Tag: maturidade

Você precisa de férias na volta das férias?

Cristiano cresceu escutando os pais falarem, na volta das férias, que agora sim é que precisavam de descanso. Sempre aproveitavam as férias para viajar, fazer programas de todo tipo, não paravam nunca, mesmo quando passavam um mês inteiro na praia, indo da casa para a areia e desta para casa. Adoravam o tempo de férias, parecia que a vida só valia a pena nesse tempo, quando estavam em férias, eram sempre mais felizes.

Mas o retorno era sempre difícil, ele via a tristeza na expressão dos pais, a vida murchando.

Ele pensava nos pais ali sozinho de pé diante do mar infinito. Eram as primeiras férias dele por conta. Durante a faculdade já tinha viajado com amigos, só com a namorada, mas nunca bancara com sua grana. Como de estagiário virou empregado, o salário mais que dobrou e pela primeira vez pagou a viagem, fez questão. Dois amigos foram juntos, ambos bancados pelos pais. Era o último dia das férias e ele se sentia estranho.

Tinham de sair antes das 12h do hotel, vagar pelo aeroporto até a hora do vôo. Quis acordar antes do sol nascer, quis vê-lo nascer da praia, de preferência dentro da água, como fizera no primeiro dia. Assim fez. Estava parado na beira da água, de pé, braços cruzados, pensando na vida, nos pais. De repente se viu saindo da água, de volta àquele primeiro dia. Trazia no rosto um sorriso de quem tinha esquecido do tempo, de tudo. Agora não conseguia sorrir. Estaria triste?

Na volta para o quarto o celular pipocava de notificações. Uma era da mãe: “Estamos em casa, mortos de cansaço. Precisamos de férias, Cris!”. Não conseguiu rir. Ele precisaria de férias também? Por quê? Para quê? Não foi suficiente? Não se sentia descansado? Por que esse gosto estranho na boca, como se tivesse sido pouco, como se não bastasse?

Parecia tudo uma grande farsa.

Sabia que estava feliz, que as férias foram na medida, que estava até ansioso pela volta ao trabalho, terminar aquele projeto que faltou tão pouco para fechar no ano passado. De onde vinha, então, esse outro de cara amarrada, braços cruzados na beira da praia, querendo estragar tudo, tornar a vida improdutiva?

Quando chegou em casa, a alegria do reencontro não durou até o jantar. Pediram uma pizza, estavam cansados demais para pensar em outra coisa. Contaram das férias e quando as novidades terminaram e como se precisassem sempre, sempre, sempre repetir o mesmo script, veio a reclamação: “Ai, amanhã não será fácil, até pegar o ritmo…”. Mas ele não se sentia assim, na verdade nem via a hora de voltar. Mas achou melhor não falar nada, apenas consentia, sem muito comentar. Mas sabia que não dava mais, ou se tornaria assim também.

Naquele ano alugou um apê, passou a morar sozinho. A mãe não gostou, mas não atrapalhou. O pai admirou, parecia criança, dizendo “imagina quanta festa você não fará, hein, Cris? Quem dera na minha época eu tivesse condição para morar sozinho!”. A mãe não gostou, já namoravam na idade em que Cris estava, mas achou melhor não pensar muito nisso e se concentrou em assegurar que Cris tivesse comida na geladeira, toalha, pasta de dente, essas coisas. Tinha, ela não precisou comprar nada. Nunca mais.

Depois de 15 anos ele voltou à mesma praia, ficou no mesmo hotel. Era o último dia e ele se lembrou no meio da madrugada. Deixou um bilhete para a esposa e saiu sem fazer barulho. Viu o sol nascer de dentro da água e ficou ali boiando, pensando na vida, nos pais, agora aposentados e nem viajavam mais, pareciam desistentes. Ele jamais se queixou do fim das férias, do retorno para casa, de voltar ao trabalho. Durante um tempo achou que era para se auto-afirmar, mas esse tempo também passou e nunca sentiu que precisava de férias depois das férias, nunca.

Quando voltou a esposa já tinha arrumado tudo, as crianças estavam prontas. O mais velho perguntou onde ele tinha ido. Respondeu que fora dar um último mergulho, aproveitar até o último instante as férias. “Pena que acaba, né, pai?” Então algo brilhou dentro dele, e ele enfim entendeu: “Já pensou se não acabasse, filho? Que chatice seria não ter para o que voltar?” O menino olhou estranho, incerto se entendeu. Cristiano percebeu e sorriu, dizendo: “Não se preocupe, filho, quando crescer você entenderá.” 

– E se eu não crescer, pai?

– Não se preocupe, eu farei você crescer. Desse trabalho não tiro férias. Já amarrou o tênis?

Conheça nossa promoção de fim de ano. Está acabando!

 

 

Maturidade #3 – fazer o que deve ser feito

Amigos de longa data, eles se encontravam quase toda semana para aquela cervejinha na sexta pós expediente. A amizade começou no colégio. Ricardo conheceu Pedro, o Pedreira como era chamado, lá na primeira série. Na segunda foi o João que começou a andar com eles e na oitava já eram em seis. O último a entrar no grupo foi o Bolacha, ele fazia faculdade com o Mateus e virou melhor amigo de todo mundo depois de uma noite em que o Vidal chegou até a ser preso.

Como vocês sabem, amizade de homem é tudo igual. Um chega xingando, outro fala da mãe, um terceiro ri e o quarto muda de assunto. Recentemente eles acabavam sempre falando de filhos, esposas e empregos: os primeiros davam trabalho mas valia a pena, as segundas davam trabalho e às vezes valia a pena, os terceiros davam trabalho e nunca valia a pena. O interessante, nesses momentos, é que eles assumiam quase um postura de clube ou grupo organizado. Tanto que há muitos anos o Oriental mudou o nome do grupo do whatsapp pra “Máfia” com uma foto do Poderoso Chefão e nunca mais tiraram.

Era uma máfia e cada um tinha o seu papel. Ricardo e Pedro eram os conselheiros, enchiam o povo de pitaco mas sempre concluíam com frases tipo “mas veja lá você, não quero me intrometer…” ou “não precisa seguir o que eu digo, é só uma sugestão…”. João e Oriental sempre promovendo alguma coisa, chamando pra um churrasco, lembrando dos aniversários – e obviamente contando as melhores histórias – eram “a cola” do grupo. Vidal era o sujeito misterioso e mais ferrado de todos: ninguém sabia bem o que ele fazia, já estava na segunda separação e sempre passava do ponto nas festas. Bolacha, por ser mais novo e o último a entrar no grupo, era o calouro, o estagiário, o zoado sem nunca zoar, o aprendiz e qualquer outro apelido que deixasse claro que ele nunca seria respeitado. A piada preferida era responder à qualquer comentário seu com “alguém viu o prazo de validade dessa Bolacha? Parece que tá vencendo…”.

De todos, nos restou o Mateus – até porque ele merece um comentário à parte. Se todos tinham o perfil clássico do filho da classe média alta, Mateus era um homem que se criou sozinho: pais sempre se separando, filho mais velho de três, acabou aproveitando a revolta adolescente e o trabalho no mercado para sair de casa e morar num pensionato. Depois conseguiu se tornar caixa e gerente, sempre ajudando os dois irmãos com um pouco de dinheiro e alguns conselhos. Com 22 anos já morava sozinho há tempos e dava conta do emprego e faculdade. Fez Administração por três anos mas mudou para Marketing pois recebeu uma proposta de emprego que exigia dessa graduação. Hoje com 37, casado e com quatro filhos – a última gravidez da esposa foi de gêmeos – dá conta de sua empresa com a maior naturalidade e por tudo isso, e mais um pouco, é chamado de Patrão pelos amigos.

Mas o apelido veio mesmo após o acontecimento mais grave que o grupo passou.

Era meados de 2005, todos estavam regulando a idade de 20 à 25 anos. Um dia foram no churrasco de fim de ano da faculdade do Oriental, ele estava se formado em Direito, e fora o João que sempre namorou, o resto estava meio solteiro e bastava dizer três palavras mágicas “cerveja, churrasco, mulher” que eles apareciam feito Mestre dos Magos. A festa começou cedo e lá pelas 2h todo mundo já não sabia mais o rumo de casa.

Foi quando ouviram um grito e começou o corre corre. Não demorou muito para encontrarem o Felipe desmaiado no banheiro, meio sem pulso e com o nariz sangrando.

Em horas como essas dividimos os homens dos meninos.

Bolacha juntou o Pedreira e o Ricardo, se enfiaram num táxi e voltaram pra casa assustados. Nem viram o ocorrido, mas como tinham fumado maconha e dividido uma bala, ficaram com medo de serem presos pois ainda estavam bem altos. Vidal viu tudo de longe, mas como estava bêbado demais dando uns pegas numa caloura num sofá velho no canto – depois que ela saiu correndo – ficou por lá e resolveu não se meter no assunto. João despachou a namorada mas ficou feito barata tonta e, sem saber o que fazer, não saiu da cola do Oriental. Os dois ficaram meio de platéia ou ajudando em pequenas coisas e no final estavam meio em choque.

Foi Mateus, que como um chefe, deu conta do recado:

chamou um sujeito grande e ajudou a tirou Felipe do banheiro, colocou ele numa mesa, deu bronca nuns bêbados, pediu para umas meninas trazerem água e o kit de primeiros socorros, mandou desligar a música, ligou para ambulância e ainda encontrou uma estudante de Medicina meio sóbria para tentar reanimar o rapaz. Em meia hora ele estava coordenando todo mundo e botou todos na linha. Quando já era dia, foi o último a ir embora. Esperou a família de Felipe chegar no hospital para poder acalmar Dona Regina e Seu Aloísio – ainda deixou o número de telefone para qualquer eventualidade. 

Tudo isso causou um impacto imenso no grupo.

Após aquele dia, quase ninguém disse nada pois ainda estavam absorvendo tudo. Porém, lá no fundo, todos entenderam que Mateus tinha algo que eles não tinham. Foi só depois de dois meses, num dia que o Patrão não pode ir beber com os amigos, que voltaram para o assunto. Foi Vidal – que apesar de ser um doido sempre tinha seus momentos de sabedoria – que acabou dizendo o que ninguém até hoje havia dito.

– Piazada, sou só eu ou vocês ainda pensam naquele churrasco? Eu tava caindo de bêbado mas parece que foi como ver um filme, eu ainda lembro de tudo…

Todos riram. Certeza que pra lembrar disso você teve de esquecer o nome da sua mãe!, disse Pedro.

– Sério, cacete! Ouvi aquele caos e no meio de tudo lembro que o Mateus apareceu e me perguntou de você, Ricardo, e de você, Pedro. “Cadê os piás, Vidal? Puta merda, eles sempre somem nessas horas!”. Eu tentei levantar mas ele me empurrou pro sofá dizendo que mais um locão não ia ajudar em nada. Eu fiquei lá, né? Não vamos contrariar o chefe de plantão. Mas foi impressionate, cara. Até hoje penso nisso: como é que um piá de merda conseguiu mobilizar todo mundo como se fizesse aquilo desde que nasceu? Sério, vocês não estavam lá, seus zé droguinha!, mas em dois toques todo mundo obedecia ele, todo mundo confiava nele.

Acho que a gente é um bando de frango…

– Já parou para pensar, interrompeu João, que ele sempre faz isso? Porra, tamo com uns vinte anos e o cara sempre foi tipo nosso padrinho. Sei lá. Lembra aquela vez que teu pai queria se separar, Oriental? O Patrão te ligou, conversou contigo, deu um monte de dica, explicou pra gente o que fazer e ainda conversou com teu pai. Cara, com teu pai! Quem faz isso com 16 anos, porra!? E aquele dia que eu tava mal pra caraio por conta da desgraça da Sofia? Ele me escutou e deus uns puta de uns conselhos massa, até hoje eu lembro dele me dizer “você ainda é muito novo pra sofrer tanto”. Meu, olha essa frase!, da onde ele tirou isso? E na boa, nesse churras aí, ele salvou a vida do Felipe! 

Naquela noite eles seguiram conversando sobre o Mateus. Pela primeira vez tiveram consciência que ele tinha algo de diferente de todos eles.

Ainda conversaram bastante, mas foi o Bolacha que melhor traçou o cenário.

– Sem zoeira, pessoal! Mas a gente é um bando de piá de prédio que o primeiro emprego só foi depois da faculdade. Antes era só estágiozinho de meio período que a gente reclamava mais do que podia. Enquanto a gente achava que tava morrendo pra entregar uns relatórios toscos e tomar café enquanto dava em cima da secretária do chefe, o Mateus tava ralando desde manhã e ainda fazia faculdade. E eu era calouro dele. Eu me ferrando, enquanto o cara passava sempre sem DP! E o mais foda, eu soube que ele chegava em casa e fazia a marmita do dia seguinte! O Ricardo, essa montanha de gordura que é, nem sabe fazer um ovo!

Sei lá, mas acho que ele sempre deu conta da vida dele, e a gente não sabe o que é isso…

Depois disso a conversa dispersou. Mas no dia seguinte quando o Oriental mudou o nome do grupo, todo mundo entendeu a referência da foto: eles eram a Máfia porque Mateus era o Poderoso Chefão. E tudo foi confirmado quando receberam a mensagem dele perguntando: Piazada, como foi ontem? Eu tava atolado de trabalho. Você não fizeram merda, né? 

 

 

Assim como eles, todos nós temos algumas referências de maturidade em nossas vidas mas que normalmente passam em branco até algum evento evidenciar aquilo que é óbvio.

Aquele que busca todo dia “dar conta do recado” – como diria minha mãe – está sempre mais propenso a amadurecer. E todo dia nós encontramos situações que nos oferecem a possibilidade de melhorar e se postar de forma mais madura. Pois, no final das contas:

Maturidade é conseguir fazer o que deve ser feito.

Caso você siga essa lógica, perceberá que tudo ao nosso redor pede resolução. Muitas vezes são questões bastante práticas – como uma louça esquecida na pia – mas talvez, na grande maioria das vezes, o que está em aberto são questões pessoais.

Dar conta do que deve ser feito é primeiro dar conta de você mesmo: seus medos, receios, sonhos e deveres.

Mateus só deu conta do desmaio de Felipe pois há tempos dava conta de si mesmo. Ele já era um homem que conseguia organizar e resolver problemas antes daquele churrasco. Quando encontrou mais uma questão em aberto para ser resolvida, ele simplesmente fez o que tinha de ser feito, pois é isso que ele vinha fazendo desde sempre.

A pessoa madura sabe que a vida é uma sequência de problemas esperando soluções – e não há nada de errado com isso.

O interessante nesse ponto é escutar o discursos dos imaturos, pois normalmente, tudo é dividido entre os Vencedores versus Fracassados. Veja os adolescentes, normalmente eles têm algum grande feito que desejam realizar, e caso consigam essa conquista, a vida está dada por satisfeita.

Sendo assim, enquanto essa questão ainda não é resolvida, eles se vêem como fracassados ou culpam alguém (normalmente a família ou a sociedade). Realmente acreditam que a vida é realizar alguns feitos e ponto final. É como ainda sonhar com o clássico “e foram felizes para sempre”. Ironia do destino: caso seja realizado o que queriam, também se decepcionam, pois o mundo não era tão cor-de-rosa quanto sempre sonharam.

Amadurecer é perceber que os problemas nunca irão acabar e, portanto, mais importante que esperar o dia em que não terá mais dificuldades, é preparar-se para resolvê-las o melhor e mais rápido possível.

Seguimos com esse tema em breve, ainda há muito o que dizer! 

 

 

Maturidade #2 – postura diante da vida

Segunda Guerra Mundial, trincheira do exército inglês.

A chuva já assolava a região há tempos, poças e alagamentos são um cenário comuns por aqui. Mesmo assim, hoje, o inimigo resolveu acordar cedo: desde o raiar do dia até agora, meio da tarde, os tiros e explosões podem ser escutadas há quilômetros de distância. Se olharmos bem para o buraco do lado inglês, veremos dois capacetes verdes: um é Joseph, o outro é Henry.

No meio da confusão, estilhaços e tempestade, esses dois soldados – de tempos em tempos – se viram para o outro lado e descarregam parte do seu arsenal.

Ao se esconder com as costas no barranco, Joseph grita e gesticula. Henry, por sua vez, após atirar, costuma voltar-se,  abaixar a cabeça e fechar os olhos. Segurando seu rifle com toda a força, parece estar concentrando suas energias para a próxima investida.

Para o olhar desatento os dois parecem fazer o seu dever, cada um à sua maneira. Porém, o que ninguém percebe é o grande abismo que os separa. Joseph, desde o recrutamento, é o arquétipo do soldado: sempre treinou com intensidade, tem interesse pelo equipamento, se aprimorou nos finais de semana em um curso sobre tática de guerra e além disso, nunca reclamou de gastar seus dias no exército. É o nosso dever defender o país, sempre disse ele. Já Henry…

Rapaz tímido e fechado, foi convocado e aos prantos, quase e arrastado, foi para o exército. Impressionável desde criança, a primeira vez que ouviu um grito de seu superior deu um pulo tanto grande que até hoje é chamar de “Jumper”. De noite, quando os soldados se reúnem, é comum escutar ele se lamentar sobre a Guerra, dizer que tudo isso é em vão, e que todos deveriam pensar mais no amor do que na guerra. Os companheiros nem dão mais bola: todo pelotão tem algum pacifista arrependido que sempre acaba sendo afastado por um colapso nervoso.

Pior, esse é exatamente o caso aqui.

Hoje, um pouco antes de raiar o dia, Joseph e Henry foram dois dos escalados para cuidarem da primeira trincheira. Como é de se esperar, o segundo quase entrou em desespero, enquanto o primeiro foi estudar mapas do local e fumar tranquilamente seu Lucky Strike sem filtro. Enquanto se dirigiam para seu posto, Henry estava tão nervoso que ensopou a camisa antes mesmo de chega na chuva.

Foi só depois da terceira tentativa de abater um nazista que Joseph se deu conta do que acontecia ao seu lado.

– Que que tá acontecendo? Ei, você tá bem? Que porra é essa?

– Tô sim.. Tá tudo bem…

Joseph se vira novamente, acerta a perna de um inimigo, se protege, dá ordens para o outro soldado e então de novo volta-se para o companheiro. 

– Você tá branco e tremendo, cacete! Isso não é normal! 

– Vai passar, vai passar, vai passar… – disse Henry fechando os olhos

O que ele ouviu na sequência foi apenas a voz de Joseph ao longe gritando por um enfermeiro. O corpo amoleceu, tudo ficou preto e ele sentiu ser carregado. O jovem só se deu por si quando estava na enfermaria e escutou a enfermeira chefe dizer: acordou, bela adormecida?

Para continuar falando sobre o tema da semana passada, preciso antes fazer uma simples pergunta:

Se estivesse naquela trincheira, qual soldado você escolheria para estar ao seu lado?

A maturidade, além de ser um caminho sem volta, não funciona como a maioria das nossas conquistas modernas: você se esforça, passa por algumas provas e então ganha um atestado ou diploma que comprova a sua vitória.

A maturidade é uma postura diante da vida.

Quando falamos em amadurecer, você já deve saber, não existe uma grade curricular básica para cumprir. Amadurecer é assumir uma postura responsável diante da vida e evitar a todo custo ceder ou desanimar.

Mas como faço isso?, você pode perguntar. Eu e o Chico, quase que diariamente, damos o mesmo conselho nesse quesito. E repito aqui:

Faça tudo bem feito.

Muitos nos escutam e viram a cara, pois parece um comportamento muito básico para resolver um problema tão grande, mas é bem aqui que mora o perigo! Fazer o máximo para que tudo seja bem feito é o primeiro passo para assumir uma postura responsável diante da vida, logo, é o início da maturidade.

Em outras palavras, soldado, missão dada é missão cumprida!

Hoje mesmo falava sobre isso com um paciente e lembrei dos milhares de filmes de luta ou de guerra que já assisti. Em especial me veio à memória o Karatê Kid! Lembram da cena em que o Senhor Miyagi ensina o jovem a lavar o carro? Nós assistimos àquela cena e pensamos: Nossa, que interessante, ele está ensinando técnicas de luta de uma forma diferente! Ele está preparando o menino para a luta e o rapaz nem percebe! Tenho certeza também que ao assistir o filme você queria que Daniel treinasse direitinho para vencer a grande batalha final.

O mesmo ocorre com você!

Quando digo que você deve fazer tudo bem feito é porque a vida também exige preparação, concentração e treino para várias batalhas que ainda virão. E como você vai ser portar diante disso: como uma criança birrenta que chora a cada bronca do treinador ou como um lutador que assume seu papel e treina como se não houvesse amanhã?

Claro, infelizmente nossa vida não é um filme hollywoodiano dos anos 80 em que o roteiro é tão previsível que você já sabe o que vai acontecer no final. Mas independente disso, você precisa assumir o seu lugar no mundo – no aqui e agora – e fazer o que você deve fazer.

E o mais interessante disso tudo é compararmos tudo isso que eu disse com o discurso moderno de felicidade. Você, querendo ou não, já deve ter entrado em contato com qualquer um desses empreendedores de palco que te motivam à conquistar seu milhão ou então certas vertentes religiosas que se dizem cristãs mas acreditam que toda graça divina só vem em forma de cédulas.

Eles sempre colocam como objetivo de seus esforços a conquista financeira, ou seja, você só é um vencedor e ganhou a vida caso tenha ficado rico. Aqui os discursos de chocam:

Maturidade não tem relação nenhuma com sucesso, poder ou dinheiro.

Como reforcei algumas vezes aqui: maturidade é um postura diante da vida. Em nenhum momento eu disse conquista financeira ou felicidade conjugal. Sabe por quê? Porque esses objetivos podem ser conquistados por pessoas maduras ou imaturas. Vai me dizer que nunca conheceu um rico famoso completamente imaturo, né? Ou então uma pessoa extremamente pobre mas com uma sabedoria e maturidade imensa?

A maturidade te ajuda a lidar com as dificuldade e desafios da sua vida mas não garante nada!

Para concluir, voltemos ao exemplo dos nossos dois soldados. Agora acredito que ficou até mais fácil responder àquela primeira pergunta. Afinal de contas, ninguém quer um Henry dividindo o front na batalha da vida, não é mesmo? E mesmo sabendo que as chances de Joseph morrer são bem maiores que as dos colega medroso, ainda assim ficamos com ele. Sabe porquê?

É melhor morrer cumprindo seu dever com coragem que viver acuado como um convarde. Pois o caminho da maturidade é em todas as circunstâncias a melhor opção.

Semana que vem falamos mais sobre esse tema!

Até breve, soldados!

    

    

  

Maturidade #1 – caminho sem volta

Maria tem 27 anos.

Há dez mora na cidade. Começou dividindo o apartamento com duas primas, mas logo a convivência ficou estremecida pois enquanto se dedicava a estudar para passar em Direito na Federal, as primas só queriam saber de maconha, cerveja e festa o dia inteiro. Para sua sorte, não sofreu muito com o vestibular, passou bem na segunda tentativa e logo que conseguiu um estágio foi morar sozinha. 

O apartamento era um “quarto e sala” no centro. Toda vez que um ônibus passava as janelas velhas tremiam. Com o tempo se acostumou com o barulho, afinal de contas, mais barulhenta que a rua eram os vizinhos. Parecia combinado: era ela sentar para estudar e o casal ao lado começava a gritaria. Os argumentos ela sabia de cor. 

Se fossem só eles dois, tudo bem; mas o que cortava o coração dela era o pequeno Anthony – sim, esse era o nome! – que sempre fazia do seu choro a trilha sonora da discussão do dia. Como estudar ouvindo choro, gritos e ainda sentindo aquele aperto no coração pela criança? Maria até tentou conversar com os dois, mas era pior. Um dia havia acabado de falar com a vizinha e ouviu em alto e bom som: “até os vizinhos não te suportam mais, seu escroto!” Então, escutou socos e chutes na parede aos berros “escutem mesmo, seus merdas! Pensam que são quem, seus filhos da puta!?”.

Com o tempo, Maria conseguiu arranjar um novo lugar para morar e também trabalhar. Estudante exemplar, conseguiu uma bolsa de estudo na Espanha por seis meses. Sofreu um pouco por lá, mas conseguiu dar conta e aproveitar a oportunidade. 

Hoje ela está formada há seis meses e trabalha como auxiliar de um advogado trabalhista, um ex-professor que sempre acreditou em sua aluna. 

Mas não só de estudo e trabalho vivia a moça. Certo dia resolveu sair com uma de suas primas. Apesar de escolhas de vida completamente diferentes, Maria gostava de conversar com a Rê às vezes para espairecer e dar risadas. 

Foi numa noite dessas que conheceu Pablo.

Pablo nasceu em berço de ouro. Desde menino era considerado o garoto prodígio da família pois conversava com todos e parecia um adulto em corpo de criança. Por conta disso sempre foi esperto. Na adolescência era para ter repetido de ano várias vezes, mas sempre conseguia passar no conselho de classe. 

Foi nessa época também que aprendeu a tocar violão, pois seu tio Rogério sempre dizia que ele precisava aprender a ouvir a verdadeira música: começou ouvindo Beatles e uma coisa levou à outra. Do violão passou a tocar guitarra e com 18 anos montou sua primeira banda. No começo era meio Reggae, mas depois embarcou na onda do “som de praia”, como ele gostava de definir, e acabou fazendo algum sucesso com a piazada tocando em festas e churrascos.

Como era esperado, com todo esse desenvolvimento artístico, a vida de estudos continuou do mesmo jeito: foi levada nas coxas. Passou em administração, transferiu pra letras, tentou um ano de psicologia e desistiu da vida acadêmica na primeira semana de ciências sociais. “Minha vida é a música, o que importa é expressar tudo que vem do coração”, dizia ele ao ser perguntado sobre sua vida profissional. 

Ele acreditava em sua arte, mas não é difícil imaginar o que sua família pensava disso, né? Pai engenheiro e mãe ex-enfermeira, viam o filho como um rapaz meio perdido. E esse era o grande motivo das brigas diárias que recentemente aconteciam na casa da família – eram diárias pois o rapaz ainda morava no ático no fundo da casa e quase todo dia almoça com eles. 

Ele tinha 22 anos naquela fatídica noite em que conheceu Maria. Talvez por um ser o complemento do outro ou por pura obra do acaso, os dois estão juntos há um ano e meio. 

Mas nem tudo são flores.

Depois da pequena fase do encantamento do início do namoro, não demorou muito para começarem os problemas. 

Maria, como esperado, era o pé no chão do casal: pensava na vida prática, na carreira, gastava muito do seu tempo tentando se atualizar na área e quando acabava a correria do trabalho, gostava de ficar em casa ou no máximo sair com amigos para conversar em algum barzinho. Pablo era o sonhador: na luta por se tornar mais conhecido, passava a maior parte do tempo compondo músicas com os amigos, virava madrugadas e sempre que havia alguma nova banda tocando ou festival acontecendo, estava lá divulgando seu som. 

Certa noite, ele resolveu mostrar uma música nova para a namorada. Ela escutou desinteressada e ele explodiu: por que você não dá a mínima para o que eu faço? Maria, sem conseguir se conter, acabou por despejar tudo que pensava. Ela não entendia porque ele ainda insistia nessa história de música: “você é um cara tão inteligente, mas se perde nessas ilusões! Essa história de música não dá futuro e você ainda nem conseguiu sair da casa dos pais!.

Como vamos fazer com o nosso futuro?” 

Pablo disse que não sabia que estava namorando com uma senhora de 50 anos e que ficava puto quando ela não acreditava nele. Maria respondeu que do que jeito que as coisas andavam, ela nunca iria ter um filho dele. “Afinal de contas”, finalizou ela, “eu teria de cuidar de duas crianças: você e o bebê!”. 

O silêncio enfim se fez. Por um bom tempo os dois ficaram olhando para o nada sem saber o que fazer. Foi Maria então quem, com esforço, se levantou e disse: “eu preciso ir pra casa e teus pais já devem estar dormindo”. Saiu sem falar mais nada. Ao chegar no carro desabou e foi chorando para casa, e chorando chegou, e chorando dormiu sem perceber.

No dia seguinte, almoçando com duas amigas da sua turma da faculdade, ela contou tudo e ao final ainda se perguntava: “como é que ele não entende o que eu quis dizer? Ele parece um adolescente e eu vou ter de cuidar até quando? Será que vai ser assim pra sempre?”  

A pergunta de Maria é a pergunta de muitos e a sua fonte é uma só: maturidade. 

Maturidade é um caminho sem volta. 

Uma vez que você consegue amadurecer um pouco, esse pouco nunca mais te deixa. Um conhecimento adquirido é uma verdade que não pode ser negada, ainda mais quando o conhecimento foi conquistado por meio do sofrimento de sua própria vida. 

Quem morou sozinho e pagou suas próprias contas sabe que sempre irá levar em consideração o preço das coisas. Quem sofreu com perda de um ente querido e teve de trabalhar desde cedo nunca mais vai esquecer essa fase da vida, simplesmente porque tudo isso fez você ser quem você é. 

A maturidade então é o benefício que todos temos ao passar nas provas da vida.

Se no colégio nosso objetivo é passar de ano, na vida é passar de fase. E como eu já disse, é um caminho sem volta. 

Muitos sofrem por essa questão – principalmente em relacionamentos. Um dos dois está um passo à frente do outro, olha a vida de forma diferente pois já viveu situações que o obrigaram a se desenvolver. Já o outro lado ainda está verde, precisa de muito para amadurecer. 

Assim como as frutas, é a maturidade que faz você cair do pé familiar, sair da dependência dos pais para então realizar o seu sentido da vida. 

Saiba, não há sentido da vida ou vocação sem maturidade. E vou repetir quantas vezes for necessário:

Não há sentido da vida ou vocação sem maturidade. 

Sem ela você não tem três bases estruturais para realizar seu ser no mundo:

1. noção adequada da realidade,

2. conhecimento de si e de seus limites e

3. coragem para encarar a vida.

Por isso, todas às vezes que me procuram com algum problema vocacional, a primeira pergunta que faço é: você mora sozinho? Paga suas contas? 

Parece uma questão bem besta para aqueles que acreditam estar em busca de uma atividade espiritual elevada e dispostos a se sacrificar por isso. Vejo em 90% dos casos uma expressão que me diz: “por que diabos você quer saber disso se estamos falando de algo superior? Por que se apegar à trabalhinhos pequenos se eu quero algo maior e elevado?” 

Só essa expressão já bastaria para saber o nível de maturidade do sujeito. Mas quando me confirmam dizendo que ainda moram com os pais e não trabalham, sei que ainda estão verdes para pensar em sentido da vida. 

Pois sempre sigo um princípio bem claro:

Antes de ser uma pessoa que realiza sua vocação, você precisa ser uma pessoa. Esse é o caminho natural das coisas. 

O que escrevo aqui não é nenhuma visão de tiozão chato que deseja que todos se tornem adultos adequados – se bem que não seria uma má idéia, né? A questão é que ninguém deseja não amadurecer (ainda desenvolverei o conceito imadurecer ou inmadurecer). 

A vida é para frente, nunca para trás.     

Por isso mesmo, você, ao ler o meu exemplo acima, sabe que Maria está certa. Se alguém tem de se esforçar é o Pablo e não ela. Sabe por que você acha isso? Porque ela é madura e deseja realizar feitos que só pessoas maduras podem realizar. 

O problema não é a atividade que você – ou o Pablo – escolheu, a questão é a postura diante da vida que você toma. 

Mas esse é o primeiro capítulo sobre esse tema. 

Em breve falo mais sobre aspectos da maturidade, mas não se esqueça: maturidade é um caminho sem volta, e todos devemos nos esforçar para cada dia ser mais maduros. 

 

Poscast #2 – Black Friday e Stranger Things 2

Já está no ar o nosso segundo podcast.

Dessa vez, além de falarmos sobre a nossa Black Friday, também comentamos o seriado Stranger Things – principalmente a segunda temporada. 

Sabe qual a relação desse seriado com o tema da maturidade, sentido da vida e sacrifício?

Clique na imagem abaixo, escute nosso programa e descubra! 

https://soundcloud.com/osnaufragospodcast/podcast-2

Lembrando que toda sexta tem um podcast novo.

E caso queira tirar alguma dúvida, enviar alguma sugestão de tema ou pedir uma ajuda, escreva para: podcast@osnaufragos.com.br

Dê o play e divirta-se! 

Até sexta que vem, abraço. 

O primeiro passo para a vida adulta

Conversei no começo do ano passado com uma moça bastante jovem. Do alto dos seus dezesseis anos, ela estudava já pensando no vestibular e me falava sobre sua rotina no colégio. Mas, como era de se esperar, esse não era o real motivo pelo qual me procurou: na verdade, ela sofria de amor.

Seu namoro já não ia bem das pernas e ela, entre muitas crises e poucas certezas, estava muito confusa com tudo o que vinha acontecendo. Nossa conversa foi rápida, mas o suficiente para perceber que ela só quer, só pensa em namorar.

Conheça nosso curso “Como Começar um Relacionamento

Recentemente reencontrei por acaso a namoradeira. Começou a conversa já me atualizando: estava trabalhando. Antes de eu dizer qualquer coisa, soltou “tá bem complicado, meu chefe não é fácil, tenho que procurar um novo emprego!”. Algo tinha mudado. Foi a vida adulta que tinha chegado. Ou melhor, ela chegou na vida adulta.

Quando vivemos longe de certas responsabilidades não conseguimos entender o sofrimento ou a importância da luta diária no mundo adulto.

Eu mesmo só fui entender quando me vi morando com dois amigos, tendo de limpar o banheiro uma vez por semana e contar os trocados no final do mês. Essa realidade não chega até nós naturalmente, ela exige um esforço pessoal. E quando digo esforço, eu quero dizer muito esforço. Vivemos na época da Ideologia da Naturalidade. Tudo tem de ser natural, nada pode ser ordenado; tudo deve ser fluído, nada pode ser planejado. Nessa dinâmica esquecemos que a vida adulta só acontece quando caminhamos em direção a ela.

De arrasto também perdemos de vista uma das maiores vantagens da vida adulta: os problemas mudam de tamanho.

As grandes preocupações e medos do jovem se tornam algo bem diminuto diante da realidade do adulto. É como sair de casa pela primeira vez, olhar para trás e perceber que nosso universo doméstico é apenas uma parte bem pequena de um todo. Aquele que não assume a vida adulta permanece dentro de uma bolha infantil – com figurinhas na janela, ursinhos de pelúcia sobre a cama e toddynho de manhã. Se o jardim é o limite, tudo tem muita importância. Meus dramas são um fardo. Ninguém sofre como eu.

A moça que antes vivia em crises afetivas agora já adotou um mote clássico dos adultos: reclamar do chefe, querer mudar de emprego. Não é a melhor filosofia que alguém pode ter na vida, mas significa que o primeiro passo para a vida adulta foi dado. Ao perguntar sobre o namorado, confirmei o que suspeitava: “Ah, acabamos… Tô meio sem tempo agora e ele não entende muito bem isso”.


* Se você gostou do texto, poderia dar um like lá no facebook? Além de nos deixar muito felizes, isso ajuda o texto a alcançar mais pessoas. Agradecemos muito.:)

Melhor assim (conto)

Ricardo namorava há dois anos mas não estava feliz. Há poucos meses se deu conta de que não nutria mais o mesmo sentimento por sua namorada. Seu modo de falar e sua forma de lidar com os conflitos do casal aumentaram a certeza do rapaz, que agora só pensava no que poderia fazer quando estivesse solteiro. Pensando nisso, ou melhor, remoendo, chegou a conclusão de que iria conversar com a moça o mais breve possível. Lá se foram mais três meses. Mas um dia bebeu demais e num rompante disse tudo. Não poupou palavras. Em meia hora tinha sido expulso da casa de Suzana apenas com a roupa do corpo. Respirou fundo, equilibrou-se segurando na grade do portão, olhou para a janela dela no terceiro andar e gritou:

“Melhor assim mesmo!”

Dia seguinte chega e com ele o arrependimento. Liga uma, duas, três, dez, vinte vezes e nada de Suzana. “Ela nem desliga na minha cara, deixa tocar..”. Corroído pela ressaca moral, mas ainda decidido a reparar o malefício, corre até a porta da namorada. “Ou ex namorada…?”, pergunta-se, confuso. Toca o interfone, grita seu nome, senta na calçada, choraminga, bate na própria cabeça, xinga-se de burro. Repete todo o processo algumas vezes. Quando já conformado e tentando dar ordem para as lembranças esparsas de ontem, um carro conhecido dobra a esquina. Ele se levanta, arruma a camiseta, passa a mão no cabelo e inconscientemente faz sua cara de culpado; olhos arregalados, boca fechada com os lábios pra dentro e cabeça levemente abaixada.

Suzana o reconhece. Desliga a seta do carro, desiste da garagem e, contra a vontade de Ricardo, acelera seguindo reto. Num rompante de indignação ele ergue as mãos pra cima e grita “Porra!, sério isso?”. Ele então pega o celular e manda diversas mensagens para ela; várias em caixa alta, outras irônicas, algumas se passando por vítima. Escreve num frenesi, estado semelhante da noite anterior. Quando se dá por conta nenhuma mensagem chegou ao destino:  bloqueado. Desliga o celular, arremessando na calçada. Chora de nervoso, pega o aparelho e a blusa do chão, e volta pra casa.

Os meses se seguem estranhos. Suzana até voltou a  entrar em contato, mas apenas para falar de coisas práticas. Todas as respostas dele foram ignoradas.

Sua última mensagem até já decorou: “Tá bom, pode deixar as sacolas na portaria que eu passo pegar. Mas e você tudo bem?” Com um misto de vergonha e uma pitada de revolta ele lembra daqueles dois risquinhos azuis ao lado da mensagem. Mas ele agora não pensa mais nela com tanta frequência. Repassou mil vezes os motivos que o desagradava no namoro, e na maioria reconfirmou serem legítimos. Porém, ainda assim sente algo em seu peito que pesa.

Três anos se passaram desde daquele fatídico dia da confissão embriagada. Ele lembra da data pois a bebedeira daquela noite era em homenagem aos vinte e oito anos de seu melhor amigo. Não será diferente hoje. A festa não é mais em baladas – estão cada vez mais caras e o Pedro está namorando – mas não tem como beber pouco: todos temos certas companhias que nunca nos deixam ir embora cedo. Em casa, pega uma camisa a esmo e se arruma diante do espelho e, de repente, pára:

“Melhor assim mesmo!”, lembra daquelas palavras.

Refaz na sua cabeça a sequência de atos anteriores a esse grito do portão. Ri sozinho, como rimos complacentes ao vermos adolescentes fazendo besteiras. Se olha nos olhos e diz pra si mesmo: – Olha lá, hein?, não vai me fazer outro vexame! Não temos mais saúde pra isso.