Sinceridade conveniente

Quero curar meu coração partido sendo biscate e contigo já não dá mais”. Foi isso que ele ouviu quando perguntou o que estava acontecendo e pediu sinceridade. A sinceridade veio, mas, o que fazer com ela?

Ele  não soube o que fazer.

Levantou, andou  pela casa, com a mão suando, fumou dois cigarros em sequência e começou a eterna luta moderna no Whatsapp:

Online. Digitando… Online. Digitando… Online.

Para sua sorte – e da moça – parou na fase online e conseguiu segurar, por um fiapo de consciência, o trem prestes a descarrilhar. Afinal, ela foi sincera, como nunca tinha visto ser. Qual o mal nisso?

Costumamos pregar sinceridade em todos os momentos, como aqueles senhores que ficam com a Bíblia em punho gritando que o Apocalipse está dobrando a esquina. Rejeitamos, com frequência, pessoas que se mostram falsas. Ninguém quer ser chamado de mentiroso. Buscamos nos inspirar nos grandes “pensadores da paz”, que com aquela cara meio blasé, parecem ter aprendido a superar essa vida mesquinha e mentirosa que levamos. Tentamos ser como eles das mais variadas formas. Selfie fazendo yoga, você sabe do que eu estou falando!

Porém, a sinceridade que exigimos talvez não seja exatamente o que queremos. Não somos sinceros nem quando pedimos sinceridade.

Pedir sinceridade, frequentemente, significa, na verdade, dizer: “vamos conversar a sério, mas me diga algo que faça eu ter razão”. Então é aqui que mora o problema, pois não raro, após o momento ‘cartas na mesa’, nossos piores sentimentos vem à tona para provar, mais uma vez, que o mentiroso não somos nozes. Depois de depor a Consciência, o Sentimento é o rei da psique: bipolar, sentado no trono, com mão de ferro julga despoticamente o que vê pela frente e muda de opinião como quem muda de canal.

A verdade é que a dose de verdade que estamos acostumados a suportar é bastante maleável.

Como este novo rei nunca para, trabalhando a todo vapor, fazendo turnos extras de madrugada, o resultado é desastroso: nossas vontades e atos acompanham nossos sentimentos, sendo guiados e interpretados também por eles. O mal, então, é ser contrariado nesse mar de pequenos mimos que exigimos constantemente. O castelo sólido de pedras construído pela Consciência foi substituído pelo frágil castelinho de cartas do Sentimento. Qualquer alteração o derruba.

Para que a sinceridade alheia não impressione tanto, é preciso por o novo rei à prova, sendo mais sincero consigo. É duro mas necessário, pois sinceridade conveniente não é sinceridade de forma alguma.

– Originalmente publicado no jornal Gazeta do Povo no dia 03/08/2016, editado pelo autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *