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Um disco para náufragos

Se tem uma coisa que a imensa maioria de nós, náufragos existenciais, temos em comum é o apego à música como uma tabuinha de consolação – quando não de salvação mesmo.

Quando vejo a quase devoção com que alguém fala ou aprecia alguma música ou banda ou artista, já reconheço um “irmão de braçadas”, mantendo-se à tona com a ajuda da música, muita música.

E não falo aqui de histeria adolescente com bandinhas. Falo de algo bem mais sério e profundo, da música sendo capaz de expressar a tristeza ou o desespero do “estar náufrago”, ao mesmo tempo conseguindo alimentar a fé e a esperança de que há uma razão, um sentido maior para esse sofrimento.

Quando a música é experimentada assim ela é uma vivência religiosa. Ou seja, religa você a algo que faz e dá sentido à vida.

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Uma banda cujas algumas músicas me permitiram – e ainda permitem – viver momentos assim é o U2, que está no Brasil com sua atual turnê celebrando os 30 anos de lançamento do seu melhor disco (na minha opinião), The Joshua Tree, que é uma obra que trata justamente disso: procurar sentido e manter a esperança de encontrá-lo suportando o deserto desesperador que parece ter se tornado a existência.

Não por outra razão a capa do disco tem uma foto tirada no deserto do Mojave, nos EUA:

capa do disco

E na contra-capa encontramos a razão do título do disco:

atente à arvore

Essa árvore é chamada de “Árvore de Josué” e cresce quase somente nesse deserto americano. A origem do nome devemos aos mórmons que imigravam atravessando o deserto quando a viram pela primeira vez, em meados do século XIX, associando seu formato peculiar à oração do profeta Josué erguendo as mãos para o céu implorando a ajuda de Deus. Assim, viram na árvore um sinal de Deus os guiando para o Oeste.

Ao emprestarem esse nome ao disco o U2 tornou impossível descontextualizá-lo desse significado espiritual. Ou seja, é isso que dá a forma do disco, sua unidade, seu todo cujas partes são as músicas que o compõem e revelam faixa a faixa seu significado, que tentarei expor neste texto.  

  1.  Where The Streets Have No Name

Música de abertura do disco e indispensável em qualquer dos shows da banda – e é das melhores mesmo.

Começa num crescendo que não pára, com as partes vocais estacionando a música quando entram, como se estivéssemos fazendo uma pausa em uma escalada para respirar e seguir adiante. Tudo é “para cima”, arrebatando, inspirando, alimentando a esperança. É como se tivéssemos chegado na Terra Prometida, cujas ruas não têm nome.  

Mas não chegamos lá, apenas desejamos intensamente. Quando encaixamos letra e música vemos que embora exista a certeza da existência desse lugar nós ainda estamos presos “aqui”, onde construímos e em seguida demolimos o amor, que se torna enferrujado e nos deixa esmagados em poeira.

Ou seja, é uma música que convoca o ouvinte a ir com ela para esse lugar onde a esperança é desnecessária porque tudo que há para esperar, lá é uma realidade presente; que é para lá que temos de ir na vida; que “é só isso que dá pra fazer”. 

2. I Still Haven’t Found What I’m Looking For

Em seguida vem o hino religioso mais famoso da banda, continuando do ponto onde a música de abertura nos deixou: sabemos que existe o lugar para onde devemos ir, mas ainda não chegamos lá porque ainda não o encontramos, não encontramos o que procuramos.

Mas o que se revela aqui é que esse lugar, na verdade, é uma pessoa. E a letra não deixa dúvida que essa pessoa é Jesus Cristo:

Você quebrou as cadeias, soltou as correntes
Você carregou a cruz
E toda a minha vergonha
Toda a minha vergonha
Você sabe que eu acredito nisso

Mas onde Ele está? 

Essa música foi claramente inspirada nos salmos de Davi e é como se fosse um deles.

3. With or Without You

O maior sucesso do disco e comumente tratada apenas como uma baladinha romântica. Mas ela tem outro significado nesse contexto do disco.

Ela nos aquieta da intensidade que as anteriores criaram; é lenta, introspectiva e a parte instrumental constrói um chão para a letra se destacar. E é uma letra bela. Repare que quando o cantor fala sobre “ela”, não a trata como sendo o “você” do título: 

Numa cama de pregos, ela me faz esperar
E eu espero sem você

Há duas esperas aí, portanto. Aquela por “ela” e aquela por “você”, que tampouco está lá. Esse “você” faz muito mais sentido, no contexto que estamos escutando, sendo Jesus Cristo, que estamos procurando mas ainda não encontramos.

É a Ele que a música fala como uma súplica na escuridão da noite.

Quanto àquela “ela”, esta aparece com eles se tornando um “nós”: “Através da tempestade, nós alcançamos a costa“. Mas continua distinta do “você”, por isso ele canta: “mas eu quero mais / E eu estou esperando por você”.

Mas essa espera já não é tão esperançosa assim, pois num dos últimos versos vemos que ele permanece naquela “cama de pregos” e pouco tem a oferecer para “ela” se Ele não aparecer: 

Minhas mãos estão amarradas, meu corpo ferido
Ela me tem com
Nada a ganhar e
Nada mais a perder

4.  Bullet The Blue Sky

Vem a música mais politizada do disco e da carreira da banda como um todo. Mas, de novo, interessa-nos aqui o contexto. Nesse sentido, a política ganha outro significado.

Quanto tempo você suporta esperar pelo que demora a aparecer?

A América cantada na música, para cujos braços as crianças e mulheres correm em busca de proteção e salvação, representa a esperança da Terra Prometida ao mesmo tempo que se revela não sê-la. É aqui que a imagem do deserto começa a ganhar forma musical de aridez, ausência de perspectiva.

O tom dessa música é diverso do que veio antes, fazendo uma inversão da esperança e introspecção anteriores para algo raivoso, frustrado, cansado. Nossa atenção é voltada não mais para onde as ruas não têm nome, para Ele; mas para o “aqui” que não é a Terra Prometida, para o “aqui” sem Ele.

Se antes a esperança era maior e nos conduzia, agora ela se torna menor e mais fraca. É aqui que a árvore de Josué também começa a ganhar sua forma musical simbolizando essa esperança transformada em resiliência. Não é um sinal divino a certificar Sua presença, mas um símbolo do homem que sofre nesse deserto e começa a fraquejar daquela certeza inicial, embora ainda não tenha desistido dela. A árvore de Josué, assim toda torta, torna-se símbolo da dor:   

Vejo que chove pregos nas almas
Sobre a árvore da dor

5. Running To Stand Still

Mas a raiva, como todo sentimento, passa. E quando passa costuma deixar a tristeza em seu lugar. Só o deserto permanece o mesmo. Vem então a música mais “desértica” do disco, com seu início remetendo imediatamente à amplitude e ao silêncio de um deserto.  

Aqui voltamos a ter um casal. Desta vez, é ela quem se angustia por saber que é preciso fazer alguma coisa sobre aquele “para onde” estavam indo e que parecia ser impossível chegar, se é que existia mesmo: 

E então ela acordou
Ela acordou de onde estava deitada.
Disse que eu tinha de fazer algo
A respeito de para onde estamos indo.

O sentido original da palavra pecado tem a ver com “errar o alvo”. Ou seja, é pecado tudo que nos desvia da busca da Terra Prometida, tudo que colocamos no lugar Dele ou nos faz desistir de “atingir o alvo”. O pecado mais comum é a fuga da dor que estamos a escutar agora. Nesta música essa fuga se dá pelo uso de heroína, buscando um prazer efêmero anestésico que, depois, cobra o seu preço com dor ainda maior: 

Doce é o pecado, amargo é o sabor em minha boca.

Uma vida errando o alvo só pode se tornar muito mais torturante do que quando se suportava a dor de não saber onde estava o alvo nem como atingi-lo.

Aqui é interessante citar uma referência que a letra faz à Dublin da época dos músicos e que tinha um conjunto de sete prédios que se tornaram um mocó de drogados. Nesse local se tinha a taxa de suicídios mais alta de toda Irlanda. O suicídio que seria a única saída dita na letra da música:

Eu vejo sete torres, mas vejo apenas uma saída.

É por isso que essa fuga não é uma solução, como a música deixa claro. Ela se entrega à heroína, mas é como sair correndo ficando parada no lugar: 

Ela está em transe
E a tempestade explode nos olhos dela.
Ela sofrerá o barato da agulha
Ela está correndo para ficar parada.

6. Red Hill Mining

Uma vida sem Ele, sem busca pela Terra Prometida, rebaixa-se à luta pela sobrevivência. 

 

Esta música trata do mundo do trabalho, da rotina infernal que só deixa a esperança de algo melhor para depois do expediente, retratando essa espera angustiada e, no fundo, descrente por ser pouco, muito pouco:

Nós queimamos a terra
Colocamos fogo no céu
E nos inclinamos tão baixo
para alcançar tão alto

Se também o trabalho não parece dar sentido à vida, resta o amor por “ela” como sendo a Árvore de Josué da esperança por esse sentido maior:

Estou suportando
Você é tudo que restou para eu me segurar

Seria suficiente? Ou até mesmo a solução?  

7. In God’s Country

Não. A reposta é não, como ele canta ao fim desta música:

Uma chama nua, ela possui uma chama nua
Eu estou com os filhos de Caim
Queimado pelo fogo do amor

O amor humano jamais será suficiente, nem substituto do primeiro mandamento divino: há um amor maior que não pode ser substituído nem rebaixado de posto. Tudo que se coloca no lugar Dele é falso.

Daí a ironia dessa música ao tratar os EUA como sendo o país de Deus, ou seja, a Terra Prometida. Mas que país é esse em que o sono é como uma droga e os olhos são tristes e as cruzes tortas? Ou seja, o deus aqui é outro, simbolizado na estátua da Liberdade:

Ela é a Liberdade, e ela vem me salvar
Esperança, fé, sua vaidade
O maior presente é o ouro

A parte instrumental constrói uma música típica para “road trips”, para quando se viaja tentando se esquecer de onde se partiu e para onde se está indo, tentando apenas aproveitar a viagem em si. O que não deixa de ser também uma fuga.

8. Trip Through Your Wires

Continuamos na mesma atmosfera de viagem da música anterior, com a guitarra estridente acompanhando um ritmo com algo de cansado, começando a se questionar sobre o falso deus do amor humano:

Anjo ou demônio?
Eu estava sedento
E você molhou meus lábios.
Você, estou esperando por você
Você faz o meu desejo
Eu tropeço por seus arames.

Note como o “você” de With or Without You retorna aqui, mas confundido com “ela” e a pergunta se seria anjo ou demônio indica menos uma dúvida do que a confissão de quem se entregou seja lá para quem for.

9. One Tree Hill

Vai se aproximando o fim do disco, da jornada, da busca, da própria vida. É uma música sobre a morte e o que ela nos diz sobre a vida: “Nós corremos como um rio corre para o mar“. 

Ao mesmo tempo em que há uma desolação, uma amargura com a vida (Eu não acredito em rosas pintadas ou pessoas de bom coração / Enquanto as balas estupram a noite do misericordioso), ainda permanece viva a esperança de que a morte seja restauradora, que o mar, símbolo típico de morte e renascimento, possa ser mais e melhor do que o rio que nos levou até lá. 

A parte instrumental tem algo de etéreo e convida à introspecção, terminando como se fosse uma oração diante da morte, do oceano para onde estamos sendo levados queiramos ou não.

Uma oração que nos devolve, tal como o título da música, ao símbolo da solitária Árvore de Josué, cuja imagem agora se mostra muito mais significativa, não acha? Se não, confira por outra foto mais próxima:

É a “Joshua Tree” original fotografada para o disco.

Repare como sua beleza não é estética, não é uma árvore bonita. Sua beleza está no seu significado. Ela parece mais do que uma sobrevivente no deserto. Embora pequena, se agiganta em meio ao nada em que se encontra. Seus “braços” parecem cansados, mas permanece firmemente de pé, ainda que nada em torno justifique perseverar.

Que baita símbolo de fé e esperança. 

10. Exit

Hora da definição. Esta música retoma a idéia rítmica de Where The Streets Have No Name. Ou seja, vem num crescendo. A diferença é que se lá há luz, leveza, esperança, aqui estamos nas trevas daquele que se perdeu. Se naquela o crescendo se estabilizava e permanecia, aqui a música explode num fim ambíguo e angustiado: 

Ele sentiu a cura, cura, cura
As mãos do amor que curam
Como as estrelas brilhantes, brilhantes lá de cima

Entretanto, num sussurro vem os versos finais:

Mãos que constroem
Também podem destruir
Mesmo as mãos do amor

A partir daí a voz cessa e a música prossegue por alguns minutos como num transe, deixando a sensação de que tudo acabou mal, sem Terra Prometida, sem Ele, sem ela, sem saída nenhuma. 

 

Esta música serve perfeitamente para o fim de histórias trágicas que nos deixam estupefatos. Mas ela não encerra o disco.

11. Mothers Of The Disappeared

A última música repete o efeito hipnótico de Exit, mas sem a angústia terrificante, mais como um lamento em sussurros.

A letra trata de mães cujos filhos desapareceram, mas cujos sorrisos o vento ainda faz escutar e a chuva permite ver suas lágrimas.

Por conta disso, a forma final do disco é exatamente a de um deserto quase completo, não fosse por uma única árvore solitária teimando em resistir, ainda que não tenha nada a justificar sua permanência e esperança. Teimosa como uma mãe que perdeu seu filho mas ainda o vê e escuta na chuva e no vento. 

Quantas vezes durante a vida não vivemos situação parecida à de quem está largado num deserto sem saber qual rumo tomar, em que a própria esperança se torna desesperadora?

Uma situação quase insuportável, mas que nem por isso nos permitimos desistir, ainda que assim desejemos muitas vezes. Porque por mais sofrida que esteja a vida, algo ainda mais forte do que a dor nos sustenta e nos faz levantar toda manhã para encarar o que há para ser encarado, ainda que seja o nada.

12. Bonus Track que só tem neste texto 😉

Não sei se você sabia, mas a árvore da capa do disco morreu, tombando no solo no ano 2000. No lugar onde ela resistiu ao deserto até seu fim, fãs da banda e do disco montaram um santuário informal. Nele há esta placa:

“Você encontrou o que está procurando?”

Não importa se você encontrou o que está procurando. Não importa nem se você sabe o que está procurando. O que importa é não desistir dessa busca. É isso que faz toda diferença.

Quando a vida não tem sentido, faça da busca teimosa por ele o próprio sentido da vida.

Quando você está vivendo assim é aí que a música pode se tornar uma experiência religiosa, capaz de o conectar a esse sentido maior ao menos enquanto ela durar. Talvez seja a única companheira da nossa solidão nessa busca, capaz de nos entender melhor do que nós mesmos, expressar o que não conseguimos dizer, extravasar nossos temores e raivas, confortar nossa tristeza e desilusão, aconselhar e animar quando mais precisamos.

A vida pode não ter sentido ainda, mas ganha um quando experimentamos músicas que vão além do mero entretenimento.

Foi assim comigo e continua sendo. As músicas de The Joshua Tree me acompanham desde os meus 11, 12 anos de idade. Em cada época da minha vida serviram para algo. Infelizmente, não tive condição de ir ao show que celebra esse disco, seria minha oportunidade de dizer “obrigado”. 

Então, que este texto sirva de agradecimento à banda por este disco e outros. É claro que ele não me deu o que eu tanto procurava sem nem saber que procurava, mas eu jamais teria encontrado se não fosse por discos assim. 

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Quem não é Narciso nas Redes Sociais?

Acho que todos conhecem a história de Narciso, não? Apaixonado por suas selfies, nada mais fez de sua vida senão contemplar-se no instagram, até nele mergulhar e morrer.

Dizem que isso é mito, e muito antigo, coisa de grego. Só se for a parte do mergulhar e morrer porque, no mais, Narciso segue vivo, firme e forte, com o perfil ativo no facebook e em todo canto da internet. Narciso, hoje, é legião.

Uma de suas características principais, segundo o filósofo Louis Lavelle, que escreveu um livro a respeito, do qual tomei de empréstimo o título acima, é procurar mais aquilo que o agrada do que aquilo que ele é.

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Cientistas sociais, psicólogos, especialistas de toda ordem, estudam, pesquisam, analisam, teorizam, discutem, há tempos, o narcisismo e as redes sociais, terreno fértil para sua propagação, e seus estudos costumam demonstrar que muitos tendem a se sentir mal, tristes, sozinhos, depressivos, invejosos, quando vêem os amigos nas redes sociais publicando fotos de festas, viagens, férias, e por aí vai.

Claro, naquele momento, é mais agradável ser eles do que eu.

Parece coisa de adolescente, e é – Narciso, aliás, tinha dezesseis anos. Mas hoje em dia a adolescência esticada é um fato, e os dezesseis de Narciso devem equivaler aos quarenta e dois anos na atualidade, por aí. É uma epidemia, portanto.

Seria o caso de perguntar em que ponto o amor-próprio se torna doença, volta-se contra si mesmo. Mas acredito que quando se tornou mania publicar selfies logo que consumado o ato sexual (#AfterSex), ou sua variante a mostrar como ficou seu cabelo depois (#AfterSexHair), ou para mostrar sua roupa e expressão facial quando se está num funeral (#funeral), enfim, quando chegamos a tanto algo me diz que aquele ponto já foi ultrapassado faz tempo e falar de limites seria até interessante, mas tão produtivo quanto analisar o pênalti perdido por Zico na Copa de 1986.

Na verdade, embora quando se fale de narcisismo logo venha à mente vaidade, seu significado tem mais a ver com entorpecimento, que vem da origem grega do seu nome, narkhé. E é essa, parece-me, a marca registrada do narcisismo do nosso tempo, que já se fez antigo e pelo visto perdurará bastante. Estamos entorpecidos, narcotizados moral e espiritualmente, tanto que dá sono só de ler essas palavrinhas, como se a mera menção despertasse um fiscal chato com a única finalidade de estragar prazeres.

É proibido proibir, e beijinho no ombro a quem discorda.

No fim, o destino de todo Narciso é não ser amado, nem por si mesmo, e é essa dor que entorpecemos com nossa fabricada espontaneidade e rígido controle de qualidade da imagem que passamos aos outros nas redes sociais.

Como somos parecidos por lá, já reparou? Além de Narcisos, também somos Eco, a ninfa condenada pela deusa Hera a somente repetir o que os outros diziam, por ser muito tagarela. Ela se apaixonou por Narciso, mas não podendo expressar seu amor, terminou sendo rejeitada, isolando-se do mundo nas montanhas, onde se transformou em rochedo, mas continuando até hoje a ecoar, a repetir palavras que parecem, mas não são suas.

Por que mesmo você entrou na onda das selfies?  

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300 milhões de razões para falar sobre depressão

Mais de 300 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde. É possível você seja uma delas, ainda que não saiba ou se recuse a admitir. Já é considerada a maior causa de problemas de saúde e de incapacidade, aliás.

Quem manja dos paranauês psicológicos aqui é o Jota, mas lá se vão uns 8 anos dando aulas particulares e tive de aprender a lidar um pouco com a depressão também, não me faltaram alunos padecendo dela. E aprendi muito com eles. Por exemplo, só fui entender mesmo o que era a depressão quando um deles me disse:

“Sabe aquele ditado do otimista e do pessimista diante de um copo com água pela metade? O otimista fica feliz por estar meio cheio, o pessimista fica triste por estar meio vazio, mas sabe o que um depressivo acha? Que a vida é uma merda.”

O que entendi? Que não adianta tentar animar um depressivo, muito menos convencê-lo que ele precisaria fazer isso ou aquilo. Se quiser realmente ajudá-lo, vai demorar a obter algum “sucesso”. Por isso, nem comece se não for para se comprometer de verdade com ele. Se for para abandonar no meio do caminho, melhor deixá-lo como está. Perseverança é tudo, por isso, haja paciência, muita paciência, mais um pouco de paciência e, por fim, ainda mais paciência.

Para ajudar um depressivo você precisa começar pelo óbvio: escutando o que ele tem a dizer. Esqueça soluções possíveis, ainda que funcionem e sejam o que ele realmente precisaria. Apenas escute, tente conversar, sem querer “curá-lo” nem nada. Todo depressivo tem uma rica vida interior, acredite, e defende essa interioridade com unhas e dentes. Ele não se abrirá facilmente, só fará isso com quem se sinta seguro. Por isso demora. É preciso passar por inúmeros testes de confiança para que se convença que você tem interesse real por ele, não porque sua depressão está atrapalhando você ou outros.

Em outras palavras, você precisa se tornar um amigo. Daqueles que não importa o que o outro faça, estará ali por ele.

A primeira causa da depressão, a mais importante de todas, é a solidão.

Mas, prestenção!, a solidão de que falo não é qualquer uma, é aquela que você sente por mais que tenha namorado(a)(x), amigos, familiares, colegas. Aquela que se impõe como uma prisão quando você percebe que todos à sua volta só estão ali por hábito, por estar, não tem real interesse por você, não lhe prestam atenção de verdade, não se importam de verdade com o que se passa com você.

A depressão, em verdade, começa por ser uma derrota para essa solidão, uma aceitação que faz com que doa menos não desejar mais nada. Mas aos poucos a depressão se torna a própria fortaleza da solidão, não deixando mais ninguém “entrar” porque a mera possibilidade de sofrer de novo parece pior do que ficar como está. É o famoso “tá ruim, mas tá bom”.

É por isso que depressivos costumam criar um mundo à parte (“a vida é uma merda” é isso, no fim das contas), adoram ficar no seu quarto, na sua cama, costumam ter uma relação quase religiosa com certas músicas tristes, filmes, seriados, livros, personagens que lhes são significativos demais, os verdadeiros amigos, a única coisa que lhes impede de ficar pior. Mas também as distrações e anestesias da solidão tem vida útil e quando acaba o efeito, que fazer?

É aí que está o segredo do sucesso de um seriado como “13 Reasons Why” num mundo com 300 milhões de depressivos e sabe-se lá quantos mais que convivem com um. O que esse seriado mostra, no fim das contas, é justamente esse mundo interior de uma menina depressiva que se sente profundamente só e chegou no seu limite (prestenção!, no limite dela, não no que você acha deveria ser o limite dela), aquele em que a fortaleza se transforma em pena de morte inescapável: o suicídio. 

Por que o seriado incomoda tanta gente, considerando uma “defesa” ou incentivo ao suicídio? Porque a perspectiva da narrativa é quase toda da menina, das suas razões para tanto, sem julgá-la. Seria isso incentivar ou justificar? Surgiu um pesquisa recente dizendo que sim. É provável mesmo, assim como também é perfeitamente possível tenha ocorrido o oposto, ou seja, quem tenha desistido disso por ver o seriado.

Como lidar com esse seriado, então? 

Ver ou não ver? Deixar ver ou proibir? Ora, da mesma forma que se deve lidar com todo e qualquer depressivo: dando-lhe ouvidos. Por isso, para mim, a pior reação possível é dizer que o seriado “não deveria existir”, “a netflix deveria tirar do ar”, “proíbam seus filhos adolescentes de ver” e por aí vai. Quem diz isso não percebe que ao agir assim está dando mais uma razão para o suicídio da menina, porque isso daí não revela nenhuma preocupação por depressivos e suicidas potenciais, apenas medo deles, do que eles podem fazer. (Sem contar que é uma estratégia estúpida, afinal, o proibido é sempre “mais gostoso”)

Aposto que aqueles que se identificaram com a menina verão nessa atitude de censura ou boicote justamente a confirmação das razões apontadas pela personagem: no fundo, ninguém quer “ver” a realidade, “saber como é”.

Nessas horas me lembro de Chesterton quando disse que as crianças têm de saber sobre dragões não para saber que existem, mas para saber que podem ser derrotados.

Por isso prefiro atitude diversa. Se dermos ouvidos à menina, o que ela está dizendo? Que estava só, profundamente só. Que ninguém lhe prestava atenção. Se alguém tivesse sido seu amigo de verdade, será que ela teria chegado a tanto?

Creio que não. Isso não significa concordar com suas razões, ou o julgamento que ela fez de quem não foi seu amigo ou até inimigo. Não se trata aqui de encontrar culpados, mas de reconhecer uma realidade humana, escutando quem a está vivendo, compreendendo, no fim das contas: ela não teve amigos, estava profundamente só, a depressão foi se instalando, consolidando, tornou-se uma fortaleza até se estreitar ao tamanho de uma banheira.

Tive uma aluna que sofre de depressão que me pediu para assistir esse seriado. O psicólogo dela a proibiu de ver, logo, ela viu e queria saber minha opinião. Ela esperava um debate intenso comigo sobre culpa, justiça, vingança, a maldade alheia, buscava uma justificativa para sua depressão, para o que ela desejava fazer e não ousava dizer em voz alta.

Mas só fiz essa mesma pergunta acima: e se alguém tivesse sido amigo dela? Só então ela se deu conta que não tinha amigos de verdade, só conversava de verdade com o psicólogo (não mais depois dessa, claro) e comigo.

Perguntou-me, então: como se faz amigos?

Se tivesse receita não haveria depressão no mundo, mas dei uma sugestão: interesse-se você pela vida de quem você já conhece e veja o que acontece. Mas se interessar de verdade. Ou seja, tentasse ela ser um remédio para a solidão alheia, quem sabe assim não encontraria algum para a dela?

O fim dessa história? Quem disse que solidão tem fim? Ela mudou de psicólogo, aproximou-se mais de uma prima com quem tem boas chances de criar uma amizade real, tem saído mais de casa, mas continua com depressão. Como disse, é preciso paciência, muita paciência e depois, mais paciência.

Mas o melhor sinal que ela está melhorando é que ela preferiu rever “Anne With an E” a “13 Reasons Why”. Por quê? Segundo ela, porque enjoou de ser Hannah Baker (a suicida de 13…) e Anne lhe dá razões para querer viver, não apenas se lamentar.

Qual o remédio para a solidão?

Desde que iniciamos esse projeto para náufragos fiquei com a tarefa de escrever algo sobre solidão. A idéia era fazer algo no estilo “10 coisas que você precisa…” etc. Sinto muito, não consegui.

Por mais que sejamos bem sucedidos em evitar a solidão, nos distrair dela, no fim das contas ela sempre vence. Refiro-me à solidão inescapável, aquela que a morte de um ente querido nos deixa por herança.

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Outra coisa que era para eu fazer nesse projeto: deixar para falar da morte mais à frente. Sinto muito, não consigo. Porque se é para falar de solidão, não dá para deixar a morte para depois.

Ainda mais quando é justamente a memória da morte o remédio da solidão. Quer ver?

Peço um favor, contudo. Este post exige trilha sonora. Então, clica aí no play e segue lendo. Depois explico por que esta música.

Eu tinha 15 anos, era madrugada de verão, em janeiro. Ainda dormindo escutava as batidas em janelas, paredes e portas da casa de madeira da praia. Era uma de minhas tias anunciando. Lembro bem, muito mesmo, de despertar sem despertar.

Eu a escutava, mas me sentia paralisado, como se algo impedisse de ser eu a receber a notícia. Não sei quem levantou, quem abriu a porta, quem escutou primeiro, provavelmente meu pai. Para descobrir que o pai dele tinha falecido havia pouco, em Curitiba.

Lembro da estrada, eu sentado atrás dele, dirigindo, cabeça colada à janela, mirando as estrelas e o silêncio, calado por dentro. Lembro do caixão, das mãos cruzadas do meu avô. Lembro do beijo do meu pai no pai dele, inédito para mim.

Lembro de voltar à vida, sem saber como lidar com a morte. Eu tinha 16 anos.

No ano seguinte um colega de classe escalava uma montanha. Um menino que estava junto se desequilibrou e cairia, não fosse o Fabio. No repuxo, foi ele a morrer. Lembro da segunda-feira no colégio. Lembro do psicólogo da escola dando a notícia, a professora de inglês chorando, nós todos estupefatos. Lembro do ônibus, na ida e na volta do cemitério. Lembro de voltar à vida, tentando e conseguindo não pensar sobre a morte.

Um ano depois foi a vez da minha avó materna. Eu já estava na faculdade. Chegando em casa meu pai me contou. Fui com ele buscar meus irmãos na escola e dali para a casa dela. Tias e minha mãe rezavam dentro do quarto. Ela na cama, amparada no colo de meu avô, que só fazia chorar e lhe dar carinho no rosto e cabelos. Lembro do rumor das rezas, do desespero de meu avô, da cena tão bela quanto meu pai beijando seu pai. Lembro da poltrona vazia na sala de ver TV, lembro do meu avô seguindo em frente, menos coronel, mais avô. Lembro de voltar à vida de novo.

Outras tantas mortes se seguiram, avós e tia de minha esposa, primos queridos, pais de amigos, conhecidos etc., nem sei em que ordem, data, essas coisas, mas lembro. Chegou a vez do meu avô materno. Lembro da comoção de minha mãe, lembro do cemitério cheio, lembro de já não achar nada demais na morte, tinha meu filho.

Minha avó paterna resistiu bastante tempo, sofreu com o câncer. Lembro de fazer questão que meu filho visse o caixão. Lembro de passear com ele pelo cemitério, tentando explicar, inútil. Lembro dele comendo pipoca doce, aquela do pacote rosa, dele colocando sorrisos em rostos nublados. Lembro do fim, da hora de ir embora, lembro de não querer pensar na hipótese de meu filho morrer antes de mim. Lembro de ter certeza de que não suportaria.

Poucos anos depois a morte mais próxima. Entre adoecer e morrer, uma quaresma. A morte vem inteira, depois aos poucos. Lembro de termos conseguido levantá-lo da cama, ao menos para ver os netos. Lembro do meu caçula ser o primeiro a dar um abraço, sem estranhar o cheiro da morte, tão assustador para as crianças. Lembro de ouvir o sussurro do meu pai: “obrigado”.

Lembro dos médicos alertando, diversas vezes, “difícil passar dessa noite”, lembro de ter me despedido algumas vezes, lembro dele seguidamente passar daquelas noites. Lembro do absurdo da negativa do plano de saúde, dos trezentos e sei lá quantos mais mil reais, impagáveis, juntados em poucas horas para garantir internamento no Sírio Libanês. Conseguimos, e ele, que a tudo assistia, impotente, conseguiu dizer: “obrigado”.

Lembro de trabalhar no chão da UTI, lembro da picanha em plena UTI no dia do aniversário. Lembro que nunca vi minha mãe tão frágil e tão forte, tão mãe, e ela nem desconfiava. Lembro de Santa Luzia, da novena que tantos fizeram e que se não trouxe a cura o deixou forte suficiente para voltar a Curitiba, onde teve forças para, em meio ao calor insuportável, pedir cerveja, do que rimos, apenas rimos.

Lembro que só o vi chorar uma vez, quando na primeira UTI, mãos dadas comigo e minha mãe, ela lhe perguntou: “você tem medo por que não sabe como ficarão seus filhos, não é?”.

Ele ajudava demais, porque ele era assim, porque nós precisávamos demais. Lembro do telefonema, da mãe acordando assustada às 3h, lembro de não precisar dizer nada, lembro de só abraçá-la. Lembro de beijá-lo, como um dia ele fizera com seu pai. Lembro de enterrá-lo, como se isso fosse possível.

Lembro que quando sepultamos o pai do meu pai a árvore próxima ao túmulo me chamou a atenção, bem frondosa. Sim, essa que aparece desfolhada atrás do meu caçula na foto em destaque. Lembro que escrevi a maior parte deste texto num dia de finados, dia de lembrar e deixar doer a solidão da perda. Lembro do céu tão ou mais cinza que no dia daquela foto. Lembro que não fui ao cemitério no dia dos mortos, antecipando-me, como a morte fez com meu pai.

Lembro de ter ido com meus meninos, minha esposa, minha mãe. Lembro que chovia, lembro que faltavam as flores encomendadas, lembro da minha mãe preocupada se seriam colocadas para o dia “certo”. Lembro que, na saída, minha esposa me disse: “quando você se for trarei chocolates”. Lembro que rimos, o combinado é eu ir antes. Pelo histórico familiar, é provável.

Lembro que semanas depois da morte do meu pai soube da história de Warren Zevon, o cara da música que estamos escutando. Quando descobriu que tinha um câncer incurável decidiu gravar um último disco, The Wind. Ele morreu duas semanas depois de lançá-lo, em 2003. Descobri a história por conta da última música do disco, cujo clipe – esse mesmo – assisti sem querer.

Nela ele pede para que os seus se lembrem dele um pouco mais depois que ele se fosse.

Não sei por que associei essa música a meu pai, mas sempre que vou ao cemitério a escuto de novo. Gosto de imaginá-lo pedindo algo assim, acho que pede.

Lembro que dias depois daquela ida minha mãe foi ao cemitério sozinha. Acertou as contas com quem cuidava da lápide, floristas etc. Na saída, o rapaz que sempre cuidou de tudo, mesmo não recebendo, veio correndo lhe dar um vaso com duas orquídeas lindas. De presente. É claro que foi meu pai.

Eis o remédio para a solidão.

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Levando o vampiro pra passear

Uma segunda-feira sem amanhecer em Curitiba, semana passada. Névoa insistente, viscosa, sombria, não cedia. Foi-se a manhã, hora do almoço, tarde passou e ela não, escurecendo a noite também. Típica Curitiba, dirão. Dias assim, chumbados, quase brancos, sem céu, só chuvisco, chuva, tempestade, frio, enfim, ainda acontecem, eu sei, mas não tanto como antigamente, nem tão intensos como segunda passada. Mas aquela nuvem opressora – perdoem o linguajar militante, mas a imagem é boa, a bruma tinha a aparência e consistência disso tudo aí que ofende tanta gente – não era apenas mais um clichê curitibano, era a forma de todos eles.

Lembrei-me, não sem saudade, das idas à escola na infância. O trajeto era sempre o mesmo, passávamos por uma ladeira íngreme. Em dias de neblina pesada ela parecia ter desaparecido, apenas mergulhávamos onde ela deveria estar, sem nada enxergar, salvo quando chegávamos ao fim da descida e ao rés do chão se revelava que nem tudo fora engolido por aquele quase nada cinzento, para logo sermos tragados por ele mais uma vez, quando decolávamos para o alto. Como dias assim não eram incomuns, seria conveniente associar à introspecção, o mau humor, a desconfiança, essas coisas aí que faziam do curitibano um ser “fechado”. Se ainda é, não sei, parece que já não pega bem recusar conversar no elevador. Eis que me descubro mais próximo de um Dalton Trevisan que dessa curitibanagem do novo milênio que não sei bem o que é, quem são, como vivem, do que se alimentam – e tenho raiva de quem sabe.

Eis que me descubro mais próximo de um Dalton Trevisan que dessa curitibanagem do novo milênio

Decidi revisitá-lo, mergulhando n’O Vampiro de Curitiba, lendo de um fôlego só. Nelsinho, o Delicado, continua o mesmo, a névoa combina bem com ele, realmente, também a atmosfera sufocante, a curitibanice dantanho. Fez-me lembrar de umas revistas literárias curitibanas que andei lendo poucos anos atrás, trazendo novos escritores locais, nem recordo os nomes, das revistas e autores, só da presença onipresente do arquétipo daltoniano, sempre sombrio. Em alguns, o molde era explícito, paternidade aceita, amada, ainda que fosse nítido devessem ser outros escritores, ter outros modelos. Em alguns, porém, a influência trazia tensão, angústia, apesar do modelo prevalecer, sufocando. Enfim, a mesma névoa tornando todos iguais. Como escapar?

Não escapando, mas indo até o fundo, até lá onde a névoa não alcança, como no conto final do livro, “A Noite da Paixão”. A cerração satírica do sacrifício de Cristo não cobriu tudo, não se completou. Nelsinho suspendeu o passo na penúltima linha do conto, sentindo a terra tremer a seus pés. O “Sou inocente, meu Pai” com que o conto termina seria apenas mais uma provocação, não fosse esse Pai maiúsculo ali, reverência única no livro todo, que não redime, mas também deixa de se condenar, no fim das contas. Não li a obra toda de Dalton, mas desconfio não tenha outro conto assim, com um fiapo de esperança nesse negrume desesperançado. Tomara eu esteja errado.

E não é que na terça, e por toda a semana, a neblina não apareceu, salvo de manhãzinha? Um frio daqueles, dias límpidos, céu de azul infinito e profundo, com sol distante de raios suaves. Foi irresistível, tive de passar pela ladeira da infância. No som do carro, Johnny Cash, o da fase final da carreira, cantando que, se pudesse começar de novo, ele encontraria o caminho. Aumentei o volume quando arremeti o carro ladeira acima. No banco do passageiro, o livro do vampiro. Trouxe comigo, achei precisava tomar um pouco de sol.

Leia submissão. Leia submissão…

Quantos atentados terroristas foram cometidos semana passada? Sim, não houve só o da boate nos EUA. Alguém está contando?

Estaríamos distantes do tempo em que isso será normal, parte do dia a dia, não um horror, mais um incômodo? O fato de a mídia não noticiar todos ou, no máximo, informar a maioria como se fosse coisa corriqueira não seria sinal de que já vivemos assim?

Nós, brasileiros, sabemos o que é isso, como é viver habituado ao crime, ao terror. São mais de 60 mil homicídios ao ano, números que deveriam falar por si, mas e daí?

Seguimos a vida em meio à insegurança pública, aprendendo a ser espertos, não “dar mole”. Se acontece com alguém próximo, sofremos, sim, mas não como se fosse inesperado, mais como os azarados da vez. Não é assim? Quão insensíveis não precisamos ser, tornando-nos indiferentes até certo ponto, para suportar viver nesse estado de medo constante?

Semana passada visitei a Mesquita de Curitiba. Estacionei o carro ao lado da Igreja do Rosário e segui a pé, passando pela praça Garibaldi e adiante. Mudei de trajeto umas três vezes, por receio de ser assaltado. Se o fosse, sentiria-me um tolo, afinal, por que não parei em estacionamento mais próximo? Por “sorte”, escapei.

Na Mesquita, um tipo diferente de medo. Em função do terror islâmico, é óbvio que tanto ocidentais como muçulmanos que condenam o terrorismo se vejam com receio, não sabendo bem como lidar uns com os outros. Aos poucos, com o gelo quebrado e as conversas iniciadas, o temor diminuiu, dando lugar à curiosidade dos visitantes e à abertura ao diálogo de quem recebia.

A razão da minha ida foi a leitura de Submissão, de Michel Houellebecq. 

Michel Houellebecq, o autor do livro.

A quem nada sabe sobre, a história se passa na França, em 2022, quando um presidente muçulmano moderado é eleito em meio a uma guerra civil entre muçulmanos e identitários (leia o livro para entender). Mas essa guerra faz parte da rotina, da paisagem. A mídia já não noticia, os franceses não se importam tanto, apenas se preocupam em desviar dos pontos de conflito. Quão próximo, não? Mas um muçulmano sendo eleito – seria possível?

Mais que Possível. O atual prefeito de Londres é muçulmano, parece que tão moderado quanto Ben Abbes, o presidente francês na ficção de Houellebecq. Tal como Abbes, Sadiq Khan começou, com habilidade política, a impor seus valores. Aproveitando-se do griteiro feminista contra um anúncio publicitário mostrando o que seria um “corpo ideal” para exibir na praia, o prefeito proibiu o anúncio, dizendo que isso diminui as mulheres, fazendo-lhes terem vergonha de seus corpos e, por isso, “passou da hora disso chegar ao fim”. Não há registro, até o momento em que escrevo, de maiores reclamações contra a proibição. Fosse o prefeito um católico…

Mas nem é preciso o governante ser muçulmano. Depois dos ataques sexuais num ano-novo na Alemanha, cometidos em sua imensa maioria por imigrantes muçulmanos recém-chegados, o ministro da Justiça, Heiko Maas, prometeu banir anúncios que aparentem tratar a mulher como objeto sexual. Daí para dizer que se elas estivessem de burca não teriam sido atacadas, demora quanto tempo? No livro, no que Ben Abbes foi eleito, a violência, os atentados diminuíram, praticamente acabaram, quase que instantaneamente. Haverá atentados em Londres durante o mandato de Sadiq Khan? Aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Ou leia Submissão.

O Trágico Thomas Mann

Thomas Mann nunca foi “apenas” um escritor.

Leitura das mais reveladoras é o livro “Correspondência entre Amigos”, conjunto de cartas trocadas com Herman Hesse. Enquanto Hesse respondia à tragédia de seu tempo como escritor típico, retratando o que vivia e testemunhava, sem maiores ambições, Mann estava cheio delas, assumia-se “porta-voz” da razão, queria esclarecer, orientar, conclamar à ação contra a tirania. Foi dos poucos escritores alemães, por exemplo, a enfrentar publicamente o nazismo e enquanto viveu nos EUA tudo fez para convencer os americanos da necessidade de agirem contra Hitler.

Logo, seus romances, em especial, nunca são “apenas” literatura de ficção, mesclando pensamentos, filosofias, críticas etc., com propósito, digamos, pedagógico. Em “A Montanha Mágica”, possivelmente sua obra mais conhecida, escrita depois do fim da primeira guerra, temos um narrador que não hesita em explicar (quase) tudo o que está narrando, às vezes em detalhes. Quando não, o contexto nunca deixa margem para muita dúvida sobre o significado do uso de determinados símbolos.

Por isso Carpeaux o considerava mais ensaísta que romancista.

Além disso, por escrever antes a seus contemporâneos, aos homens daquela época, vivendo naquele contexto, será um escritor datado, com romances caducos, para usar expressão do mesmo Carpeaux em seu ensaio “O Admirável Thomas Mann”, presente em “A Cinza do Purgatório”, que recebeu nova e caprichada edição recente, pela Livraria Editora Danúbio.

Será, porque ainda não é.

I – O Medíocre Exemplar:

O tipo mais comum da sociedade daquela época, início de século XX, é representado por Hans Castorp, o “herói” de “A Montanha Mágica”. O narrador nos conta que ele nada tinha de especial, não era melhor nem pior do que ninguém e, quando criança e adolescente, atendia às exigências escolares e os deveres sociais, tendo tudo, portanto, para dar certo. Mas o que significa “dar certo”? E isso importa, se parece não haver como dar certo? Deixemos que o narrador nos explique:

“O indivíduo pode visar numerosos objetivos pessoais, finalidades, esperanças, perspectivas, que lhe dêem o impulso para grandes esforços e elevadas atividades; mas quando o elemento impessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, não obstante toda a agitação exterior, carece no fundo de esperanças e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador, desorientado e falto de saída, e responde com um silêncio vazio à pergunta que se faz consciente ou inconscientemente, mas em todo caso se faz, a pergunta pelo sentido supremo, ultrapessoal e absoluto, de toda atividade e de todo esforço — então se tornará inevitável, justamente entre as natureza mais retas, o efeito paralisador desse estado de coisas, e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral, e de afetar a própria parte física e orgânica do indivíduo.”

Sendo inevitável, pouco importa a vida que poderia ter sido e não será, nem foi. Eis o destino, então: a paralisia, primeiro, diante da ausência de sentido e perspectiva na vida, seguida do adoecer na alma e no corpo. É ou não é atual? Sigamos.

Ao chegar na montanha, onde fica o sanatório Berghof, Castorp escutou um doente tossir e intuiu, com acerto: “É como se se descortinasse o interior do homem, e tudo fosse lodo e pântano…”. Mais além, escutou um dos pacientes brincando com um revólver dizer que se a consciência começasse a incomodar muito daria um tiro na cabeça e resolveria logo o problema.

Castorp sabia onde estava se metendo. Ainda assim, lá ficou, entregando-se à paralisia, ou seja, à aparente ausência da passagem do tempo no lugar. Não demorou e já nos primeiros dias percebeu o efeito, seu corpo se “descolando” da alma: “eu queria somente dizer que é uma coisa sinistra e penosa ver o corpo levar uma existência própria, independente da alma, e dar-se ares de importância (…)”.

É aí que a “mágica” teve início. O que era “coisa sinistra e penosa” foi se tornando, aos poucos e cada vez mais, algo bom. Castorp passou a enxergar o local com outros olhos, chegando a exaltá-lo, dizendo se sentir mais inteligente só por estar ali. Essa inversão não seria possível sem a influência do psicólogo, o médico da alma no sanatório. Para ele, a doença era um privilégio numa época como aquela, aqueles doentes tinham a chance de resgatar o “amor perdido”. Era com mistificações assim que acabavam romantizando a doença. Foi o que o escritor Settembrini, também paciente ali, percebeu em Castorp, vendo nele uma “tendência a se arraigar no caráter” a de ver na doença uma forma de espiritualização. Decidiu intervir:

“não me fale da ‘espiritualização’ que pode resultar da enfermidade, por amor de Deus não faça isto! Uma alma sem corpo é tão desumana e horripilante quanto um corpo sem alma. A primeira é, aliás, uma rara exceção, e o segundo, o mais comum. Via de regra é o corpo que exubera, açambarca a vida e toda a importância, e se emancipa da maneira mais asquerosa. Um homem que vive enfermo é corpo e nada mais, e nisto está o anti-humano, o aviltante… na maioria das vezes não vale mais que um cadáver”.

Joachim, primo de Castorp e lá também internado, lembrou que o próprio Castorp dissera algo parecido dias antes, o que só confirmou a opinião de Settembrini: “(…) é um diletante do espírito e simplesmente se entrega, à maneira dos jovens talentosos, a experiências com toda espécie de conceitos possíveis. ”Não sendo bem sucedido em convencer Castorp a ir embora daquele mundo em que se vivia “na horizontal”, Settembrini tentou assumir, então, o papel do educador:

“Um jovem de talento não é uma folha em branco, senão uma folha sobre a qual já tudo foi escrito, com tinta simpática, por assim dizer, tudo, tanto o bem como o mal, e cumpre ao educador desenvolver decididamente o bem e apagar, mediante uma influência adequada, o mal que deseje manifestar-se…”

Mas foi inútil, como o próprio Castorp confessou mais à frente:

no início a gente se escandaliza e experimenta sentimentos de distância, mas de repente ‘intromete-se qualquer coisa completamente diversa’, que ‘nada tem que ver com o juízo’, e logo se acaba a indignação moral, a ponto de as pessoas se tornarem quase inacessíveis a influências pedagógicas de natureza republicana ou eloquente.”

Essa “coisa completamente diversa” se personificou na figura de Clawdia Chauchat. Embora, no início, Castorp a odiasse, achando-a vulgar, mal educada e irritante, quanto mais se entregava àquela vida, mais invertia o sentido de tudo, acabando por se apaixonar por Clawdia, ou seja, passou a amar a doença. Daí em diante temos um mergulho no irreal, no mágico mundo dos prazeres sensoriais, nas enfermidades “dignificantes” do corpo e a busca de respostas no inconsciente, maneira eficaz de nunca se tornar responsável por nada.

Sobre Castorp, no fim das contas, vale a impressão de outro médico do lugar, o médico do corpo, Behrens. Ao ver que ele se entregava voluntariamente à doença, não teve dúvida em acusá-lo: “O senhor é uma espécie de covarde e de hipócrita, meu caro(…). O senhor quer me importunar e maçar, para que eu o confirme na sua maldita hipocrisia e para que o senhor possa dormir o sono dos justos, enquanto outras pessoas velam e se expõem à tempestade.”

Hoje, há epidemia de Hans Castorp.

II – Diagnosticando a Doença:

Quem seria melhor? O próprio Behrens, é claro, considerava-se um. Mas sem sucesso.

Seus tratamentos não surtiam efeito e, em vários casos, a medicação acabava por justificar a paralisia, tornada invalidez.

Settembrini se achava outro, apesar de ali estar tão doente quanto. A seu lado, disputando o posto de educador do medíocre Castorp, estava Naphta, o padre jesuíta. Por conta disso, travaram inúmeros debates nos quais aos poucos foram revelando seus ideais e valores. Settembrini amava o progresso material, o avanço tecnológico, sendo individualista ferrenho, liberal e burguês, também positivista, acreditando no poder do homem de comandar todas as coisas, daqueles “humanistas” com fé na salvação do homem pelo homem. Naphta, por sua vez, apesar de padre, estava longe de representar a tradição cristã, travestindo nessa roupagem um discurso comunista, socialista, antecipando em décadas o que viria a ser a teologia da libertação.

Sabemos que nenhum deles conquistou a mente e o coração de Castorp, falharam como Behrens. Mas seu fracasso tem outra função pedagógica no romance. Acompanhando suas discussões, a uma certa altura vemos que suas vozes começam a se confundir, a tal ponto que já não sabemos quem defende o quê, quem era quem. É aqui que a montanha mágica de Thomas Mann começa a revelar o seu arquétipo: a bíblica Torre de Babel.

“A Torre de Babel” — Pieter Bruegel

Não por acaso construída depois de um período de progresso da humanidade, a história da Torre de Babel é a história de uma sociedade presunçosa com suas conquistas, crendo ser capaz de chegar aos céus por conta própria, sem precisar de Deus. Naphta e Settembrini, ao se confundirem numa língua só, são como faces da mesma moeda, justamente a do materialismo progressista que vem dando forma à sociedade humana desde antes e ainda hoje. O arquétipo nos fornece, então, um diagnóstico. A doença é espiritual, sua causa a presunção orgulhosa.

Mais para o fim do livro surge a figura dionisíaca do alcóolatra Peeperkorn, já idoso, ainda dotado de uma forte personalidade encantando a todos e que lá se suicidará. Três símbolos são usados de maneira significativa aqui.

Primeiro, a águia, rainha das aves, símbolo da força do Espírito, de Deus. Em um passeio, Peeperkorn foi a único a percebê-la, chamando a atenção dos demais. Pediu, então, que ela descesse e cravasse suas garras na cabeça e nos olhos do homem. A cabeça é símbolo do Espírito manifestado no homem, enquanto os olhos simbolizam sua percepção intelectual, a intuição da verdade. O contexto, portanto, não deixa dúvida: trata-se de uma consciência desperta, logo, culpada, clamando por uma punição que sabe ser merecida.

Mas o orgulho não é o pior dos pecados por acaso. É a raiz de todos e seu senhor, pervertendo todo bem. A consciência culpada, se não leva à humilhação do ajoelhar-se implorando o perdão de Deus, leva ao desespero da impossibilidade de qualquer perdão, inclusive o próprio. Assim, só pode restar ao soberbo julgar a si mesmo, sempre se condenando, aplicando punição por conta própria. A culminação do orgulho, sua realização final, é a recusa renitente da misericórdia, do amor divino. É o caso aqui.

Por isso, a resposta do Espírito a Peeperkorn, simbolizada pela cachoeira — o segundo símbolo — diante da qual ele fez um discurso inaudível, é mais clamorosa ainda. Se a montanha simboliza o movimento ascendente do homem ao espírito, a cachoeira é o movimento descendente da atividade celeste. Assim, o fato do discurso ter sido inaudível se deu menos pelo que nele se disse do que pela força das águas que o calaram. Deus não dá ouvidos aos soberbos, somente aos arrependidos de coração, sinceros e humildes. Só a verdade liberta.

Daí a vitória do orgulho, simbolizada no terceiro símbolo, o da serpente, a naja com cujo veneno Peeperkorn se matou. Vale ressaltar o fato de Thomas Mann trabalhar aqui com os símbolos da águia e da serpente juntas no mesmo contexto. São inimigas simbólicas, significando a luta entre anjos e demônios, o Bem e o Mal. Sendo um alcóolatra, o veneno da naja nada mais foi do que seu último gole. A serpente, portanto, significa aqui a derrota do homem para si mesmo, seus vícios e imperfeições, não havendo maior do que o orgulho que a todos os outros maneja e alimenta.

Peeperkorn, assim, condensa o destino de todos os internados no sanatório. Todos estão, aos poucos, se matando. A obstinação no orgulho que torna a doença algo bom, a obstinação no orgulho que torna irreconciliáveis as aparentes diferenças ideológicas que continuam a nos formatar ainda hoje, a obstinação no orgulho que nos faz escravos e carrascos de nós mesmos. Com isso, o simbolismo do sanatório construído na montanha mágica ganha todo seu significado.

A montanha, como símbolo, tem significado mais comum ser, justamente, a morada dos deuses e objetivo da ascensão espiritual humana. No romance, como toda a história já se passa lá, não temos uma história de ascensão, ou algo como um típico “romance de formação” alemão. Não, a “formação” já foi feita e ali temos seus frutos: paralisia, doença, “lodo e pântano”. Para lá os doentes não sobem para chegar a Deus, muito menos destroná-Lo. Não, para lá se vai em busca de cura, que não sendo do nosso orgulho, só pode ser Dele, no fim das contas.

Por isso, uma coletividade de orgulhosos nada mais é do que um ajuntamento de demônios. Não à toa Settembrini é apresentado no capítulo intitulado “Satã”, enquanto Naphta em “Mais Alguém”.

Hoje, Naphtas e Settembrinis são legião.

III – O Trágico Thomas Mann:

Temos, por fim, um último símbolo, fechando o romance: o trovão anunciando tempestade. Símbolo da ira divina e anúncio de Sua justiça próxima, como Mann enxergava, portanto, a eclosão da Primeira Grande Guerra. Como no arquétipo, à queda precedeu a confusão de línguas, simbolizada nos debates entre Naphta e Settembrini, cujo resultado seria/foi a guerra, simbolizada no duelo entre ambos, fatal para Naphta.

Mas como toda punição traz consigo também possibilidade de purificação, de cura, daí tudo terminar com uma pergunta, que não deixa de ser uma esperança: “será que também da festa universal da morte, da perniciosa febre que ao nosso redor inflama o céu desta noite chuvosa, surgirá um dia o amor?”

Mas que é o amor? Do que se está falando? Assim como antes o psicólogo do sanatório se referiu ao “resgate do amor”, sem dizer o que realmente entendia por isso, também aqui o narrador o usa como se não precisasse dizer mais. Mas para quem explicou tanto, detalhou tanto, não convence. Difícil discordar de Carpeaux, mais uma vez: Thomas Mann, na realidade, não acreditava na cura, apesar de todos os seus esforços por ela. Por isso também era mais um “doente”, tornando-se ele próprio uma figura simbólica de seu tempo, do nosso tempo, com muito a nos dizer e ensinar, certamente, mas como figura tão trágica quanto seus personagens.

IV – A Montanha Mágica atual:

Depois de gerações nascendo e morrendo na Montanha Mágica já não faz sentido falarmos em doença. Progredimos muitos desde então. Fizemos da doença nosso estado normal, logo, não estamos mais doentes. Espírito se tornou palavra sem sentido, o que importa é ser feliz, magicamente feliz. Mas ainda não nos curamos Dele, daí precisarmos falar sobre aborto, por exemplo.

Hoje, toda forma de amor é válida.

Há dois anos, morria o meu pai

Há dois anos meu pai morria. Durante esses dois anos foi assim:

“E quem diria o amanhã seria tão estranho? 
Minha perda, e lá vamos nós de novo.”

Reza a lenda esta “carta” teria sido escrita por Michael Stipe, compositor e vocalista, a River Phoenix, o ator irmão do Joaquim, que havia morrido pouco antes. Eram amigos. Nunca pensei em escrever uma carta a meu pai, mas nem preciso, converso muito com ele. Mais agora do que antes de morrer. Sei lá, é como se sua morte tivesse me “levado lá”, onde não há o cheiro do medo. Acho que levou mesmo. Espero ficar.

No sábado, assisti Miss you already, um desses dramas sobre câncer e morte. “E lá fomos nós de novo”. O filme não é ruim, até surpreende em alguns momentos, como ao falar do Espírito. A moribunda não era religiosa nem nada, ninguém era. Quando contou à filha que iria morrer, a menina se revoltou. Então, disse-lhe que “em espírito” estaria sempre presente. A filha respondeu: “Espírito, que droga é isso?”. A certa altura ela disse a sua amiga esperava existisse mesmo um Paraíso, perguntando: “Será que me deixarão entrar?”. Sua amiga respondeu: “Só se não forem muito exigentes”, completando dizendo que ela era hipócrita. E era mesmo. Losing my Religion, do R.E.M, faz parte da trilha. Boa sacada. Filme honesto, recomendo.

No fim, a estupidez da morte é integrada no amor, unindo ainda mais os que ficaram.

O Espírito nunca abandona, ainda que nem saibamos o que seja, melhor dizendo, nem quem É. Ah, mas faz uma diferença saber… Uma diferença imensurável conhecê-Lo. É uma pessoa, você pode conhecê-Lo como conhece qualquer outra pessoa: basta prestar atenção nela. Ou esperar a morte para fazer isso. Porque, acredite, a morte lhe fará prestar atenção Nele. Ainda que para rejeitá-Lo, de novo.

O dia hoje amanheceu chuvoso, céu de chumbo. Pela janela o avistei, como no clipe de E-Bow The Letter, estava no clima de E-Bow The Letter, aliás. Até tentei ficar mais triste, não consegui. Há dois anos meu pai não morre mais. Nunca morreu, na verdade, nem morrerá. A morte não existe. “Oh life, it’s bigger.”

Nem ia escrever nada hoje, acho que já escrevi demais sobre. Mas, que importa? (meu dito predileto: que importa?).

Escreverei sempre, ainda mais no Natal, quando Ele faz novas todas as coisas, como agora, com esse filme – ao menos para mim. Ele me apresentou a música abaixo. Apesar dos clichês, um verso me pegou: “Porque quando as despedidas forem fáceis, estaremos todos sozinhos.

E é verdade. Aí tudo o mais só me fez sorrir. Peguei o violão e acompanhei na voz também:

Há um lugar 
Em algum lugar entre o sonho e a vigília
Lá encontraremos um ao outro
E eu sei que isso soa estúpido
Mas dará a ambos algo para encontrar.

Clichês costumam ser estúpidos, não quando estão vivos. Meu pai é um clichezão para mim, vive e mora em meu coração. 🙂

Dia dos pais 2015

Meu pai está mais vivo morto. Digo isso e sinto o interlocutor me dando adeus mentalmente, pensando aham, enquanto se esforça por parecer convincente no seu “Que coisa linda, cara!”. Prefiro amigo vivo, indo direto ao ponto: “Isso é coisa da sua imaginação”. E é mesmo, claro que é, exatamente isso. Mas o que para muitos é mentira, ficção, viagem na maionese, ou loucura mesmo, para mim é mais real e concreto e significativo do que QUALQUER presença corporal.

Antes do meu pai morrer, já tinha altos papos com Marlow (o narrador preferido de Joseph Conrad), consultava-me frequentemente com Maigret (Simenon me permite acompanhá-los em seus passeios depois do trabalho) e trocava olhares com José Geraldo Vieira sempre que era incompreendido pelos mais próximos (não é, Zé?). Mas nada se compara à presença do meu pai, tão imaginária quanto.

Desde sua morte não preciso pensar, muito menos dizer; ele está aqui.

Ele nunca fala, porém. Nem dá conselhos ou orienta. Só me olha, com um sorriso terno, profundamente compreensivo, compreensivo como nunca, como ninguém. Não há uma merda que eu faça que lhe ofenda, irrite, agrida. Nada. Ele só me olha, e perdoa. Tudo. Nunca me senti tão conhecido, nem tão amado.

Sempre que vou à missa ele está lá, como hoje, na frente, junto do altar, mas como criança. Brinca bastante com outras que estão por ali, correndo por todo lado. Não sei quem são. Só sei que perto de mim está Nossa Senhora, ela me abraça e consola. Queria brincar também, ao menos ficar mais perto, mas não posso, nessa morada não posso entrar. Meu pai me olha de vez em quando, suado e alegre, e em segundos volta a correr e brincar. Deixo-me ficar no colo de Nossa Senhora, pergunto se ele está bem, peço cuide bem dele. Ela nada responde, não precisa.

Se meu pai está no Paraíso? Não sei, não sou Deus para saber. Rezo para que sim. Só o que sei é que Deus é tão bom, mas tão bom comigo que seja lá onde meu pai esteja, ao meu lado ficará também, e para sempre, disso tenho certeza, daquelas absolutas. Nunca antes me senti tão grato.

Aí percebo que Jesus, que estava no meio das crianças e não parecia notar minha presença distante, está me olhando. Ele me olha com um sorriso terno, profundamente compreensivo, compreensivo como nunca, como ninguém. Não há uma merda que eu faça que lhe ofenda, irrite, agrida. Nada. Ele só me olha, e perdoa. Tudo. Nunca me senti tão conhecido, nem tão amado.

Feliz dia dos pais, pai. E obrigado.

Aprendendo a morrer com Johnny Cash

Johnny Cash faleceu aos 71 anos, em 2003. Dois anos depois sua história da infância à união com June Carter – a mulher de sua vida – em 1968, foi levada aos cinemas. Walk The Line (no Brasil, Johnny e June) não é ruim, mas como a vida posterior dele, especialmente da década de 1990 até sua morte, foi mais do que relevante, ressignificando tudo que fez e lhe aconteceu antes, o filme é, no fim das contas, um desperdício incrível de boa história, de vida.
 
Mas talvez não tenha sido desperdício. A intenção de Cash quando decidiu filmar sua história, em 1998, não era, segundo o produtor James Keach, a de fazer: “Um filme sobre drogas, sexo e rock’n roll, mas sobre sua jornada como homem, seu amor por June e o fato de que Deus estava no centro dessa história”.
 
Quem quer que assista o filme sabe que a jornada e o amor estão lá, mas e Deus? E no centro da história? É inegável que não. Em sua biografia oficial, donde tirei a fala de Keach, consta que Cash dizia não confiar no pessoal de Hollywood. Tinha razão mesmo. O script original fora vendido à Sony em 2000, mas o filme só teve sua produção iniciada em 2004, quando John e June já tinham morrido e não poderiam mais dar pitaco no roteiro…
 

Resultado: tiraram Deus não só do centro, mas da sua história.

Não é difícil imaginar a razão. O que também explicaria por que o filme não foi além do casamento com June, pois a partir de 1971 seria muito difícil esconder Deus em sua vida, tendo sido o ano em que John se tornaria o famoso “Homem de Preto”, justificando-se na canção de mesmo título:
 
“Eu visto o preto pelos que nunca leram ou escutaram as palavras que Jesus disse / Sobre o caminho para a felicidade através do amor e caridade. / Por quê?, você poderia se perguntar. /Ele está falando diretamente para você e para mim.”

 

Mais ainda, durante toda a década de 1970, enquanto vivia o auge do sucesso, também intensificava sua fé, produzindo um filme sobre a vida de Cristo, tornando-se ávido leitor dos primeiros padres da Igreja e fazendo vários cursos bíblicos por correspondência, finalizados em 1977, com diplomas e tudo o mais.

Um em especial o impressionou, sobre o apóstolo Paulo, tanto que resolveu escrever um livro sobre São Paulo Apóstolo. Infelizmente, nem em sua biografia oficial, supostamente voltada para destacar seu lado espiritual, faz-se menção à história da escrita desse livro que levou dez anos para ser terminado. Conhecê-la é indispensável, pois por ela se revela quem estava, de fato, no centro da vida de John R. Cash:

Deus sempre esteve no centro

No prefácio do livro, um romance intitulado The Man In White, John contou ter passado noites e noites em claro entre 1978 e 1979, lendo e meditando, fascinado, principalmente pela conversão de Saulo em Paulo, perguntando-se: o que ele teria visto e ouvido quando a luz lhe cegou na estrada de Damasco?
A pergunta não era mera curiosidade. John exigia vislumbrar o mesmo que Saulo vira. Sem isso, não terminaria a história, estava decidido. Porque ele acreditava, realmente acreditava, ser merecedor, destinado a tanto. Ele se via como Saulo, um escolhido de Deus.

Essa certeza vinha desde pequeno. Sua mãe lhe dizia que o dom recebido (a voz) o destinava a grandes coisas, sempre repetindo isso nos momentos mais difíceis da vida do filho, não o deixando esmorecer, nem desistir.

Mas nem tudo que sobe, desce.

 
Se quando começou a usar drogas, nos anos 1960, dizia terem sido enviadas por Deus para melhorar sua performance, nada mais “lógico” do que exigir de Deus, anos depois, uma revelação divina extraordinária para terminar de escrever um livro. É o que dá colocar Deus no centro da vida, mas continuar no comando dela: não demora e logo você passa a justificar Nele o que não passa de pecados decorrentes de sua soberba.
 
Para tipos assim Deus costuma aparecer como abortivo. A dose adequada depende do peso do paciente. A Saulo de Tarso, um anjo de luz; a Johnny Cash, um avestruz.

Waldo & Johnny.

Estamos em 1981. John fazia uma pausa da sua escrita, caminhando por sua fazenda, quando foi surpreendido por Waldo, um dos avestruzes de sua criação, perdido, assustado e querendo briga. O resultado do confronto foram cinco costelas quebradas, necessidade de tomar medicamentos que levaram à “necessidade” de pílulas para dormir, daí descambando para outras drogas e… voilà, ei-lo novamente viciado no espinho na carne.
 
Ele se tornou intratável, ainda mais egoísta, fazendo seus próximos sofrerem com sua vida declinando a olhos vistos. Nick Lowe, então seu genro e testemunha do drama, decidiu compor uma música a respeito – que só conseguiria terminar na década seguinte – chamada The Beast in Me, que nos fornece boa noção do estado de Johnny Cash nesse período:
 

“O monstro em mim está enjaulado por barras fracas e frágeis. / Inquieto de dia e, de noite, cria confusão e se enfurece com as estrelas. / Deus ajude o monstro em mim”.

 
Em 1983, o abuso de remédios corroeu seu estômago, perfurando-o. Internado para uma cirurgia de emergência que durou sete horas e retirou partes de seu fígado, estômago e intestino, ficou entre a vida e a morte durante dias.
 
Entre uma e outra alucinação causada pela morfina – nenhum outro medicamento fazia efeito, por causa do vício – John acompanhava, despercebido, seus entes queridos conversando, demonstrando seu amor por ele, tornando-o consciente de sua ingratidão. O golpe decisivo a transpassar seu coração foi escutar sua mãe rezando:
 

“Senhor, Você levou um de meus meninos, e se Você for levar esse, ele é Seu, mas eu imploro, deixe-o viver e ensine a servir melhor. Certamente o Senhor ainda tem trabalho para ele fazer.”

Foi na dose certa. Arrependido, decidiu se consertar mais uma vez, imediatamente aceitando internação numa clínica de reabilitação, pedindo a June uma única coisa: levasse o manuscrito contendo o romance sobre o apóstolo.
 
Durante os dois anos seguintes trabalhou com afinco, mas, de novo, o capítulo sobre a estrada de Damasco lhe empacava, insistindo precisar de mais do que sua imaginação, rezando por uma visão, uma revelação, qualquer coisa que o ajudasse a escrever. O soberbo ainda resistia, portanto. Logo, veio nova pancada: no dia 23 de dezembro de 1985, seu pai, Ray Cash, faleceu.

Ray Cash (1897–1985).

John sempre teve uma relação complicada com o pai, que fora alcóolatra, explosivo, violento às vezes – embora nunca com ele. Convertido ao cristianismo em 1944, depois da morte do irmão de John – história contada no filme e de quem a mãe falava na oração citada acima -, ficou sem beber durante anos, até recair no vício e destempero de antes e depois se recuperando de novo.
 
A comparação assombrava John, que pouco falava sobre. Em sua segunda autobiografia – ele havia escrito uma na década de 1970, outra em meados dos 1990, cerca de dez anos depois da morte de Ray – revelou as perguntas que se fizera quando da morte do pai:
 
“A conversão de meu pai foi real? E se foi, por que eu não a via o tempo todo, não apenas quando ele se levantava e pregava na igreja? A pergunta não se dirige só a ele. É assim que acontece comigo? Era eu maldoso, me transformei, andei na linha, e me tornei piedoso, mas escorreguei de novo e caí e me tornei um homem mau outra vez? E quantas vezes Deus me levantou, perdoou, recolocou-me no caminho, e me fez saber que estava tudo bem? Tudo isso aconteceu com papai, também? Se sim, onde estava a justificação? Ele estava justificado em sua própria mente? Alguma vez ele se sentiu justificado? Não tenho como saber, mas não acho que estivesse. E eu?”.
 
Na noite da morte, John sonhou tê-lo encontrado no jardim de casa. Luzes se acenderam no gramado, crescendo em brilho e intensidade até engoli-los por completo. No prefácio de The Man in White John esclareceu não ter recebido nenhuma revelação nesse sonho, mas que foi suficiente a destravar sua imaginação para, enfim, terminar a história iniciada quase uma década atrás, dedicando-a, então, à memória do pai.

 

Mas, e se foi uma revelação? Não do que cegara Saulo, mas do que cegava John: o eu, aquele que mesmo sabendo ter Deus por várias vezes lhe levantado, perdoado, recolocado no caminho e feito saber que estava tudo bem, ainda assim, precisava saber, sentir-se justificado em sua própria mente.

Mas, graças a Deus, tudo o que sobe, desce.

Abortando Johnny Cash.

Ego inflado costuma murchar sendo humilhado. Melhor ainda quando ele própria se humilha, ainda que involuntariamente, como fez John com sua carreira musical que, nesse ínterim, escorria ao fundo do poço.
 
Ele reclamava de ser escondido pela gravadora. Desconfiado de que não teria seu contrato renovado pela CBS, decidiu avacalhar geral, em protesto. Gravou um disco auto-paródico, em 1986, intencionalmente horroroso, chamado Chicken In Black, cuja música-chefe conta que seu cérebro teria sido transplantado para o de uma galinha. Ele ainda obrigou a gravadora a bancar um videoclipe que eu, sadicamente, compartilho abaixo:
 

“Agora, amigos, se me virem andando pela rua / Lembrem-se de que o que estão vendo não é necessariamente eu. / E se eu tentar segurá-los, não dêem atenção. / Mas se tiverem dez reais para jogar fora / Vocês devem assistir aquele show do Johnny Galinha. Ele está fazendo feiras e concertos / Por todo lugar.”

Depois dessa, claro, seu contrato não foi renovado e, com a má-fama auto-imposta, tornou difícil conseguir novos. Quando o eu manda sempre dá nisso. Era chegado o momento do aborto.
 
Em meados dos anos 1970, quando o filho tivera uma unha arrancada, John lhe tranquilizara dizendo que se o dedo não sarasse, que usasse a falta da unha como um espinho na carne, porque Deus usava de nossas dores e fraquezas em nossa vantagem e, no fim das contas, em favor Dele. Mal sabia quanto sentido isso faria em sua vida.
 
Em 1987, John descobriu um problema de coração que se agravou no ano seguinte, com 90% de suas coronárias obstruídas, exigindo nova cirurgia que voltou a lhe deixar entre a vida e a morte – a ponto dos jornalistas serem orientados a preparar obituários.
 
Em sua autobiografia, contou ter vivido uma experiência de quase-morte, com as características típicas da luz confortadora o envolvendo em paz e júbilo. Isso teria mudado sua vida, segundo ele. Na biografia autorizada nada se diz a respeito, mas chama a atenção que ele teria ficado muito sensível depois disso, vivendo em uma mistura de alegria e tristeza temperada com acessos de raiva por não ter morrido.
 

Sobreviveu, mas os problemas de saúde nunca mais dariam trégua.

 
Em 1989, vieram problemas nos ligamentos do joelho, bronquite e infecções respiratórias que o levaram novamente muito perto de recair no vício em medicamentos, contido a tempo ao decidir procurar ajuda em um curso de prevenção.
 
Em 1990, a retirada de um dente causou um cisto em sua gengiva, exigindo nova intervenção cirúrgica que resultou no enfraquecimento da mandíbula, que por sua vez se quebrou semanas depois e nunca mais voltou ao normal. Cash passou a conviver permanentemente com a face um pouco entortada, como as fotos da velhice mostram.

 

A tudo isso some o duro golpe sofrido com o falecimento de sua mãe, Carrie Cash, em 1991. John chegava aos 60 anos de idade com um eu castigado, debilitado física e emocionalmente, sem maiores perspectivas na carreira, apesar de ainda lembrado pelo seu passado – ganhara o Grammy de “Lenda Viva”, em 1991, e entraria para o Hall da Fama do Rock, em 1992.

 
Veio, então, a falência, antes mesmo de inaugurar, do parque temático “Cash Country”, no Missouri. Johnny não colocou dinheiro no empreendimento, obra de David Green, mas tinha grandes planos para promover a música gospel no local em que também ficaria o seu museu. A inauguração, claro, seria com seu show, mas, com a falência de Green, o projeto foi inteiramente abortado.
 
Graças a isso ele saiu em turnê pela Europa, passando por Dublin na mesma época, fevereiro de 1993, em que o U2, uma das bandas de maior sucesso naquele momento, gravava seu disco Zooropa. Johnny conhecera o U2 em 1988, quando a banda excursionava pelos EUA. Bono quis conhecê-lo justamente por conta de sua vida espiritual e religiosa.
 

Quando, então, soube que Cash estava em Dublin, escreveu, de um dia para outro, a letra da música que ficaria conhecida como The Wanderer, feita para John cantá-la. A letra se inspirava no livro do Eclesiastes, onde um narrador anônimo procura em toda parte e em todas as coisas a realização da vida, sem sucesso, pois o homem todo só está no temor a Deus e na humilde observância a seus mandamentos. Embora a música certamente mereça uma versão decente – a original, tirando a voz de Cash, é uma porcaria -, ainda assim, é comovente escutar a voz tonitruante de John, especialmente nos versos seguintes:

“Eu saí caminhando com uma Bíblia e uma arma. / A palavra de Deus pesando em meu coração. / Eu tinha certeza de que era o escolhido. / Agora, Jesus, não espere. / Jesus, eu estarei em casa logo”.

 

As lembranças de Cash…

E assim Johnny Cash voltava a ser lembrado sem que tivesse quisto, desejado ou se esforçado.
Nesse mesmo ano de 1993, surgiu em sua vida o produtor Rick Rubin, até então famoso por seu trabalho com bandas de rock pesado, rap, hip-hop etc. Aparentemente, nada poderia ter menos a ver com Cash, mas ele propôs algo que Johnny vinha ansiando há anos, sendo sempre recusado pelas gravadoras: gravar suas canções preferidas apenas com sua voz e violão.

Isso foi feito na própria sala de estar da casa de Cash, e o resultado foi tão impactante que ele passou os próximos seis meses trancado em casa gravando dezenas de outras canções, a maioria gospel. Algumas foram selecionadas, entre elas, The Beast in Me, e viraram o já antológico disco que levou como título o nome do selo de Rubin: American Recordings.

Johnny Cash e Rick Rubin

Considerado o melhor disco de Cash desde a década de 60, obteve um sucesso surpreendente, devolvendo a fama angariada na década de 70. Mais do que isso, segundo seu biógrafo oficial, teria sido a primeira vez que Cash conseguira integrar sua fé em um álbum. Antes, ela parecia um apêndice, segundo ele.
 
Não tenho condição de avaliar isso, pois pouco conheço da produção anterior de Cash, mas é inegável que o tema do pecado e redenção dá unidade temática ao disco, simbolizados nos cachorros colocados na capa — um, branco, com listras negras; outro, preto, com listras brancas — significando, segundo o próprio Cash:
 

“Quando eu estava sendo muito mau, não era todo mau. Quando eu estava realmente tentando ser bom, jamais poderia ser todo bom. Sempre havia aquelas listras negras me atravessando.”

 
Mais significativo é o fato desses cachorros terem aparecido “sem querer”.
 
O fotógrafo responsável pela foto da capa, Andy Earl, contou que o plano original era diverso do que acabou saindo. Percebendo Cash vestido de um modo e com porte religioso, quis aproveitá-lo em contraste com as nuvens no céu, e mais nada. Mas os dois cachorros perambulavam por perto – eram do chefe da estação de trem que servia de cenário – e, quando viram Cash na posição em que aparece na capa, simplesmente se aproximaram, ficando cada qual de um lado, exatamente como a capa mostra:

 

“Eu simplesmente capturei o momento, e foi daquelas coisas maravilhosas. Nada disso foi planejado. A cena toda simplesmente se montou.”, disse Andy. Algo muito semelhante, mas parecido demais com o que ocorrera, anos antes, com Nick Lowe, não?

Enfim, esse disco marca a troca de comando em sua vida, como cantou em Like a Soldier, composição sua, o que não era comum:
 
“Como um soldado deixando a guerra para trás, / como um jovem deixando seus dias de loucura para trás, / como um bandido deixando seus caminhos sem lei para trás, / Cada dia é melhor do que o anterior, / Sou como um soldado deixando a guerra para trás.”

 

Mas o Comandante tinha outros planos, a guerra não havia terminado. Nova leva de problemas de saúde vieram. Em 1995, ele trabalhava num segundo disco com Rubin quando começou a sofrer de tremores, tropeçando muito e por vezes ficando sem condição de cantar, ao que se somou nova cirurgia na mandíbula – teriam sido em torno de trinta ao longo da vida.

Em 25 de outubro de 1996…

 
Em meio ao que foi seu último show na carreira, em Michigan, sentiu-se mal, precisou interromper tudo, sendo internado com pneumonia, diabetes e uma crise nervosa. O quadro se agravou e ele entrou em coma. Novamente os médicos não acreditavam que ele retornasse, mas, depois de doze dias, melhorou subitamente, sem explicação aparente. Não para John e June. No período do coma June comandara um grupo de orações. Eles nunca tiveram dúvida da explicação para a melhora súbita.
 
Nessa altura, Unchained, o segundo disco do que se tornou a série American Recordings, já fora lançado, em novembro de 1996, repetindo o sucesso do primeiro. Entretanto, Cash fora diagnosticado com síndrome de Shy-Drager, doença rara, espécie de Parkinson mais agressivo, que lhe daria apenas mais dezoito meses de vida.
 
O futuro, agora, parecia ser um só: ficar em casa até a morte, padecendo de toda sorte de dores e sofrimentos, com a mandíbula doendo constantemente, seu estômago regurgitando toda comida ingerida, surdez do ouvido esquerdo, glaucoma que o deixara parcialmente cego e uma asma que se tornara crônica, obstruindo cada vez mais seus pulmões e enfraquecendo muito sua voz, já sem sombra da força de antigamente.
 
Mas quando há entrega real ao comando de Deus o fardo é suave, como prometido por Jesus Cristo. A autobiografia que várias vezes citei foi escrita nesse período, em parceria com Patrick Carr, e era assim que John encarava esse momento difícil:
 
“Como está, levanto pela manhã, e é um dia normal. Parece que está tudo bem, sinto que está bem, e eu estou me sentindo bem. Não estou assustado. (…) Eu simplesmente não tenho nenhum medo da morte. Não perdi um minuto de sono por isso. Estou verdadeiramente em paz comigo mesmo e com meu Deus. Aceito a doença porque é a vontade de Deus; é Ele trabalhando em minha vida. E quando Ele achar necessário me levar deste mundo, me reunirei com várias pessoas boas que não vejo faz tempo. Não me entenda errado: não quero morrer. Amo minha vida. Estou muito feliz.”
 
Tanto estava que foi nesse momento que quis filmar a história de sua vida (que acabaria dando em Walk The Line) e não parava mais de compor. Como ele mesmo disse no fim da autobiografia: “estou gostando desses dias. Esta vida nova dentro de mim é inspiradora.”
 
Inspiração que nos daria os dois próximos discos da série, Solitary Man e The Man Comes Around, também conhecidos como American Recordings III e IV. Nick Cave relata que, durante as gravações, sempre que Cash saía de um lugar claro para outro mais escuro ficava completamente cego. Então, sentava, aparentando profundo cansaço, perguntando se quem deveria estar ali estava realmente. Depois de um tempo, o que lhe restava da visão retornava e ele começava a cantar, retornando à vida.
 

Nas palavras de Cave: “Este homem que vi tendo de ser carregado pelas escadas até ali, transformou-se completamente quando começou a cantar. (…) Era sua razão de viver.”

 
E a voz impressiona, realmente. A força de antes desaparecera, mas a nítida debilidade se mostra ainda mais poderosa, significativa. Apesar do tom soturno de muitas harmonias e a desesperança de algumas letras, não há medo nem angústia em sua voz, desfeita dos grilhões da vaidade fútil em que se acorrentara, sem vergonha de sua miséria, confiante na misericórdia da Graça, a que basta.
 
A exuberante Hurt, que era de Trent Reznor, cuja letra fala de um viciado em drogas arrependido, é a que melhor revela essa entrega integral de si. Os ruídos e barulhos da gravação original desapareceram, dando lugar a um singelo dedilhar de violão e nada mais. Surge a voz fraca de Cash, parecendo carregar com dificuldade os primeiros versos. No refrão, um piano aparece como acompanhamento, martelado com intensidade crescente, elevando a canção – e os nervos – a uma altura raramente alcançada por uma música popular.

 

A voz de Cash, cada vez mais serena, torna os versos, por si só angustiados e desesperadores, paradoxalmente suportáveis, doces até. Os significados das palavras, frases, versos, descolam-se dos signos cantados e o que era para ser pó, torna-se ouro; o que era desapontamento, torna-se júbilo; e o que era dor não deixa de ser cruz carregada, mas já não dói, por ser sofrimento purificado pela coragem de morrer para si.

Assim, quando extasiados chegamos ao final da canção, os versos que originalmente se pretendem mais leves, mas nem por isso menos desesperançados: “se eu pudesse começar de novo, a milhares de milhas de distância, eu me salvaria, eu encontraria o caminho” já não mais atormentam ou entristecem pelo que não pode mais ser, pois estamos diante de alguém que encontrou esse caminho, o único que se pode admitir como válido: aquele de quem perdeu sua vida para ganhá-la pela entrega a Cristo.
 

Sublime é pouco:

 
Por isso, o que temos aqui não é a coroação de uma carreira, tampouco ação de graças ou retribuição pelo dom recebido. O que temos é alguém consciente da sua morte iminente, plenamente lúcido dos seus erros, acertos e, principalmente, do valor da sua obra. O que temos é um homem se entregando para ser julgado pelo único Juiz que interessa, cantado na magistral The Man Comes Around – de sua autoria, composta com passagens que vão do livro de Jó ao Apocalipse -, sabendo-se condenado com toda justiça, mas repleto de fé na Misericórdia prometida aos arrependidos de coração.

 

É exatamente isso que Mark Romaneck, responsável pelo videoclipe de Hurt, conseguiu retratar com rara perfeição. É certamente o melhor videoclipe já feito na história, possivelmente o único digno de ser chamado de obra de arte. É, até aqui, a verdadeira cinebiografia de Johnny Cash (assista acima, se ainda não o fez).

E, de novo, tal como ocorreu com Nick Lowe e o fotógrafo responsável pela capa do primeiro American Recordings, Romaneck não fez o serviço sozinho. Na realidade, a idéia era outra, mas foi mudada pela debilidade física de Cash, só podendo ser filmado em casa. Fez-se, então, outras tomadas de suas propriedades e carregaram pilhas de materiais antigos (filmagens caseiras, fotos etc.) para ver o que dava para fazer. Quando Romaneck começou a juntar as coisas, bem, deixemos que ele fale:
“Francamente, não achei que aquilo seria de grande uso, mas quando meu editor Robert Duffy e eu pusemos um pequeno pedaço no primeiro corte, os pêlos de nossas nucas se arrepiaram. Sabíamos, a partir dali, que esse material formaria a maior parte do vídeo.”
 
O que se leu acima foi uma tentativa de ver em espelhos o que não se pode ver face a face: Deus no centro da vida de John R. Cash, trabalhando nela. Eis a história não contada e que não se quis contar.
A última provação.
 

Uma das cenas que se tornaram mais impactantes do clipe de Hurt é a de June em pé na escadaria, atrás de Cash, enquanto ele canta o verso: “todos que conheço vão embora no fim”.

 
O que ninguém sabia, só ela, é que no dia anterior, 17 de outubro de 2002, ela fora diagnosticada com um grave problema de coração, incurável, que a mataria muito rapidamente, o que de fato aconteceu, em maio de 2003.
 
Que Johnny não tinha medo da morte, àquela altura, era evidente, mas, e da solidão? Ninguém imaginaria, muito menos ele, que June morreria antes. Assim como ninguém tinha dúvida da importância central de June em sua vida. Em Like a Soldier isso já ficara explícito:
 
“Em meus sonhos, uma parada de amores de outros tempos e lugares. / Não há um que importe agora, não importa quem. / Sou apenas grato pela jornada / E por sobreviver às batalhas / E que meu espólio da vitória é você.”
 
Para “piorar”, o diagnóstico de Shy-Drager fora revisto, sendo seus problemas decorrentes, em sua maior parte, da diabetes que, naquele momento, o deixara praticamente cego – só tinha 20% da visão – e também sem condições de andar, tendo de usar cadeira de rodas.
 
Era a provação final. Haveria revolta? Desespero? Teria ele perdido o mais importante ou amava Deus sobre todas as coisas?

 

John & June.

Três dias depois do funeral de June, John telefonou a Rubin. Havia pensado muito, rezado mais ainda, chegando à conclusão de que ela iria querer que ele trabalhasse. No dia seguinte, gravava suas últimas canções, lançadas depois de sua morte, nos últimos dois discos da série American Recordings. Eis a música de abertura do primeiro (quinto), Help Me, que dispensa comentários:
 

“Senhor, me ajude a caminhar / Outra milha, só mais uma milha; / Eu estou cansado de caminhar sozinho. / Senhor, me ajude a sorrir / Outro sorriso, só mais um sorriso; / Você sabe que eu não posso fazer isto sozinho. / Eu nunca pensei que precisaria de ajuda antes; / Eu pensava que podia conseguir — por mim mesmo. / Agora eu sei que não posso suportar mais. / Com um coração humilde, de joelhos dobrados, / Eu estou implorando por você, por favor, me ajude.”

Nos seus últimos dias, mesmo sem quase enxergar, pediu instalassem um telão para ler a Bíblia em letras gigantescas. Dizia a seus filhos mal poder esperar para ver o Paraíso, Deus e o restante de sua família. Uma de suas últimas composições, I Corinthians 15–55, colocada no sexto e último disco, tem por refrão parte do hino triunfal do Apóstolo Paulo – não poderia ser outro -, antes da conclusão de sua primeira carta aos Coríntios:
 
“A morte foi absorvida na vitória. / Morte, onde está a tua vitória? / Morte, onde está o teu aguilhão?”

Em 12 de setembro de 2003, apenas quatro meses depois de June ter partido, John R. Cash a reencontrava.

Aprendendo a morrer com Johnny Cash:

Jamais me esquecerei da primeira primeira vez que escutei algumas das gravações da série American Recordings, em especial, a versão de Hurt. Não sabia bem o que havia me impressionado tanto, só sabia que havia me impressionado muito.
 
Escrevi este texto na tentativa de descobrir esse “o quê”. Acho que consegui. Por isso mesmo, volta e meia retorno a ele, releio, reescuto as músicas, revejo os clipes, fazendo novo exame de consciência, é inevitável. Pergunto-me, por exemplo, o quanto morri? Tenho morrido, aliás, nem que seja um pouquinho só, mas todos os dias? Talvez sim, certamente menos do que deveria.
 
Enfim, certeza mesmo, total, é que será assim até o fim dos meus dias, buscando e melhor versão, aquela que faz novas todas as coisas. Porque somos todos cover, eu é um só. Só confie no original, portanto. A todos os outros:

  • Escrito originalmente em 2013, reescrito durante o carnaval de 2016, publicado na véspera da Quaresma.