Mais barbeiros, menos barbearias

Das coisas que mais me faziam falta, cortar cabelo em barbeiro das antigas. Nos últimos meses até encontrei um ali no Mercado Municipal aqui de Curitiba, mas o ambiente muito família, filha e irmã do tiozinho atendendo junto, aí… Entende? Nada daquele ambiente seguro para demonstrações de macheza inexistentes fora dali – salvo nos puteiros, tão teatrais quanto.

Quando era menino meu pai levava os filhos em barbeiro digno do nome e deixava solto, com a natureza seguindo seu curso entre as páginas 18 e 42.

Era divertido. Mas depois vieram os shoppings, as franquias, enfim, acabaram-se os barbeiros de boa cepa, aqueles que se recusam a fazer certos cortes, como um que me contaram assim respondeu ao pai da criança: “Tá bom, até corto, mas que vai ficar uma merda, isso vai!”. Sempre que vejo esses coques de samurai flanando por aí lembro disso.

O penúltimo que conheci, saudoso, foi dica do meu irmão caçula. A bodega onde ele atendia, entre dois botecos, era mais antiga que a das antigas. E meu irmão avisou: “Vá de manhã, porque na hora do almoço ele começa a beber”. Como sempre gostei de passeios com emoção (mentira), fui de tarde. Inesquecível!, o velho cantarolando canções de outrora, xingando todo mundo, uma beleza. Tentei fazer um dueto com ele em “Lady in Red”, que começou a tocar no rádio certa hora, mas ele se perdia todo no cheek to cheek.

Enfim mais uma vez. Tudo acabou, morreu-se, menos hoje.

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Não conseguindo cortar o cabelo nos lugares costumeiros e nada batutas, aceitei pagar mais caro e fui num desses salões de franquia. Eis que me recepciona o Baiano, que dispensa apresentações. Digo meu nome. Pergunta o sobrenome. “Neto do deputado Escorsim?” Sim. “Filho do Bortolo?” Sim. “Rapaz, só estou trabalhando aqui hoje porque teu avô me arranjou emprego na cidade, lá em 67. Homem bom demais da conta. E teu pai, rapaz, ô, teu pai, homem bão também, uma judiaria o acontecido, meus sentimentos, viu, fio?”

Baiano veio do Norte do Paraná, seiscentos anos atrás. Não mudou nada, tenho certeza. E lá fiquei, papeando, descobrindo histórias dos meus, recuperando, por que não?, a inocência perdida entre as páginas 18 e 42. Se volto? Ali, naquele recinto doente de assepsia? Como não, se ali achei mais do meu pai e meu avô pertinho de mim, assim, cheek to cheek, entende?

Agora com licença que preciso fazer um karaokê aqui com a nostalgia da minha infância. 🙂

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  • Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

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