Tag: luto

Qual o remédio para a solidão?

Desde que iniciamos esse projeto para náufragos fiquei com a tarefa de escrever algo sobre solidão. A idéia era fazer algo no estilo “10 coisas que você precisa…” etc. Sinto muito, não consegui.

Por mais que sejamos bem sucedidos em evitar a solidão, nos distrair dela, no fim das contas ela sempre vence. Refiro-me à solidão inescapável, aquela que a morte de um ente querido nos deixa por herança. Continue lendo

Dia dos pais 2015

Meu pai está mais vivo morto. Digo isso e sinto o interlocutor me dando adeus mentalmente, pensando aham, enquanto se esforça por parecer convincente no seu “Que coisa linda, cara!”. Prefiro amigo vivo, indo direto ao ponto: “Isso é coisa da sua imaginação”. E é mesmo, claro que é, exatamente isso. Mas o que para muitos é mentira, ficção, viagem na maionese, ou loucura mesmo, para mim é mais real e concreto e significativo do que QUALQUER presença corporal.

Antes do meu pai morrer, já tinha altos papos com Marlow (o narrador preferido de Joseph Conrad), consultava-me frequentemente com Maigret (Simenon me permite acompanhá-los em seus passeios depois do trabalho) e trocava olhares com José Geraldo Vieira sempre que era incompreendido pelos mais próximos (não é, Zé?). Mas nada se compara à presença do meu pai, tão imaginária quanto. Continue lendo

Alexandre

Vivemos em dois tempos. Um, o do relógio, passa enquanto passamos, é o tempo do esquecimento. O outro nunca passa, é o do para sempre, deixando tudo como que suspenso no ar, o tempo do significado.

De vez em quando eles coincidem, como na morte de alguém próximo, aí o segundo tempo congela o primeiro, impedindo se possa seguir adiante sem um sentido maior, um significado suficiente. Foi o caso de Jó, que perdeu tudo e ainda padecia ferido de chagas malignas das plantas dos pés ao cume da cabeça, ficando parado no tempo, sentado em meio às cinzas, coçando-se com um caco de cerâmica, aceitando o destino, mas querendo saber por quê. Continue lendo

Espírito esportivo

Das memórias mais vivas. Copa de 82, o jogo fatídico contra Paolo Rossi – que era toda a Itália para uma criança de 6 anos. Meus pais receberam amigos em casa, os filhos todos uniformizados com o manto da Seleção – na época, todos nos consideravam assim. Raras vezes assistíamos às partidas inteiras – nós, as crianças – porque não aguentávamos esperar para ser. Saíamos correndo pra fora de casa imitar os jogadores, fazer os gols, sermos campeões. Até Paolo Rossi fazer o que fez. Odiei Waldir Peres por toda minha vida e, até hoje, quando assisto à um frango, não importa de que time seja, é dele que me lembro. Continue lendo