Maturidade #1 – caminho sem volta

Maria tem 27 anos.

Há dez mora na cidade. Começou dividindo o apartamento com duas primas, mas logo a convivência ficou estremecida pois enquanto se dedicava a estudar para passar em Direito na Federal, as primas só queriam saber de maconha, cerveja e festa o dia inteiro. Para sua sorte, não sofreu muito com o vestibular, passou bem na segunda tentativa e logo que conseguiu um estágio foi morar sozinha. 

O apartamento era um “quarto e sala” no centro. Toda vez que um ônibus passava as janelas velhas tremiam. Com o tempo se acostumou com o barulho, afinal de contas, mais barulhenta que a rua eram os vizinhos. Parecia combinado: era ela sentar para estudar e o casal ao lado começava a gritaria. Os argumentos ela sabia de cor. 

Se fossem só eles dois, tudo bem; mas o que cortava o coração dela era o pequeno Anthony – sim, esse era o nome! – que sempre fazia do seu choro a trilha sonora da discussão do dia. Como estudar ouvindo choro, gritos e ainda sentindo aquele aperto no coração pela criança? Maria até tentou conversar com os dois, mas era pior. Um dia havia acabado de falar com a vizinha e ouviu em alto e bom som: “até os vizinhos não te suportam mais, seu escroto!” Então, escutou socos e chutes na parede aos berros “escutem mesmo, seus merdas! Pensam que são quem, seus filhos da puta!?”.

Com o tempo, Maria conseguiu arranjar um novo lugar para morar e também trabalhar. Estudante exemplar, conseguiu uma bolsa de estudo na Espanha por seis meses. Sofreu um pouco por lá, mas conseguiu dar conta e aproveitar a oportunidade. 

Hoje ela está formada há seis meses e trabalha como auxiliar de um advogado trabalhista, um ex-professor que sempre acreditou em sua aluna. 

Mas não só de estudo e trabalho vivia a moça. Certo dia resolveu sair com uma de suas primas. Apesar de escolhas de vida completamente diferentes, Maria gostava de conversar com a Rê às vezes para espairecer e dar risadas. 

Foi numa noite dessas que conheceu Pablo.

 

Pablo nasceu em berço de ouro. Desde menino era considerado o garoto prodígio da família pois conversava com todos e parecia um adulto em corpo de criança. Por conta disso sempre foi esperto. Na adolescência era para ter repetido de ano várias vezes, mas sempre conseguia passar no conselho de classe. 

Foi nessa época também que aprendeu a tocar violão, pois seu tio Rogério sempre dizia que ele precisava aprender a ouvir a verdadeira música: começou ouvindo Beatles e uma coisa levou à outra. Do violão passou a tocar guitarra e com 18 anos montou sua primeira banda. No começo era meio Reggae, mas depois embarcou na onda do “som de praia”, como ele gostava de definir, e acabou fazendo algum sucesso com a piazada tocando em festas e churrascos.

Como era esperado, com todo esse desenvolvimento artístico, a vida de estudos continuou do mesmo jeito: foi levada nas coxas. Passou em administração, transferiu pra letras, tentou um ano de psicologia e desistiu da vida acadêmica na primeira semana de ciências sociais. “Minha vida é a música, o que importa é expressar tudo que vem do coração”, dizia ele ao ser perguntado sobre sua vida profissional. 

Ele acreditava em sua arte, mas não é difícil imaginar o que sua família pensava disso, né? Pai engenheiro e mãe ex-enfermeira, viam o filho como um rapaz meio perdido. E esse era o grande motivo das brigas diárias que recentemente aconteciam na casa da família – eram diárias pois o rapaz ainda morava no ático no fundo da casa e quase todo dia almoça com eles. 

Ele tinha 22 anos naquela fatídica noite em que conheceu Maria. Talvez por um ser o complemento do outro ou por pura obra do acaso, os dois estão juntos há um ano e meio. 

Mas nem tudo são flores.

Depois da pequena fase do encantamento do início do namoro, não demorou muito para começarem os problemas. 

Maria, como esperado, era o pé no chão do casal: pensava na vida prática, na carreira, gastava muito do seu tempo tentando se atualizar na área e quando acabava a correria do trabalho, gostava de ficar em casa ou no máximo sair com amigos para conversar em algum barzinho. Pablo era o sonhador: na luta por se tornar mais conhecido, passava a maior parte do tempo compondo músicas com os amigos, virava madrugadas e sempre que havia alguma nova banda tocando ou festival acontecendo, estava lá divulgando seu som. 

Certa noite, ele resolveu mostrar uma música nova para a namorada. Ela escutou desinteressada e ele explodiu: por que você não dá a mínima para o que eu faço? Maria, sem conseguir se conter, acabou por despejar tudo que pensava. Ela não entendia porque ele ainda insistia nessa história de música: “você é um cara tão inteligente, mas se perde nessas ilusões! Essa história de música não dá futuro e você ainda nem conseguiu sair da casa dos pais!.

Como vamos fazer com o nosso futuro?” 

Pablo disse que não sabia que estava namorando com uma senhora de 50 anos e que ficava puto quando ela não acreditava nele. Maria respondeu que do que jeito que as coisas andavam, ela nunca iria ter um filho dele. “Afinal de contas”, finalizou ela, “eu teria de cuidar de duas crianças: você e o bebê!”. 

O silêncio enfim se fez. Por um bom tempo os dois ficaram olhando para o nada sem saber o que fazer. Foi Maria então quem, com esforço, se levantou e disse: “eu preciso ir pra casa e teus pais já devem estar dormindo”. Saiu sem falar mais nada. Ao chegar no carro desabou e foi chorando para casa, e chorando chegou, e chorando dormiu sem perceber.

No dia seguinte, almoçando com duas amigas da sua turma da faculdade, ela contou tudo e ao final ainda se perguntava: “como é que ele não entende o que eu quis dizer? Ele parece um adolescente e eu vou ter de cuidar até quando? Será que vai ser assim pra sempre?”  

A pergunta de Maria é a pergunta de muitos e a sua fonte é uma só: maturidade. 

Maturidade é um caminho sem volta. 

Uma vez que você consegue amadurecer um pouco, esse pouco nunca mais te deixa. Um conhecimento adquirido é uma verdade que não pode ser negada, ainda mais quando o conhecimento foi conquistado por meio do sofrimento de sua própria vida. 

Quem morou sozinho e pagou suas próprias contas sabe que sempre irá levar em consideração o preço das coisas. Quem sofreu com perda de um ente querido e teve de trabalhar desde cedo nunca mais vai esquecer essa fase da vida, simplesmente porque tudo isso fez você ser quem você é. 

A maturidade então é o benefício que todos temos ao passar nas provas da vida.

Se no colégio nosso objetivo é passar de ano, na vida é passar de fase. E como eu já disse, é um caminho sem volta. 

Muitos sofrem por essa questão – principalmente em relacionamentos. Um dos dois está um passo à frente do outro, olha a vida de forma diferente pois já viveu situações que o obrigaram a se desenvolver. Já o outro lado ainda está verde, precisa de muito para amadurecer. 

Assim como as frutas, é a maturidade que faz você cair do pé familiar, sair da dependência dos pais para então realizar o seu sentido da vida. 

Saiba, não há sentido da vida ou vocação sem maturidade. E vou repetir quantas vezes for necessário:

Não há sentido da vida ou vocação sem maturidade. 

Sem ela você não tem três bases estruturais para realizar seu ser no mundo:

1. noção adequada da realidade,

2. conhecimento de si e de seus limites e

3. coragem para encarar a vida.

Por isso, todas às vezes que me procuram com algum problema vocacional, a primeira pergunta que faço é: você mora sozinho? Paga suas contas? 

Parece uma questão bem besta para aqueles que acreditam estar em busca de uma atividade espiritual elevada e dispostos a se sacrificar por isso. Vejo em 90% dos casos uma expressão que me diz: “por que diabos você quer saber disso se estamos falando de algo superior? Por que se apegar à trabalhinhos pequenos se eu quero algo maior e elevado?” 

Só essa expressão já bastaria para saber o nível de maturidade do sujeito. Mas quando me confirmam dizendo que ainda moram com os pais e não trabalham, sei que ainda estão verdes para pensar em sentido da vida. 

Pois sempre sigo um princípio bem claro:

Antes de ser uma pessoa que realiza sua vocação, você precisa ser uma pessoa. Esse é o caminho natural das coisas. 

O que escrevo aqui não é nenhuma visão de tiozão chato que deseja que todos se tornem adultos adequados – se bem que não seria uma má idéia, né? A questão é que ninguém deseja não amadurecer (ainda desenvolverei o conceito imadurecer ou inmadurecer). 

A vida é para frente, nunca para trás.     

Por isso mesmo, você, ao ler o meu exemplo acima, sabe que Maria está certa. Se alguém tem de se esforçar é o Pablo e não ela. Sabe por que você acha isso? Porque ela é madura e deseja realizar feitos que só pessoas maduras podem realizar. 

O problema não é a atividade que você – ou o Pablo – escolheu, a questão é a postura diante da vida que você toma. 

Mas esse é o primeiro capítulo sobre esse tema. 

Em breve falo mais sobre aspectos da maturidade, mas não se esqueça: maturidade é um caminho sem volta, e todos devemos nos esforçar para cada dia ser mais maduros. 

 

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  • João Paulo Borgonhoni, mais conhecido por Jota, sempre se interessou por pessoas e relacionamentos. Quase se afogou algumas vezes na vida mas sobreviveu. Hoje é professor e psicólogo (crp 08/17582).

    • Mostrar Comentários (1)

    • Pedro

      Excelente Jota!
      Nunca tinha lido nada seu – de besta, aparentemente.
      Muito bom mesmo.

      Abração.

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