Você precisa de férias na volta das férias?

Cristiano cresceu escutando os pais falarem, na volta das férias, que agora sim é que precisavam de descanso. Sempre aproveitavam as férias para viajar, fazer programas de todo tipo, não paravam nunca, mesmo quando passavam um mês inteiro na praia, indo da casa para a areia e desta para casa. Adoravam o tempo de férias, parecia que a vida só valia a pena nesse tempo, quando estavam em férias, eram sempre mais felizes.

Mas o retorno era sempre difícil, ele via a tristeza na expressão dos pais, a vida murchando.

Ele pensava nos pais ali sozinho de pé diante do mar infinito. Eram as primeiras férias dele por conta. Durante a faculdade já tinha viajado com amigos, só com a namorada, mas nunca bancara com sua grana. Como de estagiário virou empregado, o salário mais que dobrou e pela primeira vez pagou a viagem, fez questão. Dois amigos foram juntos, ambos bancados pelos pais. Era o último dia das férias e ele se sentia estranho.

Tinham de sair antes das 12h do hotel, vagar pelo aeroporto até a hora do vôo. Quis acordar antes do sol nascer, quis vê-lo nascer da praia, de preferência dentro da água, como fizera no primeiro dia. Assim fez. Estava parado na beira da água, de pé, braços cruzados, pensando na vida, nos pais. De repente se viu saindo da água, de volta àquele primeiro dia. Trazia no rosto um sorriso de quem tinha esquecido do tempo, de tudo. Agora não conseguia sorrir. Estaria triste?

Na volta para o quarto o celular pipocava de notificações. Uma era da mãe: “Estamos em casa, mortos de cansaço. Precisamos de férias, Cris!”. Não conseguiu rir. Ele precisaria de férias também? Por quê? Para quê? Não foi suficiente? Não se sentia descansado? Por que esse gosto estranho na boca, como se tivesse sido pouco, como se não bastasse?

Parecia tudo uma grande farsa.

Sabia que estava feliz, que as férias foram na medida, que estava até ansioso pela volta ao trabalho, terminar aquele projeto que faltou tão pouco para fechar no ano passado. De onde vinha, então, esse outro de cara amarrada, braços cruzados na beira da praia, querendo estragar tudo, tornar a vida improdutiva?

Quando chegou em casa, a alegria do reencontro não durou até o jantar. Pediram uma pizza, estavam cansados demais para pensar em outra coisa. Contaram das férias e quando as novidades terminaram e como se precisassem sempre, sempre, sempre repetir o mesmo script, veio a reclamação: “Ai, amanhã não será fácil, até pegar o ritmo…”. Mas ele não se sentia assim, na verdade nem via a hora de voltar. Mas achou melhor não falar nada, apenas consentia, sem muito comentar. Mas sabia que não dava mais, ou se tornaria assim também.

Naquele ano alugou um apê, passou a morar sozinho. A mãe não gostou, mas não atrapalhou. O pai admirou, parecia criança, dizendo “imagina quanta festa você não fará, hein, Cris? Quem dera na minha época eu tivesse condição para morar sozinho!”. A mãe não gostou, já namoravam na idade em que Cris estava, mas achou melhor não pensar muito nisso e se concentrou em assegurar que Cris tivesse comida na geladeira, toalha, pasta de dente, essas coisas. Tinha, ela não precisou comprar nada. Nunca mais.

Depois de 15 anos ele voltou à mesma praia, ficou no mesmo hotel. Era o último dia e ele se lembrou no meio da madrugada. Deixou um bilhete para a esposa e saiu sem fazer barulho. Viu o sol nascer de dentro da água e ficou ali boiando, pensando na vida, nos pais, agora aposentados e nem viajavam mais, pareciam desistentes. Ele jamais se queixou do fim das férias, do retorno para casa, de voltar ao trabalho. Durante um tempo achou que era para se auto-afirmar, mas esse tempo também passou e nunca sentiu que precisava de férias depois das férias, nunca.

Quando voltou a esposa já tinha arrumado tudo, as crianças estavam prontas. O mais velho perguntou onde ele tinha ido. Respondeu que fora dar um último mergulho, aproveitar até o último instante as férias. “Pena que acaba, né, pai?” Então algo brilhou dentro dele, e ele enfim entendeu: “Já pensou se não acabasse, filho? Que chatice seria não ter para o que voltar?” O menino olhou estranho, incerto se entendeu. Cristiano percebeu e sorriu, dizendo: “Não se preocupe, filho, quando crescer você entenderá.” 

– E se eu não crescer, pai?

– Não se preocupe, eu farei você crescer. Desse trabalho não tiro férias. Já amarrou o tênis?

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  • Francisco Escorsim naufragou como bacharel em Direito, tornando-se professor de educação da imaginação e formação do imaginário. É escritor e colunista de vários sites e do jornal Gazeta do Povo.

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