Por que me sinto paralisado na vida?

Todo mundo que dirige carro sabe como é quando se está aprendendo. Lembro que meu pai se irritava comigo porque para cada coisa que ele dizia para fazer eu precisava pensar enquanto fazia. Ele ficava puto porque para ele aquilo era intuitivo fazia uns 20 anos, não era preciso pensar, nem sabia mais pensar nisso, não saberia explicar por que seria assim ou assado. Como não pensamos nas pernas quando caminhamos.

Mas quando estamos aprendendo, ainda não é assim, e temos de fazer devagar, pensando, avaliando, tentando conter o temor e a insegurança.

Uma das coisas que meu pai ensinou sobre dirigir carros tem a ver com isso. Ele disse mais ou menos assim: “Se o sinal ficar amarelo e você está quase nele, não dá tempo de pensar: ou acelera e passa antes de vermelhar ou freia já e espera abrir de novo. Nunca avance desacelerando porque é aí que você nem vai nem fica e acaba atravessando no vermelho e a merda está feita”.

Aí fiquei pensando se isso não vale para a vida. O que fazer quando o sinal amarelo “acende”? Avançar com decisão, frear para avançar depois ou deixar como está para ver como é que fica?

Acho que o primeiro sinal amarelo que recebi da vida foi aos 17 anos, quando terminava o terceirão. Um dia chamaram na escola para ir falar com o psicólogo e fazer um teste vocacional para ajudar na escolha do curso universitário. Ali paralisei diante da cobrança de uma decisão de vida que eu não estava preparado nem queria fazer.

Ou seja, não sabia para onde ir.

Mas não freei para avançar depois de descobrir isso, nem avancei de fato, apenas deixei a vida seguir enquanto me ocupava de outras coisas. Resultado? Fui adiante por uns 15 anos nessa toada. Até não conseguir mais me enganar que eu sabia o que estava fazendo e tive de assumir que, desde aquele dia aos 17 anos, eu vinha vivendo sem rumo, sem sentido.

Era como se eu nunca tivesse saído do lugar, daquele ponto, daquela idade, daquele dia. Precisava frear, retornar por onde vim, reconhecer o itinerário da minha vida até ali para descobrir para onde ela estava me levando e, enfim, decidir se é para lá que queria ir mesmo ou se escolhia outro destino.

É com base nessa experiência, aliás, que digo que existe uma crise dos 20 anos, que pode começar ali por volta dos 17 ou até um pouco mais tarde, uns 23, depende de cada um, mas que certamente existe e é bem comum o jovem empurrar com a barriga porque nem parece que incomoda tanto assim. Foi assim comigo. 

Até que incomodou. E muito. Já não era mais como um novo sinal amarelo me alertando, era perceber que ele já estava aceso fazia tempo e ia mudar para o vermelho muito em breve. Foi a crise dos 30 anos se instalando.

Não raro quando não conseguimos mais nos distrair do tédio, do desconforto, do desgosto com a vida, da sensação de que o que se faz perdeu a cor, o sabor, é que a crise dos 30 anos aparece.

Em essência, é a mesma crise existencial dos 20, mas com características próprias que exige um cuidado diferente. Como depois virão outras se o sujeito não resolver encará-la de vez, como a chamada crise da meia idade”, que sempre digo que nada mais é do que a crise dos 20 anos retardada.

É por isso que quem não resolve essa crise dos 20, ou as que se lhe seguem, acaba se sentindo paralisado na vida. É uma sensação de estar com o carro encalhado, as rodas girando em falso e quanto mais você acelera, mais afundado o carro fica. E se isso dura muito tempo a sensação piora, porque aí parece que o carro encalhou numa areia movediça que o está engolindo aos pouquinhos, mas ESTÁ ENGOLINDO. A angústia só aumenta com o tempo.

Que fazer nessa horas? Acho que já respondi.

É preciso frear, fazer uma revisão geral, especialmente do itinerário da jornada feita até aqui para descobrir para onde você está se deixando levar e, enfim, decidir se é para lá que quer ir mesmo ou se escolhe outro destino.

Se fizer isso você voltará ao tempo em que começava a aprender a viver, que costuma ser concomitante à época em que aprendemos a dirigir. Aí lembre-se de ter paciência e perseverança, porque você não irá conseguir mudar do dia para noite. Muita coisa você faz por hábito, quase por instinto, e nem sabe mais por que faz assim e não assado. Será preciso experimentar não apenas o temor e a insegurança de quem precisa reaprender a viver, mas também a impotência, o ressentimento, o rancor e a culpa inevitáveis por estar vivendo errado.

Mas, saiba, vale a pena passar por isso. No fim, vale muito a pena!

Para lhe inspirar a tanto, deixo duas sugestões. Assista o filme “Mais Estranho que a Ficção” e leia a novela de Tolstói, “A Morte de Ivan Ilitch”. E já sabe, né? Isso, precisando de ajuda, é só chamar no chat. Se não estivermos online, recebemos a mensagem por email e respondemos assim que lermos. É para isso que Os Náufragos existe. 🙂

Curso Buscando o Sentido da Vida
Você já conhece o nosso curso “Buscando o Sentido da Vida”? Clique na imagem para saber mais!

 

–> Gostou do texto? Então, ajude-nos a divulgá-lo para mais pessoas, deixando seu like no facebook e compartilhando com os amigos. Desde já, muito obrigado! 🙂

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tags:

  • Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

  • Show Comments (0)

Your email address will not be published. Required fields are marked *

comment *

  • name *

  • email *

  • website *

You May Also Like

O Trágico Thomas Mann

Thomas Mann nunca foi “apenas” um escritor. Leitura das mais reveladoras é o livro ...

Mais barbeiros, menos barbearias

Das coisas que mais me faziam falta, cortar cabelo em barbeiro das antigas. Nos ...