O que é o sentido da vida?

Sempre procuramos sentido em tudo que fazemos

Desde o momento em que tomamos consciência de nossa necessidade por sentido, buscamos sempre algo mais significativo para gastarmos o tempo da nossa vida. Esse desejo começa muitas vezes quando a criança brinca de ser super-herói, ali está a semente desse Sentido da Vida ainda sem forma. Na adolescência essa busca está mais voltada para si, e é interessante de ser notada. Quando o jovem começa a se distanciar da família – evita os pais, não quer nenhum sinal de carinho público, diz que eles não o entendem – podemos dizer que ele está em busca de desenvolver sua personalidade independente de um grupo que o absorva.

Ele quer ser ele mesmo, não o “filho de fulano”.

Converse com um adolescente e verá que normalmente a questão de “quem sou eu” é bastante urgente. Porém, passados alguns anos, essa questão parece perder o importância ou já foi superada, o problema agora é outro: o que fazer e como se posicionar na sociedade.

Essas questões acabam sempre desembocando nesse tal Sentido da Vida. Confesse, seu sonho é encontrar algo que te complete, te faça feliz, te deixe motivado e te ajude a construir uma imagem ou legado para as próximas gerações. Porém, infelizmente tenho más notícias: esse sonho é falso. Com a modernidade criamos toda uma cultura de inflação de ilusões: todos nós podemos mudar o mundo, atingir pessoas ao redor do globo, ser lembrado pela posteridade, transformar a humanidade. Essa idéia megalomaníaca acaba afastando cada vez mais as pessoas do que é realmente encontrar um Sentido da Vida. Pois não é difícil imaginar que se todos temos de mudar o mundo, de duas, uma: ou a maioria da população vai se frustrar, ou o mundo será mudado tantas vezes que não fará mais nenhuma diferença qualquer nova mudança.

Tirando essa fantasia do horizonte, o que sobra então? Para responder essa questão precisamos colocar os pés na realidade.

Quando falamos em Sentido da Vida precisamos pensar em atividades que podem ser realizadas ordinariamente, atividade comuns – deixemos os atos extraordinários para depois. Devemos pensar em um certo tipo de papel que eu, você, minha avó, seu colega, minha professora, sua madrinha podem realizar. Esse Sentido da Vida não pode ser inalcançável, caso contrário teríamos desde o início dos tempos uma epidemia depressiva que há tempos já teria engolido a humanidade. Para deixar tudo mais claro, há três conceitos chaves que podem facilitar nosso entendimento: Sentido da Vida é uma Missão Pessoal Intransferível.

Missão:

Quando falamos em missão normalmente pensamos em algum tipo de herói ou religioso. O herói costuma ter a missão de combater o crime, lutar contra as forças do mal. A missão do religioso é associada à evangelização, talvez ir até um terra distante e pregar o evangelho. O que temos em comum é a idéia de uma atividade que não tem fim. Tanto o herói quanto o religioso têm diante de si algo que pode ocupar suas vidas até o fim dos dias.

Além desse aspecto, quando falamos em missão também falamos de uma função que precisa ser feita. Toda missão tem em si essa idéia de urgência e necessidade: alguém precisa fazer isso pra ontem, pois é de suma importância para todos. Além dessas duas características, podemos dizer também que missão é algo que uma vez assumida não pode ser deixada de lado. Melhor dizendo, se você vai realizar essa atividade é pra fazer de verdade. Missão dada é missão cumprida. (Perceba que só de eu falar sobre missão você já deve ter desejado ter uma para chamar de sua. Essa é – como chamava o psiquiatra e filósofo Viktor Frankl – a Sede de Sentido).

Todos nós temos uma vontade íntima de ter sentido, por isso histórias de homens comuns ou extraordinários que superaram suas dificuldades nos atraem.

Se o Sentido da Vida possui esse aspecto missionário significa que o homem tem em si essa disposição. Porém, pensemos mais um pouco no conceito de missão para que nada nos escape. Se não pararmos um pouco para prestarmos atenção, algo bastante evidente costuma passam em branco: missões não tem nenhuma relação com dinheiro, trabalho ou necessidade de reconhecimento.

Aqui a casa cai!

Missões, como dito antes, são atividades que devem ser realizadas em prol de algum bem, mas de forma alguma precisam te conferir algum benefício. Um exemplo, que tanto eu quanto o Francisco utilizamos, é o da maternidade. Não vou me delongar aqui mas mães ao redor do mundo tem na criação de seus filho o Sentido da Vida e não é por isso que são super reconhecidas, ganham dinheiro ou possuem algum cargo.

Elas são simplesmente mães.

Vivemos nossa vida inteira atrás de um significado maior em nossas vidas e podemos nem reparar que milhares de mulheres ao nosso redor são exemplo de pessoas que encontraram seu sentido. Mães são tudo e mais um pouco – enfermeiras, psicólogas, professoras -, perdem muito dinheiro, pensam pouco em si mesmas e se preocupam muito com seus filhos. É desse tipo de missão que eu estou falando.

Pessoal:

Sentido da Vida é um missão mas deve ser também pessoal. Falei anteriormente da maternidade, mas vou me utilizar de outro exemplo aqui: vamos pensar em um professor. Digamos que ele é um homem que vê na educação uma atividade que enche seus dias de significado, logo, ele tem uma missão educadora em sua vida. Quando pensamos dessa forma, podemos chegar a conclusão de que essa missão não é exclusiva desse professor. Várias pessoas ocupam sua vida com atividades educacionais. Sim, este pensamento está correto.

Para entendermos melhor, deixe-me ser mais claro: esse professor encarna em sua vida pessoal essa missão ampla da educação.

O professor não educa a humanidade, ele educa os alunos que estão diante dele na sala de aula. Portanto, o Sentido da Vida dele não é a educação mas a educação específica daqueles que lhe são confiados por meio do seu trabalho. Entende que essa missão perde esse aspecto genérico e ganha em concretude e objetividade pessoais? Podemos pensar também em um cozinheiro: o seu sentido será realizado todo dia quanto estiver fazendo um prato para um cliente em seu restaurante. Com um músico é a mesma coisa: seu sentido será tocar aquela música específica naquele local específico para aquele público específico. Acho que me fiz entender, né? Portanto: todo Sentido da Vida deve ser realizado em sua vida concreta sob sua responsabilidade.

Intransferível:

Esse aspecto é uma dedução lógica dos dois anteriores: se Sentido da Vida é uma missão e deve ser pessoal, logo, eu não posso transferi-lá para ninguém. Exatamente. Mas cabe aqui mais algumas palavras. Uma idéia que sempre gira em torno desse tema é a questão da realização de sua personalidade. O Sentido da Vida não é apenas um missão pessoal que você escolhe ao léu dentre as milhares de missões possíveis no mundo. Caso fosse, qualquer atividade com significado acalmaria essa angústia que você carrega no peito.

Sabemos por intuição, e nem precisamos de explicações de especialistas, que de certa forma “cada um tem uma missão”.

Essa idéia já foi muito trabalhada por religiões ou correntes filosóficas, mas apesar disso, a gente sente que cada um tem um papel. E digo mais, também sabemos que cada um tem uma personalidade ou uma aptidão para certas coisas. Dessa idéia é derivado este terceiro aspecto: o Sentido da Vida é intransferível pois é uma atividade que você deve realizar pois ela foi feita para você.

O Sentido da Vida é intransferível pois mesmo se outra pessoa fizesse aquela atividade no seu lugar, você teria a sensação de estar deixando de lado uma parte de você.

Você estaria negando algo que lhe foi confiado desde que o mundo é mundo. Palavras bonitas, eu sei, mas que carregam uma verdade imensa: o Sentido da Vida é algo próximo a você pois é a atualização do seu ser de forma plena na realidade. Quem diz isso é o filósofo francês Loius Lavelle. Para ele o Sentido da Vida é a realização de quem você é. Por essa razão, ao realizá-lo, terá enfim a serenidade interior pois está fazendo algo que de certa forma é natural para você.

Procure exemplos de pessoas que encontraram seu Sentido da Vida, você invariavelmente encontrará algumas histórias que parecem mentira: cada episódio da vida daquele sujeito parece um degrau para ele chegar onde está, tudo o direcionou para chegar naquele papel – o famoso “nasceu para isso”. Além desses, você também encontrará alguns casos em que uma história de vida muito confusa ou sofrida acaba sendo redimida por uma atividade que dá sentido, não só para os dias atuais, mas resolve todas as questões anteriores. (Um exemplo que gosto muito é a série Chef’s Table no Netflix, são histórias variadas que foram resolvidas por meio de um mesmo sentido).

Bem, basicamente tudo isso é o Sentido da Vida. Talvez essa procura e realização de um sentido seja a maior conquista para um ser humano.

O assunto não se esgota aqui, eu sei que muitos devem estar se perguntando qual a via mais fácil para encontrar o seu sentido ou o que fazer enquanto não encontra esse papel no mundo, eu mesmo dou curso a esse respeito. Mas acima de tudo, o importante é saber que, sim, a vida pode ter sentido – e não é por não ter encontrado ainda que ele não existe. Enfim, ao menos agora você sabe o que ele é.

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  • João Paulo Borgonhoni, mais conhecido por Jota, sempre se interessou por pessoas e relacionamentos. Quase se afogou algumas vezes na vida mas sobreviveu. Hoje é professor e psicólogo (crp 08/17582).

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