O vazio existencial e as canções para náufragos

Que a música tem uma importância tremenda na vida não é novidade para ninguém, mas quando somos náufragos existenciais, aí a música é ainda mais importante: é vital. A ponto de sermos obrigados a concordar com esse aviso iluminado na parede da imagem em destaque aí em cima. 

Sim, você é o que você escuta.

Mas por que a música tem tamanho valor para nós, náufragos?

1) A música preenche o vazio

Em um dos grupos de leitura que faço mediação aqui em Curitiba estamos lendo um livro do jornalista Ari Shavit, chamado Minha Terra Prometida – O Triunfo e a Tragédia de Israel. Logo no começo, quando ele conta sobre os primeiros judeus a migrarem para lá no início do século XX, há uma passagem sobre a importância da música para aqueles pioneiros que é exatamente a mesma para os náufragos.

Para compreendê-la, porém, é preciso saber que aqueles judeus pioneiros eram seculares, ou seja, não acreditavam em Deus, o que para um judeu significa deixar para trás praticamente tudo e começar a vida do zero. É aí que a música ganha um significado muito maior. Preste bem a atenção no que disse um deles:

A hora da música é o único momento em que o nosso refeitório se parece com um lugar de culto. Há uma razão para isso. Deixar deus para trás causou um terrível abalo em todos nós. Destruiu a base da nossa vida como judeus. Isso se tornou a contradição trágica de nossa nova vida. Tínhamos de partir do zero e construir uma civilização desde os alicerces. Porém não tínhamos nenhum alicerce sobre o qual construir. Não tínhamos nenhum fundamento. Acima de nós havia céus azuis e um sol radiante, mas nenhum deus. Essa é a verdade que não podíamos e não podemos ignorar nem por um momento. Isto é o vazio. E música para nós é uma tentativa de preencher o vazio. Quando os sons dos violinos preenchem nosso refeitório, familiarizamo-nos de novo com outra dimensão da vida. Despertam os mais profundos e esquecidos sentimentos enterrados em todos nós. Nossos olhos se fecham, voltam-se para o íntimo e uma aura quase de santidade envolve todos nós.”

É difícil expressar o que é estar náufrago na existência, mas ouso dizer que é exatamente como esses judeus se sentiam. Ainda que acreditemos em Deus, que tenhamos os alicerces da família, da civilização em que vivemos, o sentimento de naufrágio é mais forte do que tudo isso. É a sensação de que não se tem nada de verdade e não se sabe nem por onde começar a ter. Isto é o vazio.

Daí porque a música ganha uma dimensão muito, mas muito maior na vida de um náufrago. Porque, arrisco dizer, só ela é capaz de preencher esse vazio por alguns momentos. É nossa bóia. E, nessas horas, você é o que você escuta mesmo.

2) Preenchendo o vazio.

Por isso não poderíamos deixar de dar destaque para a música por aqui. Em nosso podcast fizemos questão de criar um “espaço” especial que chamamos de Canções Para Náufragos. A idéia é não apenas trazer músicas que possam servir de bóias, mas também tomar consciência… Ah, quer saber, é bem melhor escutar nossos podcasts para entender! Deixo uma lista com os que já fizemos sobre música, com um breve comentário para contextualizar.

I. Manual de Instruções usando como exemplos músicas muito conhecidas de Pearl Jam, The Cardigans, Roberto Carlos e Metallica, falamos um pouco sobre o casamento entre letra e música e a forma final que isso cria.

II. Aprendendo a amar – analisamos dois “clássicos” do pop rock nacional que falam sobre isso, sobre o que é amar.

III. O Naufrágio na Passarela – comentando músicas de carnaval e um samba antológico de Cartola falamos sobre o êxtase da alegria que a música proporciona, assim como também nos canta a ressaca do dia seguinte:

IV. Sendo looser por toda a vida – o mais polêmico dos podcasts sobre música. Falamos de duas bandas muito queridas por nós, porém…:

V. As provas da maturidade – selecionamos músicas “clássicas” de Chico Buarque, Frank Sinatra e Bob Dylan para falarmos sobre os testes pelos quais passamos quando estamos amadurecendo na vida:

E nesta semana sairá mais um volume das nossas Canções Para Náufragos,a sexta, dia 18\05\2018. Passearemos pela música sertaneja para falarmos um pouco sobre esse vazio aí e sua relação com a paixão, que é outra coisa que parece preenchê-lo. Mas, será que preenche mesmo?

3. Bônus Track

Além desses podcasts, temos também uma playlist no nosso canal no spotify feita especialmente  sobre maturidade. É uma playlist que “conta” a história do processo pelo qual passamos para nos tornamos maduros de verdade. Muitas dessas músicas serão trabalhadas nos podcasts futuros, mas já podem lhe servir de mais bóias durante esse naufrágio!

Depois de escutar tudo isso não esquece de nos dizer o que achou, ok? Quanto mais tivermos retorno, melhor Os Náufragos se tornarão. Agradecemos desde já. <3 🙂

 

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  • Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

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