Maturidade #3 – fazer o que deve ser feito

Amigos de longa data, eles se encontravam quase toda semana para aquela cervejinha na sexta pós expediente. A amizade começou no colégio. Ricardo conheceu Pedro, o Pedreira como era chamado, lá na primeira série. Na segunda foi o João que começou a andar com eles e na oitava já eram em seis. O último a entrar no grupo foi o Bolacha, ele fazia faculdade com o Mateus e virou melhor amigo de todo mundo depois de uma noite em que o Vidal chegou até a ser preso.

Como vocês sabem, amizade de homem é tudo igual. Um chega xingando, outro fala da mãe, um terceiro ri e o quarto muda de assunto. Recentemente eles acabavam sempre falando de filhos, esposas e empregos: os primeiros davam trabalho mas valia a pena, as segundas davam trabalho e às vezes valia a pena, os terceiros davam trabalho e nunca valia a pena. O interessante, nesses momentos, é que eles assumiam quase um postura de clube ou grupo organizado. Tanto que há muitos anos o Oriental mudou o nome do grupo do whatsapp pra “Máfia” com uma foto do Poderoso Chefão e nunca mais tiraram.

Era uma máfia e cada um tinha o seu papel. Ricardo e Pedro eram os conselheiros, enchiam o povo de pitaco mas sempre concluíam com frases tipo “mas veja lá você, não quero me intrometer…” ou “não precisa seguir o que eu digo, é só uma sugestão…”. João e Oriental sempre promovendo alguma coisa, chamando pra um churrasco, lembrando dos aniversários – e obviamente contando as melhores histórias – eram “a cola” do grupo. Vidal era o sujeito misterioso e mais ferrado de todos: ninguém sabia bem o que ele fazia, já estava na segunda separação e sempre passava do ponto nas festas. Bolacha, por ser mais novo e o último a entrar no grupo, era o calouro, o estagiário, o zoado sem nunca zoar, o aprendiz e qualquer outro apelido que deixasse claro que ele nunca seria respeitado. A piada preferida era responder à qualquer comentário seu com “alguém viu o prazo de validade dessa Bolacha? Parece que tá vencendo…”.

De todos, nos restou o Mateus – até porque ele merece um comentário à parte. Se todos tinham o perfil clássico do filho da classe média alta, Mateus era um homem que se criou sozinho: pais sempre se separando, filho mais velho de três, acabou aproveitando a revolta adolescente e o trabalho no mercado para sair de casa e morar num pensionato. Depois conseguiu se tornar caixa e gerente, sempre ajudando os dois irmãos com um pouco de dinheiro e alguns conselhos. Com 22 anos já morava sozinho há tempos e dava conta do emprego e faculdade. Fez Administração por três anos mas mudou para Marketing pois recebeu uma proposta de emprego que exigia dessa graduação. Hoje com 37, casado e com quatro filhos – a última gravidez da esposa foi de gêmeos – dá conta de sua empresa com a maior naturalidade e por tudo isso, e mais um pouco, é chamado de Patrão pelos amigos.

Mas o apelido veio mesmo após o acontecimento mais grave que o grupo passou.

Era meados de 2005, todos estavam regulando a idade de 20 à 25 anos. Um dia foram no churrasco de fim de ano da faculdade do Oriental, ele estava se formado em Direito, e fora o João que sempre namorou, o resto estava meio solteiro e bastava dizer três palavras mágicas “cerveja, churrasco, mulher” que eles apareciam feito Mestre dos Magos. A festa começou cedo e lá pelas 2h todo mundo já não sabia mais o rumo de casa.

Foi quando ouviram um grito e começou o corre corre. Não demorou muito para encontrarem o Felipe desmaiado no banheiro, meio sem pulso e com o nariz sangrando.

Em horas como essas dividimos os homens dos meninos.

Bolacha juntou o Pedreira e o Ricardo, se enfiaram num táxi e voltaram pra casa assustados. Nem viram o ocorrido, mas como tinham fumado maconha e dividido uma bala, ficaram com medo de serem presos pois ainda estavam bem altos. Vidal viu tudo de longe, mas como estava bêbado demais dando uns pegas numa caloura num sofá velho no canto – depois que ela saiu correndo – ficou por lá e resolveu não se meter no assunto. João despachou a namorada mas ficou feito barata tonta e, sem saber o que fazer, não saiu da cola do Oriental. Os dois ficaram meio de platéia ou ajudando em pequenas coisas e no final estavam meio em choque.

Foi Mateus, que como um chefe, deu conta do recado:

chamou um sujeito grande e ajudou a tirou Felipe do banheiro, colocou ele numa mesa, deu bronca nuns bêbados, pediu para umas meninas trazerem água e o kit de primeiros socorros, mandou desligar a música, ligou para ambulância e ainda encontrou uma estudante de Medicina meio sóbria para tentar reanimar o rapaz. Em meia hora ele estava coordenando todo mundo e botou todos na linha. Quando já era dia, foi o último a ir embora. Esperou a família de Felipe chegar no hospital para poder acalmar Dona Regina e Seu Aloísio – ainda deixou o número de telefone para qualquer eventualidade. 

Tudo isso causou um impacto imenso no grupo.

Após aquele dia, quase ninguém disse nada pois ainda estavam absorvendo tudo. Porém, lá no fundo, todos entenderam que Mateus tinha algo que eles não tinham. Foi só depois de dois meses, num dia que o Patrão não pode ir beber com os amigos, que voltaram para o assunto. Foi Vidal – que apesar de ser um doido sempre tinha seus momentos de sabedoria – que acabou dizendo o que ninguém até hoje havia dito.

– Piazada, sou só eu ou vocês ainda pensam naquele churrasco? Eu tava caindo de bêbado mas parece que foi como ver um filme, eu ainda lembro de tudo…

Todos riram. Certeza que pra lembrar disso você teve de esquecer o nome da sua mãe!, disse Pedro.

– Sério, cacete! Ouvi aquele caos e no meio de tudo lembro que o Mateus apareceu e me perguntou de você, Ricardo, e de você, Pedro. “Cadê os piás, Vidal? Puta merda, eles sempre somem nessas horas!”. Eu tentei levantar mas ele me empurrou pro sofá dizendo que mais um locão não ia ajudar em nada. Eu fiquei lá, né? Não vamos contrariar o chefe de plantão. Mas foi impressionate, cara. Até hoje penso nisso: como é que um piá de merda conseguiu mobilizar todo mundo como se fizesse aquilo desde que nasceu? Sério, vocês não estavam lá, seus zé droguinha!, mas em dois toques todo mundo obedecia ele, todo mundo confiava nele.

Acho que a gente é um bando de frango…

– Já parou para pensar, interrompeu João, que ele sempre faz isso? Porra, tamo com uns vinte anos e o cara sempre foi tipo nosso padrinho. Sei lá. Lembra aquela vez que teu pai queria se separar, Oriental? O Patrão te ligou, conversou contigo, deu um monte de dica, explicou pra gente o que fazer e ainda conversou com teu pai. Cara, com teu pai! Quem faz isso com 16 anos, porra!? E aquele dia que eu tava mal pra caraio por conta da desgraça da Sofia? Ele me escutou e deus uns puta de uns conselhos massa, até hoje eu lembro dele me dizer “você ainda é muito novo pra sofrer tanto”. Meu, olha essa frase!, da onde ele tirou isso? E na boa, nesse churras aí, ele salvou a vida do Felipe! 

Naquela noite eles seguiram conversando sobre o Mateus. Pela primeira vez tiveram consciência que ele tinha algo de diferente de todos eles.

Ainda conversaram bastante, mas foi o Bolacha que melhor traçou o cenário.

– Sem zoeira, pessoal! Mas a gente é um bando de piá de prédio que o primeiro emprego só foi depois da faculdade. Antes era só estágiozinho de meio período que a gente reclamava mais do que podia. Enquanto a gente achava que tava morrendo pra entregar uns relatórios toscos e tomar café enquanto dava em cima da secretária do chefe, o Mateus tava ralando desde manhã e ainda fazia faculdade. E eu era calouro dele. Eu me ferrando, enquanto o cara passava sempre sem DP! E o mais foda, eu soube que ele chegava em casa e fazia a marmita do dia seguinte! O Ricardo, essa montanha de gordura que é, nem sabe fazer um ovo!

Sei lá, mas acho que ele sempre deu conta da vida dele, e a gente não sabe o que é isso…

Depois disso a conversa dispersou. Mas no dia seguinte quando o Oriental mudou o nome do grupo, todo mundo entendeu a referência da foto: eles eram a Máfia porque Mateus era o Poderoso Chefão. E tudo foi confirmado quando receberam a mensagem dele perguntando: Piazada, como foi ontem? Eu tava atolado de trabalho. Você não fizeram merda, né? 

 

 

Assim como eles, todos nós temos algumas referências de maturidade em nossas vidas mas que normalmente passam em branco até algum evento evidenciar aquilo que é óbvio.

Aquele que busca todo dia “dar conta do recado” – como diria minha mãe – está sempre mais propenso a amadurecer. E todo dia nós encontramos situações que nos oferecem a possibilidade de melhorar e se postar de forma mais madura. Pois, no final das contas:

Maturidade é conseguir fazer o que deve ser feito.

Caso você siga essa lógica, perceberá que tudo ao nosso redor pede resolução. Muitas vezes são questões bastante práticas – como uma louça esquecida na pia – mas talvez, na grande maioria das vezes, o que está em aberto são questões pessoais.

Dar conta do que deve ser feito é primeiro dar conta de você mesmo: seus medos, receios, sonhos e deveres.

Mateus só deu conta do desmaio de Felipe pois há tempos dava conta de si mesmo. Ele já era um homem que conseguia organizar e resolver problemas antes daquele churrasco. Quando encontrou mais uma questão em aberto para ser resolvida, ele simplesmente fez o que tinha de ser feito, pois é isso que ele vinha fazendo desde sempre.

A pessoa madura sabe que a vida é uma sequência de problemas esperando soluções – e não há nada de errado com isso.

O interessante nesse ponto é escutar o discursos dos imaturos, pois normalmente, tudo é dividido entre os Vencedores versus Fracassados. Veja os adolescentes, normalmente eles têm algum grande feito que desejam realizar, e caso consigam essa conquista, a vida está dada por satisfeita.

Sendo assim, enquanto essa questão ainda não é resolvida, eles se vêem como fracassados ou culpam alguém (normalmente a família ou a sociedade). Realmente acreditam que a vida é realizar alguns feitos e ponto final. É como ainda sonhar com o clássico “e foram felizes para sempre”. Ironia do destino: caso seja realizado o que queriam, também se decepcionam, pois o mundo não era tão cor-de-rosa quanto sempre sonharam.

Amadurecer é perceber que os problemas nunca irão acabar e, portanto, mais importante que esperar o dia em que não terá mais dificuldades, é preparar-se para resolvê-las o melhor e mais rápido possível.

Seguimos com esse tema em breve, ainda há muito o que dizer! 

 

 

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  • João Paulo Borgonhoni, mais conhecido por Jota, sempre se interessou por pessoas e relacionamentos. Quase se afogou algumas vezes na vida mas sobreviveu. Hoje é professor e psicólogo (crp 08/17582).

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  • Graciely Cordeiro

    O melhor da série até agora.
    Todo homem deveria ler!!

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