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Sabe aqueles momentos em que você se pergunta: “era isso que eu deveria fazer da minha vida?”

Então deixa eu te contar a história de Albert Hammond.

Talvez você não o reconheça pelo nome, mas certamente já deve ter ouvido alguma de suas músicas, como a sua mais famosa:

Poucos sabem, mas nesta música ele conta a história de sua vida até aquele momento, em 1972.

Albert nasceu em 1944, em Londres, mas ainda recém-nascido foi para Gibraltar com seus pais, onde desde pequeno já sabia que tudo o que queria na vida era ser músico.

Foi por volta dos 18 anos – época em que a crise dos 20 começa a dar sinais de dor – que tomou uma decisão difícil em qualquer circunstância: abandonar a escola e arriscar realizar seu sonho de ser músico.

Mas viver de qualquer arte, ao menos no início, costuma ter um preço inevitável: a pobreza.

Não foi diferente com ele.

Tentou a sorte na Espanha, mas praticamente se tornou um mendigo por lá, obrigando-se a esmolar nas estações de metrô para ter o que comer, pois não queria pedir ajuda a seus pais, temeroso fossem buscá-lo e impedi-lo de continuar tentando.

Um belo dia, porém, seu primo que estava em lua de mel o reconheceu, ameaçando contar tudo aos pais. A angústia consequente foi registrada por Albert nestes versos da música:

Você dirá ao pessoal lá de casa que eu realmente consegui?

Tenho ofertas, mas não sei qual delas aceitar?

Por favor, não conte como me encontrou

Não conte como me encontrou! Dá um tempo!

Mama, dá um tempo!

Mas o primo contou. E seu pai, bem, seu pai não só lhe deu esse tempo, como todo o apoio necessário para perseverar, tornando-se o maior fã do filho, segundo palavras do próprio Albert.

E assim, com banho tomado, roupas novas, algum dinheiro no bolso e a segurança de quem se sabe amado, Albert seguiu em frente e, aos poucos, foi conseguindo realizar seu sonho.

Integrou os Diamond Boys, lançando um single pela Parlophone e um EP pela RCA. Logo depois, a banda se desfez e Albert foi para a Inglaterra, onde conheceu Mike Hazelwood, com quem iria compor e gravar vários hits futuros. Mas, até ali, tiveram apenas relativo sucesso local.

Surgiu, então, a grande oportunidade: um musical em Hollywood.

Na noite anterior à partida para os EUA, num quarto de hotel em Londres, Albert contou a Mike sua história de vida, levando ao início da composição de It Never Rains In Southern California, só terminada em Los Angeles, onde nada do que esperavam aconteceu.

O musical não saiu do papel e foram sendo rejeitados por todas as companhias musicais a que recorriam. As estrofes restantes da música falam exatamente disso:

Embarquei num avião 747

Não pensei antes de decidir o que fazer.

Toda aquela conversa de oportunidades, aparições na TV e filmes,

Soaram verdadeiras, claro que soaram.

Sem trabalho, não tenho cabeça pra nada.

Sem autoestima, fico sem pão.

Sou mal amado, mal alimentado.

Quero ir para casa.

E assim, ao chegar ao famoso refrão, com a sempre ensolarada Califórnia coberta por uma tempestade incessante, não parece haver outro significado ao símbolo escolhido senão o da rejeição inesperada, mas reiterada e aparentemente definitiva:

Parece que nunca chove no sul da California

Parece que sempre ouvi dizerem isso

Nunca chove na California, mas, garota, nunca te alertaram?

Chove demais, cara, chove demais.

Mas quem quer que tenha escutado a música sabe perfeitamente bem que não é esse sentimento de frustração que a música transmite, muito pelo contrário.

Não há tensão, tristeza, angústia ou temor do futuro, apesar da letra. Ao contrário, estamos diante de uma celebração da esperança atendida, da satisfação serena e tranquilizante de quem já venceu.

Ou seja, é o significado inverso. A Califórnia encontrada não era a terra afortunada que haviam lhe contado, sempre acolhida pelo sol, mas um deserto árido e esterilizado que a chuva torrencial vinha, seguramente, restaurar.

E, de fato, foi o que aconteceu.

A CBS Epic deu-lhe uma chance, através de uma sua divisão recém-criada, a Mums, e a primeira música de trabalho, claro, não poderia ser outra, com sucesso imediato, não apenas nos EUA, mas no mundo inteiro.

A partir dali o resto de sua história seria mais do mesmo nesse mundo do pop-rock, não decidisse Albert, anos depois, desistir de gravar discos e fazer shows, mantendo-se apenas como compositor.

Ué, para quem parecia não querer nada mais desta vida senão exatamente o que havia conquistado, eis algo surpreendente, não? E intrigante.

Mas fácil de entender aos simples de coração.

É que depois de passar a década de 1970 trabalhando o tempo todo em duas carreiras, compondo e cantando tanto em inglês como em espanhol, Albert se deu conta de que suas duas filhas estavam crescendo sem a sua presença, coisa que ele não queria também acontecesse com Albert Hammond Jr., recém-nascido em 1980.

Adivinha quem são?

Foi quando se perguntou: “era isso que eu deveria fazer da minha vida?”

Decidiu, então, ser antes um pai melhor, depois o compositor generoso que viria a contribuir para o sucesso de inúmeros artistas como Julio Iglesias, Rod Stewart, Barry Manilow, Dolly Parton, Celine Dion, Dionne Warwick, Air Supply, Bonnie Tyler, Hank Williams Jr., Agnetha Faltskog (do ABBA), Phil Everly, Bill Medley, K.D. Lang, e a lista é interminável.

Só para citar com links algumas de suas composições mais famosas na voz desses e outros, e que certamente você já deve ter escutado, escute essas:

The Air That I Breathe (The Hollies, Simply Red), I Need To Be In Love (Carpenters), Nothing’s Gonna Stop Us Now (Starship), I Don’t Wanna Live Without Your Love (Chicago), Through The Storm (Aretha Franklin & Elton John), Don’t Turn Around (Aswad, Neil Diamond, e Ace of Base), Give A Little Love (Ziggy Marley & The Melodymakers), It Isn’t, It Wasn’t, It Ain’t Ever Gonna Be (Whitney Houston & Aretha Franklin), Don’t You Love Me Anymore (Joe Cocker), One Moment In Time (Whitney Houston), I Don’t Wanna Lose You e The Way of the World (Tina Turner), When You Tell Me That You Love Me (Diana Ross), Careless Heart (Roy Orbison) e Smokey Factory Blues (Johnny Cash)

Não é pouca coisa, né?

Enfim, Albert só voltaria a lançar um disco seu e a fazer shows em 2005, mais de vinte anos depois do último. E veja você, fez justamente a pedido do filho que reclamava nunca ter visto o pai no palco!

Durante todos esses anos a família viveu uma vida mais comum do que se imagina, com Jr. mal percebendo o que o pai fazia. 

Tanto que lá pelos 10 anos saiu encantado de um musical em Londres sobre Buddy Holly, Jr. dizendo: “Uau, Buddy Holly escreveu músicas e as cantou e eu quero fazer isso!”

Mas veja você como é a vida: quarenta anos depois de Albert ter desistido da escola foi a vez do filho passar pela mesma crise dos 20 anos.

Junior cursava faculdade há mais de ano quando decidiu abandoná-la para, adivinha? Claro, apostar na carreira musical! Ele integra até hoje a banda The Strokes, famosa no mundo do indie rock.

Mas, tal como o pai no passado, temeu pela reação paterna, só tendo coragem de contar sua decisão umas três semanas depois de tomada. Ouviu, então, como resposta:

“É claro que você tem de seguir com a banda! A faculdade pode ser feita depois.”

Albert não só apoiou como ajudou financeiramente no lançamento do primeiro, e espetacular, disco da banda.

Eu sorri, e você?

O filho, em entrevista conjunta com o pai ao Guardian, anos depois, revelou brincando que a “culpa”, no fim das contas, era do pai: “Ele ficava me contando todas aquelas histórias”.

E Albert concordou e rindo contou uma delas:

“Uma de minhas primeiras apresentações foi num clube de strip-tease, no Marrocos: 22 belas mulheres tirando a roupa em volta de mim enquanto eu cantava músicas de Johnny Cash. Eu tinha 16 anos. Contava histórias assim para ele. Acho que quando ele me contou que queria ser guitarrista não fiquei muito surpreso.”

Não só histórias assim. Em outra entrevista, agora ao The Independent, Albert revelou mais de como era como pai, como homem:

“Quando meu filho era pequeno eu costumava colocá-lo no colo e cantar para ele. Eu sempre tive esperança de que ele se lembraria desses momentos, então eu aproveitava para dar pequenos conselhos entre as canções. Eu costumava dizer-lhe para sempre ser um bom menino, porque quando você é bom para as pessoas, outras serão boas para você. O mundo é geralmente um bom lugar, mas seria ainda melhor se nós fossemos um pouco mais bondosos uns com os outros.”

Singelo, não?

Como é It Never Rains In Southern California, como só pode ser o próprio Albert Hammond, o que me parece tornar todo seu sucesso, nunca perdido, mais os prêmios e mais prêmios ganhos, até a Ordem do Império Britânico (como Officer) e o ingresso no Hall da Fama dos compositores em 2008, algo menor.

Fico mais, bem mais, com sua alegria de pai de família, de homem simples, humilde, bom, que realizou sua vocação de pai e músico. Uma alegria que se vê estampada em seu rosto com facilidade, como se vê nesta gravação ainda recente, de junho ou julho de 2014:

Então, toda vez que você parar e se perguntar “era isso que deveria fazer com minha vida?”, sentindo que realizou pouco ou que falta algo mais, lembre-se de Albert Hammond.

Às vezes o que falta é o que já se tem.  

 

 

Qual o remédio para a solidão?

Desde que iniciamos esse projeto para náufragos fiquei com a tarefa de escrever algo sobre solidão. A idéia era fazer algo no estilo “10 coisas que você precisa…” etc. Sinto muito, não consegui.

Por mais que sejamos bem sucedidos em evitar a solidão, nos distrair dela, no fim das contas ela sempre vence. Refiro-me à solidão inescapável, aquela que a morte de um ente querido nos deixa por herança.

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Outra coisa que era para eu fazer nesse projeto: deixar para falar da morte mais à frente. Sinto muito, não consigo. Porque se é para falar de solidão, não dá para deixar a morte para depois.

Ainda mais quando é justamente a memória da morte o remédio da solidão. Quer ver?

Peço um favor, contudo. Este post exige trilha sonora. Então, clica aí no play e segue lendo. Depois explico por que esta música.

Eu tinha 15 anos, era madrugada de verão, em janeiro. Ainda dormindo escutava as batidas em janelas, paredes e portas da casa de madeira da praia. Era uma de minhas tias anunciando. Lembro bem, muito mesmo, de despertar sem despertar.

Eu a escutava, mas me sentia paralisado, como se algo impedisse de ser eu a receber a notícia. Não sei quem levantou, quem abriu a porta, quem escutou primeiro, provavelmente meu pai. Para descobrir que o pai dele tinha falecido havia pouco, em Curitiba.

Lembro da estrada, eu sentado atrás dele, dirigindo, cabeça colada à janela, mirando as estrelas e o silêncio, calado por dentro. Lembro do caixão, das mãos cruzadas do meu avô. Lembro do beijo do meu pai no pai dele, inédito para mim.

Lembro de voltar à vida, sem saber como lidar com a morte. Eu tinha 16 anos.

No ano seguinte um colega de classe escalava uma montanha. Um menino que estava junto se desequilibrou e cairia, não fosse o Fabio. No repuxo, foi ele a morrer. Lembro da segunda-feira no colégio. Lembro do psicólogo da escola dando a notícia, a professora de inglês chorando, nós todos estupefatos. Lembro do ônibus, na ida e na volta do cemitério. Lembro de voltar à vida, tentando e conseguindo não pensar sobre a morte.

Um ano depois foi a vez da minha avó materna. Eu já estava na faculdade. Chegando em casa meu pai me contou. Fui com ele buscar meus irmãos na escola e dali para a casa dela. Tias e minha mãe rezavam dentro do quarto. Ela na cama, amparada no colo de meu avô, que só fazia chorar e lhe dar carinho no rosto e cabelos. Lembro do rumor das rezas, do desespero de meu avô, da cena tão bela quanto meu pai beijando seu pai. Lembro da poltrona vazia na sala de ver TV, lembro do meu avô seguindo em frente, menos coronel, mais avô. Lembro de voltar à vida de novo.

Outras tantas mortes se seguiram, avós e tia de minha esposa, primos queridos, pais de amigos, conhecidos etc., nem sei em que ordem, data, essas coisas, mas lembro. Chegou a vez do meu avô materno. Lembro da comoção de minha mãe, lembro do cemitério cheio, lembro de já não achar nada demais na morte, tinha meu filho.

Minha avó paterna resistiu bastante tempo, sofreu com o câncer. Lembro de fazer questão que meu filho visse o caixão. Lembro de passear com ele pelo cemitério, tentando explicar, inútil. Lembro dele comendo pipoca doce, aquela do pacote rosa, dele colocando sorrisos em rostos nublados. Lembro do fim, da hora de ir embora, lembro de não querer pensar na hipótese de meu filho morrer antes de mim. Lembro de ter certeza de que não suportaria.

Poucos anos depois a morte mais próxima. Entre adoecer e morrer, uma quaresma. A morte vem inteira, depois aos poucos. Lembro de termos conseguido levantá-lo da cama, ao menos para ver os netos. Lembro do meu caçula ser o primeiro a dar um abraço, sem estranhar o cheiro da morte, tão assustador para as crianças. Lembro de ouvir o sussurro do meu pai: “obrigado”.

Lembro dos médicos alertando, diversas vezes, “difícil passar dessa noite”, lembro de ter me despedido algumas vezes, lembro dele seguidamente passar daquelas noites. Lembro do absurdo da negativa do plano de saúde, dos trezentos e sei lá quantos mais mil reais, impagáveis, juntados em poucas horas para garantir internamento no Sírio Libanês. Conseguimos, e ele, que a tudo assistia, impotente, conseguiu dizer: “obrigado”.

Lembro de trabalhar no chão da UTI, lembro da picanha em plena UTI no dia do aniversário. Lembro que nunca vi minha mãe tão frágil e tão forte, tão mãe, e ela nem desconfiava. Lembro de Santa Luzia, da novena que tantos fizeram e que se não trouxe a cura o deixou forte suficiente para voltar a Curitiba, onde teve forças para, em meio ao calor insuportável, pedir cerveja, do que rimos, apenas rimos.

Lembro que só o vi chorar uma vez, quando na primeira UTI, mãos dadas comigo e minha mãe, ela lhe perguntou: “você tem medo por que não sabe como ficarão seus filhos, não é?”.

Ele ajudava demais, porque ele era assim, porque nós precisávamos demais. Lembro do telefonema, da mãe acordando assustada às 3h, lembro de não precisar dizer nada, lembro de só abraçá-la. Lembro de beijá-lo, como um dia ele fizera com seu pai. Lembro de enterrá-lo, como se isso fosse possível.

Lembro que quando sepultamos o pai do meu pai a árvore próxima ao túmulo me chamou a atenção, bem frondosa. Sim, essa que aparece desfolhada atrás do meu caçula na foto em destaque. Lembro que escrevi a maior parte deste texto num dia de finados, dia de lembrar e deixar doer a solidão da perda. Lembro do céu tão ou mais cinza que no dia daquela foto. Lembro que não fui ao cemitério no dia dos mortos, antecipando-me, como a morte fez com meu pai.

Lembro de ter ido com meus meninos, minha esposa, minha mãe. Lembro que chovia, lembro que faltavam as flores encomendadas, lembro da minha mãe preocupada se seriam colocadas para o dia “certo”. Lembro que, na saída, minha esposa me disse: “quando você se for trarei chocolates”. Lembro que rimos, o combinado é eu ir antes. Pelo histórico familiar, é provável.

Lembro que semanas depois da morte do meu pai soube da história de Warren Zevon, o cara da música que estamos escutando. Quando descobriu que tinha um câncer incurável decidiu gravar um último disco, The Wind. Ele morreu duas semanas depois de lançá-lo, em 2003. Descobri a história por conta da última música do disco, cujo clipe – esse mesmo – assisti sem querer.

Nela ele pede para que os seus se lembrem dele um pouco mais depois que ele se fosse.

Não sei por que associei essa música a meu pai, mas sempre que vou ao cemitério a escuto de novo. Gosto de imaginá-lo pedindo algo assim, acho que pede.

Lembro que dias depois daquela ida minha mãe foi ao cemitério sozinha. Acertou as contas com quem cuidava da lápide, floristas etc. Na saída, o rapaz que sempre cuidou de tudo, mesmo não recebendo, veio correndo lhe dar um vaso com duas orquídeas lindas. De presente. É claro que foi meu pai.

Eis o remédio para a solidão.

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