Um disco para náufragos

Se tem uma coisa que a imensa maioria de nós, náufragos existenciais, temos em comum é o apego à música como uma tabuinha de consolação – quando não de salvação mesmo.

Quando vejo a quase devoção com que alguém fala ou aprecia alguma música ou banda ou artista, já reconheço um “irmão de braçadas”, mantendo-se à tona com a ajuda da música, muita música.

E não falo aqui de histeria adolescente com bandinhas. Falo de algo bem mais sério e profundo, da música sendo capaz de expressar a tristeza ou o desespero do “estar náufrago”, ao mesmo tempo conseguindo alimentar a fé e a esperança de que há uma razão, um sentido maior para esse sofrimento.

Quando a música é experimentada assim ela é uma vivência religiosa. Ou seja, religa você a algo que faz e dá sentido à vida.

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Uma banda cujas algumas músicas me permitiram – e ainda permitem – viver momentos assim é o U2, que está no Brasil com sua atual turnê celebrando os 30 anos de lançamento do seu melhor disco (na minha opinião), The Joshua Tree, que é uma obra que trata justamente disso: procurar sentido e manter a esperança de encontrá-lo suportando o deserto desesperador que parece ter se tornado a existência.

Não por outra razão a capa do disco tem uma foto tirada no deserto do Mojave, nos EUA:

capa do disco

E na contra-capa encontramos a razão do título do disco:

atente à arvore

Essa árvore é chamada de “Árvore de Josué” e cresce quase somente nesse deserto americano. A origem do nome devemos aos mórmons que imigravam atravessando o deserto quando a viram pela primeira vez, em meados do século XIX, associando seu formato peculiar à oração do profeta Josué erguendo as mãos para o céu implorando a ajuda de Deus. Assim, viram na árvore um sinal de Deus os guiando para o Oeste.

Ao emprestarem esse nome ao disco o U2 tornou impossível descontextualizá-lo desse significado espiritual. Ou seja, é isso que dá a forma do disco, sua unidade, seu todo cujas partes são as músicas que o compõem e revelam faixa a faixa seu significado, que tentarei expor neste texto.  

  1.  Where The Streets Have No Name

Música de abertura do disco e indispensável em qualquer dos shows da banda – e é das melhores mesmo.

Começa num crescendo que não pára, com as partes vocais estacionando a música quando entram, como se estivéssemos fazendo uma pausa em uma escalada para respirar e seguir adiante. Tudo é “para cima”, arrebatando, inspirando, alimentando a esperança. É como se tivéssemos chegado na Terra Prometida, cujas ruas não têm nome.  

Mas não chegamos lá, apenas desejamos intensamente. Quando encaixamos letra e música vemos que embora exista a certeza da existência desse lugar nós ainda estamos presos “aqui”, onde construímos e em seguida demolimos o amor, que se torna enferrujado e nos deixa esmagados em poeira.

Ou seja, é uma música que convoca o ouvinte a ir com ela para esse lugar onde a esperança é desnecessária porque tudo que há para esperar, lá é uma realidade presente; que é para lá que temos de ir na vida; que “é só isso que dá pra fazer”. 

2. I Still Haven’t Found What I’m Looking For

Em seguida vem o hino religioso mais famoso da banda, continuando do ponto onde a música de abertura nos deixou: sabemos que existe o lugar para onde devemos ir, mas ainda não chegamos lá porque ainda não o encontramos, não encontramos o que procuramos.

Mas o que se revela aqui é que esse lugar, na verdade, é uma pessoa. E a letra não deixa dúvida que essa pessoa é Jesus Cristo:

Você quebrou as cadeias, soltou as correntes
Você carregou a cruz
E toda a minha vergonha
Toda a minha vergonha
Você sabe que eu acredito nisso

Mas onde Ele está? 

Essa música foi claramente inspirada nos salmos de Davi e é como se fosse um deles.

3. With or Without You

O maior sucesso do disco e comumente tratada apenas como uma baladinha romântica. Mas ela tem outro significado nesse contexto do disco.

Ela nos aquieta da intensidade que as anteriores criaram; é lenta, introspectiva e a parte instrumental constrói um chão para a letra se destacar. E é uma letra bela. Repare que quando o cantor fala sobre “ela”, não a trata como sendo o “você” do título: 

Numa cama de pregos, ela me faz esperar
E eu espero sem você

Há duas esperas aí, portanto. Aquela por “ela” e aquela por “você”, que tampouco está lá. Esse “você” faz muito mais sentido, no contexto que estamos escutando, sendo Jesus Cristo, que estamos procurando mas ainda não encontramos.

É a Ele que a música fala como uma súplica na escuridão da noite.

Quanto àquela “ela”, esta aparece com eles se tornando um “nós”: “Através da tempestade, nós alcançamos a costa“. Mas continua distinta do “você”, por isso ele canta: “mas eu quero mais / E eu estou esperando por você”.

Mas essa espera já não é tão esperançosa assim, pois num dos últimos versos vemos que ele permanece naquela “cama de pregos” e pouco tem a oferecer para “ela” se Ele não aparecer: 

Minhas mãos estão amarradas, meu corpo ferido
Ela me tem com
Nada a ganhar e
Nada mais a perder

4.  Bullet The Blue Sky

Vem a música mais politizada do disco e da carreira da banda como um todo. Mas, de novo, interessa-nos aqui o contexto. Nesse sentido, a política ganha outro significado.

Quanto tempo você suporta esperar pelo que demora a aparecer?

A América cantada na música, para cujos braços as crianças e mulheres correm em busca de proteção e salvação, representa a esperança da Terra Prometida ao mesmo tempo que se revela não sê-la. É aqui que a imagem do deserto começa a ganhar forma musical de aridez, ausência de perspectiva.

O tom dessa música é diverso do que veio antes, fazendo uma inversão da esperança e introspecção anteriores para algo raivoso, frustrado, cansado. Nossa atenção é voltada não mais para onde as ruas não têm nome, para Ele; mas para o “aqui” que não é a Terra Prometida, para o “aqui” sem Ele.

Se antes a esperança era maior e nos conduzia, agora ela se torna menor e mais fraca. É aqui que a árvore de Josué também começa a ganhar sua forma musical simbolizando essa esperança transformada em resiliência. Não é um sinal divino a certificar Sua presença, mas um símbolo do homem que sofre nesse deserto e começa a fraquejar daquela certeza inicial, embora ainda não tenha desistido dela. A árvore de Josué, assim toda torta, torna-se símbolo da dor:   

Vejo que chove pregos nas almas
Sobre a árvore da dor

5. Running To Stand Still

Mas a raiva, como todo sentimento, passa. E quando passa costuma deixar a tristeza em seu lugar. Só o deserto permanece o mesmo. Vem então a música mais “desértica” do disco, com seu início remetendo imediatamente à amplitude e ao silêncio de um deserto.  

Aqui voltamos a ter um casal. Desta vez, é ela quem se angustia por saber que é preciso fazer alguma coisa sobre aquele “para onde” estavam indo e que parecia ser impossível chegar, se é que existia mesmo: 

E então ela acordou
Ela acordou de onde estava deitada.
Disse que eu tinha de fazer algo
A respeito de para onde estamos indo.

O sentido original da palavra pecado tem a ver com “errar o alvo”. Ou seja, é pecado tudo que nos desvia da busca da Terra Prometida, tudo que colocamos no lugar Dele ou nos faz desistir de “atingir o alvo”. O pecado mais comum é a fuga da dor que estamos a escutar agora. Nesta música essa fuga se dá pelo uso de heroína, buscando um prazer efêmero anestésico que, depois, cobra o seu preço com dor ainda maior: 

Doce é o pecado, amargo é o sabor em minha boca.

Uma vida errando o alvo só pode se tornar muito mais torturante do que quando se suportava a dor de não saber onde estava o alvo nem como atingi-lo.

Aqui é interessante citar uma referência que a letra faz à Dublin da época dos músicos e que tinha um conjunto de sete prédios que se tornaram um mocó de drogados. Nesse local se tinha a taxa de suicídios mais alta de toda Irlanda. O suicídio que seria a única saída dita na letra da música:

Eu vejo sete torres, mas vejo apenas uma saída.

É por isso que essa fuga não é uma solução, como a música deixa claro. Ela se entrega à heroína, mas é como sair correndo ficando parada no lugar: 

Ela está em transe
E a tempestade explode nos olhos dela.
Ela sofrerá o barato da agulha
Ela está correndo para ficar parada.

6. Red Hill Mining

Uma vida sem Ele, sem busca pela Terra Prometida, rebaixa-se à luta pela sobrevivência. 

 

Esta música trata do mundo do trabalho, da rotina infernal que só deixa a esperança de algo melhor para depois do expediente, retratando essa espera angustiada e, no fundo, descrente por ser pouco, muito pouco:

Nós queimamos a terra
Colocamos fogo no céu
E nos inclinamos tão baixo
para alcançar tão alto

Se também o trabalho não parece dar sentido à vida, resta o amor por “ela” como sendo a Árvore de Josué da esperança por esse sentido maior:

Estou suportando
Você é tudo que restou para eu me segurar

Seria suficiente? Ou até mesmo a solução?  

7. In God’s Country

Não. A reposta é não, como ele canta ao fim desta música:

Uma chama nua, ela possui uma chama nua
Eu estou com os filhos de Caim
Queimado pelo fogo do amor

O amor humano jamais será suficiente, nem substituto do primeiro mandamento divino: há um amor maior que não pode ser substituído nem rebaixado de posto. Tudo que se coloca no lugar Dele é falso.

Daí a ironia dessa música ao tratar os EUA como sendo o país de Deus, ou seja, a Terra Prometida. Mas que país é esse em que o sono é como uma droga e os olhos são tristes e as cruzes tortas? Ou seja, o deus aqui é outro, simbolizado na estátua da Liberdade:

Ela é a Liberdade, e ela vem me salvar
Esperança, fé, sua vaidade
O maior presente é o ouro

A parte instrumental constrói uma música típica para “road trips”, para quando se viaja tentando se esquecer de onde se partiu e para onde se está indo, tentando apenas aproveitar a viagem em si. O que não deixa de ser também uma fuga.

8. Trip Through Your Wires

Continuamos na mesma atmosfera de viagem da música anterior, com a guitarra estridente acompanhando um ritmo com algo de cansado, começando a se questionar sobre o falso deus do amor humano:

Anjo ou demônio?
Eu estava sedento
E você molhou meus lábios.
Você, estou esperando por você
Você faz o meu desejo
Eu tropeço por seus arames.

Note como o “você” de With or Without You retorna aqui, mas confundido com “ela” e a pergunta se seria anjo ou demônio indica menos uma dúvida do que a confissão de quem se entregou seja lá para quem for.

9. One Tree Hill

Vai se aproximando o fim do disco, da jornada, da busca, da própria vida. É uma música sobre a morte e o que ela nos diz sobre a vida: “Nós corremos como um rio corre para o mar“. 

Ao mesmo tempo em que há uma desolação, uma amargura com a vida (Eu não acredito em rosas pintadas ou pessoas de bom coração / Enquanto as balas estupram a noite do misericordioso), ainda permanece viva a esperança de que a morte seja restauradora, que o mar, símbolo típico de morte e renascimento, possa ser mais e melhor do que o rio que nos levou até lá. 

A parte instrumental tem algo de etéreo e convida à introspecção, terminando como se fosse uma oração diante da morte, do oceano para onde estamos sendo levados queiramos ou não.

Uma oração que nos devolve, tal como o título da música, ao símbolo da solitária Árvore de Josué, cuja imagem agora se mostra muito mais significativa, não acha? Se não, confira por outra foto mais próxima:

É a “Joshua Tree” original fotografada para o disco.

Repare como sua beleza não é estética, não é uma árvore bonita. Sua beleza está no seu significado. Ela parece mais do que uma sobrevivente no deserto. Embora pequena, se agiganta em meio ao nada em que se encontra. Seus “braços” parecem cansados, mas permanece firmemente de pé, ainda que nada em torno justifique perseverar.

Que baita símbolo de fé e esperança. 

10. Exit

Hora da definição. Esta música retoma a idéia rítmica de Where The Streets Have No Name. Ou seja, vem num crescendo. A diferença é que se lá há luz, leveza, esperança, aqui estamos nas trevas daquele que se perdeu. Se naquela o crescendo se estabilizava e permanecia, aqui a música explode num fim ambíguo e angustiado: 

Ele sentiu a cura, cura, cura
As mãos do amor que curam
Como as estrelas brilhantes, brilhantes lá de cima

Entretanto, num sussurro vem os versos finais:

Mãos que constroem
Também podem destruir
Mesmo as mãos do amor

A partir daí a voz cessa e a música prossegue por alguns minutos como num transe, deixando a sensação de que tudo acabou mal, sem Terra Prometida, sem Ele, sem ela, sem saída nenhuma. 

 

Esta música serve perfeitamente para o fim de histórias trágicas que nos deixam estupefatos. Mas ela não encerra o disco.

11. Mothers Of The Disappeared

A última música repete o efeito hipnótico de Exit, mas sem a angústia terrificante, mais como um lamento em sussurros.

A letra trata de mães cujos filhos desapareceram, mas cujos sorrisos o vento ainda faz escutar e a chuva permite ver suas lágrimas.

Por conta disso, a forma final do disco é exatamente a de um deserto quase completo, não fosse por uma única árvore solitária teimando em resistir, ainda que não tenha nada a justificar sua permanência e esperança. Teimosa como uma mãe que perdeu seu filho mas ainda o vê e escuta na chuva e no vento. 

Quantas vezes durante a vida não vivemos situação parecida à de quem está largado num deserto sem saber qual rumo tomar, em que a própria esperança se torna desesperadora?

Uma situação quase insuportável, mas que nem por isso nos permitimos desistir, ainda que assim desejemos muitas vezes. Porque por mais sofrida que esteja a vida, algo ainda mais forte do que a dor nos sustenta e nos faz levantar toda manhã para encarar o que há para ser encarado, ainda que seja o nada.

12. Bonus Track que só tem neste texto 😉

Não sei se você sabia, mas a árvore da capa do disco morreu, tombando no solo no ano 2000. No lugar onde ela resistiu ao deserto até seu fim, fãs da banda e do disco montaram um santuário informal. Nele há esta placa:

“Você encontrou o que está procurando?”

Não importa se você encontrou o que está procurando. Não importa nem se você sabe o que está procurando. O que importa é não desistir dessa busca. É isso que faz toda diferença.

Quando a vida não tem sentido, faça da busca teimosa por ele o próprio sentido da vida.

Quando você está vivendo assim é aí que a música pode se tornar uma experiência religiosa, capaz de o conectar a esse sentido maior ao menos enquanto ela durar. Talvez seja a única companheira da nossa solidão nessa busca, capaz de nos entender melhor do que nós mesmos, expressar o que não conseguimos dizer, extravasar nossos temores e raivas, confortar nossa tristeza e desilusão, aconselhar e animar quando mais precisamos.

A vida pode não ter sentido ainda, mas ganha um quando experimentamos músicas que vão além do mero entretenimento.

Foi assim comigo e continua sendo. As músicas de The Joshua Tree me acompanham desde os meus 11, 12 anos de idade. Em cada época da minha vida serviram para algo. Infelizmente, não tive condição de ir ao show que celebra esse disco, seria minha oportunidade de dizer “obrigado”. 

Então, que este texto sirva de agradecimento à banda por este disco e outros. É claro que ele não me deu o que eu tanto procurava sem nem saber que procurava, mas eu jamais teria encontrado se não fosse por discos assim. 

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  • Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

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