Tag: Deus

Um disco para náufragos

Se tem uma coisa que a imensa maioria de nós, náufragos existenciais, temos em comum é o apego à música como uma tabuinha de consolação – quando não de salvação mesmo.

Quando vejo a quase devoção com que alguém fala ou aprecia alguma música ou banda ou artista, já reconheço um “irmão de braçadas”, mantendo-se à tona com a ajuda da música, muita música.

E não falo aqui de histeria adolescente com bandinhas. Falo de algo bem mais sério e profundo, da música sendo capaz de expressar a tristeza ou o desespero do “estar náufrago”, ao mesmo tempo conseguindo alimentar a fé e a esperança de que há uma razão, um sentido maior para esse sofrimento.

Quando a música é experimentada assim ela é uma vivência religiosa. Ou seja, religa você a algo que faz e dá sentido à vida.

Curso Buscando o Sentido da Vida
Você conhece o curso “Buscando Sentido da Vida”? Clique na imagem e saiba mais!

Uma banda cujas algumas músicas me permitiram – e ainda permitem – viver momentos assim é o U2, que está no Brasil com sua atual turnê celebrando os 30 anos de lançamento do seu melhor disco (na minha opinião), The Joshua Tree, que é uma obra que trata justamente disso: procurar sentido e manter a esperança de encontrá-lo suportando o deserto desesperador que parece ter se tornado a existência.

Não por outra razão a capa do disco tem uma foto tirada no deserto do Mojave, nos EUA:

capa do disco

E na contra-capa encontramos a razão do título do disco:

atente à arvore

Essa árvore é chamada de “Árvore de Josué” e cresce quase somente nesse deserto americano. A origem do nome devemos aos mórmons que imigravam atravessando o deserto quando a viram pela primeira vez, em meados do século XIX, associando seu formato peculiar à oração do profeta Josué erguendo as mãos para o céu implorando a ajuda de Deus. Assim, viram na árvore um sinal de Deus os guiando para o Oeste.

Ao emprestarem esse nome ao disco o U2 tornou impossível descontextualizá-lo desse significado espiritual. Ou seja, é isso que dá a forma do disco, sua unidade, seu todo cujas partes são as músicas que o compõem e revelam faixa a faixa seu significado, que tentarei expor neste texto.  

  1.  Where The Streets Have No Name

Música de abertura do disco e indispensável em qualquer dos shows da banda – e é das melhores mesmo.

Começa num crescendo que não pára, com as partes vocais estacionando a música quando entram, como se estivéssemos fazendo uma pausa em uma escalada para respirar e seguir adiante. Tudo é “para cima”, arrebatando, inspirando, alimentando a esperança. É como se tivéssemos chegado na Terra Prometida, cujas ruas não têm nome.  

Mas não chegamos lá, apenas desejamos intensamente. Quando encaixamos letra e música vemos que embora exista a certeza da existência desse lugar nós ainda estamos presos “aqui”, onde construímos e em seguida demolimos o amor, que se torna enferrujado e nos deixa esmagados em poeira.

Ou seja, é uma música que convoca o ouvinte a ir com ela para esse lugar onde a esperança é desnecessária porque tudo que há para esperar, lá é uma realidade presente; que é para lá que temos de ir na vida; que “é só isso que dá pra fazer”. 

2. I Still Haven’t Found What I’m Looking For

Em seguida vem o hino religioso mais famoso da banda, continuando do ponto onde a música de abertura nos deixou: sabemos que existe o lugar para onde devemos ir, mas ainda não chegamos lá porque ainda não o encontramos, não encontramos o que procuramos.

Mas o que se revela aqui é que esse lugar, na verdade, é uma pessoa. E a letra não deixa dúvida que essa pessoa é Jesus Cristo:

Você quebrou as cadeias, soltou as correntes
Você carregou a cruz
E toda a minha vergonha
Toda a minha vergonha
Você sabe que eu acredito nisso

Mas onde Ele está? 

Essa música foi claramente inspirada nos salmos de Davi e é como se fosse um deles.

3. With or Without You

O maior sucesso do disco e comumente tratada apenas como uma baladinha romântica. Mas ela tem outro significado nesse contexto do disco.

Ela nos aquieta da intensidade que as anteriores criaram; é lenta, introspectiva e a parte instrumental constrói um chão para a letra se destacar. E é uma letra bela. Repare que quando o cantor fala sobre “ela”, não a trata como sendo o “você” do título: 

Numa cama de pregos, ela me faz esperar
E eu espero sem você

Há duas esperas aí, portanto. Aquela por “ela” e aquela por “você”, que tampouco está lá. Esse “você” faz muito mais sentido, no contexto que estamos escutando, sendo Jesus Cristo, que estamos procurando mas ainda não encontramos.

É a Ele que a música fala como uma súplica na escuridão da noite.

Quanto àquela “ela”, esta aparece com eles se tornando um “nós”: “Através da tempestade, nós alcançamos a costa“. Mas continua distinta do “você”, por isso ele canta: “mas eu quero mais / E eu estou esperando por você”.

Mas essa espera já não é tão esperançosa assim, pois num dos últimos versos vemos que ele permanece naquela “cama de pregos” e pouco tem a oferecer para “ela” se Ele não aparecer: 

Minhas mãos estão amarradas, meu corpo ferido
Ela me tem com
Nada a ganhar e
Nada mais a perder

4.  Bullet The Blue Sky

Vem a música mais politizada do disco e da carreira da banda como um todo. Mas, de novo, interessa-nos aqui o contexto. Nesse sentido, a política ganha outro significado.

Quanto tempo você suporta esperar pelo que demora a aparecer?

A América cantada na música, para cujos braços as crianças e mulheres correm em busca de proteção e salvação, representa a esperança da Terra Prometida ao mesmo tempo que se revela não sê-la. É aqui que a imagem do deserto começa a ganhar forma musical de aridez, ausência de perspectiva.

O tom dessa música é diverso do que veio antes, fazendo uma inversão da esperança e introspecção anteriores para algo raivoso, frustrado, cansado. Nossa atenção é voltada não mais para onde as ruas não têm nome, para Ele; mas para o “aqui” que não é a Terra Prometida, para o “aqui” sem Ele.

Se antes a esperança era maior e nos conduzia, agora ela se torna menor e mais fraca. É aqui que a árvore de Josué também começa a ganhar sua forma musical simbolizando essa esperança transformada em resiliência. Não é um sinal divino a certificar Sua presença, mas um símbolo do homem que sofre nesse deserto e começa a fraquejar daquela certeza inicial, embora ainda não tenha desistido dela. A árvore de Josué, assim toda torta, torna-se símbolo da dor:   

Vejo que chove pregos nas almas
Sobre a árvore da dor

5. Running To Stand Still

Mas a raiva, como todo sentimento, passa. E quando passa costuma deixar a tristeza em seu lugar. Só o deserto permanece o mesmo. Vem então a música mais “desértica” do disco, com seu início remetendo imediatamente à amplitude e ao silêncio de um deserto.  

Aqui voltamos a ter um casal. Desta vez, é ela quem se angustia por saber que é preciso fazer alguma coisa sobre aquele “para onde” estavam indo e que parecia ser impossível chegar, se é que existia mesmo: 

E então ela acordou
Ela acordou de onde estava deitada.
Disse que eu tinha de fazer algo
A respeito de para onde estamos indo.

O sentido original da palavra pecado tem a ver com “errar o alvo”. Ou seja, é pecado tudo que nos desvia da busca da Terra Prometida, tudo que colocamos no lugar Dele ou nos faz desistir de “atingir o alvo”. O pecado mais comum é a fuga da dor que estamos a escutar agora. Nesta música essa fuga se dá pelo uso de heroína, buscando um prazer efêmero anestésico que, depois, cobra o seu preço com dor ainda maior: 

Doce é o pecado, amargo é o sabor em minha boca.

Uma vida errando o alvo só pode se tornar muito mais torturante do que quando se suportava a dor de não saber onde estava o alvo nem como atingi-lo.

Aqui é interessante citar uma referência que a letra faz à Dublin da época dos músicos e que tinha um conjunto de sete prédios que se tornaram um mocó de drogados. Nesse local se tinha a taxa de suicídios mais alta de toda Irlanda. O suicídio que seria a única saída dita na letra da música:

Eu vejo sete torres, mas vejo apenas uma saída.

É por isso que essa fuga não é uma solução, como a música deixa claro. Ela se entrega à heroína, mas é como sair correndo ficando parada no lugar: 

Ela está em transe
E a tempestade explode nos olhos dela.
Ela sofrerá o barato da agulha
Ela está correndo para ficar parada.

6. Red Hill Mining

Uma vida sem Ele, sem busca pela Terra Prometida, rebaixa-se à luta pela sobrevivência. 

 

Esta música trata do mundo do trabalho, da rotina infernal que só deixa a esperança de algo melhor para depois do expediente, retratando essa espera angustiada e, no fundo, descrente por ser pouco, muito pouco:

Nós queimamos a terra
Colocamos fogo no céu
E nos inclinamos tão baixo
para alcançar tão alto

Se também o trabalho não parece dar sentido à vida, resta o amor por “ela” como sendo a Árvore de Josué da esperança por esse sentido maior:

Estou suportando
Você é tudo que restou para eu me segurar

Seria suficiente? Ou até mesmo a solução?  

7. In God’s Country

Não. A reposta é não, como ele canta ao fim desta música:

Uma chama nua, ela possui uma chama nua
Eu estou com os filhos de Caim
Queimado pelo fogo do amor

O amor humano jamais será suficiente, nem substituto do primeiro mandamento divino: há um amor maior que não pode ser substituído nem rebaixado de posto. Tudo que se coloca no lugar Dele é falso.

Daí a ironia dessa música ao tratar os EUA como sendo o país de Deus, ou seja, a Terra Prometida. Mas que país é esse em que o sono é como uma droga e os olhos são tristes e as cruzes tortas? Ou seja, o deus aqui é outro, simbolizado na estátua da Liberdade:

Ela é a Liberdade, e ela vem me salvar
Esperança, fé, sua vaidade
O maior presente é o ouro

A parte instrumental constrói uma música típica para “road trips”, para quando se viaja tentando se esquecer de onde se partiu e para onde se está indo, tentando apenas aproveitar a viagem em si. O que não deixa de ser também uma fuga.

8. Trip Through Your Wires

Continuamos na mesma atmosfera de viagem da música anterior, com a guitarra estridente acompanhando um ritmo com algo de cansado, começando a se questionar sobre o falso deus do amor humano:

Anjo ou demônio?
Eu estava sedento
E você molhou meus lábios.
Você, estou esperando por você
Você faz o meu desejo
Eu tropeço por seus arames.

Note como o “você” de With or Without You retorna aqui, mas confundido com “ela” e a pergunta se seria anjo ou demônio indica menos uma dúvida do que a confissão de quem se entregou seja lá para quem for.

9. One Tree Hill

Vai se aproximando o fim do disco, da jornada, da busca, da própria vida. É uma música sobre a morte e o que ela nos diz sobre a vida: “Nós corremos como um rio corre para o mar“. 

Ao mesmo tempo em que há uma desolação, uma amargura com a vida (Eu não acredito em rosas pintadas ou pessoas de bom coração / Enquanto as balas estupram a noite do misericordioso), ainda permanece viva a esperança de que a morte seja restauradora, que o mar, símbolo típico de morte e renascimento, possa ser mais e melhor do que o rio que nos levou até lá. 

A parte instrumental tem algo de etéreo e convida à introspecção, terminando como se fosse uma oração diante da morte, do oceano para onde estamos sendo levados queiramos ou não.

Uma oração que nos devolve, tal como o título da música, ao símbolo da solitária Árvore de Josué, cuja imagem agora se mostra muito mais significativa, não acha? Se não, confira por outra foto mais próxima:

É a “Joshua Tree” original fotografada para o disco.

Repare como sua beleza não é estética, não é uma árvore bonita. Sua beleza está no seu significado. Ela parece mais do que uma sobrevivente no deserto. Embora pequena, se agiganta em meio ao nada em que se encontra. Seus “braços” parecem cansados, mas permanece firmemente de pé, ainda que nada em torno justifique perseverar.

Que baita símbolo de fé e esperança. 

10. Exit

Hora da definição. Esta música retoma a idéia rítmica de Where The Streets Have No Name. Ou seja, vem num crescendo. A diferença é que se lá há luz, leveza, esperança, aqui estamos nas trevas daquele que se perdeu. Se naquela o crescendo se estabilizava e permanecia, aqui a música explode num fim ambíguo e angustiado: 

Ele sentiu a cura, cura, cura
As mãos do amor que curam
Como as estrelas brilhantes, brilhantes lá de cima

Entretanto, num sussurro vem os versos finais:

Mãos que constroem
Também podem destruir
Mesmo as mãos do amor

A partir daí a voz cessa e a música prossegue por alguns minutos como num transe, deixando a sensação de que tudo acabou mal, sem Terra Prometida, sem Ele, sem ela, sem saída nenhuma. 

 

Esta música serve perfeitamente para o fim de histórias trágicas que nos deixam estupefatos. Mas ela não encerra o disco.

11. Mothers Of The Disappeared

A última música repete o efeito hipnótico de Exit, mas sem a angústia terrificante, mais como um lamento em sussurros.

A letra trata de mães cujos filhos desapareceram, mas cujos sorrisos o vento ainda faz escutar e a chuva permite ver suas lágrimas.

Por conta disso, a forma final do disco é exatamente a de um deserto quase completo, não fosse por uma única árvore solitária teimando em resistir, ainda que não tenha nada a justificar sua permanência e esperança. Teimosa como uma mãe que perdeu seu filho mas ainda o vê e escuta na chuva e no vento. 

Quantas vezes durante a vida não vivemos situação parecida à de quem está largado num deserto sem saber qual rumo tomar, em que a própria esperança se torna desesperadora?

Uma situação quase insuportável, mas que nem por isso nos permitimos desistir, ainda que assim desejemos muitas vezes. Porque por mais sofrida que esteja a vida, algo ainda mais forte do que a dor nos sustenta e nos faz levantar toda manhã para encarar o que há para ser encarado, ainda que seja o nada.

12. Bonus Track que só tem neste texto 😉

Não sei se você sabia, mas a árvore da capa do disco morreu, tombando no solo no ano 2000. No lugar onde ela resistiu ao deserto até seu fim, fãs da banda e do disco montaram um santuário informal. Nele há esta placa:

“Você encontrou o que está procurando?”

Não importa se você encontrou o que está procurando. Não importa nem se você sabe o que está procurando. O que importa é não desistir dessa busca. É isso que faz toda diferença.

Quando a vida não tem sentido, faça da busca teimosa por ele o próprio sentido da vida.

Quando você está vivendo assim é aí que a música pode se tornar uma experiência religiosa, capaz de o conectar a esse sentido maior ao menos enquanto ela durar. Talvez seja a única companheira da nossa solidão nessa busca, capaz de nos entender melhor do que nós mesmos, expressar o que não conseguimos dizer, extravasar nossos temores e raivas, confortar nossa tristeza e desilusão, aconselhar e animar quando mais precisamos.

A vida pode não ter sentido ainda, mas ganha um quando experimentamos músicas que vão além do mero entretenimento.

Foi assim comigo e continua sendo. As músicas de The Joshua Tree me acompanham desde os meus 11, 12 anos de idade. Em cada época da minha vida serviram para algo. Infelizmente, não tive condição de ir ao show que celebra esse disco, seria minha oportunidade de dizer “obrigado”. 

Então, que este texto sirva de agradecimento à banda por este disco e outros. É claro que ele não me deu o que eu tanto procurava sem nem saber que procurava, mas eu jamais teria encontrado se não fosse por discos assim. 

Conheça nosso curso “Buscando o Sentido da Vida”

Se você gostou deste artigo, dê um ❤ nele lá na nossa fanpage (clicando aqui), compartilhe-o com alguém e deixe o seu comentário. Não só me fará muito feliz, como também enriquecerá a discussão e ajudará para que este post chegue a mais pessoas.

 

Aprendendo a morrer com Johnny Cash

Johnny Cash faleceu aos 71 anos, em 2003. Dois anos depois sua história da infância à união com June Carter – a mulher de sua vida – em 1968, foi levada aos cinemas. Walk The Line (no Brasil, Johnny e June) não é ruim, mas como a vida posterior dele, especialmente da década de 1990 até sua morte, foi mais do que relevante, ressignificando tudo que fez e lhe aconteceu antes, o filme é, no fim das contas, um desperdício incrível de boa história, de vida.
 
Mas talvez não tenha sido desperdício. A intenção de Cash quando decidiu filmar sua história, em 1998, não era, segundo o produtor James Keach, a de fazer: “Um filme sobre drogas, sexo e rock’n roll, mas sobre sua jornada como homem, seu amor por June e o fato de que Deus estava no centro dessa história”.
 
Quem quer que assista o filme sabe que a jornada e o amor estão lá, mas e Deus? E no centro da história? É inegável que não. Em sua biografia oficial, donde tirei a fala de Keach, consta que Cash dizia não confiar no pessoal de Hollywood. Tinha razão mesmo. O script original fora vendido à Sony em 2000, mas o filme só teve sua produção iniciada em 2004, quando John e June já tinham morrido e não poderiam mais dar pitaco no roteiro…
 

Resultado: tiraram Deus não só do centro, mas da sua história.

Não é difícil imaginar a razão. O que também explicaria por que o filme não foi além do casamento com June, pois a partir de 1971 seria muito difícil esconder Deus em sua vida, tendo sido o ano em que John se tornaria o famoso “Homem de Preto”, justificando-se na canção de mesmo título:
 
“Eu visto o preto pelos que nunca leram ou escutaram as palavras que Jesus disse / Sobre o caminho para a felicidade através do amor e caridade. / Por quê?, você poderia se perguntar. /Ele está falando diretamente para você e para mim.”

 

Mais ainda, durante toda a década de 1970, enquanto vivia o auge do sucesso, também intensificava sua fé, produzindo um filme sobre a vida de Cristo, tornando-se ávido leitor dos primeiros padres da Igreja e fazendo vários cursos bíblicos por correspondência, finalizados em 1977, com diplomas e tudo o mais.

Um em especial o impressionou, sobre o apóstolo Paulo, tanto que resolveu escrever um livro sobre São Paulo Apóstolo. Infelizmente, nem em sua biografia oficial, supostamente voltada para destacar seu lado espiritual, faz-se menção à história da escrita desse livro que levou dez anos para ser terminado. Conhecê-la é indispensável, pois por ela se revela quem estava, de fato, no centro da vida de John R. Cash:

Deus sempre esteve no centro

No prefácio do livro, um romance intitulado The Man In White, John contou ter passado noites e noites em claro entre 1978 e 1979, lendo e meditando, fascinado, principalmente pela conversão de Saulo em Paulo, perguntando-se: o que ele teria visto e ouvido quando a luz lhe cegou na estrada de Damasco?
A pergunta não era mera curiosidade. John exigia vislumbrar o mesmo que Saulo vira. Sem isso, não terminaria a história, estava decidido. Porque ele acreditava, realmente acreditava, ser merecedor, destinado a tanto. Ele se via como Saulo, um escolhido de Deus.

Essa certeza vinha desde pequeno. Sua mãe lhe dizia que o dom recebido (a voz) o destinava a grandes coisas, sempre repetindo isso nos momentos mais difíceis da vida do filho, não o deixando esmorecer, nem desistir.

Mas nem tudo que sobe, desce.

 
Se quando começou a usar drogas, nos anos 1960, dizia terem sido enviadas por Deus para melhorar sua performance, nada mais “lógico” do que exigir de Deus, anos depois, uma revelação divina extraordinária para terminar de escrever um livro. É o que dá colocar Deus no centro da vida, mas continuar no comando dela: não demora e logo você passa a justificar Nele o que não passa de pecados decorrentes de sua soberba.
 
Para tipos assim Deus costuma aparecer como abortivo. A dose adequada depende do peso do paciente. A Saulo de Tarso, um anjo de luz; a Johnny Cash, um avestruz.

Waldo & Johnny.

Estamos em 1981. John fazia uma pausa da sua escrita, caminhando por sua fazenda, quando foi surpreendido por Waldo, um dos avestruzes de sua criação, perdido, assustado e querendo briga. O resultado do confronto foram cinco costelas quebradas, necessidade de tomar medicamentos que levaram à “necessidade” de pílulas para dormir, daí descambando para outras drogas e… voilà, ei-lo novamente viciado no espinho na carne.
 
Ele se tornou intratável, ainda mais egoísta, fazendo seus próximos sofrerem com sua vida declinando a olhos vistos. Nick Lowe, então seu genro e testemunha do drama, decidiu compor uma música a respeito – que só conseguiria terminar na década seguinte – chamada The Beast in Me, que nos fornece boa noção do estado de Johnny Cash nesse período:
 

“O monstro em mim está enjaulado por barras fracas e frágeis. / Inquieto de dia e, de noite, cria confusão e se enfurece com as estrelas. / Deus ajude o monstro em mim”.

 
Em 1983, o abuso de remédios corroeu seu estômago, perfurando-o. Internado para uma cirurgia de emergência que durou sete horas e retirou partes de seu fígado, estômago e intestino, ficou entre a vida e a morte durante dias.
 
Entre uma e outra alucinação causada pela morfina – nenhum outro medicamento fazia efeito, por causa do vício – John acompanhava, despercebido, seus entes queridos conversando, demonstrando seu amor por ele, tornando-o consciente de sua ingratidão. O golpe decisivo a transpassar seu coração foi escutar sua mãe rezando:
 

“Senhor, Você levou um de meus meninos, e se Você for levar esse, ele é Seu, mas eu imploro, deixe-o viver e ensine a servir melhor. Certamente o Senhor ainda tem trabalho para ele fazer.”

Foi na dose certa. Arrependido, decidiu se consertar mais uma vez, imediatamente aceitando internação numa clínica de reabilitação, pedindo a June uma única coisa: levasse o manuscrito contendo o romance sobre o apóstolo.
 
Durante os dois anos seguintes trabalhou com afinco, mas, de novo, o capítulo sobre a estrada de Damasco lhe empacava, insistindo precisar de mais do que sua imaginação, rezando por uma visão, uma revelação, qualquer coisa que o ajudasse a escrever. O soberbo ainda resistia, portanto. Logo, veio nova pancada: no dia 23 de dezembro de 1985, seu pai, Ray Cash, faleceu.

Ray Cash (1897–1985).

John sempre teve uma relação complicada com o pai, que fora alcóolatra, explosivo, violento às vezes – embora nunca com ele. Convertido ao cristianismo em 1944, depois da morte do irmão de John – história contada no filme e de quem a mãe falava na oração citada acima -, ficou sem beber durante anos, até recair no vício e destempero de antes e depois se recuperando de novo.
 
A comparação assombrava John, que pouco falava sobre. Em sua segunda autobiografia – ele havia escrito uma na década de 1970, outra em meados dos 1990, cerca de dez anos depois da morte de Ray – revelou as perguntas que se fizera quando da morte do pai:
 
“A conversão de meu pai foi real? E se foi, por que eu não a via o tempo todo, não apenas quando ele se levantava e pregava na igreja? A pergunta não se dirige só a ele. É assim que acontece comigo? Era eu maldoso, me transformei, andei na linha, e me tornei piedoso, mas escorreguei de novo e caí e me tornei um homem mau outra vez? E quantas vezes Deus me levantou, perdoou, recolocou-me no caminho, e me fez saber que estava tudo bem? Tudo isso aconteceu com papai, também? Se sim, onde estava a justificação? Ele estava justificado em sua própria mente? Alguma vez ele se sentiu justificado? Não tenho como saber, mas não acho que estivesse. E eu?”.
 
Na noite da morte, John sonhou tê-lo encontrado no jardim de casa. Luzes se acenderam no gramado, crescendo em brilho e intensidade até engoli-los por completo. No prefácio de The Man in White John esclareceu não ter recebido nenhuma revelação nesse sonho, mas que foi suficiente a destravar sua imaginação para, enfim, terminar a história iniciada quase uma década atrás, dedicando-a, então, à memória do pai.

 

Mas, e se foi uma revelação? Não do que cegara Saulo, mas do que cegava John: o eu, aquele que mesmo sabendo ter Deus por várias vezes lhe levantado, perdoado, recolocado no caminho e feito saber que estava tudo bem, ainda assim, precisava saber, sentir-se justificado em sua própria mente.

Mas, graças a Deus, tudo o que sobe, desce.

Abortando Johnny Cash.

Ego inflado costuma murchar sendo humilhado. Melhor ainda quando ele própria se humilha, ainda que involuntariamente, como fez John com sua carreira musical que, nesse ínterim, escorria ao fundo do poço.
 
Ele reclamava de ser escondido pela gravadora. Desconfiado de que não teria seu contrato renovado pela CBS, decidiu avacalhar geral, em protesto. Gravou um disco auto-paródico, em 1986, intencionalmente horroroso, chamado Chicken In Black, cuja música-chefe conta que seu cérebro teria sido transplantado para o de uma galinha. Ele ainda obrigou a gravadora a bancar um videoclipe que eu, sadicamente, compartilho abaixo:
 

“Agora, amigos, se me virem andando pela rua / Lembrem-se de que o que estão vendo não é necessariamente eu. / E se eu tentar segurá-los, não dêem atenção. / Mas se tiverem dez reais para jogar fora / Vocês devem assistir aquele show do Johnny Galinha. Ele está fazendo feiras e concertos / Por todo lugar.”

Depois dessa, claro, seu contrato não foi renovado e, com a má-fama auto-imposta, tornou difícil conseguir novos. Quando o eu manda sempre dá nisso. Era chegado o momento do aborto.
 
Em meados dos anos 1970, quando o filho tivera uma unha arrancada, John lhe tranquilizara dizendo que se o dedo não sarasse, que usasse a falta da unha como um espinho na carne, porque Deus usava de nossas dores e fraquezas em nossa vantagem e, no fim das contas, em favor Dele. Mal sabia quanto sentido isso faria em sua vida.
 
Em 1987, John descobriu um problema de coração que se agravou no ano seguinte, com 90% de suas coronárias obstruídas, exigindo nova cirurgia que voltou a lhe deixar entre a vida e a morte – a ponto dos jornalistas serem orientados a preparar obituários.
 
Em sua autobiografia, contou ter vivido uma experiência de quase-morte, com as características típicas da luz confortadora o envolvendo em paz e júbilo. Isso teria mudado sua vida, segundo ele. Na biografia autorizada nada se diz a respeito, mas chama a atenção que ele teria ficado muito sensível depois disso, vivendo em uma mistura de alegria e tristeza temperada com acessos de raiva por não ter morrido.
 

Sobreviveu, mas os problemas de saúde nunca mais dariam trégua.

 
Em 1989, vieram problemas nos ligamentos do joelho, bronquite e infecções respiratórias que o levaram novamente muito perto de recair no vício em medicamentos, contido a tempo ao decidir procurar ajuda em um curso de prevenção.
 
Em 1990, a retirada de um dente causou um cisto em sua gengiva, exigindo nova intervenção cirúrgica que resultou no enfraquecimento da mandíbula, que por sua vez se quebrou semanas depois e nunca mais voltou ao normal. Cash passou a conviver permanentemente com a face um pouco entortada, como as fotos da velhice mostram.

 

A tudo isso some o duro golpe sofrido com o falecimento de sua mãe, Carrie Cash, em 1991. John chegava aos 60 anos de idade com um eu castigado, debilitado física e emocionalmente, sem maiores perspectivas na carreira, apesar de ainda lembrado pelo seu passado – ganhara o Grammy de “Lenda Viva”, em 1991, e entraria para o Hall da Fama do Rock, em 1992.

 
Veio, então, a falência, antes mesmo de inaugurar, do parque temático “Cash Country”, no Missouri. Johnny não colocou dinheiro no empreendimento, obra de David Green, mas tinha grandes planos para promover a música gospel no local em que também ficaria o seu museu. A inauguração, claro, seria com seu show, mas, com a falência de Green, o projeto foi inteiramente abortado.
 
Graças a isso ele saiu em turnê pela Europa, passando por Dublin na mesma época, fevereiro de 1993, em que o U2, uma das bandas de maior sucesso naquele momento, gravava seu disco Zooropa. Johnny conhecera o U2 em 1988, quando a banda excursionava pelos EUA. Bono quis conhecê-lo justamente por conta de sua vida espiritual e religiosa.
 

Quando, então, soube que Cash estava em Dublin, escreveu, de um dia para outro, a letra da música que ficaria conhecida como The Wanderer, feita para John cantá-la. A letra se inspirava no livro do Eclesiastes, onde um narrador anônimo procura em toda parte e em todas as coisas a realização da vida, sem sucesso, pois o homem todo só está no temor a Deus e na humilde observância a seus mandamentos. Embora a música certamente mereça uma versão decente – a original, tirando a voz de Cash, é uma porcaria -, ainda assim, é comovente escutar a voz tonitruante de John, especialmente nos versos seguintes:

“Eu saí caminhando com uma Bíblia e uma arma. / A palavra de Deus pesando em meu coração. / Eu tinha certeza de que era o escolhido. / Agora, Jesus, não espere. / Jesus, eu estarei em casa logo”.

 

As lembranças de Cash…

E assim Johnny Cash voltava a ser lembrado sem que tivesse quisto, desejado ou se esforçado.
Nesse mesmo ano de 1993, surgiu em sua vida o produtor Rick Rubin, até então famoso por seu trabalho com bandas de rock pesado, rap, hip-hop etc. Aparentemente, nada poderia ter menos a ver com Cash, mas ele propôs algo que Johnny vinha ansiando há anos, sendo sempre recusado pelas gravadoras: gravar suas canções preferidas apenas com sua voz e violão.

Isso foi feito na própria sala de estar da casa de Cash, e o resultado foi tão impactante que ele passou os próximos seis meses trancado em casa gravando dezenas de outras canções, a maioria gospel. Algumas foram selecionadas, entre elas, The Beast in Me, e viraram o já antológico disco que levou como título o nome do selo de Rubin: American Recordings.

Johnny Cash e Rick Rubin

Considerado o melhor disco de Cash desde a década de 60, obteve um sucesso surpreendente, devolvendo a fama angariada na década de 70. Mais do que isso, segundo seu biógrafo oficial, teria sido a primeira vez que Cash conseguira integrar sua fé em um álbum. Antes, ela parecia um apêndice, segundo ele.
 
Não tenho condição de avaliar isso, pois pouco conheço da produção anterior de Cash, mas é inegável que o tema do pecado e redenção dá unidade temática ao disco, simbolizados nos cachorros colocados na capa — um, branco, com listras negras; outro, preto, com listras brancas — significando, segundo o próprio Cash:
 

“Quando eu estava sendo muito mau, não era todo mau. Quando eu estava realmente tentando ser bom, jamais poderia ser todo bom. Sempre havia aquelas listras negras me atravessando.”

 
Mais significativo é o fato desses cachorros terem aparecido “sem querer”.
 
O fotógrafo responsável pela foto da capa, Andy Earl, contou que o plano original era diverso do que acabou saindo. Percebendo Cash vestido de um modo e com porte religioso, quis aproveitá-lo em contraste com as nuvens no céu, e mais nada. Mas os dois cachorros perambulavam por perto – eram do chefe da estação de trem que servia de cenário – e, quando viram Cash na posição em que aparece na capa, simplesmente se aproximaram, ficando cada qual de um lado, exatamente como a capa mostra:

 

“Eu simplesmente capturei o momento, e foi daquelas coisas maravilhosas. Nada disso foi planejado. A cena toda simplesmente se montou.”, disse Andy. Algo muito semelhante, mas parecido demais com o que ocorrera, anos antes, com Nick Lowe, não?

Enfim, esse disco marca a troca de comando em sua vida, como cantou em Like a Soldier, composição sua, o que não era comum:
 
“Como um soldado deixando a guerra para trás, / como um jovem deixando seus dias de loucura para trás, / como um bandido deixando seus caminhos sem lei para trás, / Cada dia é melhor do que o anterior, / Sou como um soldado deixando a guerra para trás.”

 

Mas o Comandante tinha outros planos, a guerra não havia terminado. Nova leva de problemas de saúde vieram. Em 1995, ele trabalhava num segundo disco com Rubin quando começou a sofrer de tremores, tropeçando muito e por vezes ficando sem condição de cantar, ao que se somou nova cirurgia na mandíbula – teriam sido em torno de trinta ao longo da vida.

Em 25 de outubro de 1996…

 
Em meio ao que foi seu último show na carreira, em Michigan, sentiu-se mal, precisou interromper tudo, sendo internado com pneumonia, diabetes e uma crise nervosa. O quadro se agravou e ele entrou em coma. Novamente os médicos não acreditavam que ele retornasse, mas, depois de doze dias, melhorou subitamente, sem explicação aparente. Não para John e June. No período do coma June comandara um grupo de orações. Eles nunca tiveram dúvida da explicação para a melhora súbita.
 
Nessa altura, Unchained, o segundo disco do que se tornou a série American Recordings, já fora lançado, em novembro de 1996, repetindo o sucesso do primeiro. Entretanto, Cash fora diagnosticado com síndrome de Shy-Drager, doença rara, espécie de Parkinson mais agressivo, que lhe daria apenas mais dezoito meses de vida.
 
O futuro, agora, parecia ser um só: ficar em casa até a morte, padecendo de toda sorte de dores e sofrimentos, com a mandíbula doendo constantemente, seu estômago regurgitando toda comida ingerida, surdez do ouvido esquerdo, glaucoma que o deixara parcialmente cego e uma asma que se tornara crônica, obstruindo cada vez mais seus pulmões e enfraquecendo muito sua voz, já sem sombra da força de antigamente.
 
Mas quando há entrega real ao comando de Deus o fardo é suave, como prometido por Jesus Cristo. A autobiografia que várias vezes citei foi escrita nesse período, em parceria com Patrick Carr, e era assim que John encarava esse momento difícil:
 
“Como está, levanto pela manhã, e é um dia normal. Parece que está tudo bem, sinto que está bem, e eu estou me sentindo bem. Não estou assustado. (…) Eu simplesmente não tenho nenhum medo da morte. Não perdi um minuto de sono por isso. Estou verdadeiramente em paz comigo mesmo e com meu Deus. Aceito a doença porque é a vontade de Deus; é Ele trabalhando em minha vida. E quando Ele achar necessário me levar deste mundo, me reunirei com várias pessoas boas que não vejo faz tempo. Não me entenda errado: não quero morrer. Amo minha vida. Estou muito feliz.”
 
Tanto estava que foi nesse momento que quis filmar a história de sua vida (que acabaria dando em Walk The Line) e não parava mais de compor. Como ele mesmo disse no fim da autobiografia: “estou gostando desses dias. Esta vida nova dentro de mim é inspiradora.”
 
Inspiração que nos daria os dois próximos discos da série, Solitary Man e The Man Comes Around, também conhecidos como American Recordings III e IV. Nick Cave relata que, durante as gravações, sempre que Cash saía de um lugar claro para outro mais escuro ficava completamente cego. Então, sentava, aparentando profundo cansaço, perguntando se quem deveria estar ali estava realmente. Depois de um tempo, o que lhe restava da visão retornava e ele começava a cantar, retornando à vida.
 

Nas palavras de Cave: “Este homem que vi tendo de ser carregado pelas escadas até ali, transformou-se completamente quando começou a cantar. (…) Era sua razão de viver.”

 
E a voz impressiona, realmente. A força de antes desaparecera, mas a nítida debilidade se mostra ainda mais poderosa, significativa. Apesar do tom soturno de muitas harmonias e a desesperança de algumas letras, não há medo nem angústia em sua voz, desfeita dos grilhões da vaidade fútil em que se acorrentara, sem vergonha de sua miséria, confiante na misericórdia da Graça, a que basta.
 
A exuberante Hurt, que era de Trent Reznor, cuja letra fala de um viciado em drogas arrependido, é a que melhor revela essa entrega integral de si. Os ruídos e barulhos da gravação original desapareceram, dando lugar a um singelo dedilhar de violão e nada mais. Surge a voz fraca de Cash, parecendo carregar com dificuldade os primeiros versos. No refrão, um piano aparece como acompanhamento, martelado com intensidade crescente, elevando a canção – e os nervos – a uma altura raramente alcançada por uma música popular.

 

A voz de Cash, cada vez mais serena, torna os versos, por si só angustiados e desesperadores, paradoxalmente suportáveis, doces até. Os significados das palavras, frases, versos, descolam-se dos signos cantados e o que era para ser pó, torna-se ouro; o que era desapontamento, torna-se júbilo; e o que era dor não deixa de ser cruz carregada, mas já não dói, por ser sofrimento purificado pela coragem de morrer para si.

Assim, quando extasiados chegamos ao final da canção, os versos que originalmente se pretendem mais leves, mas nem por isso menos desesperançados: “se eu pudesse começar de novo, a milhares de milhas de distância, eu me salvaria, eu encontraria o caminho” já não mais atormentam ou entristecem pelo que não pode mais ser, pois estamos diante de alguém que encontrou esse caminho, o único que se pode admitir como válido: aquele de quem perdeu sua vida para ganhá-la pela entrega a Cristo.
 

Sublime é pouco:

 
Por isso, o que temos aqui não é a coroação de uma carreira, tampouco ação de graças ou retribuição pelo dom recebido. O que temos é alguém consciente da sua morte iminente, plenamente lúcido dos seus erros, acertos e, principalmente, do valor da sua obra. O que temos é um homem se entregando para ser julgado pelo único Juiz que interessa, cantado na magistral The Man Comes Around – de sua autoria, composta com passagens que vão do livro de Jó ao Apocalipse -, sabendo-se condenado com toda justiça, mas repleto de fé na Misericórdia prometida aos arrependidos de coração.

 

É exatamente isso que Mark Romaneck, responsável pelo videoclipe de Hurt, conseguiu retratar com rara perfeição. É certamente o melhor videoclipe já feito na história, possivelmente o único digno de ser chamado de obra de arte. É, até aqui, a verdadeira cinebiografia de Johnny Cash (assista acima, se ainda não o fez).

E, de novo, tal como ocorreu com Nick Lowe e o fotógrafo responsável pela capa do primeiro American Recordings, Romaneck não fez o serviço sozinho. Na realidade, a idéia era outra, mas foi mudada pela debilidade física de Cash, só podendo ser filmado em casa. Fez-se, então, outras tomadas de suas propriedades e carregaram pilhas de materiais antigos (filmagens caseiras, fotos etc.) para ver o que dava para fazer. Quando Romaneck começou a juntar as coisas, bem, deixemos que ele fale:
“Francamente, não achei que aquilo seria de grande uso, mas quando meu editor Robert Duffy e eu pusemos um pequeno pedaço no primeiro corte, os pêlos de nossas nucas se arrepiaram. Sabíamos, a partir dali, que esse material formaria a maior parte do vídeo.”
 
O que se leu acima foi uma tentativa de ver em espelhos o que não se pode ver face a face: Deus no centro da vida de John R. Cash, trabalhando nela. Eis a história não contada e que não se quis contar.
A última provação.
 

Uma das cenas que se tornaram mais impactantes do clipe de Hurt é a de June em pé na escadaria, atrás de Cash, enquanto ele canta o verso: “todos que conheço vão embora no fim”.

 
O que ninguém sabia, só ela, é que no dia anterior, 17 de outubro de 2002, ela fora diagnosticada com um grave problema de coração, incurável, que a mataria muito rapidamente, o que de fato aconteceu, em maio de 2003.
 
Que Johnny não tinha medo da morte, àquela altura, era evidente, mas, e da solidão? Ninguém imaginaria, muito menos ele, que June morreria antes. Assim como ninguém tinha dúvida da importância central de June em sua vida. Em Like a Soldier isso já ficara explícito:
 
“Em meus sonhos, uma parada de amores de outros tempos e lugares. / Não há um que importe agora, não importa quem. / Sou apenas grato pela jornada / E por sobreviver às batalhas / E que meu espólio da vitória é você.”
 
Para “piorar”, o diagnóstico de Shy-Drager fora revisto, sendo seus problemas decorrentes, em sua maior parte, da diabetes que, naquele momento, o deixara praticamente cego – só tinha 20% da visão – e também sem condições de andar, tendo de usar cadeira de rodas.
 
Era a provação final. Haveria revolta? Desespero? Teria ele perdido o mais importante ou amava Deus sobre todas as coisas?

 

John & June.

Três dias depois do funeral de June, John telefonou a Rubin. Havia pensado muito, rezado mais ainda, chegando à conclusão de que ela iria querer que ele trabalhasse. No dia seguinte, gravava suas últimas canções, lançadas depois de sua morte, nos últimos dois discos da série American Recordings. Eis a música de abertura do primeiro (quinto), Help Me, que dispensa comentários:
 

“Senhor, me ajude a caminhar / Outra milha, só mais uma milha; / Eu estou cansado de caminhar sozinho. / Senhor, me ajude a sorrir / Outro sorriso, só mais um sorriso; / Você sabe que eu não posso fazer isto sozinho. / Eu nunca pensei que precisaria de ajuda antes; / Eu pensava que podia conseguir — por mim mesmo. / Agora eu sei que não posso suportar mais. / Com um coração humilde, de joelhos dobrados, / Eu estou implorando por você, por favor, me ajude.”

Nos seus últimos dias, mesmo sem quase enxergar, pediu instalassem um telão para ler a Bíblia em letras gigantescas. Dizia a seus filhos mal poder esperar para ver o Paraíso, Deus e o restante de sua família. Uma de suas últimas composições, I Corinthians 15–55, colocada no sexto e último disco, tem por refrão parte do hino triunfal do Apóstolo Paulo – não poderia ser outro -, antes da conclusão de sua primeira carta aos Coríntios:
 
“A morte foi absorvida na vitória. / Morte, onde está a tua vitória? / Morte, onde está o teu aguilhão?”

Em 12 de setembro de 2003, apenas quatro meses depois de June ter partido, John R. Cash a reencontrava.

Aprendendo a morrer com Johnny Cash:

Jamais me esquecerei da primeira primeira vez que escutei algumas das gravações da série American Recordings, em especial, a versão de Hurt. Não sabia bem o que havia me impressionado tanto, só sabia que havia me impressionado muito.
 
Escrevi este texto na tentativa de descobrir esse “o quê”. Acho que consegui. Por isso mesmo, volta e meia retorno a ele, releio, reescuto as músicas, revejo os clipes, fazendo novo exame de consciência, é inevitável. Pergunto-me, por exemplo, o quanto morri? Tenho morrido, aliás, nem que seja um pouquinho só, mas todos os dias? Talvez sim, certamente menos do que deveria.
 
Enfim, certeza mesmo, total, é que será assim até o fim dos meus dias, buscando e melhor versão, aquela que faz novas todas as coisas. Porque somos todos cover, eu é um só. Só confie no original, portanto. A todos os outros:

  • Escrito originalmente em 2013, reescrito durante o carnaval de 2016, publicado na véspera da Quaresma.