Vamos falar sobre The Walking Dead?

Em The Walking Dead é assim: de repente, o paraíso burguês feito de conforto e segurança se desfez. E agora, José?

Não, não falarei sobre o segundo turno das eleições, tampouco sobre as escolas ocupadas. É sobre zumbis também, mas os da ficção, bem melhores. O seriado retornou semana passada, com o início da sétima temporada. O quê? Não sabe do que estou falando? Tsc, tsc. Não sabe o que está perdendo. Falo sério.

A história parte do mundo infestado de zumbis, ninguém sabendo como, nem por quê, restando à turma tentar sobreviver como der.

Mas não pense se tratar de um apocalipse, só se for no sentido de Adão e Eva quando expulsos do Paraíso. Imagine você no lugar deles. Estava no bem bom segundos atrás, agora, largado num ambiente tornado hostil, tendo de se virar por conta, like a rolling stone. Imagine, mas imagine direito. Desesperador, não? Pois então: em The Walking Dead é assim. De repente, o paraíso burguês feito de conforto e segurança se desfez. E agora, José?

O desenvolvimento do protagonista, o policial Rick Grimes, merece destaque.

As duas primeiras temporadas retratam esse primeiro momento de expulsão do “paraíso”. Os personagens tentando sobreviver enquanto lidam com seus draminhas pessoais que perderam todo o sentido diante da realidade nova. Deixe-me tentar explicar com um exemplo real. Certa vez escutei uma diretora de presídio falar que a profissão dos agentes penitenciários era muito mais difícil porque sair do trabalho, onde vida e morte estão sempre em jogo, para chegar em casa e ter de lidar com os draminhas familiares do tipo “ela não me deixa usar aquele vestido, mãe” ou “tomei uma bronca do chefe hoje, estou deprimido” era complicado. Ela não conseguia levar essas coisas tão a sério e não raro era acusada de insensível, de não se importar com nada nem ninguém. Em The Walking Dead as pessoas lhe entenderiam, tenho certeza.

No seriado, depois de os personagens passarem por esse processo de, digamos, desapego, vêm três temporadas em que os zumbis já se tornaram meio que bichos selvagens e nenhum dos personagens se impressiona tanto com a dureza da vida.

O histerismo diminuiu consideravelmente e o problema maior passou a ser os próprios seres humanos.

O desenvolvimento do protagonista, o policial Rick Grimes, merece destaque. O bonzinho deu lugar a um homem de verdade, tendo de enfrentar o bem e o mal dentro de si, descobrindo-se capaz de cometer atrocidades e heroísmo, tendo de assumir de vez o líder que é e a responsabilidade que isso implica. Todos os personagens passam por processo análogo, tornando-se muito mais corajosos e, por isso, nobres.

O contraste entre a vida real e aquela burguesa de antes retorna na sexta temporada, quando os personagens vão viver numa cidade que conseguiu se manter como antes e aí precisam ensinar os locais a saírem do conto de fadas burguês para enfrentarem a realidade da vida. Então, veio este primeiro episódio da sétima temporada para mostrar que nada será como antes e algo novo começará. O magistral no episódio foi o uso escancarado do arquétipo do Teste de Abraão, mas de modo invertido. Deus pediu a Abraão que sacrificasse seu filho e, quando ele assim ia fazer, Deus impediu, feliz pela fé e fidelidade do patriarca, com quem selou uma nova aliança. No episódio, não houve Deus, mas o “demônio”, que arrancou a obediência de Rick à força. Mas surgiu uma nova aliança feita entre os personagens que sobraram, o “pequeno resto”, que se tornaram ainda mais fiéis entre si, numa cena comovente.

A nova temporada promete, e muito. Mais que recomendo se você quiser compreender melhor nossa zumbilândia. “Eu sei que isso parece insano, mas este é um mundo insano”, Rick Grimes. E não é?

 

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  • Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

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