Maturidade #2 – postura diante da vida

Segunda Guerra Mundial, trincheira do exército inglês.

A chuva já assolava a região há tempos, poças e alagamentos são um cenário comuns por aqui. Mesmo assim, hoje, o inimigo resolveu acordar cedo: desde o raiar do dia até agora, meio da tarde, os tiros e explosões podem ser escutadas há quilômetros de distância. Se olharmos bem para o buraco do lado inglês, veremos dois capacetes verdes: um é Joseph, o outro é Henry.

No meio da confusão, estilhaços e tempestade, esses dois soldados – de tempos em tempos – se viram para o outro lado e descarregam parte do seu arsenal.

Ao se esconder com as costas no barranco, Joseph grita e gesticula. Henry, por sua vez, após atirar, costuma voltar-se,  abaixar a cabeça e fechar os olhos. Segurando seu rifle com toda a força, parece estar concentrando suas energias para a próxima investida.

Para o olhar desatento os dois parecem fazer o seu dever, cada um à sua maneira. Porém, o que ninguém percebe é o grande abismo que os separa. Joseph, desde o recrutamento, é o arquétipo do soldado: sempre treinou com intensidade, tem interesse pelo equipamento, se aprimorou nos finais de semana em um curso sobre tática de guerra e além disso, nunca reclamou de gastar seus dias no exército. É o nosso dever defender o país, sempre disse ele. Já Henry…

Rapaz tímido e fechado, foi convocado e aos prantos, quase e arrastado, foi para o exército. Impressionável desde criança, a primeira vez que ouviu um grito de seu superior deu um pulo tanto grande que até hoje é chamar de “Jumper”. De noite, quando os soldados se reúnem, é comum escutar ele se lamentar sobre a Guerra, dizer que tudo isso é em vão, e que todos deveriam pensar mais no amor do que na guerra. Os companheiros nem dão mais bola: todo pelotão tem algum pacifista arrependido que sempre acaba sendo afastado por um colapso nervoso.

Pior, esse é exatamente o caso aqui.

Hoje, um pouco antes de raiar o dia, Joseph e Henry foram dois dos escalados para cuidarem da primeira trincheira. Como é de se esperar, o segundo quase entrou em desespero, enquanto o primeiro foi estudar mapas do local e fumar tranquilamente seu Lucky Strike sem filtro. Enquanto se dirigiam para seu posto, Henry estava tão nervoso que ensopou a camisa antes mesmo de chega na chuva.

Foi só depois da terceira tentativa de abater um nazista que Joseph se deu conta do que acontecia ao seu lado.

– Que que tá acontecendo? Ei, você tá bem? Que porra é essa?

– Tô sim.. Tá tudo bem…

Joseph se vira novamente, acerta a perna de um inimigo, se protege, dá ordens para o outro soldado e então de novo volta-se para o companheiro. 

– Você tá branco e tremendo, cacete! Isso não é normal! 

– Vai passar, vai passar, vai passar… – disse Henry fechando os olhos

O que ele ouviu na sequência foi apenas a voz de Joseph ao longe gritando por um enfermeiro. O corpo amoleceu, tudo ficou preto e ele sentiu ser carregado. O jovem só se deu por si quando estava na enfermaria e escutou a enfermeira chefe dizer: acordou, bela adormecida?

Para continuar falando sobre o tema da semana passada, preciso antes fazer uma simples pergunta:

Se estivesse naquela trincheira, qual soldado você escolheria para estar ao seu lado?

A maturidade, além de ser um caminho sem volta, não funciona como a maioria das nossas conquistas modernas: você se esforça, passa por algumas provas e então ganha um atestado ou diploma que comprova a sua vitória.

A maturidade é uma postura diante da vida.

Quando falamos em amadurecer, você já deve saber, não existe uma grade curricular básica para cumprir. Amadurecer é assumir uma postura responsável diante da vida e evitar a todo custo ceder ou desanimar.

Mas como faço isso?, você pode perguntar. Eu e o Chico, quase que diariamente, damos o mesmo conselho nesse quesito. E repito aqui:

Faça tudo bem feito.

Muitos nos escutam e viram a cara, pois parece um comportamento muito básico para resolver um problema tão grande, mas é bem aqui que mora o perigo! Fazer o máximo para que tudo seja bem feito é o primeiro passo para assumir uma postura responsável diante da vida, logo, é o início da maturidade.

Em outras palavras, soldado, missão dada é missão cumprida!

Hoje mesmo falava sobre isso com um paciente e lembrei dos milhares de filmes de luta ou de guerra que já assisti. Em especial me veio à memória o Karatê Kid! Lembram da cena em que o Senhor Miyagi ensina o jovem a lavar o carro? Nós assistimos àquela cena e pensamos: Nossa, que interessante, ele está ensinando técnicas de luta de uma forma diferente! Ele está preparando o menino para a luta e o rapaz nem percebe! Tenho certeza também que ao assistir o filme você queria que Daniel treinasse direitinho para vencer a grande batalha final.

O mesmo ocorre com você!

Quando digo que você deve fazer tudo bem feito é porque a vida também exige preparação, concentração e treino para várias batalhas que ainda virão. E como você vai ser portar diante disso: como uma criança birrenta que chora a cada bronca do treinador ou como um lutador que assume seu papel e treina como se não houvesse amanhã?

Claro, infelizmente nossa vida não é um filme hollywoodiano dos anos 80 em que o roteiro é tão previsível que você já sabe o que vai acontecer no final. Mas independente disso, você precisa assumir o seu lugar no mundo – no aqui e agora – e fazer o que você deve fazer.

E o mais interessante disso tudo é compararmos tudo isso que eu disse com o discurso moderno de felicidade. Você, querendo ou não, já deve ter entrado em contato com qualquer um desses empreendedores de palco que te motivam à conquistar seu milhão ou então certas vertentes religiosas que se dizem cristãs mas acreditam que toda graça divina só vem em forma de cédulas.

Eles sempre colocam como objetivo de seus esforços a conquista financeira, ou seja, você só é um vencedor e ganhou a vida caso tenha ficado rico. Aqui os discursos de chocam:

Maturidade não tem relação nenhuma com sucesso, poder ou dinheiro.

Como reforcei algumas vezes aqui: maturidade é um postura diante da vida. Em nenhum momento eu disse conquista financeira ou felicidade conjugal. Sabe por quê? Porque esses objetivos podem ser conquistados por pessoas maduras ou imaturas. Vai me dizer que nunca conheceu um rico famoso completamente imaturo, né? Ou então uma pessoa extremamente pobre mas com uma sabedoria e maturidade imensa?

A maturidade te ajuda a lidar com as dificuldade e desafios da sua vida mas não garante nada!

Para concluir, voltemos ao exemplo dos nossos dois soldados. Agora acredito que ficou até mais fácil responder àquela primeira pergunta. Afinal de contas, ninguém quer um Henry dividindo o front na batalha da vida, não é mesmo? E mesmo sabendo que as chances de Joseph morrer são bem maiores que as dos colega medroso, ainda assim ficamos com ele. Sabe porquê?

É melhor morrer cumprindo seu dever com coragem que viver acuado como um convarde. Pois o caminho da maturidade é em todas as circunstâncias a melhor opção.

Semana que vem falamos mais sobre esse tema!

Até breve, soldados!

    

    

  

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  • João Paulo Borgonhoni, mais conhecido por Jota, sempre se interessou por pessoas e relacionamentos. Quase se afogou algumas vezes na vida mas sobreviveu. Hoje é professor e psicólogo (crp 08/17582).

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    • Victor Elson Santos da Silva

      Parabéns Jota! Acompanho o seu trabalho e do Francisco a um bom tempo e sempre quando leio ou assisto aprendo algo que sem dúvidas será relevante para jornada de minha vida.

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