Melhor assim (conto)

Ricardo namorava há dois anos mas não estava feliz. Há poucos meses se deu conta de que não nutria mais o mesmo sentimento por sua namorada. Seu modo de falar e sua forma de lidar com os conflitos do casal aumentaram a certeza do rapaz, que agora só pensava no que poderia fazer quando estivesse solteiro. Pensando nisso, ou melhor, remoendo, chegou a conclusão de que iria conversar com a moça o mais breve possível. Lá se foram mais três meses. Mas um dia bebeu demais e num rompante disse tudo. Não poupou palavras. Em meia hora tinha sido expulso da casa de Suzana apenas com a roupa do corpo. Respirou fundo, equilibrou-se segurando na grade do portão, olhou para a janela dela no terceiro andar e gritou:

“Melhor assim mesmo!”

Dia seguinte chega e com ele o arrependimento. Liga uma, duas, três, dez, vinte vezes e nada de Suzana. “Ela nem desliga na minha cara, deixa tocar..”. Corroído pela ressaca moral, mas ainda decidido a reparar o malefício, corre até a porta da namorada. “Ou ex namorada…?”, pergunta-se, confuso. Toca o interfone, grita seu nome, senta na calçada, choraminga, bate na própria cabeça, xinga-se de burro. Repete todo o processo algumas vezes. Quando já conformado e tentando dar ordem para as lembranças esparsas de ontem, um carro conhecido dobra a esquina. Ele se levanta, arruma a camiseta, passa a mão no cabelo e inconscientemente faz sua cara de culpado; olhos arregalados, boca fechada com os lábios pra dentro e cabeça levemente abaixada.

Suzana o reconhece. Desliga a seta do carro, desiste da garagem e, contra a vontade de Ricardo, acelera seguindo reto. Num rompante de indignação ele ergue as mãos pra cima e grita “Porra!, sério isso?”. Ele então pega o celular e manda diversas mensagens para ela; várias em caixa alta, outras irônicas, algumas se passando por vítima. Escreve num frenesi, estado semelhante da noite anterior. Quando se dá por conta nenhuma mensagem chegou ao destino:  bloqueado. Desliga o celular, arremessando na calçada. Chora de nervoso, pega o aparelho e a blusa do chão, e volta pra casa.

Os meses se seguem estranhos. Suzana até voltou a  entrar em contato, mas apenas para falar de coisas práticas. Todas as respostas dele foram ignoradas.

Sua última mensagem até já decorou: “Tá bom, pode deixar as sacolas na portaria que eu passo pegar. Mas e você tudo bem?” Com um misto de vergonha e uma pitada de revolta ele lembra daqueles dois risquinhos azuis ao lado da mensagem. Mas ele agora não pensa mais nela com tanta frequência. Repassou mil vezes os motivos que o desagradava no namoro, e na maioria reconfirmou serem legítimos. Porém, ainda assim sente algo em seu peito que pesa.

Três anos se passaram desde daquele fatídico dia da confissão embriagada. Ele lembra da data pois a bebedeira daquela noite era em homenagem aos vinte e oito anos de seu melhor amigo. Não será diferente hoje. A festa não é mais em baladas – estão cada vez mais caras e o Pedro está namorando – mas não tem como beber pouco: todos temos certas companhias que nunca nos deixam ir embora cedo. Em casa, pega uma camisa a esmo e se arruma diante do espelho e, de repente, pára:

“Melhor assim mesmo!”, lembra daquelas palavras.

Refaz na sua cabeça a sequência de atos anteriores a esse grito do portão. Ri sozinho, como rimos complacentes ao vermos adolescentes fazendo besteiras. Se olha nos olhos e diz pra si mesmo: – Olha lá, hein?, não vai me fazer outro vexame! Não temos mais saúde pra isso.