decisão não teve absolutamente nada de política, mas tão-somente quis terceirizar sua consciência culpada. Tony não queria mais pensar, não queria mais o ônus da responsabilidade de ser herói. Agiu apenas como o playboy que também era, fugindo da dor.

“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, ensinou o saudoso tio Ben. Pena já tivesse morrido quando o Capitão América colocou tudo e todos em risco para ajudar seu amigo de infância, Buck, o Soldado Invernal. Steeve Rogers precisava urgentemente tomar um tapa na cara e escutar isso. Estava certo em não aceitar a tutela da ONU, mas tudo o que fez depois não teve nada a ver com isso. Tivessem os vingadores recusado a tutela, mas se negado a ajudar Buck, ele teria feito o que fez do mesmo jeito. Tal como Tony Stark, pensou somente em si, não nos demais a quem liderava.

“Ah, mas ele tinha razão, o Soldado Invernal não era culpado” e bibibi e bobobó.

Ora, o capitão era o líder da turma. Se vários dos vingadores tivessem morrido nas batalhas, teria valido a pena? Ainda que sim, é isso que se espera de um líder? Se ele estava justificado em fazer o que fez para ajudar seu amigo de infância, por que Tony não estaria para matar o sujeito que assassinou seus pais? Estaria mais ainda, não? E se fosse o inverso, e se fossem os pais de Buck que tivessem sido assassinados por um Soldado Invernal que o capitão nunca viu mais gordo na vida, alguém aí acha que ele teria lutado contra Buck para proteger o assassino? Faz-me rir. Não, o agir do capitão foi menos por ser a coisa certa a se fazer do que por ser seu amigo de infância. E isso não é nobre, não.

Enfim, ficará frustrado quem espera que “Capitão América 3 – Guerra Civil” trate do tema “quem fiscaliza o fiscal?”. Embora isso esteja presente no filme, está léguas acima da história que se conta, nada mais do que o embate entre dois heróis desertores de suas responsabilidades, arrastando os demais na encrenca. A Viúva Negra foi a única a enxergar isso e agiu com consciência maior, sabendo que o capitão tinha razão em não querer ser comandado pela ONU, mas sabendo também que a cruzada para ajudar Buck não era solução alguma. Como era a única que não pensava só em si, quando tudo estava arrebentado acabou ainda por ajudar o capitão, mesmo contra sua vontade. Mas ela não foi feita para liderar, então, os vingadores terminaram acéfalos, sem um líder de verdade.

Que venham os próximos capítulos.

Mas nada disso atrapalha a diversão, é claro. A Marvel conseguiu acertar o tom nesses filmes de super-herói e vem entregando tramas bem amarradas, com bom ritmo, efeitos especiais alucinantes e bom humor. Mas é apenas isso, uma sessão da tarde mais encorpada.

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  • Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

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