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You know nothing: o que você não sabe sobre a última temporada de Game of Thrones

A sétima temporada de Game of Thrones acabou nesse domingo. Desde o penúltimo episódio, a série virou assunto controverso. Dizem que perderam a mão. Conhecida por sua trama bastante complexa e episódios surpreendentes, bastou um capítulo “previsível” para vermos uma fúria pior que do Dracarys. 

O que você não sabe é que nesse embate de críticas ferrenhas e defesas acirradas, uma das melhores cenas da série passou em branco: um diálogo entre Beric e Jon Snow. Não se lembra? Deixa que eu te ajudo.   

 

I. A Verdadeira Batalha

Esta cena, se não me falha a memória, é uma das poucas que deixa tudo às claras. Entendo quem goste daquela confusão moral que marca toda a trama. (Eu mesmo ainda acho que o Jamie irá nos surpreender e que a Arya está cada dia mais psicopata). Mas tudo cai por terra nesse diálogo.

No final das contas, o que importa é uma única batalha: Vida x Morte.

Não é óbvio? Mas é muito real. Tão real que nos faz rever todos os acontecimentos por esse prima. E talvez por isso, muitos tenham se frustrado: eles nos deram a régua para medir tudo o que vimos e ainda vamos ver. Porém, essa medida seria inútil se usarmos apenas para o seriado.

Pensando um pouco, também devemos defender a vida. Você pode não ter notado, mas nessa batalha cada um de nós faz sua parte. Quando acordamos cedo, trabalhamos, conversamos com amigos, brincamos com nossos filhos, estamos lutando sem perceber. You know nothing

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O que nos faz seguir em frente é o desejo de que a vida prevaleça sobre a morte.

Jon Snow está certo, não iremos vencer. Porém, aqui não importa o resultado, mas sim a postura diante do inimigo. Frankl já dizia que mesmo nos momentos mais difíceis, nas situação sem saída que temos em nossa vida, ainda assim, nós possuímos a liberdade interior de decidir como iremos enfrentar a realidade.

 

II. Qual o seu papel?

Se lermos esse diálogo com atenção, percebemos que ele nos ensina muito mais. Os dois são soldados. E o que soldados fazem? Lutam e defendem aqueles que não podem se defender. Novamente tudo é apresentado com uma clareza absurda.

Beric define qual é a vocação de um soldado e com certeza te fez pensar: qual é a minha vocação nessa batalha?

Sabemos que devemos lutar contra a morte, o motivo é evidente. Porém, cada um deve também definir qual o seu papel.

Definir nosso lugar no mundo é a maneira mais eficiente de evitar problemas, ajudar ao próximo e sermos felizes. Hoje, todos querem mudar o mundo, mas esquecem do mais óbvio: como você vai fazer isso? Cada um de nós é limitado, por isso, cada um tem um papel específico nessa história.

Enquanto você não descobre o que irá fazer com sua vida, todos seus atos podem carregar a marcar da dúvida, aquela sensação de estar no lugar errado.

 

III. Encontrando a paz de espírito

Até aqui esse simples diálogo nos ajudou em dois pontos essenciais. Porém, a mensagem de Beric parece os White Walkers: não para por aí. Ele também nos deixa uma lição sobre nossa inquietação cotidiana:

Quando definimos nossa vocação, nossas dúvidas caem por terra. Não precisamos mais entender tudo. Viver para realizá-la talvez seja o suficiente.

Se eu sei o que fazer, concentro minhas forças nessa atividade, gasto meus dias com isso e busco cada vez mais ser melhor no que faço. Uma mãe com filhos pequenos passa seu tempo cuidando deles. Sua vocação é essa. Ela não precisa entender tudo, basta saber que seu lugar é ali ao lado deles. Com um professor acontece o mesmo, ele quer ensinar seus alunos e isso basta.

A vocação é sempre o suficiente pois é uma missão digna de uma vida toda.

Pode parece pequeno ter poucas funções durante uma vida inteira. Mas ser simples é sempre mais complexo. Estamos acostumados a um mundo que nos exige sermos muito mais do que podemos ser e não conseguimos ser nada. Saiba, descobrir nosso papel nos acalma. Nos dá um trabalho sem fim, mas ganhamos a paz de espírito.

Ao final, você é uma coisa só. Beric e Jon Snow são soldados. E você, o que é?

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Qual o remédio para a solidão?

Desde que iniciamos esse projeto para náufragos fiquei com a tarefa de escrever algo sobre solidão. A idéia era fazer algo no estilo “10 coisas que você precisa…” etc. Sinto muito, não consegui.

Por mais que sejamos bem sucedidos em evitar a solidão, nos distrair dela, no fim das contas ela sempre vence. Refiro-me à solidão inescapável, aquela que a morte de um ente querido nos deixa por herança.

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Outra coisa que era para eu fazer nesse projeto: deixar para falar da morte mais à frente. Sinto muito, não consigo. Porque se é para falar de solidão, não dá para deixar a morte para depois.

Ainda mais quando é justamente a memória da morte o remédio da solidão. Quer ver?

Peço um favor, contudo. Este post exige trilha sonora. Então, clica aí no play e segue lendo. Depois explico por que esta música.

Eu tinha 15 anos, era madrugada de verão, em janeiro. Ainda dormindo escutava as batidas em janelas, paredes e portas da casa de madeira da praia. Era uma de minhas tias anunciando. Lembro bem, muito mesmo, de despertar sem despertar.

Eu a escutava, mas me sentia paralisado, como se algo impedisse de ser eu a receber a notícia. Não sei quem levantou, quem abriu a porta, quem escutou primeiro, provavelmente meu pai. Para descobrir que o pai dele tinha falecido havia pouco, em Curitiba.

Lembro da estrada, eu sentado atrás dele, dirigindo, cabeça colada à janela, mirando as estrelas e o silêncio, calado por dentro. Lembro do caixão, das mãos cruzadas do meu avô. Lembro do beijo do meu pai no pai dele, inédito para mim.

Lembro de voltar à vida, sem saber como lidar com a morte. Eu tinha 16 anos.

No ano seguinte um colega de classe escalava uma montanha. Um menino que estava junto se desequilibrou e cairia, não fosse o Fabio. No repuxo, foi ele a morrer. Lembro da segunda-feira no colégio. Lembro do psicólogo da escola dando a notícia, a professora de inglês chorando, nós todos estupefatos. Lembro do ônibus, na ida e na volta do cemitério. Lembro de voltar à vida, tentando e conseguindo não pensar sobre a morte.

Um ano depois foi a vez da minha avó materna. Eu já estava na faculdade. Chegando em casa meu pai me contou. Fui com ele buscar meus irmãos na escola e dali para a casa dela. Tias e minha mãe rezavam dentro do quarto. Ela na cama, amparada no colo de meu avô, que só fazia chorar e lhe dar carinho no rosto e cabelos. Lembro do rumor das rezas, do desespero de meu avô, da cena tão bela quanto meu pai beijando seu pai. Lembro da poltrona vazia na sala de ver TV, lembro do meu avô seguindo em frente, menos coronel, mais avô. Lembro de voltar à vida de novo.

Outras tantas mortes se seguiram, avós e tia de minha esposa, primos queridos, pais de amigos, conhecidos etc., nem sei em que ordem, data, essas coisas, mas lembro. Chegou a vez do meu avô materno. Lembro da comoção de minha mãe, lembro do cemitério cheio, lembro de já não achar nada demais na morte, tinha meu filho.

Minha avó paterna resistiu bastante tempo, sofreu com o câncer. Lembro de fazer questão que meu filho visse o caixão. Lembro de passear com ele pelo cemitério, tentando explicar, inútil. Lembro dele comendo pipoca doce, aquela do pacote rosa, dele colocando sorrisos em rostos nublados. Lembro do fim, da hora de ir embora, lembro de não querer pensar na hipótese de meu filho morrer antes de mim. Lembro de ter certeza de que não suportaria.

Poucos anos depois a morte mais próxima. Entre adoecer e morrer, uma quaresma. A morte vem inteira, depois aos poucos. Lembro de termos conseguido levantá-lo da cama, ao menos para ver os netos. Lembro do meu caçula ser o primeiro a dar um abraço, sem estranhar o cheiro da morte, tão assustador para as crianças. Lembro de ouvir o sussurro do meu pai: “obrigado”.

Lembro dos médicos alertando, diversas vezes, “difícil passar dessa noite”, lembro de ter me despedido algumas vezes, lembro dele seguidamente passar daquelas noites. Lembro do absurdo da negativa do plano de saúde, dos trezentos e sei lá quantos mais mil reais, impagáveis, juntados em poucas horas para garantir internamento no Sírio Libanês. Conseguimos, e ele, que a tudo assistia, impotente, conseguiu dizer: “obrigado”.

Lembro de trabalhar no chão da UTI, lembro da picanha em plena UTI no dia do aniversário. Lembro que nunca vi minha mãe tão frágil e tão forte, tão mãe, e ela nem desconfiava. Lembro de Santa Luzia, da novena que tantos fizeram e que se não trouxe a cura o deixou forte suficiente para voltar a Curitiba, onde teve forças para, em meio ao calor insuportável, pedir cerveja, do que rimos, apenas rimos.

Lembro que só o vi chorar uma vez, quando na primeira UTI, mãos dadas comigo e minha mãe, ela lhe perguntou: “você tem medo por que não sabe como ficarão seus filhos, não é?”.

Ele ajudava demais, porque ele era assim, porque nós precisávamos demais. Lembro do telefonema, da mãe acordando assustada às 3h, lembro de não precisar dizer nada, lembro de só abraçá-la. Lembro de beijá-lo, como um dia ele fizera com seu pai. Lembro de enterrá-lo, como se isso fosse possível.

Lembro que quando sepultamos o pai do meu pai a árvore próxima ao túmulo me chamou a atenção, bem frondosa. Sim, essa que aparece desfolhada atrás do meu caçula na foto em destaque. Lembro que escrevi a maior parte deste texto num dia de finados, dia de lembrar e deixar doer a solidão da perda. Lembro do céu tão ou mais cinza que no dia daquela foto. Lembro que não fui ao cemitério no dia dos mortos, antecipando-me, como a morte fez com meu pai.

Lembro de ter ido com meus meninos, minha esposa, minha mãe. Lembro que chovia, lembro que faltavam as flores encomendadas, lembro da minha mãe preocupada se seriam colocadas para o dia “certo”. Lembro que, na saída, minha esposa me disse: “quando você se for trarei chocolates”. Lembro que rimos, o combinado é eu ir antes. Pelo histórico familiar, é provável.

Lembro que semanas depois da morte do meu pai soube da história de Warren Zevon, o cara da música que estamos escutando. Quando descobriu que tinha um câncer incurável decidiu gravar um último disco, The Wind. Ele morreu duas semanas depois de lançá-lo, em 2003. Descobri a história por conta da última música do disco, cujo clipe – esse mesmo – assisti sem querer.

Nela ele pede para que os seus se lembrem dele um pouco mais depois que ele se fosse.

Não sei por que associei essa música a meu pai, mas sempre que vou ao cemitério a escuto de novo. Gosto de imaginá-lo pedindo algo assim, acho que pede.

Lembro que dias depois daquela ida minha mãe foi ao cemitério sozinha. Acertou as contas com quem cuidava da lápide, floristas etc. Na saída, o rapaz que sempre cuidou de tudo, mesmo não recebendo, veio correndo lhe dar um vaso com duas orquídeas lindas. De presente. É claro que foi meu pai.

Eis o remédio para a solidão.

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Há dois anos, morria o meu pai

Há dois anos meu pai morria. Durante esses dois anos foi assim:

“E quem diria o amanhã seria tão estranho? 
Minha perda, e lá vamos nós de novo.”

Reza a lenda esta “carta” teria sido escrita por Michael Stipe, compositor e vocalista, a River Phoenix, o ator irmão do Joaquim, que havia morrido pouco antes. Eram amigos. Nunca pensei em escrever uma carta a meu pai, mas nem preciso, converso muito com ele. Mais agora do que antes de morrer. Sei lá, é como se sua morte tivesse me “levado lá”, onde não há o cheiro do medo. Acho que levou mesmo. Espero ficar.

No sábado, assisti Miss you already, um desses dramas sobre câncer e morte. “E lá fomos nós de novo”. O filme não é ruim, até surpreende em alguns momentos, como ao falar do Espírito. A moribunda não era religiosa nem nada, ninguém era. Quando contou à filha que iria morrer, a menina se revoltou. Então, disse-lhe que “em espírito” estaria sempre presente. A filha respondeu: “Espírito, que droga é isso?”. A certa altura ela disse a sua amiga esperava existisse mesmo um Paraíso, perguntando: “Será que me deixarão entrar?”. Sua amiga respondeu: “Só se não forem muito exigentes”, completando dizendo que ela era hipócrita. E era mesmo. Losing my Religion, do R.E.M, faz parte da trilha. Boa sacada. Filme honesto, recomendo.

No fim, a estupidez da morte é integrada no amor, unindo ainda mais os que ficaram.

O Espírito nunca abandona, ainda que nem saibamos o que seja, melhor dizendo, nem quem É. Ah, mas faz uma diferença saber… Uma diferença imensurável conhecê-Lo. É uma pessoa, você pode conhecê-Lo como conhece qualquer outra pessoa: basta prestar atenção nela. Ou esperar a morte para fazer isso. Porque, acredite, a morte lhe fará prestar atenção Nele. Ainda que para rejeitá-Lo, de novo.

O dia hoje amanheceu chuvoso, céu de chumbo. Pela janela o avistei, como no clipe de E-Bow The Letter, estava no clima de E-Bow The Letter, aliás. Até tentei ficar mais triste, não consegui. Há dois anos meu pai não morre mais. Nunca morreu, na verdade, nem morrerá. A morte não existe. “Oh life, it’s bigger.”

Nem ia escrever nada hoje, acho que já escrevi demais sobre. Mas, que importa? (meu dito predileto: que importa?).

Escreverei sempre, ainda mais no Natal, quando Ele faz novas todas as coisas, como agora, com esse filme – ao menos para mim. Ele me apresentou a música abaixo. Apesar dos clichês, um verso me pegou: “Porque quando as despedidas forem fáceis, estaremos todos sozinhos.

E é verdade. Aí tudo o mais só me fez sorrir. Peguei o violão e acompanhei na voz também:

Há um lugar 
Em algum lugar entre o sonho e a vigília
Lá encontraremos um ao outro
E eu sei que isso soa estúpido
Mas dará a ambos algo para encontrar.

Clichês costumam ser estúpidos, não quando estão vivos. Meu pai é um clichezão para mim, vive e mora em meu coração. 🙂

Dia dos pais 2015

Meu pai está mais vivo morto. Digo isso e sinto o interlocutor me dando adeus mentalmente, pensando aham, enquanto se esforça por parecer convincente no seu “Que coisa linda, cara!”. Prefiro amigo vivo, indo direto ao ponto: “Isso é coisa da sua imaginação”. E é mesmo, claro que é, exatamente isso. Mas o que para muitos é mentira, ficção, viagem na maionese, ou loucura mesmo, para mim é mais real e concreto e significativo do que QUALQUER presença corporal.

Antes do meu pai morrer, já tinha altos papos com Marlow (o narrador preferido de Joseph Conrad), consultava-me frequentemente com Maigret (Simenon me permite acompanhá-los em seus passeios depois do trabalho) e trocava olhares com José Geraldo Vieira sempre que era incompreendido pelos mais próximos (não é, Zé?). Mas nada se compara à presença do meu pai, tão imaginária quanto.

Desde sua morte não preciso pensar, muito menos dizer; ele está aqui.

Ele nunca fala, porém. Nem dá conselhos ou orienta. Só me olha, com um sorriso terno, profundamente compreensivo, compreensivo como nunca, como ninguém. Não há uma merda que eu faça que lhe ofenda, irrite, agrida. Nada. Ele só me olha, e perdoa. Tudo. Nunca me senti tão conhecido, nem tão amado.

Sempre que vou à missa ele está lá, como hoje, na frente, junto do altar, mas como criança. Brinca bastante com outras que estão por ali, correndo por todo lado. Não sei quem são. Só sei que perto de mim está Nossa Senhora, ela me abraça e consola. Queria brincar também, ao menos ficar mais perto, mas não posso, nessa morada não posso entrar. Meu pai me olha de vez em quando, suado e alegre, e em segundos volta a correr e brincar. Deixo-me ficar no colo de Nossa Senhora, pergunto se ele está bem, peço cuide bem dele. Ela nada responde, não precisa.

Se meu pai está no Paraíso? Não sei, não sou Deus para saber. Rezo para que sim. Só o que sei é que Deus é tão bom, mas tão bom comigo que seja lá onde meu pai esteja, ao meu lado ficará também, e para sempre, disso tenho certeza, daquelas absolutas. Nunca antes me senti tão grato.

Aí percebo que Jesus, que estava no meio das crianças e não parecia notar minha presença distante, está me olhando. Ele me olha com um sorriso terno, profundamente compreensivo, compreensivo como nunca, como ninguém. Não há uma merda que eu faça que lhe ofenda, irrite, agrida. Nada. Ele só me olha, e perdoa. Tudo. Nunca me senti tão conhecido, nem tão amado.

Feliz dia dos pais, pai. E obrigado.

Alexandre

Vivemos em dois tempos. Um, o do relógio, passa enquanto passamos, é o tempo do esquecimento. O outro nunca passa, é o do para sempre, deixando tudo como que suspenso no ar, o tempo do significado.

De vez em quando eles coincidem, como na morte de alguém próximo, aí o segundo tempo congela o primeiro, impedindo se possa seguir adiante sem um sentido maior, um significado suficiente. Foi o caso de Jó, que perdeu tudo e ainda padecia ferido de chagas malignas das plantas dos pés ao cume da cabeça, ficando parado no tempo, sentado em meio às cinzas, coçando-se com um caco de cerâmica, aceitando o destino, mas querendo saber por quê.

Um menino de 2 anos morreu semana passada. Morreu abruptamente, chocando a todos, na véspera do dia das crianças. Estava doentinho, foi ao hospital, complicações, de lá não mais voltou. A causa ainda não se sabe ao certo. Deixou órfãos seus pais e irmão. Pior. A avó do menino, mais de 40 anos atrás, montou um jardim de infância. A escola cresceu, as filhas foram trabalhar com a mãe e lá estão com ela a cuidar de tudo.

É inevitável entrarmos no modo Jó na hora da tragédia. Por que Deus permite algo assim?

Quem me conhece sabe o quão crítico sou de escolas, menos desta. Meus filhos estudaram, estudam lá. Nunca tive uma queixa, um senão. Escola à moda antiga, daquelas que tanto faz a metodologia, porque nunca vi amor e dedicação igual, contagiando todos. Não há professor que não conheça as crianças pelos nomes, da escola toda, tampouco conheço outra que dê tanta liberdade aos pais para entrar e sair e ver seus filhos brincando e aprendendo, não somente recebendo as crianças limpinhas no portão, na hora da saída. Pois o menino que morreu era da escola, filho de uma das coordenadoras, neto da fundadora.

Infelizmente, a família não teve tempo para sentar em meio às suas cinzas.

Não demorou para o WhatsApp se tornar campo fértil para a histeria, com todo tipo de especulação, fofoca e maledicência. A história correu a cidade. “Estão escondendo o que houve”, “Se seu filho é amigo de alguém da escola, não deixe eles brincarem juntos” e por aí foi. Fizeram uma reunião com os pais da sala do menino, junto com o pediatra e pessoal da Secretaria de Saúde, explicando que não foi meningite, que a hipótese mais plausível era a de uma bactéria comum ter entrado na corrente sanguínea, um caso raro. Por fim, um recado da mãe, devastada, pedindo não considerassem o filho uma espécie de vilão.

É inevitável entrarmos no modo Jó nessas horas. Por que Deus permite algo assim?

Na história de Jó, três amigos tentaram lhe consolar, dizendo que alguma razão Deus teria para permitir perda tamanha. Respondeu-lhes Jó: “Vós não sois senão embusteiros, todos vós meros charlatães. Quem, portanto, vos imporá silêncio, a única sabedoria que vos convém!”. Não bancarei o consolador imprudente, não sei a resposta. Sei que na história de Jó, do seio da tempestade Deus surgiu e quem quiser saber como termina que leia na Bíblia.

No tempo do relógio, acontecimentos assim nos fazem perguntar, como Jó: “Que forças me sobram para resistir? Que destino espero para ter paciência?”.

Mas sei que a família é cristã. Todo fim de ano, na festa de encerramento do ano letivo, os alunos interpretam a história do nascimento de Cristo. Salvo engano, no ano retrasado, o bebê escolhido para ser o menino Jesus foi o neto da fundadora. O que isso significa? Viu como vivemos em dois tempos? O Alexandre, agora, é puro significado.

Quando o pai é pai, o filho é filho

I.

Depois da separação o pai passou a usar camisetas e jeans com o corte da moda, também tênis, tênis cinza e vermelho, daqueles sem cadarço. Começou uma dieta, voltou à academia, correndo no parque nos fins de semana. Fez bronzeamento artificial, comprou um carro esportivo, pintou os cabelos. Saía quase toda noite. Disfarçava não ouvir os comentários maldosos da molecada. Ficou com uma ou duas meninas muito mais jovens, precisou tomar remédios para dar conta. O filho descobriu porque uma delas era amiga da sua namorada.

II.

Liberou a casa para a festa da faculdade do filho. Deslocado, deixou-se ficar perto da churrasqueira, puxando conversa com o assador, ao lado do barril de chope. Não raro, servia os jovens. Avistou o violão jogado no chão. Estirou-se em uma das cadeiras de praia esparramadas no amplo salão e arranhou uma bossa qualquer. Aos poucos, alguns à volta; por vezes, até um coral. Até chamarem-no de tio.

A festa terminada, beliscando os restos na churrasqueira, um último copo de chope. Deixou para limpar tudo no dia seguinte. Subia a escada que dava aos quartos, no último degrau se voltou ao salão. As brasas do carvão iluminavam a desordem, o violão sem dono brilhando no escuro. Só então se deu conta que o filho fora embora sem se despedir.

III.

No fim do verão já não corria no parque. Mantinha a academia e a dieta, mudou a cor dos cabelos. O carro passou pela primeira revisão. O bronzeado já não fazia sentido, as roupas nunca fizeram. Desistiu de comprar um loft. Lutava para não demonstrar cansaço, mas seu pescoço e mãos não mentiam, continuava aparentando 53. Vinha aí mais um aniversário, ninguém se lembraria, menos ainda o filho. Decidiu-se: outra viagem.

IV.

Era um dia qualquer. Saíra tarde do escritório. Chovia, pouca gente nas ruas. Chegando em casa viu alguém sentado na frente do portão, era o filho. A mãe morrera. Ela morreu. Abraçaram-se, sem nada dizer. Preparou um café.

Ajudou nos preparativos do velório, não sabia por quê. O outro, aquele, não se incomodou. Passou a noite toda. Não chorava. Tentava apenas ficar próximo ao filho o tempo todo. Bem ao amanhecer viu-se só com o corpo. Um filme passou à sua frente. Nada disse, nada pensou, nada rezou. Estava tudo acabado.

Também não perdoou, ao menos achava que não, mas não sabia por que veio a lembrança daquele disquinho com as duas músicas que marcaram a primeira conquista conjunta: o apartamento comprado depois de casados com tanto esforço e sacrifício comum. Estava sem móveis, só a vitrola e as taças de vinho que levaram para acompanhar a pizza. Uma única lâmpada pendurada no teto iluminava os dois dançando, esquecidos do tempo, esquecidos de si, sendo apenas um casal embalado em música.

Não se conteve. O cheiro da morte, as lágrimas cantadas aos sussurros: “like a bridge over trouble water I willl…”. Retirou o véu, dando um singelo beijo na testa. Foi quando o filho entrou. Despediu-se, surpreendido com um beijo inédito do rapaz. Quis pedir ao filho, não teve coragem. Voltou chorando ao volante, sem resistir.

V.

Três meses depois, quando voltava para casa no fim da tarde de mais um dia de trabalho, lá estava o filho sentado mais uma vez à frente do portão. Desta vez, com as malas na mão.

VI.

O carro esportivo agora era do filho. A dieta era menos rigorosa, mas não desistira da academia. Insistia com as roupas modernas, mas assumira os cabelos brancos.

O ultimo churrasco da faculdade só poderia ser lá. Ajudou nos preparativos, mas não ficou, tinha um encontro marcado com Raquel. Quando voltou a festa ainda estava animada. Do alto da escada mirou o salão. Desceu, sem se fazer notar, e pegou dois copos de chope, sentando-se no primeiro degrau ao lado dela. Apontou o filho, tocava o violão. Tinha esquecido o havia ensinado.

Subiram para escutar música. Numa das trocas na vitrola aquele disquinho surgiu no topo da pilha. Congelou por segundos, mas decidiu escutar. A namorada quase dormindo no seu colo nada notou. Era namorada? Riu de si mesmo. O filho apareceu, meio bêbado, a festa acabara e ia deitar. 

A namorada adormeceu de vez e ele a ajeitou no sofá. Sentou-se no chão e não trocou mais de vinil, fazendo repetir e repetir e repetir as duas músicas, lembrando das vezes inúmeras que fez o filho dormir escutando isso. Será que ele se lembra? Amanhã perguntaria.

Antes de dormir voltou ao salão, cantarolando: Just because of you, boy. Yeah, just because of you.Não acendeu a luz, deixando que a brasa na churrasqueira iluminasse a bagunça. Procurou pelo violão, não encontrou, o filho tinha guardado. Enfim, sorriu.

Espírito esportivo

Das memórias mais vivas. Copa de 82, o jogo fatídico contra Paolo Rossi – que era toda a Itália para uma criança de 6 anos. Meus pais receberam amigos em casa, os filhos todos uniformizados com o manto da Seleção – na época, todos nos consideravam assim. Raras vezes assistíamos às partidas inteiras – nós, as crianças – porque não aguentávamos esperar para ser. Saíamos correndo pra fora de casa imitar os jogadores, fazer os gols, sermos campeões. Até Paolo Rossi fazer o que fez. Odiei Waldir Peres por toda minha vida e, até hoje, quando assisto à um frango, não importa de que time seja, é dele que me lembro.

Foi inevitável não recordar disso ao ver o neto do treinador da seleção de vôlei feminino do Brasil, José Roberto Guimarães, chorando antes mesmo do time perder para a China e ser eliminado da Olimpíada de 2016. Ao final, enrolado ainda na bandeira brasileira, o menino de 6 anos correu ao avô, sentado no banco de reservas, triste e absorto, abraçando-lhe com força. O microfone capta o avô dizendo, inutilmente, “não chora, tá, não chora”. O rosto do menino, quase coberto no ombro de Zé Roberto, deixa à mostra um olhar atento. Ele assente, tenta cumprir o pedido, tentar não chorar, chorando.

Como só queremos ser felizes vivendo tranquilamente nas favelas onde nascemos, segundo a abertura da Olimpíada, as dores, sofrimentos, derrotas e fracassos só conseguimos encarar assim, quando nada perdemos de verdade. Que pai não gostaria que seus filhos aprendessem a sofrer assim, para só assim sofrer na vida? Aí até conseguimos ver a beleza que há em toda perda, o bem possível que de todo mal sempre se pode tirar. A derrota de 82 me legou a forma da tragédia, essa da seleção de vôlei deve fazer o mesmo pelo neto do treinador. Teriam meus filhos vivido algo assim já?

Tenho um de 11 e outro de 5 anos. A hipótese mais óbvia seria os 7×1, da Copa de 2014. Mas, não. Aquilo foi tão fora do comum que nem tristeza deu para sentir, a coisa era simplesmente ridícula.

Acompanharam a Olimpíada. Fazem como eu, mal conseguem assistir, preferem ser. Devem ter conseguido brincar de quase todas as modalidades, até natação, arrastando-se pelo carpete da casa da avó. E eles têm a agenda olímpica também, chegam da escola e cumprem as provas todas. Mas nunca perderam, são sempre ouro e prata, prata e ouro. Usam cadeirinhas e pufes para fazer o pódio. Como o mais velho tem uma coleção de bandeiras, não é raro os vencedores terem as suas “hasteadas” no chão. No iPad encontram todos os hinos. As medalhas escolares dadas indiscriminadamente para todos os alunos, porque o importante é competir, servem para algo, enfim. Mas não assistiram ao neto do Zé Roberto, nem ao futebol feminino, nem outras derrotas e choros.

Aí lembrei do avô deles, falecido há quase 3 anos. Imaginei como queria vê-los correndo abraçá-lo. O mais velho já entendia a morte, mas foi forte, durão. Ser duplamente taurino dá nisso: não chorou. Mas, coisa de semanas depois, foi pego de surpresa com o infarto do nosso porteiro em pleno expediente. Chorou como bebê, abraçado na mãe.

O pequeno sabe que o avô morreu, mas não o que é a morte. 
Quando convidamos alguém para vir aqui em casa e perguntamos: “adivinha quem vem?”, várias vezes ele ainda responde: “o vô Bortolo”. E damos risada, explicando. Uma hora a ficha cai. Daí é só correr pra casa do vô Zé Roberto – sim, homônimo do treinador –, que pouco poderá fazer senão dizer: “não chora, tá, não chora”. É, acho que eles não precisam assistir à mais nada.