O primeiro passo para a vida adulta

Conversei no começo do ano passado com uma moça bastante jovem. Do alto dos seus dezesseis anos, ela estudava já pensando no vestibular e me falava sobre sua rotina no colégio. Mas, como era de se esperar, esse não era o real motivo pelo qual me procurou: na verdade, ela sofria de amor.

Seu namoro já não ia bem das pernas e ela, entre muitas crises e poucas certezas, estava muito confusa com tudo o que vinha acontecendo. Nossa conversa foi rápida, mas o suficiente para perceber que ela só quer, só pensa em namorar.

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Recentemente reencontrei por acaso a namoradeira. Começou a conversa já me atualizando: estava trabalhando. Antes de eu dizer qualquer coisa, soltou “tá bem complicado, meu chefe não é fácil, tenho que procurar um novo emprego!”. Algo tinha mudado. Foi a vida adulta que tinha chegado. Ou melhor, ela chegou na vida adulta.

Quando vivemos longe de certas responsabilidades não conseguimos entender o sofrimento ou a importância da luta diária no mundo adulto.

Eu mesmo só fui entender quando me vi morando com dois amigos, tendo de limpar o banheiro uma vez por semana e contar os trocados no final do mês. Essa realidade não chega até nós naturalmente, ela exige um esforço pessoal. E quando digo esforço, eu quero dizer muito esforço. Vivemos na época da Ideologia da Naturalidade. Tudo tem de ser natural, nada pode ser ordenado; tudo deve ser fluído, nada pode ser planejado. Nessa dinâmica esquecemos que a vida adulta só acontece quando caminhamos em direção a ela.

De arrasto também perdemos de vista uma das maiores vantagens da vida adulta: os problemas mudam de tamanho.

As grandes preocupações e medos do jovem se tornam algo bem diminuto diante da realidade do adulto. É como sair de casa pela primeira vez, olhar para trás e perceber que nosso universo doméstico é apenas uma parte bem pequena de um todo. Aquele que não assume a vida adulta permanece dentro de uma bolha infantil – com figurinhas na janela, ursinhos de pelúcia sobre a cama e toddynho de manhã. Se o jardim é o limite, tudo tem muita importância. Meus dramas são um fardo. Ninguém sofre como eu.

A moça que antes vivia em crises afetivas agora já adotou um mote clássico dos adultos: reclamar do chefe, querer mudar de emprego. Não é a melhor filosofia que alguém pode ter na vida, mas significa que o primeiro passo para a vida adulta foi dado. Ao perguntar sobre o namorado, confirmei o que suspeitava: “Ah, acabamos… Tô meio sem tempo agora e ele não entende muito bem isso”.


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