O sofredor light

Não é de hoje que o homem é incoerente. Basta meia hora ao lado de alguém para encontrar ao menos uns dois indícios de alguma contradição. Principalmente no relaxamento. Do outro lado, a dor faz o inverso. Concentra-nos em um ponto e intensifica-o. Ela nos faz segurar o sofrimento pelas mãos e com determinação buscar qualquer coisa que possa acalmá-lo.

Um homem que sofre é mais coerente que o satisfeito. Diariamente ele me visita. Aquele que sofre se fecha em um ponto e, semana após semana, investiga Deus, o mundo e a si mesmo atrás de uma solução. Senta no sofá (não tenho divã, antes que perguntem) e despeja toda sua história em busca da cura do seu drama. Um antigo paciente sempre trazia novos dados disparatados sobre a sua vida e arrematava “não sei se é útil o que eu disse mas tudo pode acabar ajudando, né?”. Quem sofre pode parecer desorientado por fora, falar frases desconexas, agir de forma inversa do que fez há cinco minutos; mas no seu íntimo é bastante coerente.

Prestar atenção nisso faz parte do meu trabalho. Cara, crachá, cara, crachá, cara, crachá.

A incoerência se apresenta no grau de disparidade entre o “discurso das palavras” e o “discursos dos atos”. Os clichês são clichês por sua recorrência: faça o que eu falo mas não faça o que eu faço, costuma ser verdade. No meu cotidiano esse ditado é um pouco diferente. Muitos pacientes, por baixo de camadas e camadas do seu discurso, parecem me dizer “ouça o que eu falo mas não o que eu faço”. Se eles desejam isso, faço coro com Bartleby na resposta, eu prefiro não.

Buscando essas incoerências, tentando avaliar essa disparidade, eu me deparo com os mais variados tipos. Um bem específico me interessa: o Sofredor Light. Como todos os outros, ele sofre de algo que realmente pode ser incômodo, mas diferente deles, nunca demostra tudo o que diz suportar. (Entenda que eu não sou leviano para não perceber quando alguém sofre e não consegue se expressar, ou ainda, quando alguém possui aquele maravilhoso bom humor sutil que no mesmo momento em que expressa seu drama, consegue ver motivo para sorrir de si mesmo). O caso aqui é outro. O sofredor light diz “isso é muito difícil pra mim” mas no seu olhar, na sua voz, nos seus gestos, não há pistas de que isso é real.

Quando a dor não contrai um ser, pode ser apenas uma coceira; e toda coceira pode gerar cócegas.

É difícil separar o sofrimento de alguém da sua reação. Nada melhor que a própria pessoa para nos dizer o quanto dói uma ferida. Esse universo psicológico, dito subjetivo, é complexo. Mesmo assim temos de traçar alguns parâmetros. Masoquistas de plantão que me perdoem, mas o primeiro ponto talvez seja: o que dói deve doer. O difícil é difícil por ser difícil. Nesse ponto o Sofredor Light já não se enquadra. Diz doer mas sorri um sorriso fácil. Não duvido, ele deve sofrer por algo – quem não sofre? -, mas certamente não por aquilo que está dizendo.

O homem tende a ser mais incoerente quando satisfeito e o inverso quando sofre. Porém, ser incoerente quando sofre é uma receita existencial perigosa: aquele que falseia a dor, pode falsear todo o resto.

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  • João Paulo Borgonhoni, mais conhecido por Jota, sempre se interessou por pessoas e relacionamentos. Quase se afogou algumas vezes na vida mas sobreviveu. Hoje é professor e psicólogo (crp 08/17582).

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