Sexo é tudo isso mesmo?

Sexo é bom. Não tem como negar. Poderia aqui divagar muito mais, mas você sabe do que estou falando. Lembro quando era piá, amigos diziam que o mundo se movia por isso: o ser humano era motivado pelo desejo de transar. Criavam teorias, prédios, guerras, estradas. Tudo por causa do sexo. Há quem ainda pense assim.

Agora, sejamos sinceros: é bom; mas será que é tudo isso?

 

Antes tabu, agora assunto até nas aulas de biologia de qualquer quinta série. Não é que ele estivesse ausente, mas agora ele é o convidado essencial de toda festa. De colega meio distante que mofava no canto do salão, e só era chamado quando todo mundo já estava mais para lá do que para cá; agora ele é esperado com ansiedade e nada mais acontece sem ele: até um simples café fica sem graça sem ele.

Nunca antes na história desse país – e mundo – se pensou tanto nisso.

Sexo está sempre na cabeça – e, ultimamente, tem preferência pela de cima. Já notou que tudo na modernidade tem um apelo sensual? Ficou impossível não abusar. “Afinal de contas, sexo é bom e eu quero _______ (coloque aqui sua meta), por que não juntar as duas coisas?”. Todos podemos nos insinuar. Esse verbo me intriga: insinuar. É um deixar ver sem deixar, fazer pensar sem ser claro, chegar perto mas não tocar, algo meio “pode, mas não pode”. De insinuação em insinuação o sexo foi subindo à cabeça e, de tanto subir, já pensamos muito mais do que fazemos.

Confesse, você transa menos do que queria.

Nunca sei qual o motivo disso. Tendo a achar que não tem mais volta. O sexo ultimamente anda muito espalhado por aí: se intromete nas coisas mais banais, manda notificação a cada meia hora, grita com você em cada outdoor, chama teu nome a cada olhada para o lado. É tanto apelo que não tem como suprir sua demanda. Desconfio que não há nada mais carente do que nosso desejo sexual. Nem o cachorro latindo estridente na volta do trabalho.

Acontece que carência nos provoca culpa. Como nossa psique é frágil, nos sentimos devedores sempre que alguém nos importuna. Com sexo não é diferente. Quando não realizamos os seus caprichos começamos a duvidar de nós mesmos: “Deve ser falta de sexo…”. O sexo responde: “Vai, besta, não me escuta!, e agora está aí, sofrendo à toa!”

Porém, de carente pedindo esmola a juiz implacável são dois passos. “Ela é assim porque é mal amada!”, “Isso é falta sabe do que, né?”, “Tá doido?, precisa aliviar isso tudo!”. A lógica é a seguinte: se sexo é bom, todo sofrimento, no fundo, deve ser por sua falta. Por sua característica primitiva, o sexo é um dos contatos humanos mais concretos possíveis. Quanto mais amortecedores construímos (gadgets, apps, sites) mais o desejo parece aumentar. Estamos mais distantes do nosso objeto de desejo, e completamos a distância com nossa imaginação cheia de putaria.

Logo, quanto mais longe da realidade maior é nossa vontade e maior a ilusão.

Daí não é difícil imaginar o porquê dele ter se tornado “o desejo do desejos”. Nossa moralidade é sexual, o sexo é parâmetro pra tudo. Segue-se então – imitando o esquema clássico marxista -, uma oposição de falsos contrários: existem os que transam e são felizes versus os que não transam e sofrem.

Sexo virou o pote de ouro no final do arco-íris. “Sei onde mora a felicidade, e é pra lá que eu vou!”. Começa assim a nossa autoflagelação moderna. Mal vemos o arco-íris, imagina, então, o pote de ouro. Então todo o mundo parece ser feliz, menos você. Todos gozam, dos mais feios aos mais bonitos, dos libertinos aos caretas. Enquanto isso, você está comendo um miojo, abandonado no sofá de pijama, vendo filme dublado. Sábado a noite é o ápice desse sofrimento. Além da necessidade quase implacável de “fazer algo pra se divertir”, tudo isso seria perfeito se coroado com uma ótima noite de sexo. Até mesmo aqueles que têm parceiros certos, também criam seus conflitos. “Se não fosse assim, fosse assado… eu não teria do que reclamar!”.

Sexo é bom. Tudo parece melhor com ele. Tanto que estamos presos entre quatro paredes com um espelho no teto. É a Síndrome de Estocolmo da nossa era.

Agora, sejamos sinceros: é bom, mas será que é tudo isso?

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