Georges Simenon, o famoso escritor criador do inspetor Maigret, escreveu vários livros auto-biográficos, dentre eles um chamado Pedigree, em que tinha um objetivo: “Com Pedigree eu quis drenar todo o pus. E fui fundo nisso”. Ele estava cansado de escrever “bufando e espumando pela boca”. Queria curar as feridas em sua existência. Mas, segundo o autor de sua biografia: “por sorte, ele não conseguiu”. Sim, foi sorte.

Seguimos nossa vida na correria infindável dos afazeres e prazos a cumprir. A pressa é tanta que cada vez mais os eventos significativos dos últimos anos são contados em apenas uma mão, mas a distância em anos entre eles não cabe em todos os nossos dedos. Queremos constantemente “resolver nossa vida”, como Simenon, drenando cada parte ainda incômoda.

Por sorte, não conseguimos! Sim, é sorte. Acertar nossa vida antes nos prejudicaria do que resolveria. Não fomos feitos para acertar.

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Desde nosso mais antigo ancestral, Adão, tendemos ao erro. Erro rude, erro feio. A estabilidade nos parece sempre artificial, tudo aquilo que é muito certinho tem algo de errado. Por isso, Pondé foi certeiro ao dizer: “quero distância de pessoas bem resolvidas”. São um perigo mesmo.

A bagunça e confusão, então, são o nosso lar? Também não. Entregar-se ao bel prazer das situações e não agir em prol de algo objetivo não nos satisfaz. As férias são boas porque têm limite. As festas são legais pois acabam. O sono tem seu valor pois acordamos em seguida. Até o mais atomista dos humanos –  defensor convicto do hoje, pregador dos benefícios do agora, seguidor do Carpe Diem – quer novidades. Ele pode querer apenas experiências pontuais, mas cada vez melhores.

De um lado, objetivos nunca alcançados, de outro, a imobilidade sempre negada. O que não tem remédio, remediado está?

A nossa vocação é a tensão. Aceita que dói menos, vai. Em vida, não descansamos e na verdade nem desejamos isso. Um soldado deseja o combate, não a vida calma do quartel. Recentemente fui a um enterro, ao final me despedi da viúva e ao me distanciar um pouco ouvi uma parente próxima dizer: “venha, vamos descansar…” Aquela frase me cortou por dentro. Certamente tudo que ela não queria era o genérico e abismal “descansar”. Que devolvessem seu marido doente, precisando de ajuda, numa cama, quase irreconhecível. Mas não a entreguem ao descanso inútil.

Somos como uma corda de violino, disse Viktor Frankl; quanto mais tensionada e afinada, melhor é o som que se pode tirar. Quando somos exigidos pela vida e respondemos à altura, mais bela se torna a melodia da nossa existência. Não há orgulho na vitória fácil, no resultado dado de mão beijada. Se sofremos o peso dessa realidade, não é maldição. Sim, é sorte.

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  • João Paulo Borgonhoni, mais conhecido por Jota, sempre se interessou por pessoas e relacionamentos. Quase se afogou algumas vezes na vida mas sobreviveu. Hoje é professor e psicólogo (crp 08/17582).

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